2 de setembro de 2026
Caderno Economia · O Tecido14 de julho de 2026

Mercado de crédito · Inteligência artificial

A montanha de dívida da inteligência artificial começa a testar a paciência dos investidores

Nvidia, SpaceX e Amazon captaram US$ 75 bilhões em poucas semanas e viram seus títulos perderem valor no mercado secundário. Enquanto isso, o Brasil disputa uma fatia do mesmo ciclo de investimento — só que financiado por debêntures, não por bonds em dólar.

O apetite de Wall Street pela dívida das gigantes de tecnologia começou a mostrar sinais de saturação. Nas últimas semanas, o mercado de títulos corporativos de grau de investimento teve dificuldade para absorver US$ 75 bilhões em emissões combinadas de Nvidia, SpaceX e Amazon — um volume que, segundo o Wall Street Journal, marcou uma virada em relação ao início do ano, quando os investidores recebiam de bom grado qualquer forma de exposição às chamadas hyperscalers, as gigantes de nuvem e inteligência artificial. Nvidia e SpaceX conseguiram captar a taxas relativamente baixas, mas seus papéis perderam valor rapidamente no mercado secundário; a Amazon, por sua vez, precisou pagar taxas incomumente altas para completar sua oferta.

O problema, segundo gestores ouvidos pelo jornal americano, não é a capacidade de pagamento dessas empresas — é a certeza de que muito mais dívida está por vir. "Todo mundo sabe que tem muito mais chegando, e acho que existe uma hesitação em entrar com tudo agora", disse Travis King, chefe de crédito corporativo de grau de investimento da Voya Investment Management, ao WSJ. "Todo mundo quer deixar espaço para a próxima operação."

De US$ 17 bilhões a US$ 244 bilhões em dois anos

A escala do movimento é o que mais chama atenção. Seis empresas que o mercado de crédito classifica como hyperscalers — Alphabet, Amazon, Meta, Oracle, Nvidia e SpaceX — já haviam emitido cerca de US$ 244 bilhões em bonds globalmente neste ano, segundo dados da Dealogic citados pelo WSJ, ante US$ 108 bilhões em todo o ano passado e apenas US$ 17 bilhões em 2024. Levantamentos independentes de mercado chegam a números semelhantes: segundo a Morningstar, a emissão de dívida ligada a IA por hyperscalers, desenvolvedoras de data centers e outras empresas do setor somou US$ 218 bilhões até 8 de julho, ante US$ 80,5 bilhões em todo o ano de 2025.

Parte da surpresa veio de dois nomes que historicamente recorriam pouco ao mercado de dívida. A Nvidia fez sua primeira emissão desde 2021, levantando US$ 25 bilhões em junho. Já a SpaceX estreou como emissora de bonds em 23 de junho, com uma operação de US$ 25 bilhões dividida em cinco tranches que atraiu quase US$ 89 bilhões em ordens — e, ainda assim, viu o spread de seus títulos de 10 anos subir quase meio ponto percentual desde então, segundo dados compilados pela gestora Neuberger Berman.

"Para nós, é tudo que a gente discute, e para eles é tipo: 'ah é, sabe, batemos o mercado de bonds.' Eles não necessariamente se importam se estão inundando nosso mercado."Ryan Jungk, Newfleet Asset Management, ao Wall Street Journal

O tamanho do financiamento reflete a escala do investimento que ele sustenta. Estimativas de gastos de capital das quatro maiores hyperscalers — Alphabet, Amazon, Microsoft e Meta — somavam cerca de US$ 650 bilhões para 2026 no início do ano; meses depois, a projeção já havia saltado para US$ 725 bilhões, segundo dados compilados pela gestora PIMCO e citados por veículos de mercado. Praticamente todo esse investimento consumiria o caixa operacional gerado pelas próprias empresas, o que empurra o financiamento cada vez mais para dívida — e, mais recentemente, também para emissão de ações. A Alphabet, por exemplo, anunciou em junho uma oferta de mais de US$ 80 bilhões em ações para ajudar a bancar seus investimentos em IA; irônico é que, em vez de aliviar a pressão sobre seus títulos, o mercado interpretou a medida como sinal de que a empresa poderia gastar — e tomar emprestado — ainda mais.

Oracle é o primeiro sinal de estresse

Se Nvidia, Amazon e Alphabet ainda contam com balanços robustos o bastante para absorver o ceticismo do mercado, a Oracle já sente o peso mais diretamente. Em 9 de julho, a agência S&P Global Ratings rebaixou o rating de crédito de longo prazo da empresa de "BBB" para "BBB-", deixando-a a apenas um degrau do chamado grau especulativo — o "junk bond". A agência citou o risco crescente do negócio e o enfraquecimento do fluxo de caixa: no ano fiscal de 2026, o investimento em infraestrutura da Oracle saltou 162%, para US$ 55,7 bilhões, deixando a empresa com fluxo de caixa livre negativo em US$ 23,7 bilhões, despite de ter gerado US$ 32 bilhões em caixa operacional. A S&P projeta que o déficit de caixa da Oracle pode chegar a US$ 42 bilhões no ano fiscal de 2027, com a dívida total já em torno de US$ 167 bilhões.

O caso ilustra a tensão que atravessa todo o setor: mesmo com uma carteira de contratos futuros de nuvem avaliada em US$ 638 bilhões — um indicador de demanda real —, o mercado de crédito está reagindo à velocidade com que o caixa sai da empresa, não à qualidade de seus contratos. Analistas da Wells Fargo Securities estimam que a emissão de dívida de grau de investimento ligada a tecnologia pode chegar a US$ 350 bilhões neste ano; o Barclays projeta que a emissão total do mercado corporativo americano — abrangendo todos os setores — deve somar US$ 2,46 trilhões em 2026, alta de 11,8% sobre 2025, com o financiamento de IA como o principal fator de risco de alta.

Duas leituras do mesmo fenômeno

É apenas o mercado se ajustando

Para parte dos gestores, a reação recente reflete apenas a digestão natural de um volume recorde de oferta — não dúvida sobre a solvência das emissoras. As hyperscalers têm balanços entre os mais sólidos do mercado, geram caixa em escala que poucas empresas industriais alcançam, e a alternativa de financiamento via emissão de ações (como fez a Alphabet) mostra que elas têm flexibilidade para recalibrar a estrutura de capital se os spreads continuarem se ampliando.

É o primeiro sinal de um ciclo mais arriscado

Outra leitura, reforçada pelo rebaixamento da Oracle, é que o mercado está precificando corretamente um risco que crescia silenciosamente: gastos de capital que superam em muito a geração de caixa, por vários anos seguidos, em uma corrida competitiva na qual nenhuma das empresas pode se dar ao luxo de desacelerar sem perder posição frente às rivais — o que tende a sustentar a pressão sobre o crédito mesmo que a demanda por IA se confirme.

O outro lado do Atlântico: o Brasil também financia a corrida da IA

Emquanto Wall Street debate o limite da paciência dos investidores em bonds denominados em dólar, o Brasil vive sua própria versão do mesmo ciclo de investimento — só que financiada, majoritariamente, por outro instrumento: as debêntures de infraestrutura. Segundo relatório da agência de classificação Moody's citado pelo Ministério das Comunicações, o país deve receber entre R$ 60 bilhões e R$ 100 bilhões em investimentos em data centers nos próximos quatro anos, consolidando a liderança na América Latina, onde concentra cerca de metade da capacidade instalada da região. Já o Global Data Center Outlook 2026 projeta que o Brasil deve atrair cerca de US$ 33 bilhões até 2030 apenas nesse segmento.

Os números por trás desses projetos ajudam a dimensionar o esforço de capital envolvido. Um estudo da FGV, divulgado em julho pelo Instituto Livre Mercado, calcula que um único data center de 100 MW voltado à IA demanda investimento total de R$ 25 bilhões, considerando infraestrutura e equipamentos computacionais. Em maio, a Ascenty anunciou a construção do primeiro complexo do país dedicado exclusivamente à inteligência artificial, em Sumaré (SP), com investimento total de R$ 30 bilhões — dos quais R$ 6 bilhões vêm da própria empresa e controladores, e R$ 24 bilhões devem ser aportados pelos clientes em supercomputadores.

"Cada pagamento realizado, vídeo assistido, operação bancária, interação com inteligência artificial, depende de uma infraestrutura física intensiva em capital."Clara Sodré, analista de fundos da XP, ao Espresso Outliers/InfoMoney

Diferentemente do modelo americano, em que as próprias hyperscalers emitem dívida corporativa direto ao mercado global, no Brasil o financiamento passa majoritariamente por veículos de infraestrutura regulados pelas leis 12.431/11 e 14.801/24, que disciplinam, respectivamente, as debêntures incentivadas e as debêntures de infraestrutura — instrumentos que reduzem o custo de capital ao isentar o investidor pessoa física de imposto de renda e permitir deduções fiscais ao emissor. O mercado brasileiro de debêntures também vive um momento de recordes: segundo a Anbima, o volume negociado no mercado secundário desses papéis somou R$ 179,4 bilhões nos cinco primeiros meses de 2026, alta de 32,7% sobre igual período de 2025, enquanto o setor de energia elétrica — insumo crítico para data centers — respondeu por 54% das captações do ano.

O gargalo que o Brasil ainda não resolveu

Apesar do apetite de capital, o país segue distante da escala americana: ocupa hoje a 12ª ou 14ª posição no ranking global de data centers, a depender da fonte, com cerca de 2% de participação no mercado mundial. Uma medida provisória que criava o Redata — regime especial de tributação para o setor, com renúncia fiscal de R$ 5,2 bilhões previstos no orçamento de 2026 — perdeu validade em fevereiro, deixando o setor sem o incentivo federal que muitos operadores consideravam decisivo para viabilizar novos projetos. Sem o regime, o ICMS responde por cerca de 64% da carga tributária que incide sobre esses empreendimentos, tornando o custo de implantação cerca de 34% mais caro do que nos Estados Unidos, segundo dados da Brasscom compilados pela Teletime.

O resultado é um paradoxo: o Brasil tem energia renovável abundante e barata — um dos principais atrativos citados por operadores do setor — mas ainda processa no exterior cerca de 60% da demanda digital nacional, gerando um déficit de US$ 7,1 bilhões na balança de serviços de telecomunicações e computação, segundo dados citados na justificativa do Projeto de Lei 278/2026, que tenta reviver o incentivo tributário no Congresso.

Para o investidor brasileiro, a conexão com o fenômeno americano tende a ser indireta — via fundos multimercado com exposição internacional, BDRs de hyperscalers ou ETFs como o IVVB11 — mas não deixa de existir. Se os spreads de crédito das big techs americanas continuarem se ampliando, o efeito mais provável não é uma crise de solvência, e sim um encarecimento gradual do capital disponível para o próprio boom de infraestrutura digital brasileiro, que depende, em parte, das mesmas empresas — Microsoft, Oracle e outras hyperscalers figuram entre os principais clientes dos data centers em construção no país — como âncoras contratuais dos projetos locais.

Nota de atribuição editorial: Esta reportagem foi inspirada no artigo "The Quarter-Trillion-Dollar Onslaught of AI Bonds Is Testing Investors' Limits", de Sam Goldfarb, publicado pelo The Wall Street Journal em 12 de julho de 2026, disponível em wsj.com . O texto original serviu como ponto de partida factual e não foi traduzido ou reproduzido; esta versão foi apurada de forma independente pela redação do O Tecido, com dados e fontes brasileiras e internacionais adicionais listados nas referências ao lado.

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