Política · Análise Internacional O Tecido

Uma historiadora de Oxford compara o momento atual às vésperas de 1789, 1917 e 1933. Os indicadores, guerra entre Estados no maior número desde 1946, discursos de ruptura em Davos e o enfraquecimento das instituições do pós-guerra, sugerem que ela não está exagerando.

Antes de uma tempestade, sempre há sinais: o vento que muda, a maré que recua além do normal, nuvens que correm rápido demais no céu. É possível ignorá-los, insistir que a chuva fina é só uma passageira, até que seja tarde. Foi essa a metáfora usada pela historiadora canadense Margaret MacMillan, ex-diretora do St. Antony's College, em Oxford, para abrir um dos artigos de opinião mais comentados da semana no New York Times. Sua tese é direta: a ordem internacional erguida após 1945 está se desfazendo, e a maior parte do mundo, inclusive o Brasil, ainda não se comportou como se isso fosse verdade.

MacMillan recorre a outra imagem literária para reforçar o argumento: a peste de Camus, em que ratos mortos aparecem nas ruas de Oran e a cidade demora a admitir que algo grave está em curso. Hoje, escreve ela, os ratos estão por toda parte: recordes de temperatura quebrados ano após ano, dívida pública nas economias avançadas em níveis historicamente altos, cortes de ajuda humanitária e sanitária favorecendo a volta de doenças antes controladas, e uma inteligência artificial que avança sem regulação clara sobre empregos, segurança e, em cenários mais sombrios, sobre a própria estabilidade das sociedades.

O que os números dizem

A parte mais verificável do argumento vem de dados duros. Segundo o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Universidade Uppsala, na Suécia, referência mundial em estatísticas de violência organizada, 2025 registrou 65 conflitos envolvendo pelo menos um Estado, o maior número desde o início da série histórica, em 1946. Entre eles, oito eram conflitos interestatais, o dobro do ano anterior e também recorde da série. Treze conflitos foram classificados como guerras plenas (mais de mil mortes em combate no ano), o maior total desde 1992. As mortes por violência organizada somaram cerca de 244,6 mil pessoas, tornando 2025 o ano mais letal desde o genocídio de Ruanda, em 1994, puxado sobretudo pela violência contra civis no Sudão.

70 35 0 59 2023 61 2024 65 2025

Número de conflitos ativos envolvendo ao menos um Estado, por ano. Fonte: Uppsala Conflict Data Program (UCDP), Universidade Uppsala.

A guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, planejada para durar dias, atravessa o quinto ano. O Irã, usando drones baratos e produzidos em massa, passou a controlar, talvez de forma duradoura, um corredor crucial do comércio mundial, reduziu drasticamente os estoques americanos de mísseis e enredou o governo Trump num conflito de escolha própria. Para MacMillan, uma guerra mundial não é inevitável, mas o risco de um confronto catastrófico entre grandes potências está mais próximo do que em décadas.

"Sempre houve tantas pragas quanto guerras na história, e ainda assim pragas e guerras sempre pegam as pessoas de surpresa."

Três revoluções, e uma que não aconteceu

O argumento histórico do artigo é o mais interessante para quem pensa política comparada. MacMillan revisita quatro episódios. Às vésperas da Revolução Francesa, a monarquia estava praticamente falida, endividada pela guerra que ajudara a financiar do outro lado do Atlântico, com elites desconectadas de uma classe média em ascensão e camponeses à beira da fome. A corte de Luís XVI subestimou o quanto a insatisfação era profunda e achou que nada abalaria seu lugar. Estava errada. Em 1917, o czar Nicolau II insistiu que a Rússia ainda o adorava, mesmo diante de todas as evidências contrárias. Em 1933, elites alemãs convidaram Hitler ao poder por acreditar, erroneamente, que conseguiriam controlá-lo dentro do sistema existente.

O contraponto é britânico. Nos anos 1820, pressionado por uma nova classe média criada pela Revolução Industrial e excluída da política, o governo do Reino Unido, atento ao que acabara de acontecer na França, optou por se adaptar. O Great Reform Act de 1832 ampliou o direito ao voto o suficiente para funcionar como válvula de escape e evitar uma crise maior. A diferença entre os quatro casos, argumenta MacMillan, não foi a gravidade da pressão social, mas a disposição das elites de reconhecer a fragilidade do sistema a tempo.

Contraponto

Nem todo historiador aceita paralelos tão diretos entre crises revolucionárias do século XVIII e XX e a política internacional contemporânea. Críticos apontam que comparações desse tipo tendem a subestimar diferenças estruturais, como a existência de armas nucleares, instituições multilaterais permanentes e economias profundamente interdependentes, fatores que podem tanto acelerar quanto conter rupturas de forma distinta do que ocorreu em 1789, 1917 ou 1933.

O "divórcio" de Davos e a fratura ocidental

MacMillan cita o discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026, como um dos sintomas mais claros da ruptura. Carney descreveu o fim da Pax Americana como o fim de uma "ficção agradável" e afirmou que o mundo vive uma ruptura, não uma transição, num momento em que grandes potências passaram a usar a integração econômica como arma, tarifas como alavanca e infraestrutura financeira como coerção. O discurso, seguido por falas de tom semelhante de líderes da França e da Alemanha, expôs uma fratura inédita entre Estados Unidos e aliados históricos que, segundo analistas, dificilmente será revertida por completo, mesmo com uma eventual troca de governo em Washington.

Análises da CEBRI-Revista, publicação do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, convergem com esse diagnóstico ao descrever a passagem de uma "unipolaridade consentida" para uma "multipolaridade possível", na qual nenhuma potência detém domínio absoluto, mas um conjunto restrito de países segue moldando normas e instituições globais. Outro artigo da mesma publicação descreve diretamente a "erosão da ordem internacional" liderada pelos próprios Estados Unidos, um cenário que, do ponto de vista da diplomacia brasileira, é lido simultaneamente como risco e como oportunidade estratégica para ampliar a autonomia do país em fóruns como o G20 e os BRICS.

Se antes bastava enunciar valores para influenciar a ordem global, hoje é preciso somar forças com países de interesses afins, da América Latina à África e ao mundo árabe.

O que resta em pé, e o papel de potências médias

Apesar do tom sombrio, MacMillan resiste à tentação do fatalismo. Ela lembra que boa parte da arquitetura de cooperação internacional continua funcionando de forma quase invisível: tratados de aviação civil, regras da internet, acordos comerciais setoriais. Organizações como a ONU, a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial perderam recursos e centralidade, mas não deixaram de existir. E cita a mobilização de potências médias, Canadá, Austrália e Japão entre elas, tentando ocupar o espaço deixado pelo recuo americano.

É exatamente nesse ponto que a leitura brasileira do problema se torna relevante. O país integra um grupo relativamente pequeno de nações com capacidade diplomática para dialogar com todos os polos de poder simultaneamente, sem inimizades declaradas e com uma das maiores redes de embaixadas do mundo. Se a tese de MacMillan estiver correta, o desafio para Brasília não é escolher um lado numa disputa bipolar que já não existe mais, mas ajudar a desenhar as regras de um sistema ainda em formação, algo que exige investimento sustentado em multilateralismo, e não apenas discurso ocasional em cúpulas internacionais.

MacMillan encerra o texto original recusando o otimismo ingênuo do Dr. Pangloss de Voltaire, personagem que insiste que "tudo está bem" mesmo em meio ao desastre, mas também recusando o fatalismo. Para ela, o fim de uma ordem não precisa significar o fim da cooperação, desde que o mundo aceite que reconstruir instituições, como aconteceu depois de 1945, é um trabalho deliberado, difícil e urgente.

Nota de transparência editorial: Esta reportagem foi inspirada no artigo de opinião "A New World Order Is Coming. We Aren't Ready.", de Margaret MacMillan, publicado no The New York Times em 1º de setembro de 2026 (leia o original aqui). O texto acima é apuração e análise independentes de O Tecido, com dados e fontes adicionais, e não constitui tradução ou reprodução do artigo original.

Perguntas frequentes

O que Margaret MacMillan quer dizer com "nova ordem mundial"?

MacMillan argumenta que a arquitetura internacional construída após 1945, com instituições como a ONU e alianças como a Otan, está se desfazendo diante do recuo americano, do avanço de potências revisionistas e do aumento de conflitos armados, exigindo que países se preparem para um sistema mais instável e menos regulado.

Quantos conflitos armados foram registrados em 2025?

Segundo o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), 2025 teve 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado, o maior número desde o início da série histórica em 1946, incluindo 8 conflitos interestatais e 13 guerras plenas.

O que Mark Carney disse em Davos sobre a Pax Americana?

Em janeiro de 2026, o primeiro-ministro canadense Mark Carney declarou, no Fórum Econômico Mundial, que o mundo vive uma ruptura, e não uma transição, chamando a Pax Americana de "ficção agradável" que já não sustenta o sistema internacional.

Qual é o papel do Brasil nesse cenário de multipolaridade?

Análises da CEBRI-Revista apontam que o Brasil está entre os poucos países com capacidade diplomática de dialogar com todos os polos de poder, o que amplia sua margem de manobra estratégica, mas exige investimento sustentado em multilateralismo em vez de discurso pontual.

Uma guerra mundial é inevitável, segundo o artigo?

Não. MacMillan afirma que uma guerra mundial não é inevitável, mas que o risco de um conflito catastrófico entre grandes potências está mais próximo do que em décadas, dado o número recorde de conflitos e o enfraquecimento dos mecanismos de contenção diplomática.