Nota de atribuição: este artigo tem como ponto de partida a reportagem "The AI Build-Out Is Becoming the Biggest Economic Bet in U.S. History", de Konrad Putzier e Justin Lahart, publicada pelo The Wall Street Journal em 23 de setembro de 2026 (link para a reportagem original). O texto a seguir é uma análise original de O Tecido, com apuração complementar em fontes independentes, e não reproduz nem traduz a reportagem.

Caderno Economia · 24 de setembro de 2026 · Leitura: 9 min

Os Estados Unidos abriram canais no século XIX, cruzaram o continente com trilhos, eletrificaram cidades, pavimentaram rodovias interestaduais e enterraram fibra óptica para a internet. Nenhuma dessas obras exigiu, em proporção ao tamanho da economia, o que a inteligência artificial deve exigir até o fim desta década. A estimativa mais recente, do economista Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, projeta US$ 10,3 trilhões em data centers e infraestrutura associada entre 2025 e 2032, o equivalente a 3,63% do PIB americano por ano.2

Em reportagem publicada em 23 de setembro, o The Wall Street Journal traduziu o número em uma comparação histórica: o gasto previsto com data centers supera o de canais, ferrovias e rede elétrica somados, e o efeito já aparece na economia real, com criação de empregos e riqueza, mas também com pressão sobre a inflação.1 A pergunta que interessa ao leitor, nos EUA ou no Brasil, é menos se a cifra impressiona e mais quem financia essa obra, quem paga seus efeitos colaterais e o que acontece se a receita prometida demorar a chegar.

Em resumo

  • O investimento em infraestrutura de IA nos EUA deve somar US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, média projetada de 3,63% do PIB ao ano.
  • É o maior ciclo de infraestrutura da história americana em proporção ao PIB, acima das ferrovias de 1870 a 1890 (2,24%).
  • O financiamento deixou de vir só do caixa das big techs e passou a depender de dívida, crédito privado e veículos fora do balanço.
  • A obra gera empregos e riqueza, mas encarece chips e eletricidade e pressiona a inflação americana.
  • No Brasil, o Redata foi sancionado em 15 de setembro de 2026, e o ONS recebeu quase 20 GW em pedidos de conexão de data centers.

Uma escala acima até da era das ferrovias

Os números do estudo, preparado para uma conferência da Brookings Institution, colocam a infraestrutura de IA em um patamar próprio. A expansão ferroviária entre 1870 e 1890, até aqui a principal referência de investimento em uma tecnologia de uso geral, consumiu em média 2,24% do PIB ao ano. Rodovias interestaduais e a onda de telecomunicações e fibra dos anos 1990 ficaram pouco acima de 1%. A eletrificação do início do século XX, apesar de transformar a indústria, absorveu cerca de 0,5%.12

Gasto médio anual em infraestrutura, % do PIB dos EUA 3,40%: canais + ferrovias + eletrificação somados Canais (1836-1841) 0,66% Ferrovias (1870-1890) 2,24% Eletrificação (1905-1925) 0,50% Rodovias (1956-1973) 1,13% Telecom e fibra (1996-2003) 1,10% IA (2025-2032, estimado) 3,63% Fonte: Stijn Van Nieuwerburgh (Columbia/Brookings), conforme gráfico do The Wall Street Journal. Elaboração: O Tecido.
Figura 1. O investimento projetado em IA supera a soma de três grandes ciclos históricos (canais, ferrovias e eletrificação). O valor de 2025-2032 é projeção, não gasto realizado.

O motivo do salto está na composição do gasto. Um data center voltado a IA é, ao mesmo tempo, obra civil, grande consumidor de eletricidade e depósito de chips caros que envelhecem rápido. No cenário de Van Nieuwerburgh, cerca de 183 gigawatts de capacidade computacional seriam construídos entre 2025 e 2032, a um custo aproximado de US$ 41 bilhões por gigawatt.3 A Agência Internacional de Energia (IEA) registra que o investimento das maiores empresas de tecnologia passou de US$ 400 bilhões em 2025, com expectativa de alta adicional de 75% em 2026, e que o capex de apenas cinco dessas companhias já supera o investimento global em produção de petróleo e gás.4 No canteiro de obras, a taxa mensal de gastos com construção de data centers nos EUA chegou a US$ 59,3 bilhões em maio de 2026, alta de 129% em dois anos, segundo dados do Census Bureau.5

Vale separar o que já aconteceu do que é projeção. Pelas medições do instituto Epoch AI, o investimento em construção de data centers, hardware de computação e equipamentos de rede ligados à IA representou cerca de 0,8% do PIB americano no primeiro trimestre de 2026, e a infraestrutura de computação como um todo chegou a aproximadamente 1,5%, contra média de 0,7% entre 2015 e 2022.6 Os 3,63% são, portanto, uma média projetada para um ciclo de oito anos que depende de a trajetória atual continuar acelerando. É um cenário plausível, não um fato consumado.

Do caixa próprio à dívida fora do balanço

A primeira fase do boom foi paga com o caixa acumulado por Amazon, Meta e Google. Segundo relato da Reuters sobre o estudo, essa fase acabou: o investimento em curso já ultrapassa o que os grandes grupos conseguem gerar com as próprias operações, e o financiamento externo elevou a alavancagem, espalhou riscos pela economia e amarrou o projeto a fluxos de receita ainda não comprovados.7 O Morgan Stanley calcula que mais da metade dos US$ 2,9 trilhões que as hiperescaladoras devem gastar entre 2025 e 2028 virá de capital de terceiros.3

A engenharia financeira ficou mais sofisticada. Arrendamentos, joint ventures, dívida de projeto, crédito privado, securitizações e sociedades de propósito específico (SPVs) passaram a ocupar o espaço antes preenchido por fluxo de caixa e emissões corporativas tradicionais.8 Em conversa com jornalistas, Van Nieuwerburgh comparou a opacidade dessas estruturas a um traço da crise do subprime, com uma ressalva importante: a semelhança diz respeito à dificuldade de enxergar quem está exposto, e não indica que uma crise financeira seja iminente.7

O risco central do ciclo não está no tamanho do investimento, e sim na dificuldade de saber quem carrega a dívida se a receita atrasar.Análise de O Tecido

Empregos, riqueza e uma conta de luz mais alta

Do lado real da economia, a obra é um motor de demanda. Canteiros, fornecedores de equipamentos elétricos, construtoras e fabricantes de chips contratam, e a valorização das empresas envolvidas alimenta a riqueza financeira das famílias americanas, efeito que o WSJ destaca já no subtítulo de sua reportagem.1 O contrapeso é o preço. A Associated Press relatou em julho que o volume de investimento em data centers, provavelmente acima de US$ 700 bilhões em 2026, encareceu chips de memória, processadores, outros equipamentos e a eletricidade, e que economistas esperam pressão inflacionária ao menos até o fim do ano.9

A energia é o canal mais visível para o consumidor. Economistas do Goldman Sachs projetam inflação de eletricidade para o consumidor em torno de 6% e estimam que o encarecimento da energia adicione cerca de 0,1 ponto percentual ao núcleo do PCE, o índice de preços acompanhado pelo Federal Reserve, em 2026 e em 2027. O impacto, segundo o banco, pesa mais sobre famílias de baixa renda, para as quais a conta de luz ocupa fatia maior do orçamento, e sobre regiões com concentração de data centers.10

Há ainda um ajuste contábil que modera o entusiasmo. Um estudo sobre o tratamento desse investimento nas contas nacionais observa que o impulso à demanda agregada é grande, mas que a contribuição ao crescimento do PIB fica menor quando se desconta o alto conteúdo importado do hardware de IA.11 Em outras palavras, parte relevante do dinheiro gasto nos EUA remunera cadeias de produção fora do país.

Para o Brasil, o canal de transmissão mais direto não é a conta de luz americana, e sim os juros. Se o ciclo de investimento sustentar a inflação nos EUA acima do desejado, o Federal Reserve tende a manter a política monetária apertada por mais tempo, o que costuma pesar sobre o câmbio e sobre as condições de financiamento de economias emergentes.

A pergunta de US$ 3,7 trilhões

Toda aposta de infraestrutura se paga com uso. No cálculo de Van Nieuwerburgh reportado pela MIT Technology Review, para oferecer um retorno de 10% ao ano, patamar mínimo aceitável para a maioria dos investidores, o parque projetado precisaria gerar receitas anuais da ordem de US$ 3,7 trilhões até 2032.3 Esse patamar só é alcançável se a IA elevar a produtividade de forma ampla, em setores muito além da tecnologia.

O prazo também é diferente do de outras eras. O estudo sobre contas nacionais lembra que os ciclos de reinvestimento são curtos, porque chips e servidores perdem valor em poucos anos, e que a incerteza sobre a demanda futura pode alimentar riscos macroeconômicos no médio prazo, ainda que não atue como freio hoje.11 Os trilhos do século XIX serviram por gerações. Boa parte do capital investido em IA precisa se pagar antes de ficar obsoleta.

O Brasil na disputa pelo fluxo global

Enquanto os EUA discutem o tamanho da própria aposta, o Brasil tenta atrair uma fatia do investimento. A Lei nº 15.504, sancionada em 15 de setembro de 2026, instituiu o Redata, regime especial de tributação que desonera a aquisição e a importação de equipamentos de tecnologia da informação destinados ao ativo imobilizado de data centers, incluindo estruturas de computação em nuvem, processamento de alto desempenho e treinamento de modelos de IA.12 O parecer aprovado no Senado estima impacto fiscal de R$ 7,25 bilhões em três anos, dos quais R$ 5,2 bilhões ainda em 2026.13

O interesse existe e é medido em gigawatts. O diretor-geral do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), Marcio Rea, afirmou neste mês que os pedidos de conexão ligados a data centers recebidos entre 2025 e 2026 somam quase 20 GW, volume que ele comparou a cerca de 30% da energia do país.14 Em fevereiro, o operador havia aceitado 38 solicitações que somavam cerca de 7,04 GW, com 20 projetos concentrados em São Paulo. A cobertura na época destacou a folga do sistema elétrico brasileiro como vantagem diante dos EUA, onde a conexão à rede virou gargalo.15

A distância entre intenção e carga efetiva, porém, é grande. A revisão das previsões de carga elaborada por ONS, EPE e CCEE projeta que a demanda associada aos data centers com contratos assinados saia de 304 MW médios em 2026 para 3.457 MW médios em 2030.16 É um crescimento de mais de dez vezes, mas ainda uma fração dos pedidos protocolados. A Brasscom projeta US$ 92 bilhões em investimentos no setor entre 2025 e 2031, sendo US$ 69 bilhões em equipamentos.17

A experiência americana oferece uma lição útil: o custo da expansão da rede tende a escorrer para a tarifa de quem não tem data center. O Ministério de Minas e Energia discute, em consulta pública, as regras das chamadas Temporadas de Acesso, que podem alocar capacidade de conexão por meio de processos competitivos com oferta de prêmio em reais por quilowatt.18 O destino dessa receita, e a definição de quem arcará com os reforços de transmissão, vão determinar se o país captura os benefícios do ciclo sem importar a inflação de energia que já aparece nos EUA.

Contraponto

Por que a comparação histórica pode enganar

Nem todos os argumentos apontam para excesso. Primeiro, a projeção é sensível a premissas: uma versão anterior do trabalho de Van Nieuwerburgh, noticiada em agosto, falava em média próxima de 2,8% do PIB, e a revisão para 3,63% em poucas semanas mostra quanto o número depende do cenário de capacidade adotado.19

Segundo, ciclos com excesso de investimento nem sempre são perda líquida para a economia. A bolha das telecomunicações do início dos anos 2000 quebrou empresas, mas deixou fibra instalada que sustentou a internet da década seguinte. Terceiro, boa parte do gasto ainda é feita por companhias altamente lucrativas, e o próprio autor ressalva que a nova estrutura de financiamento não sinaliza crise iminente.7

No caso brasileiro, a renúncia fiscal do Redata merece escrutínio, já que data centers empregam relativamente pouco depois de prontos. Do outro lado, levantamento da Elea Data Centers indica que a espera pela regra derrubou o investimento em novos data centers para cerca de R$ 2 bilhões em 2025, ante média anual de R$ 25 bilhões entre 2020 e 2024.17 O debate, portanto, é sobre o preço da competitividade, e não apenas sobre sua conveniência.

O que acompanhar nos próximos meses

  • A apresentação do estudo na conferência da Brookings, nesta sexta-feira (25), e eventuais revisões nos números.
  • As orientações de capex das hiperescaladoras nos balanços do terceiro trimestre.
  • O componente de eletricidade da inflação ao consumidor nos EUA e o núcleo do PCE.
  • O volume de dívida de projeto, crédito privado e SPVs ligados a data centers.
  • A regulamentação do Redata e a habilitação das primeiras empresas.
  • As regras finais das Temporadas de Acesso e os novos pareceres do ONS.

Perguntas frequentes

Quanto os EUA devem investir em infraestrutura de IA até 2032?

Segundo estimativa de Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, preparada para conferência da Brookings Institution, o investimento em data centers e infraestrutura associada deve somar US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, média de 3,63% do PIB americano por ano. O valor é uma projeção.

Por que o investimento em IA é comparado às ferrovias?

Porque a expansão ferroviária de 1870 a 1890, com média de 2,24% do PIB ao ano, era até agora o maior ciclo de investimento em uma tecnologia de uso geral nos EUA. A IA projetada supera esse patamar e também a soma de canais, ferrovias e eletrificação.

O boom de data centers está causando inflação?

Contribui para ela. O investimento encareceu chips, equipamentos e eletricidade nos EUA. O Goldman Sachs projeta inflação de eletricidade ao consumidor em torno de 6% e um acréscimo de cerca de 0,1 ponto percentual ao núcleo do PCE em 2026 e 2027.

Qual é o principal risco financeiro do ciclo de IA?

A migração do financiamento do caixa próprio das big techs para dívida externa, crédito privado e sociedades de propósito específico. Isso eleva a alavancagem e dificulta saber quem está exposto caso a receita esperada não se materialize. O autor do estudo afirma que isso não indica crise iminente.

O que é o Redata e como o Brasil entra nessa corrida?

O Redata é o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, instituído pela Lei nº 15.504, sancionada em 15 de setembro de 2026. Ele desonera a compra e a importação de equipamentos de TI para data centers, com impacto fiscal estimado em R$ 7,25 bilhões em três anos. O ONS recebeu quase 20 GW em pedidos de conexão de data centers entre 2025 e 2026.

Os data centers podem encarecer a energia no Brasil?

Depende de como será dividido o custo da expansão da rede. O governo discute as Temporadas de Acesso, que podem alocar capacidade de conexão por leilão com prêmio em reais por quilowatt. A forma de destinar essa receita e de pagar reforços de transmissão definirá o impacto sobre as tarifas.

Referências

  1. PUTZIER, Konrad; LAHART, Justin. The AI Build-Out Is Becoming the Biggest Economic Bet in U.S. History. The Wall Street Journal, 23 set. 2026. https://www.wsj.com/economy/the-ai-build-out-is-becoming-the-biggest-economic-bet-in-u-s-history-c60716dd
  2. VAN NIEUWERBURGH, Stijn. Financing the AI Buildout. Estudo preparado para conferência da Brookings Institution, set. 2026.
  3. MIT Technology Review. What must happen for AI's trillion-dollar gamble to pay off. 15 set. 2026.
  4. Agência Internacional de Energia (IEA). Key Questions on Energy and AI: Executive summary. 2026.
  5. U.S. Census Bureau, dados de gastos com construção, compilados em: The Motley Fool. How Much Are AI Companies Spending on Data Centers? 18 ago. 2026.
  6. JUNIEWICZ, Isabel. The AI boom has doubled computing infrastructure's share of US GDP. Epoch AI, jun. 2026.
  7. Reuters. Financing of historic AI buildout raises systemic risks in US, researcher says. 24 set. 2026.
  8. Seeking Alpha. AI buildout could cost $10.3T as financing risks move off Big Tech balance sheets. 24 set. 2026.
  9. Associated Press (via ABC News). Massive AI buildout poses inflation threat as consumers pay more for electricity. 13 jul. 2026.
  10. Goldman Sachs Global Investment Research. The Macroeconomic Spillovers From AI Electricity Demand. 11 fev. 2026.
  11. Estudo sobre capex de IA e data centers nas contas nacionais. arXiv:2601.11196, jan. 2026.
  12. BRASIL. Lei nº 15.504, de 15 de setembro de 2026. Institui o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter (Redata).
  13. TELETIME News. Senado aprova Redata com incentivos para data centers. 1 set. 2026.
  14. Times Brasil (licenciado CNBC). Data centers podem consumir 30% da energia do País. Set. 2026.
  15. Diário do Comércio (com Reuters). ONS aceita 7 GW em pedidos de conexão de data centers à rede elétrica. 5 fev. 2026.
  16. ONS, EPE e CCEE. 1ª Revisão Quadrimestral das Previsões de Carga para o Planejamento Anual da Operação Energética 2026-2030, conforme Canal Solar, abr. 2026.
  17. Brasscom, projeção de investimentos em data centers 2025-2031, e levantamento setorial da Elea Data Centers, conforme compilação de mercado, 2026.
  18. Cescon Barrieu. Data Centers e Acesso à Rede Elétrica: o que está em disputa. 24 mar. 2026.
  19. IBTimes UK. US Economy 'Would Be in a Recession' Without AI Data Centres, Columbia Economist Warns. 10 ago. 2026.
Ewerton Lopes — Curador Editorial, O Tecido