Em resumo
- Pesquisadores da Case Western Reserve University (EUA) descreveram, em camundongos, um mecanismo pelo qual a obesidade deixa uma marca duradoura nas células de gordura.
- O sinal inflamatório TGF-β1 altera o gene FBN1 e mantém alta a asprosina, hormônio que estimula a fome, mesmo depois que o animal volta ao peso normal.
- Bloquear a asprosina impediu o reganho nos animais. Não há, por enquanto, comprovação em humanos nem tratamento disponível.
- No Brasil, onde 25,7% dos adultos das capitais vivem com obesidade e as canetas de semaglutida ficam mais acessíveis, o reganho após a interrupção do tratamento tende a ganhar dimensão de saúde pública.
Quem já emagreceu e viu o ponteiro da balança voltar ao lugar de antes conhece a frustração, e a medicina conhece a estatística: o reganho de peso depois de dietas, programas de exercício ou tratamentos com remédios é a regra, não a exceção. Um estudo publicado na revista científica Cell Reports2 por pesquisadores da Case Western Reserve University e do Harrington Discovery Institute, em Cleveland, nos Estados Unidos, propõe uma peça nova para esse quebra-cabeça. Segundo o trabalho, um sinal inflamatório deixa uma espécie de marca nas células de gordura e mantém elevado um hormônio que estimula a fome, mesmo depois que o excesso de peso desaparece.
A pesquisa, repercutida nesta segunda-feira (5) pelo The Washington Post em reportagem de Daniel Wu1, foi feita em camundongos. Os próprios autores e os especialistas ouvidos pelo jornal americano reconhecem que ela não prova que o mesmo mecanismo opera em pessoas. Ainda assim, o estudo chega num momento em que a pergunta deixou de ser apenas acadêmica. Com as canetas de agonistas de GLP-1 cada vez mais acessíveis, inclusive no Brasil, entender por que o peso volta quando o tratamento acaba virou uma questão de saúde pública.
O que o estudo encontrou
O alvo da investigação é a asprosina, hormônio produzido pelo tecido adiposo e descrito em 2016 pelo grupo do geneticista Atul Chopra12, hoje professor da Case Western e autor sênior do novo trabalho. A asprosina é um fragmento da proteína fibrilina-1, codificada pelo gene FBN1, e age no hipotálamo, a região do cérebro que regula o apetite. A pergunta inicial da equipe era direta: o que faz os níveis desse hormônio subirem em organismos obesos?
A resposta apontou para o TGF-β1, uma molécula sinalizadora ligada à inflamação e que aparece elevada na obesidade. Segundo a descrição detalhada do estudo publicada pela revista alemã Pharmazeutische Zeitung4, células de gordura expostas ao TGF-β1 por quatro dias e depois mantidas por mais 14 dias sem a substância continuaram produzindo FBN1 e asprosina em excesso. O mesmo padrão apareceu nos animais: duas semanas depois de uma aplicação breve, o TGF-β1 já não era detectável, mas a asprosina no sangue seguia alta. A explicação proposta é epigenética. O sinal altera a estrutura da cromatina em torno do gene FBN1, que permanece programado para trabalhar em ritmo acelerado mesmo sem o estímulo original.
De acordo com o Washington Post, parte da descoberta nasceu de um descuido de laboratório: uma estudante deixou numa incubadora células já tratadas com TGF-β1 e, duas semanas depois, a equipe encontrou a asprosina ainda elevada1.
Os testes em animais trouxeram a consequência prática. Camundongos alimentados com dieta rica em gordura, que naturalmente eleva o TGF-β1 e a asprosina, mantiveram o hormônio alto mesmo depois de voltar ao peso normal. Os que haviam recebido TGF-β1 semanas antes engordaram mais rápido quando expostos de novo à dieta gordurosa, e esse efeito desapareceu quando a asprosina foi bloqueada4. Segundo o comunicado da universidade3, interromper a via em diferentes pontos, do gene que produz o hormônio ao receptor cerebral que responde a ele, evitou o reganho. O texto informa ainda que um segundo laboratório, liderado pelo endocrinologista Seth Field, reproduziu o achado central de persistência, e que bancos públicos de dados de camundongos e humanos ofereceram evidências de apoio.
Há um segundo achado, menos comentado e mais delicado. Segundo os autores, o mesmo sinal atravessa a placenta e programaria as células de gordura do feto, o que ajudaria a explicar a transmissão do risco de obesidade de mãe para filho3. Também essa hipótese, por ora, se apoia em modelos animais.
Uma memória que a ciência já vinha rastreando
A ideia de que o tecido adiposo "se lembra" da obesidade não nasceu agora. Em novembro de 2024, pesquisadores da ETH Zurich, na Suíça, publicaram na Nature5 um estudo que identificou alterações epigenéticas estáveis no núcleo das células de gordura de camundongos, mantidas mesmo após a perda de peso. Os animais com essas marcas recuperaram peso mais depressa quando voltaram a ter acesso a uma dieta gordurosa. O grupo também analisou biópsias de tecido adiposo de pessoas submetidas à cirurgia bariátrica e encontrou alterações persistentes na atividade de genes, embora, nos humanos, as marcas epigenéticas em si não tenham sido medidas.
O trabalho suíço deixou em aberto o elo entre essas marcas e o comportamento alimentar. O estudo de Cleveland tenta preencher parte dessa lacuna com uma rota concreta: inflamação, alteração epigenética, hormônio da fome persistente e reganho. Se confirmada em humanos, seria uma das primeiras vias moleculares específicas para aquilo que a literatura chama de memória obesogênica.
O efeito rebote das canetas
O interesse pelo tema acompanha a expansão dos medicamentos da classe dos agonistas de GLP-1, como a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e a tirzepatida (Mounjaro). Eles reduzem o apetite enquanto estão em uso, mas os dados sobre o que acontece depois da interrupção são consistentes. Na extensão do ensaio clínico STEP 1, publicada em 2022 na revista Diabetes, Obesity and Metabolism6, participantes que pararam de usar semaglutida recuperaram cerca de dois terços do peso perdido no prazo de um ano.
Em janeiro de 2026, uma revisão sistemática com metanálise conduzida pela Universidade de Oxford e publicada no BMJ7 reuniu 37 estudos com mais de 9 mil adultos que interromperam medicamentos para controle de peso. Em média, o peso voltou a subir 0,4 kg por mês, ritmo que levaria ao peso inicial em cerca de um ano e meio. Para semaglutida e tirzepatida, a velocidade foi o dobro: 0,8 kg por mês. O reganho também foi mais rápido do que após o fim de programas comportamentais de dieta e exercício, independentemente de quanto peso havia sido perdido.
Os pesquisadores de Oxford sugerem uma explicação comportamental: quem emagrece com remédio não precisa praticar conscientemente a mudança na alimentação e, por isso, encerra o tratamento com menos estratégias de manutenção. O grupo de Cleveland oferece uma leitura biológica complementar. Para Chopra, o medicamento suprime o apetite de forma temporária, mas não apaga a memória epigenética das células de gordura3. As duas hipóteses não se excluem, e o reganho provavelmente resulta de vários fatores somados, incluindo as adaptações hormonais e de gasto energético já bem documentadas depois do emagrecimento.
“Precisamos tratar a obesidade como uma condição que deixa cicatrizes biológicas duradouras.”
Atul Chopra, autor sênior do estudo, em comunicado da Case Western Reserve University
O que isso significa para o Brasil
A discussão tem peso particular no país. Segundo o Vigitel Brasil 2006-20248, inquérito do Ministério da Saúde, a obesidade entre adultos das capitais passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, e o excesso de peso chegou a 62,6%. Um em cada quatro adultos nas capitais brasileiras vive com obesidade.
Ao mesmo tempo, o mercado de agonistas de GLP-1 passa por uma mudança estrutural. A patente da semaglutida expirou no Brasil em 20 de março de 2026 e, em maio, a Anvisa registrou o Ozivy9, da EMS, primeira semaglutida sintética nacional. Em agosto, a agência aprovou também a versão genérica do produto e um similar do laboratório Germed. A expectativa do setor é de queda de preços, o que tende a ampliar o número de usuários.
É nesse ponto que o estudo de Cleveland ganha relevância para o debate brasileiro. Se a interrupção do tratamento leva ao reganho de forma previsível, a ampliação do acesso sem acompanhamento clínico continuado pode produzir um contingente expressivo de pessoas em ciclos de perda e recuperação de peso. Interrupções por custo, desabastecimento ou efeitos colaterais são frequentes, e no Brasil boa parte do consumo dessas canetas ocorre por desembolso direto. No início do ano, o Ministério da Saúde informou ao Conselho Federal de Farmácia10 que não havia previsão de oferta da semaglutida pelo SUS, embora acompanhe a evolução do mercado para futuras decisões de incorporação.
Para gestores públicos e operadoras de saúde, a implicação é concreta. Se a obesidade se comporta como condição crônica com memória biológica, os cálculos de custo-efetividade precisam considerar tratamento prolongado ou estratégias de manutenção, e não apenas ciclos curtos de emagrecimento.
O que muda para pacientes e médicos
Na prática clínica, nada muda de imediato. Não existe dosagem de asprosina disponível na rotina dos laboratórios nem medicamento que bloqueie essa via em humanos. Os autores dizem querer testar se terapias anti-asprosina poderiam ser usadas junto com os agonistas de GLP-1, ou depois deles, para evitar o rebote3. Isso depende de ensaios clínicos que ainda estão por vir.
A mensagem mais imediata é outra. Chopra afirmou, tanto ao jornal americano quanto no comunicado da universidade, que o reganho não deve ser lido como falha de disciplina1,3. Para quem trata obesidade, o estudo reforça pontos que já constam nas diretrizes: planejar a manutenção desde o início, tomar decisões sobre a interrupção de medicamentos com acompanhamento profissional e tratar a obesidade como doença crônica. Os pesquisadores suíços acrescentam um quarto ponto. Como hoje não é possível apagar essas marcas, prevenir a obesidade, sobretudo na infância e na juventude, segue sendo a estratégia mais eficaz5.
Perguntas frequentes
O que é a memória da obesidade?
É o nome dado a alterações duradouras nas células, sobretudo nas de gordura, que permanecem depois da perda de peso e favorecem a recuperação dos quilos perdidos. Estudos em camundongos e análises de tecido humano indicam que parte dessas alterações é epigenética, ou seja, muda o funcionamento dos genes sem alterar o DNA.
O que é asprosina?
A asprosina é um hormônio produzido pelo tecido adiposo, descrito em 2016, que atua no hipotálamo estimulando o apetite e também influencia a liberação de glicose pelo fígado. Ela deriva da proteína fibrilina-1, codificada pelo gene FBN1.
O estudo sobre asprosina e TGF-β1 vale para humanos?
Ainda não. Os experimentos foram feitos em camundongos e em células cultivadas. Os autores afirmam que o próximo passo é verificar se a mesma memória epigenética existe no tecido adiposo humano após o emagrecimento.
Por que as pessoas recuperam peso ao parar o Ozempic, o Wegovy ou o Mounjaro?
Esses medicamentos reduzem o apetite apenas enquanto estão em uso. Uma metanálise da Universidade de Oxford publicada no BMJ em 2026 mostrou reganho médio de 0,8 kg por mês após a interrupção de semaglutida e tirzepatida. Entre as explicações estão adaptações hormonais e metabólicas, a ausência de hábitos de manutenção e, segundo a nova pesquisa em camundongos, uma memória epigenética que mantém elevado o hormônio da fome.
Recuperar o peso perdido é falta de força de vontade?
As evidências indicam que não. O corpo reage à perda de peso com mecanismos biológicos que aumentam a fome e reduzem o gasto de energia. Os autores do estudo da Case Western afirmam que o reganho não deve ser interpretado como falha de disciplina, e sim como característica de uma condição crônica.
Já existe tratamento para apagar a memória da obesidade?
Não. Não há medicamento aprovado capaz de reverter essas marcas epigenéticas. Os pesquisadores pretendem testar terapias que bloqueiem a asprosina, possivelmente em conjunto ou após o uso de agonistas de GLP-1, mas isso depende de estudos clínicos futuros.
Qual é a situação da obesidade no Brasil?
Segundo o Vigitel 2006-2024, do Ministério da Saúde, a obesidade entre adultos das capitais brasileiras passou de 11,8% em 2006 para 25,7% em 2024, e o excesso de peso atingiu 62,6% dos adultos.
Ewerton Lopes — Curador Editorial