Política · Análise · Democracia
A doze dias do segundo turno presidencial no Brasil e a três semanas das eleições legislativas de meio de mandato nos Estados Unidos, uma discussão que parecia confinada a periódicos acadêmicos ganhou as páginas de opinião. A pergunta é simples de formular e difícil de responder: a polarização política é o que adoece as democracias ou é a reação de defesa de sociedades diante de movimentos que tentam estreitá-las?
O gatilho mais recente foi a coluna semanal de Thomas B. Edsall no The New York Times, publicada nesta terça-feira (13), que reuniu cientistas políticos de linhagens diferentes em torno de um ensaio da professora Lilliana Mason, da Universidade Johns Hopkins.1 Edsall observa que a disputa tende a ter efeito prático imediato: se os democratas retomarem a Câmara, como indicam as projeções citadas por ele, terão de decidir com que intensidade confrontar o governo Trump. Para o leitor brasileiro, o debate interessa por outro motivo. Ele oferece ferramentas para pensar uma eleição que, como mostrou o primeiro turno de 4 de outubro, reproduz quase ponto a ponto a divisão de 2022.
A tese da resposta imune
Mason é uma das referências mundiais no estudo da polarização afetiva. Em Uncivil Agreement (2018), ela descreveu como raça, religião, ideologia, visão cultural e partido passaram a se alinhar nos mesmos eleitores, transformando os partidos americanos em grupos sociais rivais e as eleições em disputas de identidade.4 A literatura chama esse processo de ordenação social, ou social sorting.
No ensaio publicado na edição de outubro do Journal of Democracy, intitulado "Polarization Is Not the Problem", ela dá um passo além.2 O argumento central é que a polarização partidária não seria a maior ameaça à democracia americana, e sim o sintoma de uma disputa mais funda sobre quem pertence à comunidade política e quem merece direitos iguais. Os avanços de minorias raciais, mulheres e da população LGBTQ teriam produzido uma reação etnonacionalista que hoje exerce poder desproporcional por meio do Partido Republicano. Daí a fórmula que deu título ao debate: a polarização seria "menos a doença do que a resposta imune da democracia". Suprimir essa reação em nome da civilidade, conclui a autora, fortaleceria justamente o movimento que a provocou.
Mason não está sozinha. Segundo a coluna de Edsall, o cientista político Marc Hetherington, da Universidade da Carolina do Norte, sustenta que a polarização nasceu quando o eixo da disputa entre os partidos deixou de ser o tamanho do Estado e passou a ser o ritmo da mudança racial, social e cultural. A quem o ouve em palestras, ele propõe um balanço: comparar a situação das minorias políticas hoje com a de cinquenta anos atrás e perguntar se o desconforto do conflito não foi o preço desse avanço.1 O historiador Thomas Zimmer, de Georgetown, vai na mesma linha e questiona a nostalgia pelo "consenso" do pós-guerra, que, segundo ele, só existia entre elites brancas e masculinas e repousava na exclusão de quem reivindicava direitos civis.1
Da polarização à radicalização
A formulação mais sistemática dessa corrente veio de Petter Törnberg, professor de ciência social computacional da Universidade de Amsterdã, em artigo publicado na revista Perspectives on Politics, da Associação Americana de Ciência Política.3 Törnberg argumenta que o conceito de polarização oferece uma aparência de neutralidade porque distribui a responsabilidade igualmente entre os polos, quando os dados de democracias avançadas apontariam para uma transformação unilateral da direita: normalização de retórica autoritária, uso da conspiração como estratégia e desmonte de salvaguardas institucionais.
O ponto mais relevante do artigo não é a troca de palavra, mas a consequência dela. Se o problema é polarização, o remédio óbvio é civilidade, compromisso e construção de pontes. Se o problema é radicalização assimétrica, o remédio passa a ser confrontar atores antidemocráticos, proteger grupos visados e defender a integridade das instituições. Diagnósticos diferentes autorizam políticas diferentes, e é por isso que a discussão, aparentemente semântica, tem consequências de governo.
| Diagnóstico | Quem sustenta | Remédio implícito |
|---|---|---|
| Polarização simétrica | Parte da literatura e do debate público | Civilidade, moderação, construção de pontes |
| Resposta imune | Lilliana Mason, Thomas Zimmer, Marc Hetherington | Manter a mobilização em defesa de direitos e responsabilizar quem não os defende |
| Radicalização assimétrica | Petter Törnberg | Confrontar atores antidemocráticos e blindar instituições |
| Dose certa | Yphtach Lelkes | Preservar a diversidade de ideias sem deixar o conflito virar ameaça existencial |
| Reação ao excesso progressista | Gregory Conti e Aaron Sibarium | Conter a ala identitária da esquerda |
| Opinião termostática | Matt Grossmann | Governar sem confundir oscilação de humor do eleitorado com mandato para extremos |
As objeções: simetria, falseabilidade e o papel do cientista
A reação crítica veio de várias direções. A mais dura, registrada por Edsall, foi a de Sean Westwood, cientista político de Dartmouth, que classificou o ensaio de Mason como "uma conversa de coquetel liberal disfarçada de pesquisa acadêmica".1 O núcleo da crítica é metodológico: o texto trataria a animosidade de um lado como patologia e a do outro como cura, uma distinção que, para Westwood, não pode ser testada com dados.
Kenneth Lowande, da Universidade Rice, fez uma objeção de outra natureza. Para ele, a vantagem comparativa da academia é a curiosidade desapaixonada, e quando pesquisadores entram na arena como defensores de uma causa, o público passa a ter razões legítimas para duvidar de sua credibilidade, além de receber a impressão de que questões em aberto já estão resolvidas.1
Mason respondeu distinguindo objetividade de neutralidade. Quando as duas entram em conflito, escreveu ela a Edsall, prefere a objetividade: se as pesquisas encontram assimetrias entre os partidos, ignorá-las em nome do equilíbrio seria distorcer os achados, e descrevê-las não equivaleria a militância.1
Há também críticas de conteúdo. Gregory Conti, de Princeton, e o jornalista Aaron Sibarium, do site conservador Washington Free Beacon, argumentam que a radicalização do segundo mandato de Trump é melhor explicada como resposta ao auge do movimento identitário progressista do que como continuidade de uma ideologia já formada. Mason rebate que o primeiro governo Trump antecede em quase quatro anos a onda de protestos de 2020.1 Matt Grossmann, da Universidade Estadual de Michigan, lembra que a opinião pública americana funciona como um termostato: a guinada democrata à esquerda em imigração e questões raciais, em reação ao primeiro Trump, ajudou a produzir a volta dele. Se os democratas lerem a maré atual como licença para governar nos extremos, alerta, colherão novo refluxo.1
A objeção talvez mais fina é a de Ariel Malka, da Universidade Yeshiva. Ele concorda que a principal ameaça à democracia americana parte hoje do Partido Republicano, mas resiste a reduzir o fenômeno a uma única chave explicativa. A polarização ideológica, diz Malka, eleva tanto o que está em jogo em termos de políticas públicas que eleitores passam a colocar considerações democráticas em segundo plano e a racionalizar ações antidemocráticas do próprio partido. Isso ajudaria a explicar por que um candidato que tentou reverter uma eleição pôde voltar a vencer o voto popular quatro anos depois.1
Contraponto
O risco de cada lado se declarar o anticorpo
A metáfora imunológica tem um apelo que é também sua fragilidade. Em uma sociedade dividida, praticamente todos os grupos mobilizados se descrevem como a defesa do corpo político contra uma infecção. Críticos como Westwood e Lowande apontam que, sem um critério externo e verificável, a tese pode servir para legitimar a hostilidade de um campo e condenar a do outro. Conti, Sibarium e Grossmann acrescentam uma advertência prática: a mobilização que parece defensiva para quem a pratica pode ser lida como agressão pelo eleitor médio, e alimentar exatamente o ciclo de reação que se queria interromper.
Do lado oposto, os defensores da tese respondem que exigir simetria onde os dados não a encontram é uma escolha política disfarçada de prudência. O debate, portanto, não opõe quem gosta de conflito a quem prefere a paz, mas duas concepções sobre o que a ciência política deve fazer quando suas medições apontam para um lado.
Na dose certa: o meio-termo de Lelkes
Entre os polos, Yphtach Lelkes, da Universidade da Pensilvânia, propõe o que chama de visão "Cachinhos Dourados". Para ele, a polarização não é simplesmente causa nem efeito. Pouca polarização elimina a diversidade de ideias e até a indignação necessária para que mudanças aconteçam; polarização demais cria as condições para os problemas atuais.1 Lelkes recorre à história europeia do entreguerras: na Alemanha antes de Hitler, na Itália antes de Mussolini e na Espanha antes de Franco, partidos tradicionais aceitaram acomodar movimentos autoritários porque viam os adversários de sempre como ameaça maior. Em contrapartida, os cordões sanitários erguidos contra a extrema direita na Bélgica, na França e na Alemanha funcionaram por décadas, ainda que alguns hoje mostrem desgaste.
Lidos em conjunto, os exemplos de Lelkes e o mecanismo descrito por Malka apontam para a mesma coisa. O perigo não está na distância entre programas, mas no momento em que o conflito torna as regras do jogo negociáveis: quando aceitar a derrota, respeitar tribunais ou proteger a imprensa passa a depender de quem está no poder. Essa distinção oferece uma resposta parcial à objeção de Westwood. A assimetria pode não ser falseável quando se mede raiva, mas é mensurável quando se observa comportamento diante das instituições.
É esse tipo de medição que o Instituto V-Dem, da Universidade de Gotemburgo, realiza com mais de 4.200 especialistas em 202 países. O relatório de 2026 classificou os Estados Unidos entre os países em autocratização e descreveu a deterioração americana como mais rápida do que a de qualquer outra democracia nos tempos modernos.5 Segundo reportagem do Metrópoles, o índice de democracia liberal do país caiu de 0,75 em 2024 para 0,57 em 2025, e os EUA deixaram de ser classificados como democracia liberal pela primeira vez em mais de meio século, ficando atrás do Brasil no ranking.5
Toda metáfora imunológica traz uma advertência embutida: o mesmo sistema que protege o corpo pode, desregulado, passar a atacá-lo.Análise O Tecido
O espelho brasileiro: polarizado ou calcificado?
O primeiro turno de 4 de outubro deu ao debate americano um laboratório brasileiro. Com 100% das seções totalizadas, Flávio Bolsonaro (PL) obteve 47,03% dos votos válidos e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 45,16%, uma diferença de 2,22 milhões de votos.6 Segundo levantamento da Genial Investimentos, Flávio venceu em 15 estados e Lula em 12, a abstenção chegou a 21,1% e, desde 1989, o líder do primeiro turno venceu todos os sete segundos turnos presidenciais. A decisão fica para 25 de outubro.6
O cientista político Felipe Nunes, diretor da Quaest, cunhou com o jornalista Thomas Traumann, no livro Biografia do Abismo (2023), a ideia de que a polarização brasileira se calcificou: deixou de ser apenas partidária para se tornar afetiva a partir de 2018, com eleitores que votam muito parecido de uma eleição para outra.7 Após o primeiro turno, Nunes resumiu o quadro ao Jornal da Paraíba: a eleição "não só tá polarizada como tá calcificada".8 A pesquisa Datafolha divulgada às vésperas da votação registrou rejeição idêntica, de 45%, para os dois principais candidatos.9
Ao mesmo tempo, o V-Dem incluiu o Brasil entre os 18 países em processo de democratização no mundo, ao lado da Polônia, e descreveu o caso brasileiro como uma inflexão em "U": um país que, após um período recente de autocratização, voltou a melhorar seus indicadores.5 O dado mostra que polarização alta e recuperação institucional podem coexistir, o que por si só complica a leitura de que a divisão seja, em qualquer caso, sinônimo de declínio democrático.
Transplantar a tese de Mason para o Brasil, porém, exige cautela. Os dois campos que disputam o segundo turno se descrevem como a defesa do país: um afirma proteger as instituições democráticas, o outro diz proteger liberdades e valores contra o avanço do Estado e dos tribunais. A metáfora da resposta imune, sozinha, não arbitra essa disputa, porque ambos podem reivindicá-la. O que arbitra são critérios observáveis, aplicáveis a qualquer candidatura: reconhecer o resultado das urnas, contestar decisões judiciais apenas pelas vias legais, preservar a independência da imprensa e dos órgãos de controle, e garantir que a minoria derrotada continue com plenos direitos de oposição.
A advertência de Grossmann também vale para o Brasil, seja qual for o vencedor. Um eleitorado dividido quase ao meio e que reage como termostato não entrega mandato para maximalismos. Quem vencer em 25 de outubro governará um país em que praticamente metade dos votantes escolheu o adversário, e o histórico recente mostra que interpretar margens estreitas como autorização ampla costuma produzir o refluxo seguinte.
O que o debate ensina
A disputa acadêmica americana não será resolvida por metáforas elegantes, mas tem o mérito de obrigar cada lado a dizer o que está defendendo. Se a polarização for anticorpo, é preciso nomear a infecção com evidências, não com adjetivos. Se for doença, é preciso explicar por que pedidos de moderação não acabam premiando quem rompe as regras. Em um Brasil calcificado, a pergunta mais útil para o dia 25 de outubro e para os quatro anos seguintes talvez não seja como despolarizar o país, e sim quais regras os dois campos se comprometem a manter fora da mesa, independentemente de quem ganhe.
Perguntas frequentes
O que Lilliana Mason quer dizer com polarização como "resposta imune"?
Em ensaio no Journal of Democracy (outubro de 2026), Mason argumenta que a polarização nos EUA é sintoma de uma disputa sobre quem merece direitos iguais, e não a causa principal da crise democrática. A divisão seria a reação de quem resiste a um movimento etnonacionalista que tenta reverter avanços sociais, e suprimi-la em nome da civilidade fortaleceria esse movimento.
Qual a diferença entre polarização e radicalização assimétrica?
Polarização sugere que os dois polos se afastaram do centro em proporções parecidas. Radicalização assimétrica, conceito defendido por Petter Törnberg na revista Perspectives on Politics, descreve a transformação de apenas um lado do espectro em direção a práticas autoritárias. A diferença muda o remédio: da busca por consenso para a proteção das instituições.
Quais são as principais críticas à tese de Mason?
Sean Westwood (Dartmouth) afirma que a tese não pode ser testada com dados; Kenneth Lowande (Rice) diz que a advocacia compromete a credibilidade acadêmica; Gregory Conti e Aaron Sibarium atribuem a radicalização republicana a excessos progressistas; Matt Grossmann alerta para o risco de reação do eleitorado; e Ariel Malka lembra que a polarização ideológica também ajuda a tornar competitivos candidatos antidemocráticos.
O Brasil está polarizado ou calcificado?
Segundo Felipe Nunes, da Quaest, o eleitorado brasileiro está calcificado: vota de forma muito semelhante à de 2022. No primeiro turno de 2026, Flávio Bolsonaro teve 47,03% dos votos válidos e Lula, 45,16%. Ainda assim, o V-Dem classifica o Brasil entre os 18 países em democratização no mundo.
Como saber se a polarização é saudável ou perigosa para a democracia?
Um critério verificável é observar o comportamento dos atores diante das regras do jogo, e não apenas a distância entre suas ideias: aceitação de resultados eleitorais, respeito a decisões judiciais pelas vias legais, liberdade de imprensa e direitos da oposição. Índices como os do V-Dem medem justamente esses atributos.