A cada nova edição do PISA, um mesmo padrão reaparece nos boletins técnicos do Inep: as meninas brasileiras leem melhor que os meninos, e a diferença não é pequena. Em 2022, elas superaram os colegas em 17 pontos na prova de leitura, enquanto os meninos as superaram em 8 pontos em matemática. Quatro anos antes, em 2018, essa distância em leitura havia chegado a 26 pontos, o equivalente a quase um ano inteiro de escolarização. O fenômeno não é exclusividade brasileira nem recente, mas o debate sobre suas causas e soluções ganhou novo fôlego nas últimas semanas, depois que o jornal espanhol El País publicou um diagnóstico sobre a chamada "brecha de gênero" na leitura entre estudantes espanhóis.
O artigo, assinado pelos educadores Daniel Turienzo e Emilio Manuel García Carlos, parte de um dado semelhante ao brasileiro: na Espanha, a diferença entre meninos e meninas na avaliação PIRLS (quarto ano do ensino fundamental) é pequena, mas se amplia de forma expressiva até os 15 anos, quando o PISA chega a registrar mais de 30 pontos de vantagem para as meninas. Os autores argumentam que, se a origem fosse puramente biológica, a diferença seria estável entre países e ao longo do tempo, o que não se observa. A variação sugere que contexto cultural, políticas educacionais e clima escolar pesam tanto quanto, ou mais, do que qualquer diferença inata de desenvolvimento.
O retrato brasileiro: uma brecha que também cresce
Os dados nacionais confirmam a tendência descrita pelos pesquisadores espanhóis. Segundo a nota técnica do Inep sobre o PISA 2022, 54% dos meninos brasileiros ficaram abaixo do nível básico de proficiência em leitura, contra 47% das meninas, uma diferença de sete pontos percentuais que se soma à distância de 17 pontos na pontuação média. Já a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro em parceria com a Fundação Itaú, mostrou que 50,4% das mulheres brasileiras se qualificam como leitoras, contra 42,9% dos homens, uma diferença que atravessa faixas etárias e persiste até a vida adulta.
O contexto brasileiro agrava o quadro descrito pelos autores espanhóis: o país já parte de um patamar geral baixo em leitura. Segundo o Saeb 2023, divulgado pelo Inep, a nota padronizada de leitura nos anos finais do ensino fundamental caiu de 5,21 em 2019 para 5,10 em 2023, um retrocesso atribuído em parte aos efeitos da pandemia sobre a alfabetização. Nesse cenário, a distância de gênero não compete com um problema estrutural mais amplo, ela se soma a ele.
Por que os meninos leem menos
Nenhuma explicação isolada dá conta do fenômeno. Turienzo e García Carlos, no artigo original, sustentam que fatores não cognitivos, como disciplina, autorregulação e persistência, pesam tanto quanto habilidades linguísticas propriamente ditas. As meninas, em média, desenvolvem certas competências verbais mais cedo, um processo reforçado por uma socialização de gênero que estimula mais a leitura e a comunicação verbal desde a infância. Elas também têm mais chances de ver a mãe como modelo leitor em casa, o que a escola tende a recompensar.
Há ainda um componente de identidade e pertencimento social. Nos grupos de meninos, a pressão dos pares pode desincentivar a leitura quando ela não confere prestígio, e o esforço acadêmico costuma ser mais aceito socialmente entre meninas. Some-se a isso a chamada feminização do ambiente escolar, com a maioria das professoras concentrada nos anos iniciais, o que pode reforçar, ainda que de forma inconsciente, uma associação entre livros e universo feminino. No Brasil, essa dinâmica se cruza com um mercado de trabalho que ainda oferece aos homens jovens caminhos profissionais menos dependentes de trajetória escolar longa, reduzindo o incentivo à leitura como ferramenta de mobilidade, algo que pesa de forma diferente para as mulheres, para quem a educação segue sendo historicamente uma via mais direta de autonomia econômica.
O que a evidência recomenda
Os pesquisadores espanhóis defendem um conjunto de medidas que encontra eco nas discussões de política educacional brasileira: intervenção precoce em consciência fonológica e vocabulário nos primeiros anos escolares, diversificação do acervo de leitura disponível nas escolas para alcançar interesses variados, presença ativa de modelos masculinos leitores (pais, professores, referências públicas) e o cuidado de não naturalizar a narrativa de que "meninas leem, meninos não leem", o que pode se transformar em profecia autorrealizável e desmotivar ainda mais os garotos.
No Brasil, esse tipo de estratégia passa por decisões concretas de política pública: o fortalecimento de bibliotecas escolares, a formação continuada de professores em didática da leitura e a atenção redobrada aos anos iniciais do ensino fundamental, etapa em que o Saeb já registra sinais de fragilidade na alfabetização. A recomendação central dos autores é evitar tanto a retórica vazia quanto soluções que rebaixem o nível de exigência: o caminho está em intervir onde a evidência aponta, sem transformar a diferença de gênero em uma disputa de recursos entre meninos e meninas.
Contraponto: até que ponto a brecha é um problema de política educacional?
Nem todos os especialistas concordam sobre o peso relativo de cada fator. Parte da literatura em sociologia da educação argumenta que fatores extraescolares, como estrutura familiar, renda e acesso a livros em casa, explicam mais da variação de desempenho em leitura do que práticas pedagógicas específicas de gênero dentro da sala de aula. Sob essa ótica, políticas focadas exclusivamente no ambiente escolar teriam alcance limitado se não vierem acompanhadas de investimento em redução de desigualdade socioeconômica e em programas de incentivo à leitura fora da escola, incluindo bibliotecas comunitárias e acesso familiar a livros. O debate segue em aberto na pesquisa educacional, sem consenso definitivo sobre o peso relativo de cada variável.
Uma questão de capital humano, não apenas de igualdade
Para os autores do artigo original, permitir que uma parcela significativa dos adolescentes chegue aos 15 anos com competência leitora insuficiente compromete sua autonomia futura, e o argumento vale tanto para a Espanha quanto para o Brasil. Em um país onde 50% dos estudantes de 15 anos ainda não atingem o nível básico de leitura no PISA, segundo dados compilados pela Fundação Itaú, a diferença de gênero é um sintoma dentro de um problema estrutural maior: o de garantir que toda uma geração consiga interpretar textos, avaliar fontes e formar opinião informada, habilidades que se tornam ainda mais decisivas em um ambiente saturado por conteúdo gerado por inteligência artificial.
Perguntas frequentes
Meninas leem melhor que meninos no Brasil?
Sim. No PISA 2022, as meninas brasileiras superaram os meninos em 17 pontos em leitura, enquanto os meninos superaram as meninas em 8 pontos em matemática. Em 2018, a diferença em leitura havia sido de 26 pontos a favor das meninas.
Essa diferença é biológica?
A evidência aponta para uma origem majoritariamente social. Como a diferença varia bastante entre países e ao longo do tempo, pesquisadores atribuem o fenômeno sobretudo à socialização de gênero, aos hábitos de leisure e às expectativas escolares, não a uma diferença fixa de desenvolvimento.
O que pode reduzir a brecha de leitura entre meninos e meninas?
Intervenção precoce em consciência fonológica e vocabulário, diversificação do acervo de leitura escolar, presença de modelos masculinos leitores e o cuidado de evitar rótulos que naturalizem a ideia de que meninos leem menos por natureza, o que pode desmotivar ainda mais o engajamento deles com a leitura.