Caderno Filosofia · Trabalho, felicidade e poder

Nota editorial: este texto é uma análise original de O Tecido a partir da entrevista do sociólogo Carl Cederström ao jornalista Enrique Alpañés, publicada pelo El País em 30 de setembro de 2026. Falas atribuídas ao entrevistado foram traduzidas livremente e são creditadas à publicação original.

Durante boa parte do século 20, cuidar da saúde era uma tarefa: ir ao médico, parar de fumar, dormir um pouco mais. Em algum ponto entre os seminários de autodescoberta dos anos 1970 e os relógios que hoje contam passos, batimentos e ciclos de sono, a tarefa virou virtude. Estar bem passou a funcionar como prova de caráter. Não estar bem, como uma espécie de falha pessoal. É essa passagem que o sociólogo sueco Carl Cederström, professor da Stockholm Business School, examina no livro que acaba de ganhar tradução na Espanha, El síndrome del bienestar.

Escrito com André Spicer, hoje reitor da Bayes Business School, em Londres, o livro saiu originalmente em inglês em 2015, com o título The Wellness Syndrome[2]. Em entrevista ao El País, Cederström resume o argumento central numa frase: a meditação e o wellness não servem para que você seja mais feliz, "mas para que seja mais produtivo"[1]. Quando saúde e felicidade viram imperativos morais, sustenta ele, o resultado tende a ser culpa, ansiedade e recolhimento sobre si mesmo, e não libertação.

A tese tem dez anos, mas o mercado que ela descreve ficou muito maior. Segundo o Global Wellness Institute, a economia global do bem-estar atingiu US$ 6,8 trilhões em 2024, o dobro do que era em 2013, com projeção de chegar a US$ 9,8 trilhões em 2029[3]. Há um detalhe revelador no mesmo relatório: o único segmento estagnado foi justamente o bem-estar no local de trabalho, que recuou 1,5% entre 2023 e 2024. Uma leitura possível, e aqui a interpretação é nossa, é que o imperativo não recuou. Ele apenas mudou de pagador, migrando do orçamento da empresa para o cartão de crédito do próprio indivíduo.

Da contracultura ao departamento de recursos humanos

Cederström localiza a origem do fenômeno na década de 1970. Nos anos 1960, o misticismo oriental servia para questionar uma sociedade percebida como rígida e conservadora. Na década seguinte, segundo ele, esse repertório foi reembalado: surgiram cursos que ensinavam práticas budistas não em busca de sabedoria, mas de eficácia no mercado de trabalho[1]. Empresas passaram a enviar funcionários a seminários de crescimento pessoal, e a busca por um "eu autêntico" ganhou uma versão profundamente individualizada.

O caso do mindfulness ilustra o percurso. O programa de redução de estresse baseado em atenção plena (MBSR) nasceu em 1979, em contexto clínico, na Universidade de Massachusetts, criado por Jon Kabat-Zinn. Quatro décadas depois, o professor Ronald Purser cunhou o termo McMindfulness para descrever a versão corporativa da prática: uma meditação retirada de seu contexto ético e social, que trata o estresse como problema de gestão individual e deixa intocadas as condições que o produzem[9].

Para Cederström, vivemos agora uma reedição daquela virada. Assim como as experiências de crescimento pessoal dos anos 1960 foram convertidas em ferramentas para formar empregados mais bem-sucedidos nos anos 1970, a linguagem atual do autocuidado estaria sendo reempacotada como técnica de desempenho.

A planilha como refúgio

A imagem mais sugestiva da entrevista é a da "planilha do bem-estar". Calorias, passos, horas de sono, marcadores hormonais: a vida traduzida em métricas. Cederström propõe uma explicação para o apelo dessa contabilidade. Num mundo em que é possível se esforçar muito, fazer tudo certo e não obter o resultado esperado, a academia e a dieta oferecem um pequeno universo onde causa e efeito ainda parecem funcionar. À medida que a promessa meritocrática se desgasta, argumenta ele, essas práticas passam a encenar o mundo como gostaríamos que ele fosse[1].

É aqui que o sociólogo recorre a Nietzsche e ao conceito de niilismo passivo: o retraimento diante de um mundo percebido como sem sentido. A rotina de exercícios cria uma sensação de ordem, permite silenciar o ruído externo e dá a impressão de que se está fazendo a coisa certa. Cederström é cuidadoso na ressalva: ir à academia não transforma ninguém em niilista. O problema aparece quando a lógica da responsabilidade individual é transposta para a política, e melhorar a sociedade passa a significar que cada um encontre sua voz interior, fique mais saudável e consiga um emprego melhor.

O mesmo raciocínio ajuda a entender a ambivalência em torno dos medicamentos para emagrecimento, como a semaglutida. Para uma corrente do wellness, voltada à otimização, suplementos e fármacos são apenas mais uma ferramenta de desempenho. Para outra, obcecada pela autenticidade, o resultado precisa ser conquistado com esforço e sofrimento, e o remédio soa como atalho ilegítimo. O fármaco, observa Cederström, fica exatamente na fronteira entre esses dois discursos.

Quando a felicidade vira dever

A pergunta filosófica de fundo é antiga. Em 1776, a declaração de independência dos Estados Unidos inscreveu a busca da felicidade entre os direitos inalienáveis. Em 1794, o revolucionário francês Saint-Just declarou à Convenção que a felicidade era uma ideia nova na Europa. Cederström situa nesse período iluminista o momento em que a felicidade passa a ser algo a perseguir, e sugere que é também então que as pessoas começam a se sentir miseráveis não apenas por serem infelizes, mas por fracassarem diante do novo ideal[1].

Vale lembrar que a tradição filosófica mais antiga pensava a questão de outro modo. A eudaimonia de Aristóteles, frequentemente traduzida como felicidade, se aproxima mais de florescimento: uma vida bem conduzida ao longo do tempo, ligada à ação, ao caráter e à convivência na cidade. Nada tem de estado permanente de euforia. Cederström retoma essa distinção ao separar uma vida satisfatória, com trabalho ou relações que tenham significado, da ideia de felicidade como êxtase contínuo. Seu exemplo é o luto: se a pressão social é superar a perda o quanto antes e voltar ao trabalho, algo essencial da experiência humana se perde.

O diagnóstico conversa com o do filósofo sul-coreano Byung-Chul Han, que em Sociedade do cansaço descreve o "sujeito de desempenho", aquele que se explora voluntariamente acreditando estar se realizando, e aponta o esgotamento e a depressão como sintomas dessa lógica[8]. Também dialoga com Happycracia, de Edgar Cabanas e Eva Illouz, que analisa como a ciência da felicidade se tornou instrumento para deslocar ao indivíduo responsabilidades que são coletivas[10].

Um ponto merece registro pela honestidade intelectual. Questionado sobre o aumento do consumo de antidepressivos, Cederström se recusa a oferecer uma explicação única e reconhece que o crescimento dos diagnósticos responde a múltiplos fatores. Sua crítica mira o ideal de felicidade como obrigação, não o tratamento de quem precisa dele.

O teste brasileiro

Se a tese de Cederström vale em algum lugar, o Brasil oferece um laboratório incômodo. Dados do Ministério da Previdência Social divulgados pelo g1 mostram que o INSS concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais em 2025, alta de 15,66% sobre os 472.328 de 2024 e quinto ano consecutivo de crescimento[5]. Ansiedade e episódios depressivos lideram as concessões, e as mulheres respondem por cerca de 63,5% dos casos. Os números se referem a afastamentos, não a pessoas, já que um mesmo trabalhador pode ser afastado mais de uma vez.

AFASTAMENTOS POR TRANSTORNOS MENTAIS · INSS 2024 472.328 2025 546.254 +15,66% em um ano · quinto ano seguido de alta
Fonte: Ministério da Previdência Social, benefícios por incapacidade temporária (CID-10, capítulo V), conforme divulgado em janeiro de 2026. Elaboração: O Tecido.

Um levantamento da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), com base em dados do INSS, acrescenta outro sinal: os afastamentos registrados como burnout saltaram de 1.760 em 2023 para 6.985 em 2025, o maior crescimento proporcional entre os diagnósticos analisados[6]. Desde a CID-11, a Organização Mundial da Saúde classifica o burnout como fenômeno ocupacional, ou seja, algo que nasce da relação com o trabalho e não de uma fragilidade de personalidade[11].

É nesse cenário que a regulação brasileira deu um passo relevante. A Portaria MTE nº 1.419/2024 incluiu os fatores de risco psicossocial no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais da NR-01. Depois de prorrogada pela Portaria nº 765/2025, a exigência entrou em vigor em 26 de maio de 2026[7]. A mudança tem um alcance filosófico que costuma passar despercebido: ela desloca a pergunta de "o que o trabalhador deve fazer para aguentar" para "o que, na organização, está adoecendo as pessoas". Sobrecarga, metas inatingíveis, assédio e falta de autonomia entram no inventário de riscos, ao lado de ruído e produtos químicos.

A evidência internacional sustenta a direção. Um estudo de William Fleming, do Wellbeing Research Centre da Universidade de Oxford, publicado no Industrial Relations Journal, analisou 46.336 trabalhadores de 233 organizações britânicas e não encontrou benefício mensurável em intervenções individuais como mindfulness, treinamento de resiliência, gestão de estresse e aplicativos de bem-estar[4]. A única exceção foi o voluntariado. A conclusão do autor é que mudanças organizacionais, como flexibilidade de jornada, práticas de gestão, recursos das equipes e desenho do trabalho, tendem a pesar mais.

O risco brasileiro, portanto, é previsível: empresas cumprirem a NR-01 com o mesmo cardápio que a norma pretende superar. Uma palestra sobre resiliência, um aplicativo de meditação, uma semana temática no calendário de recursos humanos. Documentado no relatório, o programa satisfaz a forma da exigência sem tocar na causa.

Quando a empresa oferece meditação para o estresse que ela mesma produz, o problema muda de endereço, mas não de origem.Análise · O Tecido

Bem-estar para quê?

Cederström abre o livro com Jean-Paul Sartre e o fecha com a escritora britânica Zadie Smith. Nos dois casos, o que o interessa é uma forma de alegria que nada tem a ver com cálculo: a entrega a algo fora de si, seja o conhecimento, a literatura, a política ou um projeto coletivo, intensa a ponto de valer o risco. Uma experiência, diz ele, tão distante de contar calorias quanto é possível imaginar[1].

A questão que o livro deixa não é se devemos correr, meditar ou dormir melhor. É a quem se credita o resultado. Um bem-estar que existe para devolver o corpo à linha de produção é um meio, e sua medida final é a produtividade. Um bem-estar que serve para viver com mais presença, inclusive no luto, na dúvida e na raiva política, é outra coisa. A filosofia sempre soube distinguir as duas. O desafio contemporâneo é que a planilha não sabe, e cada vez mais é ela que nos descreve.

Perguntas frequentes

O que é a "síndrome do bem-estar"?

É o conceito proposto por Carl Cederström e André Spicer no livro The Wellness Syndrome (Polity, 2015) para descrever o momento em que saúde e felicidade deixam de ser desejos e passam a funcionar como imperativos morais, gerando culpa, ansiedade e recolhimento individual.

Por que Cederström diz que o bem-estar virou ferramenta corporativa?

Segundo ele, práticas como a meditação foram absorvidas pelas empresas a partir dos anos 1970 e 1980 para tornar funcionários mais eficazes. Em entrevista ao El País, afirma que o wellness corporativo serve à produtividade, e não à felicidade.

Programas corporativos de bem-estar funcionam?

Um estudo de Oxford com 46.336 trabalhadores britânicos não encontrou benefício em intervenções individuais como mindfulness e aplicativos, com exceção do voluntariado. Mudanças organizacionais tendem a ter mais efeito. O estudo, porém, é transversal e não prova causalidade.

O que muda com a NR-01 para as empresas brasileiras?

Desde 26 de maio de 2026, os riscos psicossociais integram o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. As empresas precisam identificar e tratar causas organizacionais do adoecimento mental, como sobrecarga e metas abusivas.

O que significa niilismo passivo nesse debate?

Termo de origem nietzschiana, descreve o retraimento diante de um mundo sem sentido. Cederström o usa para indicar que rotinas de otimização do corpo podem funcionar como refúgio que afasta a pessoa das questões coletivas.

Referências

  1. ALPAÑÉS, Enrique. Carl Cederström, sociólogo: "El bienestar se ha convertido en una herramienta corporativa. No te hace más feliz, sino más productivo". El País, 30 set. 2026. Acessar
  2. CEDERSTRÖM, Carl; SPICER, André. The Wellness Syndrome. Cambridge: Polity Press, 2015.
  3. GLOBAL WELLNESS INSTITUTE. Global Wellness Economy Monitor 2025. Miami, nov. 2025.
  4. FLEMING, William J. Employee well-being outcomes from individual-level mental health interventions: cross-sectional evidence from the United Kingdom. Industrial Relations Journal, 2024.
  5. MINISTÉRIO DA PREVIDÊNCIA SOCIAL. Benefícios por incapacidade temporária por transtornos mentais e comportamentais, 2024 e 2025. Dados divulgados pelo g1, jan. 2026.
  6. ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE MEDICINA DO TRABALHO (ANAMT). Levantamento com dados oficiais do INSS sobre afastamentos por saúde mental, 2023 a 2025. Jan. 2026.
  7. MINISTÉRIO DO TRABALHO E EMPREGO. Portaria nº 1.419/2024 e Portaria nº 765/2025 (NR-01, riscos psicossociais).
  8. HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
  9. PURSER, Ronald. McMindfulness: How Mindfulness Became the New Capitalist Spirituality. Londres: Repeater, 2019.
  10. CABANAS, Edgar; ILLOUZ, Eva. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu, 2022.
  11. ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Burn-out an "occupational phenomenon": International Classification of Diseases (CID-11), 2019.