Tecnologia · Futuro do Trabalho
Durante quase quinze anos, a promessa da economia de aplicativos foi simples: qualquer pessoa sem emprego formal, sem diploma ou sem rede de contatos podia ligar o celular e começar a trabalhar em minutos. Essa porta de entrada, hoje ocupada por milhões de motoristas, entregadores e freelancers ao redor do mundo, começa a se estreitar. Não por decisão regulatória nem por crise econômica, mas porque a própria tecnologia que criou esses empregos está aprendendo a prescindir deles.
A jornalista Sarah O'Connor descreveu esse movimento em artigo de opinião publicado no Financial Times1: carros autônomos assumindo corridas antes feitas por motoristas de aplicativo, robôs de entrega circulando em calçadas e a inteligência artificial generativa absorvendo tarefas que sustentavam plataformas como Fiverr e Upwork. Para ela, o resultado é a erosão de uma rede que, por décadas, funcionou como colchão social para quem ficou de fora do mercado de trabalho tradicional.
O motorista de aplicativo perde a exclusividade da corrida
O caso mais visível está nas ruas americanas. A Waymo, unidade de carros autônomos da Alphabet, chegou a cerca de 500 mil corridas pagas por semana em meados de 2026, distribuídas por 11 cidades dos Estados Unidos, depois de quadruplicar o volume de viagens ao longo de 20252. A empresa afirma ter como meta ultrapassar 1 milhão de corridas semanais até o fim do ano e planeja abrir operação em Londres e Tóquio, sua primeira expansão internacional. Uma rodada de investimento recente avaliou a companhia em 126 bilhões de dólares.
Parte dessa expansão acontece dentro do próprio aplicativo da Uber: em cidades como Austin e Atlanta, quem pede uma corrida comum pode acabar sendo atendido por um Waymo, sem custo adicional. A consultoria Wood Mackenzie projeta que a frota global de veículos autônomos pode chegar a dez vezes o tamanho atual até o fim da década, superando 100 mil robotáxis em operação3. O motorista de aplicativo, que até pouco tempo atrás disputava apenas com outros motoristas, agora divide a mesma fila de corridas com um carro sem ninguém ao volante.
A rede que amparou quem caiu do emprego formal está sendo desmontada peça por peça, justamente no momento em que mais pessoas dependem dela. Sarah O'Connor, Financial Times, 14 de setembro de 2026
Fiverr e Upwork sentem primeiro o trabalho de nível inicial
No mercado de freelancers, o efeito já aparece nos balanços trimestrais. A Fiverr reportou receita de 97,8 milhões de dólares no segundo trimestre de 2026, queda de 10% em relação ao ano anterior, com a receita do marketplace principal recuando 15,5% e a base de compradores ativos encolhendo cerca de 21,9%4. A empresa atribuiu o resultado diretamente à adoção de IA generativa, que passou a absorver tarefas simples e transacionais como redação básica, edição de logotipos e entrada de dados.
No Upwork, um levantamento da Vollna com 2,2 milhões de projetos mostrou queda de 32% nos projetos de redação em 2025, a maior retração entre todas as categorias da plataforma. A disponibilidade de vagas de nível inicial caiu de 15% para menos de 9% do total5. Pesquisa da Brookings Institution identificou queda mensal de cerca de 2% em novos contratos e de 5% na renda total de freelancers em serviços intensivos em texto, como copidesque e revisão. Curiosamente, quem já tinha alta qualificação não ficou imune: em alguns recortes, foi ainda mais afetado que iniciantes.
Há uma via de mão dupla nesse processo. Trabalho relacionado diretamente a IA no Upwork ultrapassou 300 milhões de dólares em valor anualizado até o fim de 2025, com freelancers especializados em projetos de IA ganhando 44% a mais por hora do que quem não trabalha com o tema. O recado é claro: a demanda não desapareceu, ela se deslocou para cima na escala de complexidade, deixando para trás justamente a faixa de entrada que historicamente servia de porta para quem começava.
Contraponto
Nem todo o setor lê esse movimento como colapso. Executivos de plataformas como a própria Fiverr argumentam que a queda no volume transacional convive com crescimento em serviços de maior complexidade, nos quais a curadoria humana segue insubstituível. Analistas de mobilidade também ponderam que a substituição de motoristas por veículos autônomos ainda é geograficamente limitada, dependente de aprovação regulatória cidade a cidade e de investimento de capital elevado, o que deve manter a corrida por aplicativo humana como maioria do mercado por vários anos ainda.
No Brasil, a rede social nasceu maior e a discussão regulatória travou
O recorte brasileiro
O Brasil chega a esse momento com uma dependência estrutural do trabalho por plataforma bem maior do que a de mercados como o americano. O módulo de trabalho em plataformas digitais da PNAD Contínua, do IBGE, divulgado em outubro de 2025 com dados do terceiro trimestre de 2024, identificou cerca de 1,7 milhão de trabalhadores de aplicativo no país, alta de 25,4% em dois anos. A jornada média chegava a 46 horas semanais, e 71,1% desses trabalhadores estavam na informalidade6. O rendimento médio mensal era de R$ 2.340 para entregadores e R$ 2.766 para motoristas.
O iFood, maior plataforma de delivery do país, afirma ter mais de 600 mil entregadores cadastrados, dos quais 460 mil estiveram ativos ao longo de 2025, com ganho médio de R$ 29,65 por hora trabalhada na modalidade nuvem7. A empresa diz ter destinado R$ 744 milhões em 2025 a iniciativas de apoio à categoria, incluindo a expansão de pontos de descanso para entregadores em diferentes cidades.
Enquanto a automação avança lá fora, a regulação brasileira segue travada. O governo federal enviou ao Congresso em 2024 o Projeto de Lei Complementar 12/2024, construído a partir de um grupo de trabalho tripartite entre governo, empresas e trabalhadores, para estabelecer direitos previdenciários e regras mínimas de remuneração e transparência algorítmica para motoristas de aplicativo. O projeto enfrentou forte rejeição em consulta pública e não avançou. Uma segunda tentativa, o PLP 152/2025, também chegou a um impasse no Congresso em 20268.
Diante da paralisia legislativa, o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Luís Roberto Barroso afirmou, em maio de 2026, que caberá ao próprio STF disciplinar a plataformização do trabalho na ausência de consenso no Congresso, reconhecendo que motoristas e entregadores não se encaixam no modelo trabalhista tradicional, mas ainda assim precisam de garantias mínimas como previdência, algum tipo de seguro e limite de jornada9.
O contraste com a União Europeia é instrutivo. O bloco aprovou em novembro de 2024 a Diretiva 2024/2831, que obriga os 27 países membros a implementar, até dezembro de 2026, um padrão mínimo de proteção para o trabalho mediado por plataformas, incluindo a presunção de vínculo empregatício quando houver subordinação algorítmica e a garantia de supervisão humana sobre decisões automatizadas que afetam o trabalhador10. O Brasil discute o tema desde 2023 sem conseguir aprovar uma única lei nesse sentido.
O que resta da rede de segurança
O argumento central de O'Connor é que a economia de aplicativos nunca foi pensada como emprego de longo prazo, mas cumpriu, durante anos, a função de amortecedor para quem perdia um emprego formal, precisava complementar renda ou não conseguia entrar no mercado tradicional. Se automação e IA generativa continuarem substituindo justamente as tarefas de entrada, mais simples e menos remuneradas, esse amortecedor pode ficar mais fino exatamente quando mais gente precisa dele, em um cenário de desaceleração do mercado de trabalho formal em várias economias.
No Brasil, essa discussão ganha um peso adicional. Com quase dois em cada três trabalhadores de aplicativo na informalidade e sem avanço legislativo à vista, o país corre o risco de repetir o padrão observado nos Estados Unidos e na Europa (automação corroendo a base da pirâmide de renda) sem ter ainda construído a rede de proteção mínima que outras economias já discutem em prazo definido.
Perguntas frequentes
O que significa "automação chegando à gig economy"?
Significa que tarefas antes exclusivas de motoristas, entregadores e freelancers humanos (dirigir um carro por aplicativo, entregar um pedido, escrever um texto simples) passaram a ser executadas, em parte crescente, por veículos autônomos, robôs de entrega e inteligência artificial generativa, reduzindo a oferta de trabalho disponível nessas plataformas.
Quantas corridas por semana a Waymo já realiza?
Em meados de 2026, a Waymo operava cerca de 500 mil corridas pagas por semana em 11 cidades dos Estados Unidos, com meta declarada de ultrapassar 1 milhão de corridas semanais até o final do ano.
A inteligência artificial está reduzindo vagas no Fiverr e no Upwork?
Sim. Balanços de 2026 mostram queda de receita e de base de compradores ativos na Fiverr, além de retração de até 32% em categorias como redação no Upwork, com a disponibilidade de vagas de nível inicial caindo de 15% para menos de 9% do total de projetos.
Quantos trabalhadores de aplicativo existem no Brasil?
Segundo o módulo de plataformas digitais da PNAD Contínua do IBGE, divulgado em outubro de 2025, o Brasil tinha cerca de 1,7 milhão de trabalhadores de aplicativo no terceiro trimestre de 2024, dos quais 71,1% estavam na informalidade.
Existe alguma lei brasileira que regulamente o trabalho por aplicativo?
Até setembro de 2026, não. O PLP 12/2024 e, posteriormente, o PLP 152/2025 não foram aprovados pelo Congresso Nacional, o que levou o ex-presidente do STF Luís Roberto Barroso a defender que o próprio tribunal deverá disciplinar o tema.