Política · América Latina · Opinião pública

Nota de atribuição: este texto parte de reportagem da Agence France-Presse publicada pelo jornal canadense Le Devoir, assinada por Clare Byrne, em Bogotá, com os escritórios da AFP em La Paz, Lima e Santiago. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; foi usado como ponto de partida e complementado com apuração própria. Leia a reportagem original no Le Devoir.

A onda conservadora que redesenhou o mapa político da América Latina entre 2023 e 2026 enfrenta agora o teste mais difícil de qualquer governo: a passagem da promessa para a entrega. Pesquisas recentes no Peru, no Chile, na Colômbia e na Argentina mostram presidentes eleitos com discurso de mão firme contra o crime, de reativação econômica e de alinhamento com Washington perdendo apoio em ritmo acelerado, em alguns casos poucas semanas depois da posse.[1]

O dado ganha peso especial no Brasil. No próximo domingo, 25 de outubro, o país decide em segundo turno entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL), numa disputa que a pesquisa Datafolha divulgada em 15 de outubro registra como empate técnico, com 51% a 49% dos votos válidos a favor de Flávio.[2] Seja quem for o vencedor, o retrato regional sugere que o próximo governo brasileiro vai encontrar um eleitor com pouca disposição para esperar.

O que mostram as pesquisas, país por país

Peru: queda de 17 pontos em três meses

Keiko Fujimori, que chegou à presidência depois de três derrotas em segundos turnos, assumiu o cargo no fim de julho. Segundo a série da Ipsos para o diário Perú21, a aprovação da presidente passou de 57% em agosto para 42% em setembro e 40% em outubro, com a desaprovação subindo de 25% para 49% no mesmo período.[6] O eleitorado peruano foi às urnas em abril e junho com uma demanda clara: conter a onda de extorsões que se espalhou pelo país. O diretor de pesquisas da Ipsos Peru, Guillermo Loli, disse à AFP que ninguém espera solução imediata para um problema antigo, mas que a população cobra ao menos sinais concretos de ação.[1]

Chile: o governo mais à direita desde 1990 no seu pior momento

José Antonio Kast tomou posse em março como o presidente chileno mais à direita desde o fim da ditadura de Pinochet. A pesquisa Cadem de 4 de outubro mostrou a aprovação de Kast em 32%, a menor desde o início do mandato, com desaprovação de 63%.[5] Segundo o Le Devoir, uma medição posterior do mesmo instituto registrou 30%.[1] A preocupação com o crime organizado continua no centro da agenda, e o governo associa parte da escalada da violência a facções estrangeiras.

Colômbia: desgaste já no primeiro mês

Abelardo de la Espriella, eleito numa disputa apertada e polarizada, começou o governo em meio à emergência provocada pelo terremoto de 10 de agosto. A primeira medição da AtlasIntel para a Bloomberg o colocou com 51,8% de aprovação e 43,2% de desaprovação; a rodada seguinte, segundo o portal La Silla Vacía, apontou recuo para 49%.[7] Milhares de pessoas já saíram às ruas contra o novo governo.

Argentina: Milei abaixo de 40% a um ano da reeleição

Javier Milei, no poder desde dezembro de 2023, chega à reta final do mandato com índices historicamente baixos. A pesquisa Latam Pulse da AtlasIntel com a Bloomberg, feita entre 2 e 7 de outubro, registrou 38,5% de aprovação contra 57,2% de desaprovação, um leve respiro depois da queda de julho.[8] A eleição presidencial argentina está marcada para 2027.

Bolívia, o caso-limite

Em nenhum lugar a impaciência se manifestou de forma tão dura quanto na Bolívia. Rodrigo Paz chegou ao poder em novembro de 2025 como alternativa moderada e favorável ao setor privado, encerrando quase duas décadas de hegemonia do Movimento ao Socialismo (MAS) em meio à pior crise econômica do país em 40 anos. Seis meses depois, a partir de 6 de maio, campesinos, a Central Obrera Boliviana e grupos ligados a Evo Morales passaram a bloquear estradas exigindo a renúncia do presidente, provocando falta de alimentos, combustíveis e remédios em grande parte do país.[9]

A escassez de combustível, que muitos bolivianos atribuem à incapacidade do novo governo de resolver o abastecimento, é também o sintoma de um modelo esgotado: a renda do gás que sustentou o crescimento da era Morales encolheu, e a conta chegou para quem assumiu depois. O caso boliviano mostra que a frustração não depende de o governo ser de direita dura. Paz se elegeu justamente como opção de centro, e mesmo assim enfrentou a mesma cobrança por resultados imediatos.

Uma impaciência que não escolhe ideologia

Para Michael Shifter, pesquisador do Inter-American Dialogue, em Washington, muitos desses governos alimentaram expectativas que dificilmente poderiam cumprir, diante de um eleitor que quer respostas rápidas para problemas estruturais. Ele ressalta que a rejeição tem pouca relação com o espectro político: Não tenho certeza de que seria diferente se esses governos fossem de esquerda, afirmou à AFP.[1]

O relógio da paciência pública ficou mais curto do que o calendário de qualquer reforma de segurança ou de economia.

A leitura é coerente com o que a região viveu na última década. A sucessão de governos derrotados nas urnas, de esquerda e de direita, consolidou um padrão de voto contra quem está no poder, que cientistas políticos chamam de antigovernismo ou voto de punição. A diferença, agora, é a velocidade. A chamada lua de mel, período em que o eleitor concede crédito ao recém-empossado, está encolhendo para semanas.

O pano de fundo comparativo reforça a tese. O AmericasBarometer, levantamento do LAPOP Lab, da Universidade Vanderbilt, publicado em setembro com mais de 25 mil entrevistas em 21 países, encontrou apoio baixo aos líderes de oito países que integram o chamado Escudo das Américas, aliança promovida pelo presidente americano Donald Trump: Argentina, Bolívia, Chile, República Dominicana, Equador, Guatemala, Panamá e Paraguai.[1] O AmericasBarometer é a principal série comparativa de opinião pública sobre democracia e governança no continente, com rodadas regulares desde 2004.[10]

A exceção salvadorenha e o seu preço

Há um governante que escapa à regra. Nayib Bukele, de El Salvador, aparece no AmericasBarometer com 83% de aprovação, sustentados pela queda drástica dos homicídios depois de uma ofensiva contra as gangues.[1] O resultado foi obtido sob um regime de exceção em vigor desde março de 2022, com mais de 90 mil pessoas presas, e organizações de direitos humanos denunciam detenções arbitrárias, mortes sob custódia e ausência de devido processo.

O modelo virou referência retórica para candidatos em toda a região, inclusive no Brasil. Shifter, porém, duvida que a receita possa ser copiada: El Salvador enfrentava gangues essencialmente locais, enquanto países como Chile, Peru, Colômbia e Brasil lidam com redes criminosas transnacionais, com ramificações financeiras, portuárias e prisionais que não se desmontam com encarceramento em massa.[1]

Contraponto

Queda de popularidade não é, necessariamente, fracasso de governo

Há bons motivos para ler esses números com cautela. A erosão da aprovação nos primeiros meses é um fenômeno conhecido em quase todas as democracias, e governos que adotam ajuste fiscal tendem a pagar o custo político antes de colher qualquer benefício. Medidas de segurança pública também levam tempo para aparecer nas estatísticas.

Também é preciso separar desaprovação de rejeição ao projeto. No Chile, a mesma pesquisa Cadem que registrou a queda de Kast mostrou que 57% dos entrevistados apoiam o princípio de não gastar recursos que o Estado não tem, uma das bandeiras do governo.[5] O aposentado chileno Leoncio Silva, ouvido pela AFP, resumiu o sentimento de parte do eleitorado: melhor esperar um ano antes de julgar.[1]

Por fim, os números vêm de institutos e métodos distintos, com amostras presenciais, telefônicas e digitais. Comparações diretas entre países devem ser evitadas; o que se pode afirmar com segurança é a direção da tendência dentro de cada série.

O que o quadro regional diz ao Brasil

O Brasil chega ao segundo turno com uma particularidade: aqui, quem está no poder é um governo de esquerda, e é ele que sente o desgaste. A pesquisa Datafolha de 6 e 7 de outubro mostrou 48% de aprovação e 49% de desaprovação ao presidente Lula, com 35% avaliando o governo como ótimo ou bom e 40% como ruim ou péssimo.[4] No primeiro turno, em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, resultado que as principais pesquisas não haviam antecipado.[3]

Lido à luz do que ocorre nos vizinhos, o cenário brasileiro reforça a tese de Shifter: o eleitor latino-americano de 2026 parece menos fiel a campos ideológicos do que à avaliação concreta de segurança, emprego e custo de vida. A experiência recente de Lima, Santiago, Bogotá e La Paz sugere que esse eleitor dá pouco tempo a quem chega.

Para o próximo governo brasileiro, qualquer que seja, a lição prática é dupla. Primeiro, promessas de resultado rápido em segurança pública cobram preço alto quando não se cumprem, sobretudo num país em que o crime organizado opera em escala nacional e internacional. Segundo, a governabilidade nos primeiros meses depende de mostrar ações visíveis, ainda que os efeitos estruturais demorem. Como observou Loli sobre o Peru, a sociedade aceita que problemas antigos não se resolvam de um dia para o outro, mas não aceita a ausência de sinais.

Perguntas frequentes

Quais presidentes de direita estão perdendo apoio na América Latina em 2026?

As pesquisas mais recentes mostram queda para Keiko Fujimori, no Peru (de 57% em agosto para 40% em outubro, segundo a Ipsos); José Antonio Kast, no Chile (32% na Cadem de 4 de outubro); Abelardo de la Espriella, na Colômbia (de 51,8% para 49% na AtlasIntel); e Javier Milei, na Argentina (38,5% na AtlasIntel de outubro). Na Bolívia, o presidente de centro-direita Rodrigo Paz enfrentou bloqueios que exigiam sua renúncia.

Por que a aprovação desses governos caiu tão rápido?

Esses presidentes foram eleitos prometendo resultados rápidos contra o crime e na economia. Problemas estruturais, como extorsão, crime organizado transnacional e crises fiscais, não se resolvem em meses, e o eleitor tem concedido cada vez menos tempo aos recém-empossados.

A queda de popularidade é um fenômeno ideológico?

Segundo o pesquisador Michael Shifter, do Inter-American Dialogue, não. Ele avalia que governos de esquerda enfrentariam a mesma cobrança. O padrão regional é de punição a quem governa, independentemente do campo político.

Qual a exceção a essa tendência?

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, com 83% de aprovação no AmericasBarometer, sustentada pela queda da criminalidade sob um regime de exceção criticado por organizações de direitos humanos. Especialistas duvidam que o modelo possa ser replicado em países que enfrentam redes criminosas transnacionais.

Como essa tendência se relaciona com a eleição brasileira de 2026?

O segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro, em 25 de outubro, ocorre num ambiente regional de baixa paciência com governos. No Brasil, o desgaste atinge o governo de esquerda em exercício, com aprovação de 48% e desaprovação de 49% (Datafolha, outubro). Quem vencer deve enfrentar a mesma cobrança por resultados rápidos.