A Política Tem Um Preço Para a Palantir — E o Transporte Escolar Brasileiro Já Pagou Parte Dele
Enquanto a proximidade com Trump derrete a reputação global da empresa de análise de dados fundada por Peter Thiel, um contrato pouco discutido entre o FNDE e a Palantir expõe uma pergunta que o Brasil ainda não respondeu: quem deveria administrar os dados do Estado brasileiro?
Uma reportagem publicada pelo Financial Times na semana passada reconstrói, com base em mais de vinte entrevistas com atuais e ex-funcionários, executivos e investidores, como a Palantir Technologies — companhia de análise de dados avaliada em 330 bilhões de dólares — passou de fornecedora discreta de governos e empresas a um dos nomes mais controversos da tecnologia global. O motivo não é técnico: é político. A proximidade cada vez mais explícita entre a cúpula da empresa e a administração Trump, somada a declarações públicas do CEO Alex Karp defendendo ações de imigração e operações militares controversas, tornou a marca Palantir tão associada ao trumpismo que candidatos democratas passaram a devolver doações ligadas à empresa, fundos soberanos como o da Noruega pressionam por auditorias de direitos humanos, e governos europeus — Suíça, Alemanha, França — vêm rejeitando ou substituindo os sistemas da companhia.
O episódio interessa ao Brasil por um motivo muito mais concreto do que a política americana: a Palantir já opera dentro do Estado brasileiro, e o contrato mais documentado até agora envolve dados de crianças em idade escolar.
Um problema global de reputação
Segundo o Financial Times, a Palantir nasceu em 2003 com a missão declarada de ajudar o Ocidente a evitar outro 11 de setembro, cultivando durante anos uma opacidade deliberada em relação à imprensa — uma "aura de oráculo onisciente", nas palavras de um investidor citado na reportagem, que ajudava a empresa a ser levada a sério por clientes que hesitariam diante de seus vínculos com a comunidade de inteligência. Esse silêncio calculado começou a se romper à medida que o CEO Alex Karp se tornou uma figura cada vez mais política: apoiou publicamente as políticas de imigração de Trump, chamou sua própria empresa de "completamente anti-woke" e chegou a defender publicamente ataques militares controversos dos Estados Unidos contra supostos traficantes na Venezuela.
"Governos mudam. O governo dos EUA é uma grande fatia do negócio da Palantir — se algo acontecer com isso, é um grande problema para a empresa."— Joseph Bonner, analista da Argus Research — reportagem original: Financial Times, 8 de julho de 2026
A reportagem do FT descreve ainda uma queda de quase um quarto no valor das ações da Palantir neste ano, fuga de dezenas de engenheiros seniores para concorrentes como Anthropic e OpenAI, e a perspectiva de que uma eventual vitória democrata na Câmara dos Representantes em novembro abra caminho para convocações e investigações formais sobre contratos da empresa com o governo americano.
O contrato que o Brasil não debateu
Enquanto isso acontece nos Estados Unidos e na Europa, o Brasil trata do mesmo dilema com muito menos visibilidade pública. Desde março de 2024, o Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE), autarquia vinculada ao Ministério da Educação, utiliza a plataforma Palantir Foundry — somada à ferramenta de inteligência artificial da empresa, a AIP — para gerir e analisar dados do Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar (Pnate), que viabiliza o acesso de estudantes de áreas rurais e isoladas à escola pública. O caso foi trazido a público pelo sociólogo Sérgio Amadeu da Silveira, professor da UFABC e ex-integrante do Comitê Gestor da Internet no Brasil, conforme relatado pela CartaCapital.
Tecnicamente, a contratação não passou por licitação específica: ela ocorreu por meio do Marketplace do Serpro, mecanismo que permite a um órgão público contratar serviços de terceiros como se estivesse contratando a própria estatal de tecnologia da informação do governo federal. Em evento do FNDE, um gerente de nuvem do Serpro descreveu a empresa estatal como "um grande viabilizador" para que o fundo tivesse acesso a ferramentas da AWS e da Palantir — uma arquitetura que pesquisadores da área comparam à lógica identificada em contratos bilionários da Palantir com o Exército americano, nos quais a dependência de infraestrutura em nuvem abre caminho para a dependência do software de análise que roda sobre ela.
Contraponto — a versão do FNDE
Procurada pela reportagem da CartaCapital para esclarecer o caso, a presidência do FNDE respondeu, em nota, que utiliza "a Plataforma Foundry, licenciada via contrato com o Serpro, para integrar dados públicos sob domínio da autarquia e aprimorar o acompanhamento de repasses". Segundo o órgão, "os programas operacionalizados pela plataforma são públicos ou passíveis de publicização", a operação "é inteiramente conduzida por colaboradores do próprio FNDE" e "não envolve tratamento, transferência ou compartilhamento de dados sensíveis", com a solução hospedada em território nacional, em conformidade com a legislação vigente.
Organizações da sociedade civil discordam do enquadramento. Segundo reportagem do Brasil 247, entidades apontam risco de violação da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), argumentando que dados sobre trajetórias escolares de menores de idade — ainda que classificados como não sensíveis pelo órgão — não deveriam ser processados por uma plataforma de mineração de dados estrangeira sem debate público prévio sobre a arquitetura de governança envolvida.
Soberania de dados como questão de Estado, não de fornecedor
O caso do FNDE não é isolado. Segundo apurou o Brasil 247, um vice-presidente da Palantir para a América Latina declarou publicamente, em agosto de 2024, que o sistema da empresa "já roda em importantes organizações do país, desde o setor de saúde pública até agências de educação" — afirmação feita sem que nenhum contrato adicional tenha sido nomeado publicamente ou que autoridades brasileiras tenham exigido esclarecimentos formais sobre quais dados estariam sendo processados.
Em maio deste ano, durante o 2º Encontro Nacional pela Soberania Digital, realizado em Brasília, entidades da sociedade civil reunidas na Rede pela Soberania Digital propuseram formalmente o rompimento do contrato do FNDE com a Palantir como parte de um pacote de medidas emergenciais, ao lado da criação de data centers públicos federados. O diagnóstico apresentado no encontro, segundo o Jornal GGN, é que o Brasil mantém um baixo índice de soberania digital, dependente de tecnologia dos Estados Unidos, China e Europa — um padrão que, segundo os organizadores, se aprofundou desde o governo Temer e seguiu praticamente inalterado ao longo do governo Bolsonaro e do atual governo Lula, apesar do discurso oficial brasileiro em fóruns internacionais sobre autonomia tecnológica.
O paralelo europeu que o Brasil ainda não teve
A reportagem do Financial Times documenta como a Palantir enfrenta hoje resistência concreta na Europa: a Suíça teve auditorias formais do Exército sobre o uso da plataforma reveladas por pedidos de acesso à informação; o prefeito de Londres, Sadiq Khan, bloqueou um contrato de 50 milhões de libras com a polícia metropolitana; e o governo trabalhista britânico revisa um contrato de 330 milhões de libras com o sistema nacional de saúde (NHS), alvo de contestação de associações médicas e da Anistia Internacional. No Brasil, nenhum órgão regulador — nem a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), nem comissões parlamentares — abriu até o momento um processo formal de auditoria equivalente sobre o uso de plataformas da Palantir em órgãos públicos brasileiros.
É essa assimetria que mais chama atenção quando se compara a cobertura internacional da crise reputacional da Palantir com o silêncio institucional brasileiro sobre contratos já em vigor. Enquanto parlamentares americanos prometem convocar executivos da empresa ao Congresso caso os democratas retomem a maioria na Câmara, e fundos soberanos como o da Noruega já levaram propostas de auditoria de direitos humanos à assembleia de acionistas da companhia, o debate público brasileiro sobre o mesmo fornecedor de tecnologia permanece restrito a artigos de opinião, notas de sociedade civil e uma resposta institucional pontual do FNDE.
O que está em jogo não é apenas a reputação de uma empresa americana em xeque por sua proximidade com um governo. É a pergunta, ainda sem resposta institucional clara no Brasil, sobre que tipo de infraestrutura de dados o State brasileiro está disposto a delegar — e sob qual escrutínio público — a fornecedores privados estrangeiros, especialmente quando os dados em questão dizem respeito a crianças, adolescentes e programas sociais que sustentam o acesso à educação pública no país.
Referências
- Financial Times — "The price of Palantir's politics" (8 jul. 2026): ft.com
- CartaCapital — "Cavalo de Troia": cartacapital.com.br
- CartaCapital — "As sombras da Palantir e o Brasil": cartacapital.com.br
- Brasil 247 — "O manifesto Palantir e a soberania digital alheia": brasil247.com
- Brasil 247 — "Palantir no MEC: a hipoteca do futuro brasileiro": brasil247.com
- Jornal GGN — "Palantir no MEC: a porta dos fundos da soberania digital": jornalggn.com.br
- Jornal GGN — "Sociedade civil quer que governo suspenda contrato do MEC com Palantir": jornalggn.com.br
- CONTEE — "Sociedade civil quer que governo suspenda contrato do MEC com Palantir": contee.org.br
- Outras Palavras — "A corporação de vigilância total mira também o Brasil": outraspalavras.net