Opinião · Política

Foram quarenta minutos de telefonema. De um lado, Robert Kraft, dono do time de futebol americano New England Patriots e do estádio Gillette. Do outro, Ed Sheeran, um dos artistas mais bem-sucedidos comercialmente da história recente da música pop. O assunto não era contrato, data de show ou logística de palco. Era se um rapper chamado Macklemore poderia continuar dizendo "Free Palestine" nos shows em que abria a turnê de Sheeran pelos Estados Unidos.1

Kraft deixou claro que cancelaria as datas de Sheeran em seu estádio caso Macklemore permanecesse na turnê. Outros donos de estádio da NFL, incluindo David Tepper (Carolina Panthers), Arthur Blank (Atlanta Falcons) e Jeffrey Lurie (Philadelphia Eagles), estavam dispostos a fazer o mesmo.1 A produtora da turnê cedeu. Macklemore foi retirado dos shows restantes, e o que se seguiu foi uma pequena crise: a banda de apoio de Sheeran e outros artistas, entre eles Finneas, o grupo irlandês Beoga e a banda dinamarquesa Lukas Graham, deixaram a turnê em solidariedade ao rapper.2

Kraft justificou a decisão dizendo que os comentários de Macklemore constituíam discurso de ódio, não liberdade de expressão, e associou o rapper a um episódio de 2014 em que ele usou uma fantasia com estereótipos antissemitas (pela qual já havia se desculpado publicamente).1 Em nota, o bilionário afirmou que seu estádio não seria "plataforma para discurso de ódio".3

Até aqui, o caso poderia ser tratado como mais um episódio doméstico do showbusiness americano. O problema é o padrão que ele revela, e que se repete com uma regularidade incômoda: a liberdade de expressão é tratada como valor absoluto quando o discurso favorece quem detém o poder de plataforma, e como ameaça a ser neutralizada quando incomoda esse mesmo poder.

Duas medidas, dois palcos

O contraste fica mais nítido quando comparado a outro episódio recente e envolvendo o próprio setor de estádios da NFL. Meses antes, o rapper Kanye West, que acumula um histórico extenso de declarações antissemitas, se apresentou sem impedimentos no Raymond James Stadium, em Tampa, propriedade do condado de Hillsborough, na Flórida. A promotora do artista chegou a incluir cláusula contratual proibindo o cancelamento dos shows com base em declarações passadas do próprio artista, e especialistas jurídicos consultados pela imprensa americana apontaram que, por se tratar de um estádio de titularidade pública, cancelar a apresentação provavelmente violaria a Primeira Emenda.4

Ou seja: um artista com histórico documentado de retórica antissemita foi protegido por uma blindagem contratual e por argumentos de liberdade constitucional. Um artista que defende publicamente o fim do que organizações de direitos humanos e pesquisadores classificam como genocídio em Gaza5 foi removido de uma turnê após pressão direta de bilionários donos de estádios privados, sem que nenhuma cláusula o protegesse.

"Fazem campanhas para calar críticas a Israel que exigem que pessoas com imenso privilégio e pouco a perder defendam a liberdade de expressão de todo mundo que tem muito mais a perder." Matt Bernstein, ativista e criador de conteúdo, em comentário reproduzido pela imprensa americana sobre o caso

A cantora Pink, que criticou publicamente as falas de Macklemore, fez questão de dizer que não pedia o cancelamento do rapper, apenas o direito de manifestar seu desconforto.3 A distinção importa: uma coisa é discordar publicamente de um artista. Outra é usar poder econômico e institucional para retirá-lo do palco. A primeira é debate. A segunda é o exercício do próprio silenciamento que setores conservadores costumam denunciar quando a vítima é alguém do seu campo.

O mesmo padrão, em outra vitrine

O episódio Sheeran-Macklemore não é um caso isolado. Ele reproduz, em escala de estádio, uma dinâmica que já vem sendo documentada de forma sistemática em outra frente: as escolas públicas americanas. Segundo o mapeamento mais recente da PEN America, organização que acompanha censura literária no país desde 2021, foram registrados 6.870 banimentos de livros no ano letivo de 2024-2025, distribuídos por 23 estados e 87 distritos escolares.6 Desde 2021, o total ultrapassa 22.800 casos em 45 estados.7

A entidade aponta que grupos de orientação conservadora, alguns deles de inspiração explicitamente nacionalista cristã, coordenam listas de títulos a serem retirados de bibliotecas escolares, concentrando os alvos em obras que tratam de raça, identidade de gênero e orientação sexual.8 Livros infantis sobre famílias com dois pais ou duas mães são classificados como "sexualmente explícitos" pelo simples fato de mencionarem essas famílias.9 A retórica usada nesses movimentos frequentemente invoca a defesa dos "valores dos pais" e a proteção das crianças. Raramente invoca a palavra censura para descrever a própria ação.

O padrão é o mesmo do caso Sheeran: aciona-se a linguagem da proteção, da segurança ou do combate ao ódio para justificar a retirada de determinado discurso de circulação, mas o mesmo padrão de vigilância não se aplica quando o discurso hostil vem do próprio campo político que promove a retirada.

O outro lado do argumento

É preciso reconhecer os limites dessa leitura antes que ela se torne, também, unilateral. Gillette Stadium e Bank of America Stadium, dois dos palcos envolvidos no caso Macklemore, são propriedades privadas, e seus donos têm o direito legal de decidir quem se apresenta ali, da mesma forma que uma editora tem o direito de recusar um manuscrito. Kraft também argumenta, com respaldo em sua história pessoal de décadas de atuação contra o antissemitismo através de sua fundação, que sua objeção não era à posição pró-palestina em si, mas à retórica específica e ao histórico do artista.1

Do lado brasileiro, também vale registrar que a seletividade na defesa da liberdade de expressão não é exclusividade de um campo político. Artistas que assumiram publicamente posições de direita, como a cantora Jojo Todynho, relataram perda de contratos publicitários e desconvites de eventos justamente em razão do posicionamento assumido.10 Setores liberais conservadores brasileiros também denunciam, com razão em casos específicos, a desmonetização e o banimento de vozes de direita em redes sociais.11 A seletividade, quando existe, tende a atravessar o espectro político inteiro. A diferença está na escala, na institucionalização e no poder de fogo de quem aciona o mecanismo, e é isso que o caso Sheeran-Kraft-West escancara: quando o poder de cancelar está concentrado nas mãos de bilionários e conglomerados, a "liberdade de expressão de todos" tende a proteger, na prática, a fala de quem já detém a plataforma.

O eco brasileiro

A discussão não é estranha ao debate público brasileiro. Estudos sobre liberdade de expressão e cultura do cancelamento no país já registram o mesmo diagnóstico: a defesa do direito de falar costuma ser vigorosa quando o discurso ameaçado é o próprio, e silenciosa, ou até cúmplice, quando a censura atinge o campo adversário.12 O episódio do cancelamento da exposição Queermuseu, em Porto Alegre, e da performance de Wagner Schwartz no Museu de Arte Moderna de São Paulo, ambos em 2017, seguiram exatamente essa lógica: pressão de grupos conservadores resultou na retirada de obras de circulação, sob a bandeira da proteção da infância e da moral, os mesmos argumentos hoje usados nos banimentos de livros americanos.13

Isso não torna o fenômeno exclusivo da direita, brasileira ou americana. Torna, porém, mais visível a assimetria de poder: quando quem aciona o mecanismo de silenciamento controla estádios, emissoras, conselhos escolares ou algoritmos de redes sociais, o resultado prático deixa de ser um debate entre iguais e passa a ser uma imposição de quem já está mais forte sobre quem está mais vulnerável.

O que fica

Ed Sheeran encerrou o episódio dizendo que não é "cúmplice" de nada e que suas opiniões pessoais existem, mesmo que ele escolha não as tornar públicas.3 É uma posição confortável para quem já vendeu quase 21 milhões de ingressos e faturou a casa de US$ 1,9 bilhão em turnês desde 2008.1 Silêncio, quando praticado por quem tem tudo a perder ao falar, é prudência. Quando praticado por quem nada arrisca ao se calar, é também uma escolha política, ainda que disfarçada de neutralidade.

A pergunta que o caso deixa não é se Macklemore tinha razão em suas comparações sobre Gaza, tema sobre o qual há divergência legítima até entre organizações de direitos humanos. A pergunta é por que o mesmo padrão de vigilância retórica que tirou um rapper pró-Palestina do palco não se aplicou, meses antes, a um artista com histórico documentado de discurso antissemita, protegido por uma cláusula contratual e por um estádio de titularidade pública. Quando a resposta depende de qual lado do espectro está falando, o que está em jogo não é mais liberdade de expressão. É apenas quem tem o poder de decidir quem fala.

Este texto foi produzido a partir da reportagem original "The 40-Minute Phone Call That Left Ed Sheeran's Tour Hanging by a Thread", publicada pelo The Wall Street Journal em 16 de setembro de 2026, por Andrew Beaton, Katherine Sayre e Elias Leight. Leia a matéria completa em: wsj.com. A reportagem original não é reproduzida ou traduzida integralmente; este artigo é uma análise editorial independente que utiliza a matéria como ponto de partida, complementada por apuração própria.
A balança da liberdade de expressão pende conforme quem segura o microfone e quem segura o estádio.

Perguntas frequentes

Por que Macklemore foi retirado da turnê de Ed Sheeran?

Após fazer declarações de apoio à Palestina em shows no MetLife Stadium, incluindo a frase "Free Palestine" e a performance da música "Hind's Hall", donos de estádios da NFL, liderados por Robert Kraft, ameaçaram cancelar as apresentações de Sheeran caso Macklemore permanecesse na turnê. A produtora optou por retirar o rapper das datas restantes.

O caso de Kanye West no Raymond James Stadium é comparável?

Sim, e é frequentemente citado como contraponto. Kanye West se apresentou em um estádio de titularidade pública na Flórida meses antes, apesar de um histórico extenso de declarações antissemitas, protegido por cláusula contratual e por argumentos ligados à Primeira Emenda, já que se tratava de propriedade pública.

O banimento de livros nos Estados Unidos está relacionado a esse caso?

Não diretamente, mas ambos os episódios ilustram o mesmo padrão: o acionamento seletivo de mecanismos de silenciamento, sob justificativas de proteção ou combate ao ódio, concentrado em discursos que desafiam posições conservadoras.

Essa seletividade na defesa da liberdade de expressão ocorre só à direita?

Não é exclusiva de um campo político; pesquisadores brasileiros e internacionais documentam casos semelhantes à esquerda. A diferença observada no caso analisado está na escala e no poder institucional de quem aciona o silenciamento.