Há um experimento incômodo rodando, ao mesmo tempo, em dezenas de democracias. Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Irvine perguntaram a milhares de americanos se já haviam terminado uma amizade, um namoro ou rompido com um familiar por causa de política. Mais de um terço respondeu que sim — e os que romperam relações se tornaram mais hostis em relação aos adversários políticos do que os próprios líderes partidários. Não é a elite que está mais brava. São os eleitores comuns, nas mesas de jantar e nos grupos de família, que carregam hoje mais ressentimento do que os políticos que os representam.

O achado é desconfortável porque inverte uma intuição comum: a de que a política tóxica vem de cima, dos gabinetes e dos palanques, e contamina depois o eleitorado. Os dados sugerem o oposto — ou, pelo menos, um circuito de mão dupla. Lideranças aprendem que a indignação rende mais engajamento do que a ponderação; eleitores aprendem, observando esse incentivo, que pertencer a um lado significa odiar o outro. O resultado é uma política que se tornou, ao mesmo tempo, mais espetacular e mais solitária.

É dentro desse cenário que uma pergunta antiga volta a circular com urgência renovada: o que seria, concretamente, uma política compassiva — não como slogan de campanha, mas como prática de governo e como hábito cívico? E por que ela parece tão difícil de sustentar justamente quando seria mais necessária?

O que a ciência política chama de “compaixão”

Compaixão, em sentido técnico, não é sinônimo de bondade genérica ou de fraqueza diante de decisões difíceis. Pesquisadores que estudam liderança compassiva — sobretudo no campo da saúde pública e da gestão de crises — descrevem seis dimensões recorrentes: empatia ativa, comunicação aberta, atenção ao bem-estar físico e mental dos governados, inclusão, integridade e respeito pela dignidade de quem está do outro lado da mesa de decisão.

Essas dimensões aparecem com nitidez em um caso citado com frequência na literatura acadêmica internacional: a gestão da pandemia de covid-19 pela então primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern. Pesquisadores que analisaram seu estilo de liderança descrevem como, em momentos de sofrimento coletivo, a expressão pública de compaixão por parte de quem governa ajuda a aliviar a angústia social — e como isso exige, paradoxalmente, disciplina e clareza, não complacência. Compaixão de governo, nesse sentido, não é abdicar de decisões impopulares; é comunicá-las e executá-las reconhecendo o custo humano que elas impõem.

"Compaixão vai além da empatia: ela move quem governa a efetivamente prevenir e aliviar o sofrimento de quem é governado — não apenas a sentir por ele."

Síntese de literatura sobre liderança compassiva, King's Fund

Essa distinção entre sentir e agir é o que separa a política compassiva do populismo emocional. Um governante pode performar empatia em redes sociais sem que isso produza qualquer mudança nas condições de vida de quem sofre. A compaixão política, na definição mais rigorosa, exige tradução em política pública: orçamento, prazo, instituição, entrega.

Sobre as fontes internacionais: Esta análise foi inspirada por reportagens e estudos acadêmicos publicados recentemente sobre polarização afetiva nos Estados Unidos e sobre liderança compassiva em contextos de crise, incluindo pesquisa da Universidade da Califórnia em Irvine (UC Irvine) e revisões sistemáticas sobre liderança e compaixão. Os dados e a análise sobre o Brasil são originais desta redação.

O lado de quem governa: o custo de não escutar

Do ponto de vista de quem ocupa o poder — presidente, governador, prefeito, parlamentar — a tentação da política de confrontação é compreensível mesmo quando é destrutiva. Confronto gera manchete; ponderação raramente gera. Pesquisadores ligados ao Laboratório de Liderança e Felicidade de Harvard observam que a lógica da política contemporânea recompensa exatamente o comportamento que a compaixão deveria conter: a disputa atrai atenção, alimenta narrativas convenientes e reforça a coesão de grupos já fechados em si mesmos.

O problema é que essa lógica tem um custo que não aparece na pesquisa de popularidade do dia seguinte. Um estudo publicado na Scientific Reports em 2026, sobre reciprocidade e justiça em contextos polarizados, encontrou algo perturbador: a discriminação contra adversários políticos não era percebida pelos próprios participantes como parcialidade injusta, mas como agressão moral justificada — um comportamento que as pessoas julgavam que deveriam adotar, não apenas que se permitiam adotar.

Mais grave ainda: uma intervenção bem estabelecida para reduzir a polarização afetiva conseguiu aumentar a simpatia pelos adversários, mas não reduziu a discriminação prática contra eles. Gostar mais do outro lado, em outras palavras, não bastou para tratá-lo com justiça.

Para quem governa, essa é a armadilha central da política compassiva: ela exige resistir a um incentivo de curto prazo (a recompensa imediata do confronto) em nome de um bem de longo prazo (a confiança institucional, a governabilidade, a paz social) que é difícil de medir e fácil de erodir. Governantes que cultivam essa resistência — ouvir adversários, reconhecer dados desconfortáveis, negociar publicamente sem humilhar quem está do outro lado — frequentemente pagam um preço eleitoral de curto prazo entre sua própria base mais radicalizada, mesmo quando colhem ganhos de legitimidade mais amplos.

O caso brasileiro: o número que não se move

No Brasil, esse dilema tem um retrato estatístico preciso. Desde dezembro de 2022, o Datafolha pergunta ao eleitorado brasileiro onde cada pessoa se posiciona numa escala de um a cinco, sendo um "bolsonarista" e cinco "petista". No levantamento mais recente, 74% dos entrevistados se identificaram como bolsonaristas ou petistas — 40% no campo do PT e 34% no campo de Bolsonaro — enquanto apenas 18% se classificaram como neutros. Em pesquisa anterior, o equilíbrio era ainda mais apertado: 39% a favor de Lula contra 37% alinhados a Bolsonaro.

O julgamento de Jair Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal, em 2025, por tentativa de golpe de Estado e organização criminosa armada, funcionou como acelerador desse fenômeno em vez de freio. Análises da conjuntura política descrevem como a decisão foi lida em registros completamente opostos pelos dois lados: para apoiadores do ex-presidente, perseguição política; para seus críticos, vitória da democracia contra uma ameaça autoritária. Cada fato novo, em vez de ser avaliado por seus méritos, é processado pelo filtro de qual lado ele fortalece — exatamente o mecanismo de “raciocínio motivado” que pesquisas de neurociência política identificam como motor central da polarização afetiva.

Esse padrão nacional torna ainda mais interessante um contraponto regional pouco discutido. Pesquisa publicada no periódico Caderno CRH sobre o discurso de governadores brasileiros no Twitter durante a campanha de 2022 encontrou que, diferentemente da disputa presidencial, as campanhas estaduais responderam por um arrefecimento da tensão: lideranças estaduais tenderam a evitar atritos e a deslocar o debate para políticas públicas concretas, em vez de reproduzir a polarização nacional. É uma pista de que a política compassiva não é uma virtude pessoal rara, mas uma escolha estratégica disponível — visível justamente onde a pressão do confronto nacional é mais fraca.

O lado de quem vota: a solidão da convicção

Se a perspectiva de governantes revela um cálculo de incentivos, a perspectiva do eleitor revela algo mais íntimo: a polarização não é apenas uma estratégia eleitoral, é uma experiência emocional cotidiana. O estudo da UC Irvine, publicado na revista PNAS Nexus, detalha a anatomia dessas rupturas: de quem perdeu uma relação por causa de política, 62% perdeu um amigo, 40% um familiar, 29% um colega de trabalho e 10% um parceiro romântico. Os pesquisadores observam que essa fragmentação social ocorre justamente quando autoridades de saúde já alertavam para uma “epidemia de solidão” — de modo que a perda adicional de vínculos sociais por causa da polarização pode agravar tanto a saúde física quanto mental de quem a vivencia.

Há algo paradoxal nesse comportamento: o eleitor que corta relações por lealdade política frequentemente acredita estar defendendo princípios — justiça, decência, verdade. E, em muitos casos individuais, pode até estar certo sobre o mérito específico da discordância. O problema não é a convicção em si, mas o que pesquisas mostram se seguir a ela: uma vez classificado o outro como inimigo moral, deixa de haver espaço para tratá-lo com reciprocidade básica, mesmo em situações triviais e sem relação direta com a disputa original.

"A polarização não foi governada apenas pela aversão aos membros do outro lado — foi percebida como agressão moralmente justificada, o comportamento que deveria ser escolhido."

Estudo sobre justiça e reciprocidade em contextos polarizados, Scientific Reports, 2026

Para o eleitor comum, a política compassiva exigiria algo psicologicamente custoso: discordar de alguém sobre política sem deixar de reconhecê-lo como interlocutor legítimo. É uma habilidade que a arquitetura das redes sociais não recompensa — algoritmos de engajamento amplificam o conteúdo que provoca indignação, não o que sustenta a complexidade. E é também uma habilidade que a própria identidade política, quando se torna identidade central da pessoa, dificulta: questionar o “próprio lado” passa a parecer traição, não maturidade cívica.

Por que a polarização afetiva é diferente da discordância

É importante separar dois fenômenos que o debate público frequentemente confunde. Discordância ideológica — divergir sobre o tamanho do State, sobre política econômica, sobre valores sociais — é saudável e até necessária para o funcionamento de uma democracia. Polarização afetiva é outra coisa: é a hostilidade emocional crescente entre grupos políticos, independentemente do conteúdo específico da discordância. Pesquisas indicam que americanos descrevem cada vez mais quem vota diferente como “fechado”, “desonesto” ou “imoral” — categorias morais, não categorias de opinião.

O Brasil pós-2018 segue um roteiro reconhecível dessa mesma dinâmica, com sotaque próprio. A pandemia, paradoxalmente, ofereceu um experimento moral revelador: pesquisa publicada pela Revista de Administração Pública mostrou que o “medo da morte” diante da covid-19 reduziu, ao menos temporariamente, a polarização ideológica entre eleitores de direita e centro-direita — muitos deles rejeitaram seguir a posição de Bolsonaro contrária ao isolamento social e passaram a avaliar mal seu desempenho, mesmo entre os que historicamente o apoiavam. O dado sugere que a identidade partidária, mesmo intensa, pode ceder quando confrontada com um risco concreto e compartilhado — uma pista sobre o tipo de ameaça comum que tende a esfriar, ainda que momentaneamente, hostilidades políticas profundas.

O que a compaixão política exigiria de cada lado

Não existe fórmula que resolva, de uma vez, uma dinâmica que envolve incentivos eleitorais, arquitetura de redes sociais e psicologia de identidade grupal. Mas a literatura disponível — acadêmica e jornalística — converge em alguns elementos que distinguem a retórica da compaixão de sua prática real.

De governantes, a compaixão política exige reconhecer publicamente o custo humano de decisões impopulares, em vez de simplesmente anunciá-las como vitórias técnicas; criar canais de escuta que não sejam apenas performáticos, voltados a câmeras, mas que efetivamente alterem políticas; e, sobretudo, resistir à tentação de tratar adversários políticos como inimigos existenciais — uma linha que, uma vez cruzada, é difícil de desfazer institucionalmente. O contraponto dos governadores estaduais brasileiros sugere que isso é possível mesmo dentro do mesmo sistema político que produz a polarização presidencial: a escolha retórica de líderes regionais, ao evitar o confronto nacional, abriu espaço para debate sobre entrega concreta.

De eleitores, a compaixão política exige algo mais difícil de prescrever: a disposição de manter relações pessoais com quem discorda, mesmo quando a discordância parece moralmente carregada; o hábito de perguntar por que alguém pensa diferente antes de classificá-lo; e a consciência de que o calor emocional de uma posição não é, por si, evidência de sua correção. Nenhuma dessas atitudes é incompatível com convicção política forte — são, na verdade, o que torna convicção forte sustentável sem destruir o tecido social em que ela precisa operar.

O nome deste jornal não é acidental: cada convicção, cada voto, cada discordância é um fio. A pergunta que este ensaio deixa em aberto é se ainda sabemos tecer com fios de cores diferentes — ou se aprendemos apenas a cortá-los.