Antes de uma tempestade, sempre há sinais: o vento que muda, a maré que recua além do normal, nuvens que correm rápido demais no céu. É possível ignorá-los, insistir que a chuva fina é só uma passageira, até que seja tarde. Foi essa a metáfora usada pela historiadora canadense Margaret MacMillan, ex-diretora do St. Antony's College, em Oxford, para abrir um dos artigos de opinião mais comentados da semana no New York Times. Sua tese é direta: a ordem internacional erguida após 1945 está se desfazendo, e a maior parte do mundo, inclusive o Brasil, ainda não se comportou como se isso fosse verdade.
MacMillan recorre a outra imagem literária para reforçar o argumento: a peste de Camus, em que ratos mortos aparecem nas ruas de Oran e a cidade demora a admitir que algo grave está em curso. Hoje, escreve ela, os ratos estão por toda parte: recordes de temperatura quebrados ano após ano, dívida pública nas economias avançadas em níveis historicamente altos, cortes de ajuda humanitária e sanitária favorecendo a volta de doenças antes controladas, e uma inteligência artificial que avança sem regulação clara sobre empregos, segurança e, em cenários mais sombrios, sobre a própria estabilidade das sociedades.
O que os números dizem
A parte mais verificável do argumento vem de dados duros. Segundo o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), da Universidade Uppsala, na Suécia, referência mundial em estatísticas de violência organizada, 2025 registrou 65 conflitos envolvendo pelo menos um Estado, o maior número desde o início da série histórica, em 1946. Entre eles, oito eram conflitos interestatais, o dobro do ano anterior e também recorde da série. Treze conflitos foram classificados como guerras plenas (mais de mil mortes em combate no ano), o maior total desde 1992. As mortes por violência organizada somaram cerca de 244,6 mil pessoas, tornando 2025 o ano mais letal desde o genocídio de Ruanda, em 1994, puxado sobretudo pela violência contra civis no Sudão.
Número de conflitos ativos envolvendo ao menos um Estado, por ano. Fonte: Uppsala Conflict Data Program (UCDP), Universidade Uppsala.
A guerra de Vladimir Putin na Ucrânia, planejada para durar dias, atravessa o quinto ano. O Irã, usando drones baratos e produzidos em massa, passou a controlar, talvez de forma duradoura, um corredor crucial do comércio mundial, reduziu drasticamente os estoques americanos de mísseis e enredou o governo Trump num conflito de escolha própria. Para MacMillan, uma guerra mundial não é inevitável, mas o risco de um confronto catastrófico entre grandes potências está mais próximo do que em décadas.
"Sempre houve tantas pragas quanto guerras na história, e ainda assim pragas e guerras sempre pegam as pessoas de surpresa."
Três revoluções, e uma que não aconteceu
O argumento histórico do artigo é o mais interessante para quem pensa política comparada. MacMillan revisita quatro episódios. Às vésperas da Revolução Francesa, a monarquia estava praticamente falida, endividada pela guerra que ajudara a financiar do outro lado do Atlântico, com elites desconectadas de uma classe média em ascensão e camponeses à beira da fome. A corte de Luís XVI subestimou o quanto a insatisfação era profunda e achou que nada abalaria seu lugar. Estava errada. Em 1917, o czar Nicolau II insistiu que a Rússia ainda o adorava, mesmo diante de todas as evidências contrárias. Em 1933, elites alemãs convidaram Hitler ao poder por acreditar, erroneamente, que conseguiriam controlá-lo dentro do sistema existente.
O contraponto é britânico. Nos anos 1820, pressionado por uma nova classe média criada pela Revolução Industrial e excluída da política, o governo do Reino Unido, atento ao que acabara de acontecer na França, optou por se adaptar. O Great Reform Act de 1832 ampliou o direito ao voto o suficiente para funcionar como válvula de escape e evitar uma crise maior. A diferença entre os quatro casos, argumenta MacMillan, não foi a gravidade da pressão social, mas a disposição das elites de reconhecer a fragilidade do sistema a tempo.
Nem todo historiador aceita paralelos tão diretos entre crises revolucionárias do século XVIII e XX e a política internacional contemporânea. Críticos apontam que comparações desse tipo tendem a subestimar diferenças estruturais, como a existência de armas nucleares, instituições multilaterais permanentes e economias profundamente interdependentes, fatores que podem tanto acelerar quanto conter rupturas de forma distinta do que ocorreu em 1789, 1917 ou 1933.
O "divórcio" de Davos e a fratura ocidental
MacMillan cita o discurso do primeiro-ministro canadense Mark Carney no Fórum Econômico Mundial de Davos, em janeiro de 2026, como um dos sintomas mais claros da ruptura. Carney descreveu o fim da Pax Americana como o fim de uma "ficção agradável" e afirmou que o mundo vive uma ruptura, não uma transição, num momento em que grandes potências passaram a usar a integração econômica como arma, tarifas como alavanca e infraestrutura financeira como coerção. O discurso, seguido por falas de tom semelhante de líderes da França e da Alemanha, expôs uma fratura inédita entre Estados Unidos e aliados históricos que, segundo analistas, dificilmente será revertida por completo, mesmo com uma eventual troca de governo em Washington.
Análises da CEBRI-Revista, publicação do Centro Brasileiro de Relações Internacionais, convergem com esse diagnóstico ao descrever a passagem de uma "unipolaridade consentida" para uma "multipolaridade possível", na qual nenhuma potência detém domínio absoluto, mas um conjunto restrito de países segue moldando normas e instituições globais. Outro artigo da mesma publicação descreve diretamente a "erosão da ordem internacional" liderada pelos próprios Estados Unidos, um cenário que, do ponto de vista da diplomacia brasileira, é lido simultaneamente como risco e como oportunidade estratégica para ampliar a autonomia do país em fóruns como o G20 e os BRICS.
Se antes bastava enunciar valores para influenciar a ordem global, hoje é preciso somar forças com países de interesses afins, da América Latina à África e ao mundo árabe.
O que resta em pé, e o papel de potências médias
Apesar do tom sombrio, MacMillan resiste à tentação do fatalismo. Ela lembra que boa parte da arquitetura de cooperação internacional continua funcionando de forma quase invisível: tratados de aviação civil, regras da internet, acordos comerciais setoriais. Organizações como a ONU, a Organização Mundial do Comércio e o Banco Mundial perderam recursos e centralidade, mas não deixaram de existir. E cita a mobilização de potências médias, Canadá, Austrália e Japão entre elas, tentando ocupar o espaço deixado pelo recuo americano.
É exatamente nesse ponto que a leitura brasileira do problema se torna relevante. O país integra um grupo relativamente pequeno de nações com capacidade diplomática para dialogar com todos os polos de poder simultaneamente, sem inimizades declaradas e com uma das maiores redes de embaixadas do mundo. Se a tese de MacMillan estiver correta, o desafio para Brasília não é escolher um lado numa disputa bipolar que já não existe mais, mas ajudar a desenhar as regras de um sistema ainda em formação, algo que exige investimento sustentado em multilateralismo, e não apenas discurso ocasional em cúpulas internacionais.
MacMillan encerra o texto original recusando o otimismo ingênuo do Dr. Pangloss de Voltaire, personagem que insiste que "tudo está bem" mesmo em meio ao desastre, mas também recusando o fatalismo. Para ela, o fim de uma ordem não precisa significar o fim da cooperação, desde que o mundo aceite que reconstruir instituições, como aconteceu depois de 1945, é um trabalho deliberado, difícil e urgente.
Perguntas frequentes
O que Margaret MacMillan quer dizer com "nova ordem mundial"?
MacMillan argumenta que a arquitetura internacional construída após 1945, com instituições como a ONU e alianças como a Otan, está se desfazendo diante do recuo americano, do avanço de potências revisionistas e do aumento de conflitos armados, exigindo que países se preparem para um sistema mais instável e menos regulado.
Quantos conflitos armados foram registrados em 2025?
Segundo o Uppsala Conflict Data Program (UCDP), 2025 teve 65 conflitos envolvendo ao menos um Estado, o maior número desde o início da série histórica em 1946, incluindo 8 conflitos interestatais e 13 guerras plenas.
O que Mark Carney disse em Davos sobre a Pax Americana?
Em janeiro de 2026, o primeiro-ministro canadense Mark Carney declarou, no Fórum Econômico Mundial, que o mundo vive uma ruptura, e não uma transição, chamando a Pax Americana de "ficção agradável" que já não sustenta o sistema internacional.
Qual é o papel do Brasil nesse cenário de multipolaridade?
Análises da CEBRI-Revista apontam que o Brasil está entre os poucos países com capacidade diplomática de dialogar com todos os polos de poder, o que amplia sua margem de manobra estratégica, mas exige investimento sustentado em multilateralismo em vez de discurso pontual.
Uma guerra mundial é inevitável, segundo o artigo?
Não. MacMillan afirma que uma guerra mundial não é inevitável, mas que o risco de um conflito catastrófico entre grandes potências está mais próximo do que em décadas, dado o número recorde de conflitos e o enfraquecimento dos mecanismos de contenção diplomática.