Ciência · Redes sociais · Comportamento humano

Pense nas pessoas que você chamaria de amigas. Agora considere a hipótese, sustentada por dados, de que cerca de quatro em cada dez delas não colocariam o seu nome na lista equivalente. A afirmação é do físico teórico galego Anxo Sánchez, catedrático de Matemática Aplicada da Universidade Carlos III de Madri, em entrevista ao jornalista Manuel Jabois, do EL PAÍS1, publicada nesta quinta-feira (15). Sánchez integra o Grupo Interdisciplinar de Sistemas Complexos (GISC) e passou os últimos anos aplicando ferramentas da física e da estatística a uma pergunta antiga: como, afinal, as pessoas se conectam umas às outras.

A conversa percorre amizade, amor, boatos, polarização e inteligência artificial. O que dá unidade ao conjunto é uma ideia simples e pouco romântica: relações humanas obedecem a restrições de recursos, e essas restrições deixam rastros mensuráveis.

O que a ciência chama de amizade

Para Sánchez, a amizade pode ser descrita por duas variáveis. A primeira é a dedicação: cada pessoa tem um estoque finito de tempo e de capacidade cognitiva para a vida social e o distribui entre os outros. Saber a data de aniversário de alguém, lembrar do que essa pessoa gosta de comer ou que filmes prefere são formas de investimento. A segunda é a expectativa, aquilo que esperamos receber de volta. Quanto mais recursos dedicamos a alguém, mais amigos somos dessa pessoa; de um desconhecido, às vezes sabemos apenas o nome.

"La amistad son dos cosas: dedicación y expectativas."

Anxo Sánchez, em entrevista ao EL PAÍS (A amizade são duas coisas: dedicação e expectativas)

A definição tem uma consequência direta. Se os recursos são limitados, ganhar um amigo próximo costuma significar perder outro pelo caminho. Sánchez usa a imagem de um "átomo social": quando falta um elétron, isto é, quando um amigo se muda para longe ou sai de cena, o tempo e a atenção liberados tendem a ser realocados para outra pessoa.

Só 60% das amizades são recíprocas

O número que dá título à entrevista tem base empírica. Em um estudo longitudinal publicado na Scientific Reports2, assinado por Sánchez, José A. Cuesta e pelo antropólogo britânico Robin Dunbar, entre outros, os pesquisadores aplicaram cinco rodadas de questionários a adolescentes ao longo de dois anos letivos. A reciprocidade das relações ficou praticamente constante, em torno de 60%, influenciada sobretudo por estar na mesma turma e pelo fato de os colegas serem do mesmo gênero.

O resultado converge com outro trabalho bastante citado. Pesquisadores do MIT e da Universidade de Tel Aviv3 pediram a 84 universitários que avaliassem cada colega de turma em uma escala de proximidade. Das 775 amizades declaradas, apenas 53% foram correspondidas. Os autores sugerem que temos dificuldade de perceber a direção dos laços porque a possibilidade de uma amizade não correspondida desafia a autoimagem.

Reciprocidade da amizade em dois estudos Barras horizontais: amizades recíprocas representam 60 por cento no estudo com adolescentes espanhóis e 53 por cento no estudo com universitários do MIT e Tel Aviv. PARCELA DE AMIZADES DECLARADAS QUE SÃO CORRESPONDIDAS Adolescentes, Espanha (Sci. Reports) ≈ 60% Universitários, MIT e Tel Aviv (PLOS ONE) 53%
Fonte: Escribano et al., Scientific Reports (2023); Almaatouq et al., PLOS ONE (2016). Elaboração: O Tecido.

A média esconde perfis muito diferentes. Segundo Sánchez, há estudantes com apenas 10% de reciprocidade. Isso pode indicar duas situações opostas: alunos muito populares, que simplesmente não conseguem corresponder a todos que os apontam como amigos, ou alunos mal posicionados na rede. O sinal de alarme, diz ele, é o jovem que nomeia muitos colegas como amigos e quase não é nomeado por ninguém.

Amigos em comum pesam mais do que afinidades

Uma das afirmações menos intuitivas da entrevista é que concordar em muitas coisas importa menos, para iniciar uma amizade, do que ter amigos em comum. O dado vem de um estudo publicado na revista PNAS4 que analisou 13 escolas secundárias espanholas, mais de 3.000 estudantes e cerca de 60 mil relações positivas e negativas. Sabendo apenas quantos amigos e quantos inimigos duas pessoas compartilham, o modelo previu com cerca de 90% de acerto se elas se dão bem ou mal.

Os autores descrevem um mecanismo em duas etapas: traços individuais funcionam como semente das primeiras relações, mas o crescimento da rede passa a ser dominado pela chamada influência triádica, os amigos dos amigos. Na entrevista, Sánchez acrescenta uma observação que qualquer pessoa reconhece: todo grupo de amigos abriga alguma antipatia, e as pessoas toleram desafetos para não abrir mão do pertencimento.

As camadas de Dunbar e o lugar do amor

O pano de fundo teórico é o trabalho de Robin Dunbar, da Universidade de Oxford, que estimou em cerca de 150 o número de relações estáveis que um ser humano consegue manter. Estudos posteriores, incluindo uma análise de registros de chamadas telefônicas5, reforçaram a ideia de que essas relações se organizam em camadas concêntricas de aproximadamente 5, 15, 50 e 150 pessoas, com intimidade decrescente à medida que o círculo se amplia.

Camadas de Dunbar Quatro círculos concêntricos representando aproximadamente 5, 15, 50 e 150 relações, da mais íntima para a mais distante. 5 15 50 150 5 · núcleo íntimo, apoio em crises 15 · amigos próximos 50 · bons amigos 150 · rede estável Valores cumulativos e aproximados
As camadas são médias. Há quem mantenha cerca de 100 relações estáveis e quem chegue a 300, mas não a milhares. Elaboração: O Tecido, com base em Dunbar e colaboradores.

É nesse ponto que Sánchez faz a provocação mais filosófica da conversa: ele diz não enxergar diferença de natureza entre amor e amizade. Na camada mais interna, de uma ou duas pessoas, costumam estar o parceiro amoroso e talvez um amigo muito próximo. A diferença seria de grau de investimento, com uma exceção relevante: em relações monogâmicas, o sexo funciona como um recurso exclusivo. Daí, segundo ele, o ciúme que a pareja desperta e que a amizade raramente provoca.

Pertencer pesa mais do que ter razão

A mesma lógica ajuda a entender por que mudamos de opinião. Para Sánchez, é mais provável que alguém reveja uma posição porque as pessoas queridas mudaram do que porque ouviu um bom argumento. O sentimento de pertencimento é central para primatas sociais, e sustentar uma opinião contra o grupo inteiro exige coragem ou hábito de viver isolado. Pelo mesmo mecanismo, uma pessoa pode aderir a um boato apenas porque todos ao redor parecem acreditar nele.

O físico chama atenção para um detalhe técnico das teorias conspiratórias: do ponto de vista dos sistemas complexos, elas são estruturas extremamente robustas, porque sempre oferecem uma explicação para o dado que as contradiz. Qualquer evidência pode ser descartada como fabricada. Para reduzir a hostilidade entre grupos, sua recomendação é começar pelo que se tem em comum, como uma conversa sobre futebol em vez de política, porque é a interação social que devolve ao outro a condição de pessoa.

Na entrevista, Sánchez também atribui o crescimento da extrema direita a uma espécie de preguiça intelectual diante de explicações simples, ressalvando que muita gente não tem tempo para checar informações. Vale registrar que se trata de uma leitura pessoal do entrevistado, não de um resultado de suas pesquisas. A ciência política costuma apontar um conjunto de fatores para o fenômeno, entre eles insegurança econômica, mudanças culturais e a dinâmica das plataformas digitais.

A escola como laboratório: o caso brasileiro

A aplicação mais concreta do trabalho de Sánchez está nas escolas. Com questionários em que os alunos apontam de quem gostam e de quem não gostam, sua equipe mapeia a rede de cada turma. Entre os vários indicadores testados, o mais eficaz para identificar possíveis alvos de bullying foi a comparação entre quantos colegas dizem gostar de um aluno e quantos dizem o contrário. A informação é repassada ao orientador escolar como ponto de partida, não como diagnóstico.

No Brasil, o tema tem urgência estatística. A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, divulgada pelo IBGE em março6, mostrou que o percentual de estudantes de 13 a 17 anos que relatam bullying recorrente subiu de 23,0% em 2019 para 27,2% em 2024. Considerando qualquer episódio, quase 40% dizem já ter sido alvo, e menos da metade dos alunos (43,2%) estuda em escolas com iniciativas sistemáticas de prevenção.

A mesma pesquisa traz um indicador que conversa diretamente com a ciência das redes: 4,5% dos estudantes afirmaram não ter nenhum amigo próximo, meio ponto percentual acima de 2019. Segundo o IBGE Educa, a ausência de amigos próximos aumenta com a idade, passando de 3,9% entre 13 e 15 anos para 5,5% entre 16 e 17 anos. São números agregados; o tipo de mapeamento feito em Madri permitiria enxergar, turma a turma, quem está nas bordas da rede antes que o isolamento vire estatística.

A IA que escreve artigos e dispensa o "obrigado"

O trecho que mais deve circular trata de inteligência artificial. Sánchez conta que entregou dados anônimos de uma escola ao Claude, modelo da Anthropic, e obteve dois manuscritos científicos em uma semana, um deles sobre o efeito da repetência nas relações entre alunos. O problema, segundo ele, é que a ferramenta produz mais rápido do que ele consegue revisar: o artigo não pode ser publicado enquanto ele não entender e verificar cada passo, e por isso decidiu desacelerar.

O físico aponta dois riscos. O primeiro é institucional: num sistema que premia a quantidade de publicações, orientar doutorandos pode parecer menos vantajoso do que delegar a uma máquina que responde em horas o que um estudante levaria um mês para entregar. O segundo, dito com ironia, é a sensação de que o próprio pesquisador começa a sobrar. Ele também descreve a relação entre pessoas e IA como assimétrica, e defende mais estudos sobre seus efeitos emocionais, sobretudo entre pessoas solitárias.

Por fim, Sánchez diz ter se disciplinado a não agradecer nem pedir "por favor" à IA, com o argumento de que cada palavra consome processamento sem que haja alguém do outro lado. Na mesma passagem, ele menciona que a Anthropic estaria banindo usuários por maltratar o modelo. A informação pública disponível é diferente: em agosto de 2025, a empresa passou a permitir que alguns modelos encerrem conversas em casos raros e extremos de abuso persistente7, como parte de uma pesquisa exploratória sobre o chamado bem-estar de modelos. O usuário pode abrir uma nova conversa normalmente, e a função não é acionada quando há risco de a pessoa ferir a si mesma ou a outros.

Perguntas frequentes

É verdade que cerca de 40% dos nossos amigos não nos consideram amigos?

Em média, sim, segundo os estudos disponíveis. Pesquisas com adolescentes espanhóis encontraram reciprocidade estável em torno de 60%, e um estudo com universitários do MIT e de Tel Aviv encontrou 53%. Isso não indica antipatia: muitas vezes o outro lado apenas vê a relação como mais distante.

Quantos amigos uma pessoa consegue manter?

Segundo Robin Dunbar, cerca de 150 relações estáveis, organizadas em camadas de aproximadamente 5, 15, 50 e 150 pessoas. O número varia de pessoa para pessoa, mas fica na casa das centenas, nunca dos milhares.

Por que amigos em comum importam mais do que gostos parecidos?

Um estudo na PNAS com mais de 3.000 alunos mostrou que o número de amigos e inimigos compartilhados prevê com cerca de 90% de acerto se duas pessoas se dão bem. Afinidades ajudam a iniciar relações, mas a rede cresce pela influência dos amigos dos amigos.

Como a análise de redes ajuda a identificar bullying nas escolas?

Questionários sobre de quem cada aluno gosta e não gosta permitem mapear a turma. A comparação entre apreço e rejeição recebidos foi o melhor indicador de risco encontrado pelo grupo de Anxo Sánchez. O dado orienta a equipe pedagógica, sem substituir a avaliação humana.

A inteligência artificial pode substituir pesquisadores?

Ferramentas de IA já analisam dados e redigem rascunhos de artigos em horas, mas a verificação continua humana. Sánchez afirma que não publicará os manuscritos gerados sem compreendê-los, e alerta que a pressão por produtividade pode desestimular a formação de novos cientistas.

Nota de atribuição: este texto foi produzido a partir da entrevista "Anxo Sánchez, científico: El 40% de los amigos que dices que lo son no se consideran amigos tuyos", de Manuel Jabois, publicada pelo EL PAÍS em 15 de outubro de 2026, complementada por pesquisa independente em estudos científicos e dados do IBGE. Não se trata de tradução nem de reprodução do original.