2 de setembro de 2026
O TECIDOCaderno Ciência · Tecnologia & Cognição
25 de Junho de 2026
Sistemas de recomendação

A máquina de querer mais: como o algoritmo do TikTok redesenha a atenção e o que a ciência já sabe sobre isso

Com 91 milhões de usuários no Brasil, o TikTok opera o sistema de recomendação mais sofisticado do consumo digital em massa. Pesquisadores mapeiam os mecanismos neurológicos, cognitivos e sociais que tornam o scroll infinito tão difícil de interromper — e o que essa arquitetura faz com a percepção de mundo de quem a usa.

Redação O Tecido
Caderno Ciência
⏱ ~9 min de leituraPublicado em: 25 de Junho, 2026

Existe uma economia invisível que funciona enquanto você assiste a um vídeo de quinze segundos. A cada instante — a cada pausa do polegar, a cada replique espontâneo, a cada fração de segundo a mais que o olhar demora para deslizar — um sistema de aprendizado de máquina registra um dado comportamental, atualiza um vetor de preferências e calibra o próximo conteúdo que aparecerá na tela. Esse sistema não é figurativo: é o núcleo operacional do TikTok, uma engenharia de recomendação que, segundo pesquisadores de diversas universidades, representa o estado da arte em personalização algorítmica para o consumo em massa.

O Brasil está no centro desse fenômeno. Estimativas de mercado para 2025 apontam que o TikTok já soma 91,7 milhões de contas ativas no país , com um tempo médio de sessão mensal de aproximadamente trinta horas por usuário. Entre jovens de 18 a 24 anos, a plataforma concentra 45% de todo o tempo despendido em redes sociais. Esses números não são apenas métricas de negócio: são a escala de um experimento cognitivo sem precedentes em populações humanas.

O grafo de interesses, não de pessoas

A distinção fundamental que separa o TikTok de plataformas anteriores está na sua arquitetura conceitual de recomendação. Enquanto Facebook e Instagram foram construídos sobre o grafo social — a rede de conexões entre pessoas —, o TikTok opera sobre o que a própria empresa denomina grafo de interesses: um mapa comportamental construído a partir do que o usuário faz, não de quem ele conhece. A empresa detalhou esse funcionamento em documentação técnica divulgada em 2020, desde então amplamente analisada por pesquisadores independentes.

O sistema pondera, em tempo real, uma combinação de sinais explícitos e implícitos. Os explícitos são os mais visíveis: curtidas, comentários, compartilhamentos, contas seguidas. Os implícitos, porém, têm peso ainda maior: taxa de conclusão do vídeo (se o usuário assistiu até o fim), número de repliques, tempo de hesitação antes de deslizar, e até mesmo a decisão de ocultar um conteúdo ou marcá-lo como "não me interessa".

"Ver um vídeo até o final é interpretado pelo sistema como sinal de interesse mais forte do que simplesmente curtir. O algoritmo não lê sua mente — ele lê seu comportamento com resolução milimétrica."

— El País, "Así te afecta el algoritmo de TikTok", 25 jun. 2026

Essa granularidade comportamental tem uma consequência imediata: o sistema é capaz de inferir preferências que o próprio usuário não saberia articular verbalmente. Pesquisa publicada em 2025 no periódico New Media & Society, assinada por Julia Salles, examina exatamente essa dimensão — a relação entre predição e serendipidade no design do TikTok. A autora argumenta que o algoritmo não apenas antecipa gostos: ele os constitui, oferecendo conteúdo que o usuário não teria buscado, mas que o sistema, ao apresentar, passa a produzir como preferência retroativa.

A engenharia da dopamina

O sucesso da recomendação do TikTok não pode ser compreendido sem a neurociência por trás do formato de vídeo curto. Diferentemente de longas narrativas — que exigem atenção sustentada e tolerância à frustração antes da recompensa — o vídeo de quinze a sessento segundos entrega dopamina em ciclos rápidos, variáveis e imprevisíveis. É essa imprevisibilidade que, segundo a literatura neurocientífica, torna o comportamento especialmente resistente à extinção.

Um estudo publicado em 2022 no periódico Frontiers in Psychology, conduzido por Qin, Omar e Musetti, analisou 659 adolescentes e identificou que a qualidade do sistema — sua capacidade de manter o usuário em estado de flow, ou seja, absorção total na tarefa — é um preditor mais forte de comportamento aditivo do que a qualidade do conteúdo em si. Em outras palavras: a forma como o TikTok entrega vídeos importa mais do que o que é entregue.

Impacto cognitivo e comportamental — pesquisas selecionadas

41%dos jovens afirmaram que o TikTok perturbava seu sono, segundo survey da Common Sense (2023) com usuários nos EUA
40%disseram ter precisado limitar o uso por sentir que a plataforma consumia tempo excessivo (mesma pesquisa)
50%dos jovens brasileiros de 9 a 17 anos usam TikTok com alta frequência, segundo TIC Kids Online Brasil 2024 (Cetic.br)
30hé o tempo médio mensal de sessão no TikTok no Brasil, segundo dados de plataforma citados por agências de mercado (2025)

Neuroimagens citadas em revisão publicada em Frontiers in Human Neuroscience (2024) indicam que a assistência a vídeos personalizados ativa regiões do cérebro associadas ao processamento de recompensa — especialmente a área tegmental ventral e o núcleo accumbens, componentes do sistema mesolímbico dopaminérgico. Pesquisadores descrevem um ciclo de hiperativação que se retroalimenta: a cada rodada de vídeos, o sistema nervoso recalibra o limiar de satisfação para cima, tornando os estímulos ordinários progressivamente menos interessantes. É o mesmo mecanismo descrito em dependências comportamentais como o jogo patológico.

Pesquisadores Sharpe e Spooner, em artigo publicado em 2025 no Perspectives in Public Health, nomearam esse fenômeno de "dopamine-scrolling" e o classificaram como um desafio de saúde pública emergente. Para adolescentes, cuja região pré-frontal — responsável pelo controle de impulsos e avaliação de consequências — ainda está em desenvolvimento, a exposição intensiva a esse padrão de estimulação seria particularmente preocupante.

Bolhas de interesse e diversidade informacional

O mecanismo de personalização do TikTok tem uma consequência estrutural que vai além do comportamento individual: a restrição gradual do repertório informacional do usuário. Quanto mais o sistema aprende as preferências de alguém, mais o feed converge para um conjunto estreito de tópicos, formatos e perspectivas — o que Eli Pariser chamou de filtro de bolha ainda em 2011, mas que hoje tem confirmação empírica mais robusta.

Uma auditoria algorítmica publicada em 2025 em conferência da ACM investigou a "deriva de personalização" em tópicos polarizadores no TikTok. Os pesquisadores criaram contas-fantoche (sock puppets) com diferentes perfis de interesse e mediram com que velocidade o algoritmo as conduzia a ecossistemas de conteúdo progressivamente homogêneos. Os resultados confirmaram que a amplificação de conteúdo alinhado às preferências iniciais do usuário ocorre em ritmo acelerado — frequentemente nos primeiros centenas de vídeos assistidos — e que essa personalização reduz a exposição a perspectivas divergentes.

Pesquisa publicada no Journal of Information Technology & Politics em 2025, por Li, Cheng e Gil de Zúñiga, analisou mais de 160 mil contas públicas do TikTok e 16 milhões de vídeos. Os autores identificaram aumento expressivo na produção de conteúdo político entre 2019 e 2023 e evidências de câmaras de eco, ainda que com peculiaridades em relação a plataformas como Twitter: no TikTok, a câmara de eco é mediada menos por conexões sociais e mais pela lógica do algoritmo de recomendação.

"No TikTok, a câmara de eco não é construída por quem você segue, mas pelo que você parou para ver por dois segundos a mais do que o habitual."

— Análise editorial — O Tecido

A própria empresa reconhece o risco. Em sua documentação pública, o TikTok afirma introduzir deliberadamente vídeos fora das preferências habituais do usuário para evitar homogeneização excessiva, e alega não exibir dois vídeos consecutivos do mesmo criador ou tema. Pesquisadores, no entanto, questionam a eficácia dessas salvaguardas: a lógica de maximização de engajamento e a lógica de diversidade informacional são estruturalmente tensionadas, e a primeira tende a prevalecer em sistemas treinados para otimizar tempo de sessão.

O caso brasileiro: regulação em construção

No Brasil, as implicações do algoritmo do TikTok estão no centro de um litígio regulatório que ganhou contornos concretos em novembro de 2024. A Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) abriu processo administrativo contra a plataforma após identificar indícios de violação à Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais (LGPD), especialmente no que diz respeito ao princípio do melhor interesse de crianças e adolescentes.

Entre as determinações emitidas pela ANPD, destacou-se a exigência de encerramento do recurso "feed sem cadastro", que permitia o acesso ao conteúdo da plataforma sem autenticação — e, portanto, sem qualquer verificação de idade. A autoridade identificou que, apesar de os Termos de Uso do TikTok proibirem usuários com menos de 13 anos, a ausência de barreiras efetivas tornava a vedação praticamente inoperante. Dados do TIC Kids Online 2024, do Cetic.br, mostram que 45% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos possuem perfil no TikTok, incluindo 28% dos jovens entre 11 e 12 anos.

TikTok e menores no Brasil — dados regulatórios

45%dos usuários de internet brasileiros entre 9 e 17 anos têm perfil no TikTok (TIC Kids Online 2024, Cetic.br)
7,5 micontas de menores de idade canceladas pela própria plataforma, segundo informação fornecida à ANPD
R$ 50 miteto de multa que a ANPD pode aplicar ao TikTok caso as irregularidades não sejam regularizadas

Em 2025, o marco regulatório brasileiro avançou com a aprovação da Lei n.º 15.211 — chamada informalmente de Lei do ECA Digital —, que introduziu exigências objetivas para plataformas digitais: vedação à autodeclaração de idade, obrigatoriedade de mecanismos verificáveis de aferição etária, vinculação de contas de menores de 16 anos a responsáveis legais e proibição de vigilância massiva. A lei dialoga, em parte, com as medidas que o TikTok já adota na Europa sob pressão do Regulamento de Serviços Digitais (DSA), como a detecção comportamental de possíveis usuários menores e a exigência de autorização parental para alterações de configurações por menores de 16 anos — medida implementada pela plataforma em março de 2026.

A tensão regulatória não é exclusividade brasileira. A Comissão Europeia mantém investigação sobre o design de scroll infinito e o alto nível de personalização como potenciais facilitadores de uso compulsivo. O TikTok contesta essas caracterizações e aponta para ferramentas de bem-estar digital disponíveis na plataforma — como temporizadores e modos de tela noturna. Pesquisadores, porém, notam que tais ferramentas são opt-in e que sua eficácia é limitada exatamente porque dependem de uma agência cognitiva que o design da plataforma sistematicamente desgasta.

A ciência da agência algorítmica

O debate sobre o TikTok frequentemente escorrega para uma dicotomia estéril: ou o usuário é responsável pelo próprio tempo de tela, ou a plataforma é inteiramente culpada pelo vício digital. A neurociência e a psicologia comportamental oferecem uma leitura mais matizada. O conceito de economia da atenção, formulado por Davenport e Beck nos anos 2000, propõe que a atenção humana é um recurso finito e que plataformas digitais competem por ela com ferramentas cada vez mais sofisticadas — tornando a escolha "racional" de desligar o aplicativo muito mais difícil do que sugere o senso comum.

Revisão sistemática publicada em 2025 na revista Societies, que analisou trinta estudos empíricos realizados entre 2015 e 2025 sobre bolhas de filtro e câmaras de eco, concluiu que sistemas algorítmicos amplificam homogeneidade ideológica de forma estrutural, que jovens demonstram consciência parcial sobre o funcionamento dos algoritmos — mas têm agência limitada para contrabalançar seus efeitos —, e que as câmaras de eco, além de polarização ideológica, também cumprem funções de reforço identitário e pertencimento cultural.

Esse último ponto é central para entender por que a regulação algorítmica é uma questão que vai além da proteção de dados. O algoritmo do TikTok não apenas entrega conteúdo: ele formata como grupos sociais se reconhecem, que informações entendem como relevantes e como procedem diante de visões de mundo divergentes das suas. Uma plataforma com 91 milhões de usuários brasileiros, operando a essa escala e com essa lógica, tem implicações que extrapolam o campo da tecnologia e penetram em questões de saúde pública, epistemologia coletiva e vitalidade democrática.

Como o sistema de recomendação funciona — mecanismos documentados

01

Taxa de conclusãoassistir um vídeo até o final é o sinal com maior peso positivo no modelo. Repliques espontâneos amplificam esse sinal.

02

Latência de deslizeo tempo que o usuário leva para passar ao próximo vídeo após o término é monitorado e interpretado como indicador de interesse latente.

03

Sinais negativosmarcar 'não me interessa', ocultar ou reportar conteúdo atualiza o modelo na direção oposta com peso significativo.

04

Conteúdo próprioos vídeos que o usuário publica — seus hashtags, sons usados e descrições — também alimentam o modelo de preferências.

05

Injeção de diversidadeo sistema afirma introduzir conteúdo fora das preferências estabelecidas para evitar saturação, embora pesquisadores questionem a extensão dessa prática.

Fonte: documentação técnica do TikTok (2020), revisada em Salles, 2025, New Media & Society

O que vem a seguir

Em fevereiro de 2026, o TikTok introduziu no Brasil o chamado "Feed Personalizado Avançado", que utiliza análise preditiva baseada em padrões de retenção de até quinze segundos para calibrar recomendações. A empresa afirma que a novidade elevou o tempo médio de sessão em 18% — um dado que ilustra exatamente a tensão de fundo: os avanços técnicos do sistema são medidos, primariamente, pela profundidade com que ele retém a atenção, não pela qualidade do que oferece.

Para pesquisadores da área, a próxima fronteira do debate não está em banir a personalização algorítmica — tecnicamente inviável e politicamente improvável —, mas em estabelecer padrões mínimos de transparência sobre como esses sistemas funcionam, exigir auditorias independentes regulares, e desenvolver o que alguns chamam de "literacia algorítmica": a capacidade de usuários compreenderem, ao menos em linhas gerais, as forças que moldam o que veem na tela. É uma forma de agência que nenhum botão de configuração consegue substituir.

O Cetic.br revelou, na edição 2025 do TIC Kids Online, que quase dois terços dos jovens brasileiros entre 9 e 17 anos já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa — um dado que sinaliza que a interface entre cognição jovem e sistemas automatizados de recomendação e geração de conteúdo vai se aprofundar rapidamente. Compreender a arquitetura por trás dessas interfaces não é mais uma questão técnica de nicho: é alfabetização para o século XXI.

Fontes e referências

  • Salles, J. (2025). "Affect and prediction in short-video social media recommendation algorithm: TikTok and the missing half-second". New Media & Society. journals.sagepub.com
  • Li, Y.; Cheng, Z.; Gil de Zúñiga, H. (2025). "TikTok's political landscape: Examining echo chambers and political expression dynamics". New Media & Society. journals.sagepub.com
  • Qin, Y.; Omar, B.; Musetti, A. (2022). "The addiction behavior of short-form video app TikTok: The information quality and system quality perspective". Frontiers in Psychology. ncbi.nlm.nih.gov
  • Sharpe, B.T.; Spooner, R.A. (2025). "Dopamine-scrolling: a modern public health challenge requiring urgent attention". Perspectives in Public Health. journals.sagepub.com
  • MDPI Societies (2025). "Trap of Social Media Algorithms: A Systematic Review of Research on Filter Bubbles, Echo Chambers, and Their Impact on Youth". mdpi.com
  • Cetic.br / NIC.br (2024). TIC Kids Online Brasil 2024 — frequência de uso de plataformas digitais por crianças e adolescentes. cetic.br
  • Cetic.br / NIC.br (2025). TIC Kids Online Brasil 2025 — uso de IA generativa por jovens. cetic.br
  • ANPD (2024). Processo Administrativo contra o TikTok — tratamento irregular de dados de crianças e adolescentes. mobiletime.com.br
  • Exame (2026). "TikTok testa verificação de idade na Europa; o que diz a lei sobre proteção de crianças no Brasil". exame.com
  • Xue, L. et al. (2025). "Algorithmic Audit of Personalisation Drift in Polarising Topics on TikTok". ACM Conference Proceedings. arxiv.org
  • El País (2026). "Así te afecta (sin darte cuenta) el algoritmo de TikTok: cómo decide lo que ves y qué puedes hacer para recuperar el control". elpais.com

Voz do Leitor

O que você achou deste artigo? Deixe sua opinião, crítica ou sugestão. Queremos tecer essa conversa com você. Suas visões são fundamentais e podem ser publicadas em nossa seção de "Cartas dos Leitores".

Faça login para participar da conversa

© 2026 O Tecido — Caderno CiênciaPublicação sem fins lucrativos. Reprodução permitida com atribuição.Contato: redacao@otecido.com.br
Nossa Missão

Por que existimos?

Entenda os valores que guiam nossa curadoria e o debate de alto nível.

Ver Manifesto
Suporte Editorial

Tem uma ideia?

Damos todo suporte caso você tenha apenas uma ideia concebida, mas queira evoluir seu artigo.

Entrar em Contato

Faça parte do tecido

Seja um editor colaborador