Em 1933, o físico suíço Fritz Zwicky observou algo estranho ao estudar um aglomerado de galáxias a 300 milhões de anos-luz da Terra: os corpos celestes se moviam depressa demais para permanecerem unidos apenas pela gravidade visível. Ele batizou a força invisível que os mantinha coesos de Dunkle Materie, a matéria escura. Quase um século depois, o Financial Times usou a mesma metáfora para descrever um mercado financeiro que poucas pessoas fora de Wall Street conseguem explicar, mas que sustenta silenciosamente todo o sistema financeiro global: o mercado de operações compromissadas, ou repo1.
O paralelo não é gratuito. Assim como a matéria escura mantém galáxias inteiras coesas sem que ninguém a veja diretamente, o repo é o mecanismo que permite que trilhões de dólares em títulos públicos circulem diariamente entre bancos, fundos e bancos centrais, garantindo liquidez ao sistema financeiro sem que o público em geral sequer saiba que ele existe.
O que é, afinal, o mercado de repo
Uma operação compromissada é, na prática, um empréstimo de curtíssimo prazo, muitas vezes de apenas um dia, garantido por um título público. Uma instituição financeira vende um título do Tesouro a outra, com o compromisso de recomprá-lo no dia seguinte por um valor ligeiramente maior. A diferença entre o preço de venda e o de recompra é, na prática, a taxa de juros do empréstimo. Para quem cede o dinheiro, é uma aplicação de curtíssimo prazo com baixo risco, já que está lastreada em dívida pública. Para quem toma o dinheiro, é uma forma barata e rápida de obter caixa sem precisar vender o título de fato.
Essa engenhosidade explica por que o mercado cresceu tanto. Segundo dados do Office of Financial Research (OFR), órgão ligado ao Tesouro dos Estados Unidos, o mercado americano de repo movimentou em média US$ 12,6 trilhões por dia em exposições no terceiro trimestre de 2025, somando as operações liquidadas em câmaras centrais, na plataforma tri-party do Bank of New York Mellon e no segmento bilateral não compensado centralmente, o mais opaco de todos2. Um estudo do Federal Reserve publicado em 2025 já havia estimado o tamanho bruto do mercado em US$ 11,9 trilhões em 2024, valor superior ao de estimativas anteriores justamente por incorporar, pela primeira vez, dados completos sobre corretoras registradas na SEC3.
A cola invisível do sistema financeiro global
A maior parte dessas operações, cerca de 69% no terceiro trimestre de 2025, é colateralizada por títulos do Tesouro americano2. Isso torna o repo peça central de um mecanismo que, segundo o próprio Federal Reserve, ajudou a transformar a dívida pública dos Estados Unidos em algo parecido com moeda: um ativo líquido, seguro e universalmente aceito como garantia, que reforçou o papel do dólar como âncora do sistema financeiro internacional mesmo depois do fim da conversibilidade em ouro, em 19714.
Essa mesma engrenagem, porém, já mostrou fragilidades. Em setembro de 2019, uma escassez repentina de caixa fez as taxas do repo americano dispararem para patamares muito acima da meta do Federal Reserve, forçando o banco central americano a intervir com operações emergenciais de injeção de liquidez. O episódio expôs como um mercado técnico e pouco visível pode transmitir choques rapidamente para o custo do crédito de toda a economia. Desde então, o Fed também passou a operar do lado oposto do balcão, por meio da linha de reverse repo overnight (ON RRP), que chegou a absorver mais de US$ 2 trilhões em liquidez excedente do sistema bancário americano em determinados períodos5.
O Brasil tem seu próprio repo
Guardadas as proporções, o Banco Central do Brasil (BCB) usa um instrumento equivalente havia décadas: as chamadas operações compromissadas. Regulamentadas pela Resolução CMN nº 3.339, de 2006, elas funcionam de forma semelhante à versão americana: o BCB vende títulos públicos a instituições financeiras com compromisso de recompra futura, retirando ou injetando liquidez no sistema para manter a taxa Selic efetiva alinhada à meta definida pelo Copom6. O Departamento de Operações do Mercado Aberto (Demab) realiza essas operações quase diariamente, em leilões que hoje giram, tipicamente, em torno de R$ 5 bilhões por rodada7.
A diferença em relação aos Estados Unidos está na escala relativa. O estoque de operações compromissadas do BCB ultrapassou R$ 1 trilhão ainda em 2020 e, em maio daquele ano, já representava mais de 18% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro, um patamar que pesquisadores associam ao acúmulo de juros sobre o próprio estoque ao longo dos anos, e não apenas à necessidade conjuntural de liquidez8. Em maio de 2026, a dívida bruta do governo geral, que incorpora parte desse mecanismo, chegou a 81,1% do PIB, o equivalente a R$ 10,6 trilhões, com o Banco Central detendo cerca de 18% do total da dívida mobiliária federal em sua carteira própria9.
Nem todos veem o crescimento do repo, ou de mercados adjacentes como o crédito privado, como sinal de alarme iminente. Em teleconferências de resultados no início de 2026, executivos de grandes bancos americanos minimizaram os riscos sistêmicos do crédito privado, hoje avaliado entre US$ 1,5 trilhão e US$ 2 trilhões globalmente pelo Conselho de Estabilidade Financeira (FSB)10. O presidente-executivo do JPMorgan classificou o setor como "ainda pequeno demais para representar ameaça significativa", enquanto autoridades do Tesouro americano afirmaram não ter identificado, até então, nenhum problema sistêmico relevante. Testes de estresse do próprio Fed indicaram que os grandes bancos americanos conseguiriam absorver mesmo um cenário severo de estresse no setor não bancário.
Por que reguladores continuam de olho
Apesar da visão mais tranquila de parte do mercado, reguladores seguem tratando o repo e suas conexões com o sistema financeiro paralelo como uma fonte relevante de risco. O FSB tem alertado para o crescimento acelerado do crédito privado e para as interligações pouco transparentes entre bancos, seguradoras e gestoras de fundos que financiam essas operações, muitas vezes por meio de linhas de crédito lastreadas justamente em ativos que circulam no mercado de repo10. Nos Estados Unidos, a Securities and Exchange Commission (SEC) determinou que a compensação centralizada de operações de repo e reverse repo com títulos do Tesouro se torne obrigatória para a maior parte do mercado até meados de 2027, numa tentativa de reduzir a opacidade do segmento bilateral não compensado, hoje o maior e menos visível de todos11.
No Brasil, o desafio é outro: o uso extensivo das operações compromissadas como ferramenta permanente de política monetária, e não apenas emergencial, tem levantado debates sobre a sustentabilidade fiscal de longo prazo, já que os juros pagos sobre esse estoque se somam à conta de juros da dívida pública, hoje equivalente a 8,48% do PIB em 12 meses encerrados em maio de 20269.
Perguntas frequentes
O que é uma operação de repo?
É um empréstimo de curtíssimo prazo, geralmente de um dia, no qual uma instituição vende um título público a outra com o compromisso de recomprá-lo por um valor um pouco maior. A diferença entre os dois preços funciona como juro do empréstimo.
Qual é o tamanho do mercado de repo nos Estados Unidos?
Segundo o Office of Financial Research, o mercado americano de repo movimentou em média US$ 12,6 trilhões por dia em exposições no terceiro trimestre de 2025, considerando todos os segmentos, incluindo o bilateral não compensado centralmente.
O Brasil tem um mercado equivalente ao repo americano?
Sim. São as chamadas operações compromissadas do Banco Central, usadas para ajustar a liquidez do sistema financeiro e manter a taxa Selic alinhada à meta definida pelo Copom. O estoque desse instrumento ultrapassa R$ 1 trilhão desde 2020.
Por que o mercado de repo é considerado arriscado?
Porque conecta bancos centrais, bancos comerciais, fundos e, cada vez mais, gestoras de crédito privado, por meio de operações de curtíssimo prazo e alta alavancagem. Um choque de liquidez, como o ocorrido nos Estados Unidos em setembro de 2019, pode se espalhar rapidamente pelo sistema.
Nesta reportagem
Em números
- US$ 12,6 tri
- Exposição média diária do mercado de repo dos EUA no 3º trimestre de 2025 (OFR).
- US$ 11,9 tri
- Tamanho bruto estimado do mercado americano de repo em 2024 (Federal Reserve).
- 69,4%
- Parcela das operações de repo nos EUA colateralizada por títulos do Tesouro (3º tri. 2025).
- R$ 1 tri+
- Estoque de operações compromissadas do Banco Central do Brasil, patamar superado desde 2020.
- US$ 1,5–2 tri
- Tamanho estimado do mercado global de crédito privado ao final de 2024 (FSB).
Linha do tempo
- 1933Fritz Zwicky cunha o termo "matéria escura" ao estudar um aglomerado de galáxias.
- 1971Nixon encerra a conversibilidade do dólar em ouro, elevando o papel dos títulos do Tesouro como colateral do sistema financeiro.
- Set. 2019Escassez súbita de caixa faz as taxas de repo nos EUA dispararem, forçando intervenção emergencial do Fed.
- 2020Estoque de operações compromissadas do BCB ultrapassa R$ 1 trilhão em meio à pandemia.
- 2025Fed e OFR publicam as estimativas mais completas já feitas sobre o tamanho real do mercado americano de repo.
- 2026–2027SEC exige compensação centralizada da maior parte das operações de repo com títulos do Tesouro nos EUA.
Glossário
- Repo
- Abreviação de repurchase agreement: venda de um título com compromisso de recompra futura, usada como forma de empréstimo de curto prazo.
- Reverse repo
- A mesma operação vista do lado de quem compra o título e se compromete a revendê-lo depois.
- Colateral
- Ativo, geralmente um título público, dado em garantia numa operação financeira.
- Compensação centralizada (clearing)
- Processo em que uma câmara atua como contraparte central, reduzindo o risco de que uma das partes não cumpra o combinado.
- Operações compromissadas
- Nome dado no Brasil ao equivalente do repo, usado pelo Banco Central para gerir a liquidez e a taxa Selic.
- Crédito privado
- Empréstimos concedidos por gestoras e fundos não bancários a empresas, fora dos mercados públicos de dívida.
Referências
- Wigglesworth, R. "The repo market is the 'dark matter' of finance: powerful and perilous". Financial Times, 5 set. 2026. Disponível em: ft.com.
- Office of Financial Research (OFR). "Sizing the U.S. Repo Market". Dez. 2025.
- Hempel, S.; Kahn, R. J.; Shephard, J. "The $12 Trillion US Repo Market: Evidence from a Novel Panel of Intermediaries". FEDS Notes, Federal Reserve, jul. 2025.
- Federal Reserve Bank of New York. "Repo Market Structure and Monetary Policy Implementation". 2026.
- Federal Reserve Bank of New York. FAQs: Reverse Repurchase Agreement Operations.
- Banco Central do Brasil. Material didático sobre operações compromissadas; Resolução CMN nº 3.339/2006.
- Atlas Público. Comunicados do Demab/BCB sobre operações compromissadas, 2026.
- Barbosa, F. F.; Terra, F. "Operações compromissadas do Banco Central do Brasil: uma análise do período 2002-2020". Economia e Sociedade, 2025.
- Gazeta Mercantil. "Dívida pública deve fechar 2026 em 96,5% do PIB e bater 100% em 2027, projeta FMI". 2026.
- Financial Stability Board (FSB). "Report on Vulnerabilities in Private Credit". Maio 2026.
- U.S. Securities and Exchange Commission (SEC). Treasury Clearing Implementation.