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Durante mais de duas décadas, a República Islâmica do Irã usou uma frase como escudo diplomático: a arma nuclear seria proibida pela religião. A formulação, atribuída ao aiatolá Ali Khamenei, sustentou a narrativa de que o programa atômico iraniano tinha fins exclusivamente civis, mesmo quando o enriquecimento de urânio avançava a níveis sem justificativa energética. Oito meses depois da morte de Khamenei, no primeiro dia da ofensiva de Estados Unidos e Israel contra o Irã, esse escudo começa a ser questionado dentro do próprio regime.
Segundo reportagem de Najmeh Bozorgmehr publicada em 19 de outubro pelo Financial Times, um número crescente de políticos, analistas e parlamentares alinhados à linha dura passou a defender publicamente que Teerã abandone a doutrina pacífica, deixe o Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) e busque a bomba1. O jornal britânico descreve a mudança como inédita num país onde, até pouco tempo, advogar pela arma equivalia a desafiar a autoridade do líder supremo.
O vácuo deixado pelo silêncio de Mojtaba
O ponto de inflexão é a sucessão. Mojtaba Khamenei, filho e herdeiro do aiatolá morto em 28 de fevereiro, assumiu o posto de líder supremo, mas permanece fora do alcance público desde então e não esclareceu se mantém a posição do pai sobre armas nucleares. É nesse silêncio que os setores mais radicais encontraram espaço para argumentar, de acordo com o FT1.
Ainda em março, o chanceler Abbas Araqchi tentou conter a especulação. Em declarações à Al Jazeera reproduzidas pela Reuters, afirmou que a postura iraniana contra a arma não deveria mudar de forma significativa, mas admitiu que uma fatwa depende do jurista que a emite e que ainda não podia avaliar as posições do novo líder2. A frase, pensada como tranquilizadora, acabou confirmando o essencial: a proibição religiosa não é um dado permanente, é uma decisão pessoal de quem ocupa o topo do sistema.
Os defensores da bomba exploram exatamente essa brecha. O porta-voz da Comissão de Segurança Nacional do Parlamento, Hassan Ghashghavi, disse no mês passado que o novo líder pode emitir uma nova decisão sobre o tema e que ninguém poderia impedi-lo, segundo o FT. Ele também defendeu que o Irã estabeleça um ciclo completo de dissuasão, capaz de interromper o padrão de negociações seguidas de guerra que marcou os últimos dois anos1.
"Uma necessidade mais importante que o pão." Davoud Modarresian, ativista próximo à linha dura, sobre a arma nuclear, citado pelo Financial Times
Uma fatwa mais elástica do que parecia
Para entender por que o debate ganhou força, é preciso olhar para a própria natureza da proibição. A versão oficial sustenta que Khamenei proibiu a produção, o armazenamento e o uso de armas nucleares em decreto religioso formulado no início dos anos 2000. Analistas ocidentais, porém, há anos apontam que o texto nunca apareceu nas compilações formais de pareceres jurídicos do aiatolá.
Uma análise do Atlantic Council sustenta que o líder evitou de forma deliberada atribuir caráter religioso à produção e à estocagem de armas, condenando com clareza apenas o uso, o que teria deixado margem para um programa militar3. O próprio Modarresian, segundo o FT, argumenta que o islamismo xiita é dinâmico o bastante para permitir que decisões religiosas evoluam diante de novas circunstâncias1.
O tabu já vinha se desgastando antes da guerra deste ano. Em outubro de 2024, 39 deputados enviaram carta ao Conselho Supremo de Segurança Nacional pedindo a revisão da doutrina de defesa para incluir armas nucleares, conforme registrou a Euronews. A então diretora de Inteligência Nacional dos EUA, Tulsi Gabbard, chegou a apontar a erosão de um tabu de décadas sobre a discussão pública do tema4.
A ofensiva no Parlamento contra o TNP
O debate não ficou restrito a artigos de opinião. Em 28 de março, o deputado Malek Shariati apresentou um projeto intitulado "Apoio aos Direitos Nucleares da Nação Iraniana", que prevê a retirada do país do tratado, segundo a Arms Control Association. Mesmo aprovado, o texto ainda teria de passar pelo Conselho dos Guardiões, órgão com poder de veto. Se a saída se concretizar, o Irã será o segundo país a abandonar o TNP, depois da Coreia do Norte em 20035.
A pressão se intensificou em setembro. No dia 28, um grupo de autoridades atuais e antigas, incluindo parlamentares, divulgou declaração pedindo a suspensão da cooperação no âmbito do tratado e o início do processo de retirada, de acordo com a Kurdistan246. No dia seguinte, o vice-presidente do Parlamento, Ali Nikzad, afirmou à agência Fars que o projeto já estava redigido e seria levado ao plenário em regime de urgência, conforme reportou o Report.az7.
Há, contudo, uma distinção importante que costuma se perder no noticiário. Sair do TNP não é o mesmo que construir uma bomba. Parte dos especialistas iranianos, segundo análise do Responsible Statecraft, defende que a retirada só faria sentido depois de obtida a arma, já que antes disso o gesto seria lido como sinal inequívoco de militarização e atrairia punição sem contrapartida8.
O urânio sob os escombros
A discussão doutrinária ganha peso concreto por causa do material que o Irã ainda detém. Segundo a AIEA, o país acumulava 440,9 quilos de urânio enriquecido a 60%, a um passo técnico curto do grau militar de 90%. O diretor-geral da agência, Rafael Grossi, estimou que cerca de 200 quilos estariam guardados em túneis no complexo de Isfahan, conforme a Associated Press9. Pelo critério da própria AIEA, cerca de 42 quilos a 60% bastariam teoricamente para uma arma.
O FT relata que esse estoque estaria sob os destroços das instalações bombardeadas e que Washington exige sua transferência para fora do país. Teerã resiste, mas autoridades sinalizaram disposição para discutir a diluição do material dentro de um acordo mais amplo, que incluiria o fim das sanções americanas e a liberação de fundos congelados no exterior, condições que a Casa Branca considera inaceitáveis1.
O impasse se arrasta desde a primavera. Depois do cessar-fogo de 8 de abril, negociadores dos dois países chegaram em maio a um entendimento preliminar para estender a trégua por 60 dias e abrir uma rodada específica sobre o programa nuclear, com o destino do urânio altamente enriquecido como primeiro item da pauta, segundo a PBS NewsHour10. Em setembro, as conversas seguiam de forma indireta, com mediação do Catar e do Paquistão, e a questão nuclear tratada por Washington como condição inegociável6.
A posição oficial não mudou. O governo iraniano continua afirmando que o programa é pacífico. O chefe da Organização de Energia Atômica, Mohammad Eslami, declarou no domingo que o projeto de gerar 20 mil megawatts de eletricidade nuclear seguiu adiante mesmo durante a guerra, segundo o FT1. O presidente Masoud Pezeshkian reiterou em setembro que armas nucleares são proibidas pela religião, e o secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional, Mohsen Rezaei, já argumentou que, se o país buscasse a bomba, sequer teria aderido ao TNP6.
Há resistência interna. Políticos pragmáticos e reformistas, que há anos defendem uma política externa menos confrontacional, veem a campanha aberta pela dissuasão nuclear com preocupação, de acordo com o FT1.
E há limites externos. A Rússia, principal parceira de Teerã entre as grandes potências, declarou não desejar a saída iraniana do tratado6. Analistas avaliam que a dependência diplomática de Moscou e Pequim continua sendo o maior obstáculo a uma ruptura formal8. Do outro lado, críticos do regime lembram que a ambiguidade sobre a fatwa sempre funcionou como instrumento de barganha, e que a retórica atual pode ser mais pressão negociadora do que decisão estratégica.
O que está em jogo para o Brasil
A crise toca o Brasil em três frentes. A primeira é diplomática. No dia do ataque, o Itamaraty divulgou a Nota à Imprensa nº 66, na qual condenou a ofensiva de Estados Unidos e Israel, lembrou que ela ocorreu em meio a negociações e apelou a todas as partes por respeito ao direito internacional e máxima contenção11. A posição, que rendeu agradecimento público do embaixador iraniano em Brasília, foi criticada por setores da oposição como alinhamento excessivo a Teerã.
A segunda é normativa. O Brasil é um dos casos mais citados de país que dominou o ciclo do combustível nuclear, com enriquecimento em escala industrial em Resende (RJ), e renunciou à arma por escolha jurídica. A Constituição de 1988 admite atividade nuclear em território nacional apenas para fins pacíficos (art. 21, XXIII), e o país integra o Tratado de Tlatelolco e o sistema bilateral de salvaguardas com a Argentina, gerido pela ABACC. Uma eventual saída iraniana do TNP enfraqueceria o regime que Brasília defende há décadas, embora a diplomacia brasileira também resista a ampliar inspeções e nunca tenha aderido ao Protocolo Adicional da AIEA, argumento que Teerã costuma usar a seu favor.
A conta chega ao campo
A terceira frente é econômica e tem endereço no agronegócio. O Brasil importa cerca de 85% dos fertilizantes que consome, e, no caso da ureia, um terço vem do Oriente Médio, com 41% do volume total passando pelo Estreito de Ormuz, segundo a Gazeta do Povo12. A participação direta do Irã é menor do que costuma se supor: dados oficiais citados pela Forbes Agro indicam que remessas iranianas responderam por menos de 2,5% das 7,7 milhões de toneladas importadas em 202513. O risco maior está na rota e no preço do gás, não no fornecedor. Uma escalada nuclear que reabra as hostilidades no Golfo atingiria em cheio o planejamento da safra 2026/27.
Três cenários para os próximos meses
Manutenção da ambiguidade. Mojtaba Khamenei segue em silêncio, o projeto de saída do TNP tramita sem votação e o tema continua servindo como pressão nas negociações indiretas. É o cenário mais provável enquanto houver canal aberto com Washington.
Ruptura formal. O Parlamento aprova a retirada e o Conselho dos Guardiões a confirma. O país perderia o pouco de supervisão internacional que resta e se exporia a novos ataques, além de constranger Rússia e China. A hipótese ganha força se as negociações colapsarem.
Acordo sobre o estoque. Teerã aceita diluir ou transferir o urânio em troca de alívio de sanções, e a nova liderança reafirma a proibição religiosa, possivelmente com outra redação. Exigiria concessões que nenhum dos lados admite hoje.
Em qualquer dos casos, algo já mudou de forma difícil de reverter. Por vinte anos, a discussão sobre a bomba iraniana se deu fora do Irã. Agora, ela acontece em público, dentro do Parlamento e da imprensa do país, e a palavra final está nas mãos de um líder que ninguém vê.
Perguntas frequentes
O Irã já tem uma arma nuclear?
Não há evidência pública de que o Irã tenha uma arma. O país detém urânio enriquecido a 60%, material que, em tese, poderia abastecer cerca de dez artefatos se enriquecido a 90%. Transformar esse estoque em arma exige etapas técnicas adicionais.
O que é a fatwa de Khamenei contra armas nucleares?
É uma proibição religiosa atribuída ao aiatolá Ali Khamenei, citada pelo governo iraniano desde 2003 como prova de que o programa é pacífico. Críticos apontam que o texto nunca foi formalizado nas compilações jurídicas do aiatolá e que condena com mais clareza o uso do que a produção.
Mojtaba Khamenei pode revogar a fatwa?
Sim. No sistema iraniano, uma fatwa vale pela autoridade do jurista que a emite. O próprio chanceler Abbas Araqchi reconheceu que a posição do novo líder ainda não foi expressa publicamente.
O Irã vai sair do TNP?
Ainda não. Há projeto no Parlamento desde março de 2026 e anúncio de tramitação urgente em setembro, mas a retirada depende de aprovação em plenário, aval do Conselho dos Guardiões e, na prática, da decisão do líder supremo. Rússia e China se opõem.
Como a crise afeta o Brasil?
Diplomaticamente, o Brasil condenou os ataques e defende o regime de não proliferação. Economicamente, a principal exposição está nos fertilizantes nitrogenados: o país importa a maior parte da ureia que consome, e uma fatia relevante passa pelo Estreito de Ormuz.
Este artigo foi produzido a partir de reportagem de Najmeh Bozorgmehr publicada pelo Financial Times em 19 de outubro de 2026, complementada por apuração própria em fontes independentes. O texto original não foi reproduzido nem traduzido. Créditos: Financial Times.
Ewerton Lopes — Curador Editorial