Ciência · História da Medicina
Uma carta escrita em 1941 por um dermatologista austríaco quase mudou o curso do genocídio nazista. Adolf Pokorny propôs a Heinrich Himmler um método de esterilização em massa usando extrato de uma planta tropical originária da América do Sul, a Dieffenbachia seguine, popularmente conhecida em inglês como "leopard lily". Segundo o plano, cerca de três milhões de pessoas de territórios ocupados no Leste Europeu perderiam a capacidade de reproduzir, sem que isso comprometesse sua força de trabalho. O objetivo não era matar de imediato, mas impedir que aquelas populações se perpetuassem: exploradas como mão de obra por uma geração, elas se extinguiriam naturalmente, abrindo caminho para a colonização alemã.
A história, quase apagada da memória histórica, é reconstruída em detalhe pelo médico e pesquisador britânico-alemão Edzard Ernst em seu novo livro, "The Leopard Lily Project: A Story of Nazi Pseudoscience", lançado pela editora Springer. Ernst, professor emérito da Universidade de Exeter e autor de mais de 50 livros, é uma referência mundial na avaliação crítica de terapias alternativas e dedicou boa parte de sua carreira recente a investigar como a pseudociência serviu de instrumento ao regime nazista. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o pesquisador detalhou como o projeto nasceu, por que fracassou e qual lição ele carrega para os dias de hoje.
Uma ideia sedutora para Himmler
Pokorny baseou sua proposta em um único artigo científico, que descrevia experimentos em ratos nos quais extratos da planta pareciam provocar infertilidade. Não havia qualquer evidência de que o mesmo efeito ocorreria em seres humanos, mas isso não impediu que a ideia despertasse entusiasmo imediato em Himmler, líder da SS e um dos principais arquitetos do Holocausto. Segundo Ernst, Himmler nutria uma fascinação de longa data por ocultismo, medicina alternativa e pseudociência, e desconfiava da medicina acadêmica convencional, o que o tornava um interlocutor especialmente receptivo a esse tipo de proposta, como descreve o próprio pesquisador em seu blog dedicado ao tema.
O regime chegou a ordenar estudos de viabilidade. O obstáculo, porém, acabou sendo puramente logístico. A planta é originária das florestas tropicais da América Central e do Sul e não se adaptava ao clima alemão. Produzir o volume necessário exigiria estufas em larga escala, que a Alemanha não possuía. Quando a construção desses espaços começou, a guerra já consumia os recursos e a atenção do país, e o projeto nunca saiu do papel.
Parte de uma engrenagem maior
Ernst enquadra o Projeto Leopard Lily dentro de uma lógica mais ampla do aparato nazista de extermínio. Antes dele, o regime já havia instituído, a partir de 1933, um programa de esterilização compulsória de cidadãos alemães considerados "geneticamente inferiores", incluindo pessoas com deficiência, doenças hereditárias e transtornos mentais. Essa mesma metodologia, segundo o pesquisador, evoluiu depois para o programa de eutanásia que matou pessoas julgadas "improdutivas" e, por fim, para as câmaras de gás usadas no Holocausto. A proposta de Pokorny seria, nessa leitura, um capítulo a mais dessa progressão: mesmo sem nunca ter sido aplicada, ela carregava intenção genocida, já que, se bem-sucedida, teria condenado milhões de pessoas à extinção reprodutiva forçada.
O desfecho judicial do episódio também chama atenção. Pokorny foi um dos 23 réus julgados no chamado Julgamento dos Médicos de Nuremberg, em 1947, mas acabou absolvido: os promotores não conseguiram provar que sua proposta havia sido efetivamente colocada em prática. O caso está documentado nos registros do próprio tribunal e é discutido em capítulo específico do livro de Ernst.
Contraponto: rotular como "pseudociência" simplifica demais?
Nem todos os historiadores da medicina concordam que o rótulo "pseudociência" resuma adequadamente a atuação médica sob o nazismo. Parte da pesquisa alemã da época, incluindo experimentos abomináveis conduzidos em campos de concentração, empregava métodos formalmente reconhecíveis como científicos, ainda que eticamente monstruosos e metodologicamente frágeis. Nessa leitura, o problema central não foi apenas a ciência ruim, mas a ausência completa de limites éticos e de consentimento, algo que a ciência bem conduzida também poderia, em tese, ter violado. Vale notar ainda que a comparação feita por Ernst entre o regime nazista e governos democráticos atuais, incluindo referências à política científica dos Estados Unidos, é uma opinião pessoal do autor, não um consenso acadêmico, e tem sido recebida de forma diversa por outros pesquisadores da área.
O que isso significa para o Brasil de hoje
A história recuperada por Ernst ajuda a explicar por que a pesquisa envolvendo seres humanos passou a ser tão rigorosamente regulamentada após 1947. O próprio Julgamento dos Médicos deu origem ao Código de Nuremberg, primeiro conjunto internacional de normas de ética em pesquisa, que exige, entre outros princípios, o consentimento voluntário do participante. No Brasil, essa herança se materializou décadas depois no sistema CEP/Conep, criado em 1996 e hoje vinculado ao Conselho Nacional de Saúde, responsável por avaliar eticamente qualquer pesquisa que envolva seres humanos no país, da genética humana a estudos com populações indígenas.
É esse arcabouço, construído justamente como resposta aos crimes documentados por Ernst, que hoje impede que propostas como a de Pokorny avancem sem escrutínio independente. A existência de comitês de ética descentralizados e de uma comissão nacional de avaliação é, segundo especialistas em bioética, um dos fatores que tornam episódios como o Projeto Leopard Lily distantes da realidade institucional brasileira contemporânea, embora a vigilância constante sobre a relação entre ciência e poder político permaneça necessária.
Uma corrida entre tecnologia e ética
Ao final da entrevista ao El País, Ernst insiste que o risco descrito em seu livro não é apenas histórico. Para ele, o avanço tecnológico tende a superar a velocidade com que sociedades conseguem atualizar seus padrões éticos, o que exige atenção redobrada em contextos de concentração de poder político. Estados totalitários, argumenta o pesquisador, são o ambiente onde a combinação entre pseudociência e ausência de controles institucionais se torna mais perigosa, precisamente porque neles o senso comum e as leis perdem força de contenção.
Perguntas frequentes
O que foi o Projeto Leopard Lily?
Foi um plano nazista, proposto em 1941 pelo médico Adolf Pokorny a Heinrich Himmler, que pretendia usar extrato da planta Dieffenbachia seguine para esterilizar secretamente cerca de três milhões de pessoas em territórios ocupados do Leste Europeu, sem impedir que continuassem trabalhando como mão de obra forçada.
Por que o plano nunca foi colocado em prática?
Principalmente por razões logísticas. A planta é originária da América do Sul e não se adaptava ao clima alemão, exigindo estufas em larga escala que o país não tinha condições de construir em meio à guerra.
Quem é Edzard Ernst?
É um médico e pesquisador britânico-alemão, professor emérito da Universidade de Exeter, reconhecido por décadas de avaliação crítica de terapias alternativas. Nos últimos anos, dedicou-se a investigar a relação entre pseudociência e medicina durante o Terceiro Reich, tema de uma trilogia de livros, da qual "The Leopard Lily Project" é o mais recente título.
O que aconteceu com Adolf Pokorny após a guerra?
Foi um dos 23 réus julgados no Julgamento dos Médicos de Nuremberg, em 1947, mas foi absolvido porque a acusação não conseguiu comprovar que sua proposta havia sido efetivamente executada.
Como o Brasil se protege de riscos éticos semelhantes na pesquisa científica?
Desde 1996, o país conta com o sistema CEP/Conep, vinculado ao Conselho Nacional de Saúde, que avalia eticamente qualquer pesquisa envolvendo seres humanos, incorporando princípios estabelecidos pelo Código de Nuremberg de 1947.
Referências
- Vargas Reátegui, Selva. "Edzard Ernst, investigador: 'Los científicos deben tener mucho cuidado con los políticos de dudosa moral'". El País, 8 de setembro de 2026. Disponível em: elpais.com
- Ernst, Edzard. "The Leopard Lily Project: A Story of Nazi Pseudoscience". Springer, 2026.
- Ernst, Edzard. "Heinrich Himmler's Weakness for Pseudoscience and Natural Medicine: The 'Leopard Lily Project'". Blog pessoal do autor, junho de 2026.
- "The Nuremberg Doctors' Trial", capítulo em "The Leopard Lily Project", Springer, 2026.
- "O que é o CEP?". Comitê de Ética em Pesquisa, Fiocruz/EPSJV.