Sustentabilidade · Oceanos

Durante séculos, imaginou-se o plástico como um material inerte, resistente demais para interessar à vida. Essa suposição caiu por terra. Comunidades inteiras de microrganismos, batizadas de plastisfera, colonizam fragmentos plásticos nos oceanos, rios e até no ar, formando um ecossistema que praticamente não existia antes de meados do século XX. A descoberta, descrita por pesquisadores internacionais como um novo bioma, ganhou força científica a partir de um estudo publicado em 2013 por Linda Amaral-Zettler, Erik Zettler e Tracy Mincer, e desde então acumula evidências também em águas brasileiras.

A reportagem "Bienvenidos a la plastisfera", publicada pelo jornal espanhol El País, reconstrói essa história a partir do trabalho pioneiro de Amaral-Zettler e de expedições recentes na Antártida e no Mediterrâneo. Segundo o relato, publicado no El País1, a própria hidrofobia do plástico favorece a formação de biofilmes, películas microbianas que preparam terreno para a chegada de organismos cada vez mais diversos, num processo que os cientistas descrevem como semelhante à colonização de um planeta novo.

O que caracteriza esse novo ecossistema

O conceito de plastisfera não descreve apenas a presença de micróbios sobre o plástico, mas as relações ecológicas que se formam entre esses organismos e o próprio material que os hospeda. Pesquisas brasileiras vêm confirmando esse padrão em diferentes materiais poliméricos. Um estudo nacional comparou a colonização microbiana em polietileno, polipropileno e poliestireno frente a substratos naturais como madeira e vidro, usando microrganismos coletados em estações de tratamento de esgoto, e encontrou comunidades específicas se estabelecendo sobre cada tipo de plástico2.

"É um novo bioma, um novo ecossistema no planeta, um novo nicho a ser explorado pela vida. E estamos apenas começando a entender quais são as suas implicações." Pesquisador citado na reportagem original do El País sobre expedições de plastisfera na Antártida

O que a ciência brasileira já mediu

Enquanto o relato espanhol percorre o Atlântico Sul, o Mediterrâneo e a Antártida, dados nacionais mostram que o fenômeno já atinge o litoral e as bacias hidrográficas do país. Um levantamento do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo, em parceria com o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares, identificou microplásticos e poluentes orgânicos persistentes em sedimentos, peixes e invertebrados coletados entre 400 e 1.500 metros de profundidade na Bacia de Santos, a cerca de 140 quilômetros da costa paulista3. O estudo, publicado na revista Marine Pollution Bulletin, reforça que mesmo ambientes profundos e considerados preservados já recebem esse tipo de contaminação, provavelmente transportada também pela atmosfera.

No litoral do Paraná, pesquisa apresentada neste ano constatou microplásticos no trato digestivo de 93,6% de uma amostra de peixes coletados em feiras e mercados da região, além de fragmentos em 69% das aves marinhas analisadas por meio de material regurgitado4. Já na Amazônia, um estudo conduzido por pesquisadoras da Universidade Federal do Pará encontrou partículas plásticas nas brânquias e no trato digestivo de praticamente todos os peixes analisados em riachos das bacias dos rios Guamá e Acará-Capim, incluindo espécies predadoras que antes não eram consideradas de risco5.

Contraponto: nem toda plastisfera é hostil

Cientistas que estudam o fenômeno na Antártida observam que, até o momento, nenhuma bactéria patogênica para humanos ou animais foi identificada entre as comunidades de plastisfera do continente gelado, segundo aponta a reportagem do El País1. O quadro muda perto de grandes centros urbanos: pesquisa publicada em 2023 sobre a plastisfera em águas da região metropolitana de Barcelona identificou abundância de bactérias patogênicas e genes de resistência a antibióticos, incluindo o gênero Vibrio, associado a contaminação fecal, colonizando os biofilmes de microplásticos1. O risco, portanto, parece acompanhar a densidade de atividade humana, não o material em si.

A escala do problema no Brasil

Além da dimensão biológica, há a dimensão da escala. O Brasil ocupa a quarta posição entre os países que mais geram resíduos plásticos no mundo, atrás apenas de Estados Unidos, China e Índia, com cerca de 11,3 milhões de toneladas produzidas por ano, segundo relatório da WWF baseado em dados do Banco Mundial6. Desse total, uma parcela expressiva chega aos rios e ao oceano: estudo da ONG Oceana Brasil estima que o país despeja anualmente cerca de 1,3 milhão de toneladas de plástico diretamente no mar7, volume que serve de substrato praticamente ilimitado para a formação de novas comunidades de plastisfera ao longo da costa brasileira.

Essa combinação de alto volume de resíduos e baixíssima taxa de reciclagem, de apenas 1,28% segundo o mesmo levantamento6, ajuda a explicar por que pesquisadores brasileiros têm encontrado plastisfera e contaminação por microplásticos em ambientes tão distintos quanto o fundo do Atlântico Sul, os igarapés urbanos de Manaus e os mercados de peixe do litoral paranaense.

Micróbios em viagem

Um dos pontos centrais da reportagem original é a capacidade de dispersão que o plástico oferece a organismos que, sozinhos, mal conseguem se locomover. A pesquisadora Linda Amaral-Zettler descreve esses micróbios como verdadeiros "autostopistas" (carona) do plástico, citando o caso de uma boia oceanográfica lançada por pesquisadores argentinos em 2004 e recuperada intacta 15 anos depois, no Atlântico Sul, carregando uma comunidade microbiana extensa1. É justamente essa capacidade de transportar micróbios, incluindo eventuais patógenos, para regiões antes livres de contaminação que mais preocupa cientistas que estudam o tema.

Este artigo se inspira na reportagem "Bienvenidos a la plastisfera, el reino de los microbios del plástico", publicada pelo jornal El País em 7 de agosto de 2026 e assinada por Juan F. Samaniego. Leia a reportagem original em: elpais.com. O texto abaixo apresenta reportagem própria, com fontes e dados independentes sobre o cenário brasileiro.

O que vem pela frente

Pesquisadores brasileiros classificam os levantamentos atuais como um primeiro retrato, não um diagnóstico definitivo. O grupo do Instituto Oceanográfico da USP, por exemplo, ressalta que o estudo na Bacia de Santos foi um levantamento inicial, que precisa ser aprofundado para determinar a origem exata dos poluentes encontrados e seu real impacto sobre a fauna de profundidade3. Enquanto isso, o debate regulatório avança lentamente: o Projeto de Lei 2524/2022, apoiado por dezenas de organizações da sociedade civil, propõe no Congresso Nacional a criação de uma economia circular do plástico no país, mas ainda não foi aprovado7.

Para a ciência, a plastisfera representa hoje menos uma ameaça pontual do que um novo capítulo permanente na relação entre vida e matéria sintética. Como resume a reportagem original, é um nicho ecológico que a natureza passou a explorar, e cuja extensão real ainda está sendo mapeada, um fragmento de plástico de cada vez.