Caderno Educação
O Tecido Setembro de 2026 Leitura: 8 min

Uma professora de literatura de um cégep de Quebec resumiu em quatro palavras o que educadores em vários países já suspeitavam sem conseguir nomear direito. "Tudo está por reinventar."1 Geneviève Richer ensina literatura desde 2003 e viu, sala de aula após sala de aula, a relação de seus alunos com o livro impresso se desfazer. Em uma coluna publicada pelo jornal canadense La Presse, o jornalista Patrick Lagacé cruzou o relato de Richer com uma reportagem da revista americana The Atlantic sobre o declínio global da leitura, e o resultado é um retrato incômodo de algo que também está acontecendo, com números praticamente idênticos, nas escolas brasileiras.

O diagnóstico que vem de fora

A reportagem da The Atlantic citada por Lagacé traz um dado que resume o problema: nos Estados Unidos, o percentual de adultos que liam por prazer caiu de 28%, em 2004, para 16%, em 2023.1 A geração mais jovem chegou à universidade carregando essa mudança. Em um episódio relatado no artigo, estudantes de duas universidades do Kansas foram convidados a resumir os primeiros parágrafos de um romance de Charles Dickens que descreve, de forma metafórica, um dinossauro caminhando pelas ruas enlameadas de Londres em 1853. Um quarto da turma interpretou a imagem ao pé da letra, como se o animal estivesse mesmo ali.1

Em Harvard, o choque foi outro. Alunos de sociologia reclamaram do volume de leituras obrigatórias, argumentando que resumos deveriam bastar para acompanhar o curso, até uma professora precisar explicar que um resumo não substitui a densidade de pensamento de uma obra original.1 São sintomas de uma mudança que os especialistas ouvidos pela The Atlantic associam a duas forças que se somam ao longo de décadas: primeiro a televisão, depois a internet, e agora as ferramentas de inteligência artificial generativa, capazes de entregar em segundos o que antes exigia horas de leitura.

"Nós nos desprendemos da palavra, do livro, da frase, para entrar na era digital, de forte apelo às imagens." Patrick Lagacé, colunista da La Presse, sobre a transformação observada em sala de aula

O mesmo enredo, com sotaque brasileiro

Trocado o cenário do Quebec pelo brasileiro, a trama muda pouco. A 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, mostrou que, em 2024, apenas 47% dos brasileiros haviam lido ao menos parte de um livro nos três meses anteriores, ante 52% em 2019.2 Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, iniciada em 2007, a proporção de não leitores (53%) superou a de leitores. O país perdeu cerca de 6,7 milhões de leitores em quatro anos.2

Na educação básica, o Pisa 2022 já havia deixado o quadro claro: o Brasil obteve 410 pontos em leitura, quase 70 pontos abaixo da média da OCDE, de 476. Metade dos estudantes brasileiros de 15 anos ficou abaixo do nível considerado mínimo para uma leitura funcional autônoma, e apenas 2% atingiram os níveis mais altos de proficiência.3

A camada nova: a IA já está na rotina escolar

O que separa o cenário brasileiro de 2026 do observado por Richer no Quebec é a velocidade com que os chatbots se instalaram nas escolas. O Pisa 2025, divulgado pela OCDE em 8 de setembro deste ano, mediu pela primeira vez o uso de inteligência artificial por estudantes de 15 anos, e o resultado é revelador: 48% dos brasileiros usam chatbots como o ChatGPT ao menos uma vez por semana para estudar, um índice levemente acima da média da OCDE, de 46%.4 Para resumir textos que precisariam ler para a escola, o uso é de 31% no Brasil, praticamente igual à média internacional. Para pesquisas preliminares sobre um assunto novo, o Brasil dispara: 40%, contra 31% na média da OCDE.4

Leitura no Pisa 2022 (pontos)Brasil 410 · OCDE 476
Uso semanal de IA para estudarBrasil 48% · OCDE 46%
Leram ao menos um livro (Brasil)2019: 52% · 2024: 47%

A própria OCDE pondera o dado com uma advertência importante: usar IA não equivale a aprender mais. O desempenho depende de como a ferramenta é empregada, e estudantes que recorrem a ela para substituir a leitura, em vez de complementar a pesquisa, tendem a apresentar resultados piores.5 É a mesma tensão que Richer descreve em sala de aula, quando percebe que seus alunos preferem a versão em áudio do romance em estudo à leitura silenciosa e concentrada do texto original.

Baricco e o descompasso entre escola e "o jogo"

Richer recorre ao ensaio The Game, do escritor italiano Alessandro Baricco, para explicar o fenômeno. Baricco descreve décadas de tecnologias, do Atari ao Facebook, que instalaram uma segunda realidade paralela à vida cotidiana, e argumenta que as instituições educacionais do século XX, formatadas para outra época, não conseguem preparar os estudantes para essa nova realidade sem sofrer uma fratura.1 Na leitura da professora canadense, o caminho não é o inverso do que normalmente se propõe: não é a tecnologia que precisa recuar em direção à sala de aula tradicional, é a escola que precisa alcançar o mundo digital em que os estudantes já vivem.

Contraponto

Nem todo especialista em letramento concorda que a solução passe por reduzir a exigência de leitura. Pesquisadores ligados ao Instituto Pró-Livro e a programas de fomento à leitura no Brasil defendem que a resposta à queda de leitores está em ampliar o acesso a bibliotecas e políticas públicas de formação de leitores desde a infância, não em substituir livros por resumos gerados por IA ou por audiolivros como equivalentes automáticos do texto escrito.2

Há também quem questione a premissa de que ouvir um audiolivro ou usar IA para uma pesquisa inicial seja, por si só, empobrecedor. Para essa corrente, o problema não é o suporte, mas a falta de mediação pedagógica que ensine o estudante a usar cada ferramenta sem abrir mão do pensamento crítico, algo que o próprio Pisa 2025 sugere ao mostrar que o impacto da IA na aprendizagem varia conforme o tipo de uso.5

O que fica para as escolas brasileiras

Richer já mudou sua prática: trocou romances de 400 páginas por obras mais curtas, passou a acompanhar a leitura capítulo a capítulo em vez de cobrar o livro inteiro semanas depois, e manteve apenas uma obra longa em seu programa, por convicção pessoal.1 É uma adaptação pragmática, não uma rendição. A pergunta que fica para gestores e professores brasileiros, diante de números de leitura que já eram baixos antes da IA generativa se popularizar, é semelhante: como preservar a formação de leitores capazes de interpretar metáforas, sustentar argumentos longos e resistir à tentação do resumo automático, sem fingir que a tecnologia vai simplesmente desaparecer da rotina escolar.

Este artigo foi inspirado na coluna "Tout est à réinventer", de Patrick Lagacé, publicada no jornal canadense La Presse em 13 de setembro de 2026. Trechos e dados originais pertencem ao veículo e ao autor. Leia a coluna completa em: lapresse.ca.

Perguntas frequentes

Os brasileiros estão lendo menos livros?

Sim. Segundo o Instituto Pró-Livro, o percentual de leitores no Brasil caiu de 52% em 2019 para 47% em 2024, e pela primeira vez os não leitores (53%) superaram os leitores no país.

Como o Brasil se compara à média da OCDE em leitura?

No Pisa 2022, o Brasil obteve 410 pontos em leitura, contra uma média de 476 pontos entre os países da OCDE, com metade dos estudantes brasileiros abaixo do nível mínimo de proficiência.

Quantos estudantes brasileiros usam IA para estudar?

De acordo com o Pisa 2025, 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos usam chatbots de inteligência artificial pelo menos uma vez por semana para estudar, e 31% os usam para resumir textos escolares.

O que diz o livro "The Game", de Alessandro Baricco, sobre isso?

Baricco argumenta que tecnologias digitais criaram uma segunda realidade paralela à vida cotidiana, e defende que as instituições educacionais tradicionais precisam se adaptar a essa realidade, em vez de esperar que ela recue.

Nota de verificação editorial (não publicar): confirmar antes da publicação se os dados do Pisa 2025 citados por veículos brasileiros correspondem à nota oficial do Inep/MEC sobre o Brasil, já divulgada em 8 de setembro de 2026, e revisar eventuais atualizações do Instituto Pró-Livro após esta data.