Este artigo foi inspirado na coluna Liberated by technology (again), de Tim Harford, publicada na seção Undercover Economist do Financial Times em 30 de setembro de 2026. O texto não reproduz nem traduz a coluna original; a análise e o contexto brasileiro são de responsabilidade de O Tecido, com base nas fontes indicadas.

Em 1930, com o desemprego britânico em alta e o mundo mergulhado na Grande Depressão, John Maynard Keynes fez uma aposta de longo prazo: dali a cem anos, a riqueza acumulada pelas economias avançadas permitiria jornadas de 15 horas semanais. Faltam quatro anos para o prazo vencer. A riqueza veio. A folga, não. É desse descompasso que parte a coluna de Tim Harford publicada pelo Financial Times em 30 de setembro, ao perguntar se a história das invenções que poupam trabalho tem algo a ensinar sobre a revolução da inteligência artificial.1

A pergunta é menos retórica do que parece. Cada nova geração de máquinas chegou embalada na mesma promessa de libertação, e cada uma produziu um resultado mais ambíguo do que o anunciado. Entender por que isso acontece ajuda a ler com mais precisão o que a IA generativa está fazendo agora com o trabalho de escritório, e o que ela pode fazer com o trabalho no Brasil.

A previsão de Keynes: acertou a riqueza, errou o tempo livre

O ensaio Economic Possibilities for our Grandchildren partia de duas tendências que Keynes estudava: o progresso técnico e a acumulação de capital. Sua conta indicava que o padrão de vida nas economias avançadas seria de quatro a oito vezes maior em um século, o suficiente para que três horas diárias de trabalho dessem conta das necessidades materiais. A primeira metade da previsão se confirmou com folga. A segunda, nem de perto: na maior parte dos países desenvolvidos, a semana padrão ainda fica entre 35 e 40 horas.2

Quando a equipe do programa Planet Money, da rádio pública americana NPR, foi atrás dos parentes de Keynes para saber quantas horas eles trabalhavam, ouviu relatos de semanas de 50 e até de mais de 100 horas. No agregado, os americanos trabalhavam em média cerca de 38 horas semanais em 1950 e por volta de 34 horas seis décadas depois: uma redução real, mas muito distante da revolução imaginada.2

A explicação mais comum é que a sociedade escolheu converter produtividade em consumo, não em tempo. A cesta do que se considera necessário se expandiu continuamente. Há também uma explicação distributiva: enquanto a renda estiver concentrada, quem está na base precisa de jornadas cheias apenas para fechar o mês, independentemente do quanto a economia como um todo tenha enriquecido.

A ironia da lavadora de roupas

Se Keynes oferece a visão de cima, a historiadora Ruth Schwartz Cowan oferece a visão de dentro de casa. Em More Work for Mother, livro de 1983 premiado pela Society for the History of Technology, ela mostrou que as donas de casa americanas do século 20 dedicavam ao serviço doméstico tanto tempo quanto suas antepassadas do período colonial, mesmo cercadas de lavadoras, aspiradores e farinha industrializada.3

O mecanismo identificado por Cowan tem duas peças. A primeira é a redistribuição: os aparelhos substituíram sobretudo tarefas antes feitas por homens, crianças e empregados, concentrando o restante sobre uma única pessoa. A segunda é a régua que sobe: quando lavar roupa ficou fácil, lavar roupa toda semana deixou de bastar. Os padrões de limpeza aumentaram e consumiram o tempo que as máquinas haviam liberado.3

Tecnologia que poupa trabalho raramente decide para onde vai o tempo poupado. Essa decisão é tomada depois, por empresas, famílias e governos.

O que os primeiros dados sobre IA generativa mostram

A IA generativa chega ao escritório com a mesma promessa da lavadora: tirar do caminho o trabalho repetitivo para liberar tempo para o que importa. As primeiras evidências de campo sugerem que o roteiro de Cowan está se repetindo.

Durante oito meses, as pesquisadoras Aruna Ranganathan e Xingqi Maggie Ye, da Haas School of Business da Universidade da Califórnia em Berkeley, acompanharam cerca de 200 funcionários de uma empresa de tecnologia americana que oferecia ferramentas de IA sem tornar seu uso obrigatório. O resultado, divulgado em fevereiro de 2026 na Harvard Business Review, é que a tecnologia não reduziu o trabalho: intensificou. As pessoas passaram a trabalhar em ritmo mais rápido, assumiram um leque maior de tarefas e estenderam a jornada para mais horas do dia, muitas vezes sem que ninguém pedisse.4

Os mecanismos descritos são reconhecíveis. Como a IA reduz drasticamente o custo de começar uma tarefa, os funcionários passaram a disparar comandos no almoço, em reuniões e antes de sair do escritório, eliminando as pausas naturais do dia. Especialistas, como engenheiros, ganharam uma carga secundária: revisar e corrigir o trabalho que colegas produziam com auxílio da IA. É a régua que sobe, agora aplicada à planilha e ao código.

No mercado de trabalho, o primeiro sinal aparece entre os mais jovens. Usando dados da maior processadora de folhas de pagamento dos Estados Unidos, Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, do Stanford Digital Economy Lab, encontraram em agosto de 2025 uma queda relativa de 13% no emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA, enquanto profissionais mais experientes nas mesmas funções mantiveram ou ampliaram suas posições.5 A atualização publicada em agosto de 2026 estima que o emprego desse grupo está 19% abaixo do que estaria caso tivesse acompanhado o ritmo de seus pares menos expostos. Os autores tratam os números como indicadores descritivos precoces, não como prova de causalidade.5

De novo, a tecnologia não elimina o trabalho de forma uniforme. Ela o redistribui, e o custo da transição recai sobre quem tem menos poder de barganha.

O caso brasileiro: adoção desigual e uma jornada em disputa

No Brasil, a IA generativa já faz parte da rotina de uma parcela expressiva da população conectada. A pesquisa TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, que mediu o tema pela primeira vez, mostrou que 32% dos usuários de internet com 10 anos ou mais, cerca de 50 milhões de pessoas, usam essas ferramentas. A adoção, porém, acompanha as linhas de renda: 69% na classe A contra 16% nas classes D e E.6 Entre os usuários, metade relatou uso em atividades profissionais.

USO DE IA GENERATIVA ENTRE USUÁRIOS DE INTERNET (2025) Classe A 69% Média Brasil 32% Classes D e E 16%
Fonte: Cetic.br/NIC.br, TIC Domicílios 2025. Percentual de usuários de internet com 10 anos ou mais que usaram ferramentas de IA generativa.

A lição de Cowan também tem tradução direta para o país. Segundo a PNAD Contínua do IBGE, em 2019 as mulheres brasileiras dedicavam em média 21,4 horas semanais a afazeres domésticos e cuidados de pessoas, contra 11,0 horas dos homens.7 Décadas de eletrodomésticos não equalizaram essa conta, porque o problema nunca foi apenas técnico. Não há motivo para supor que assistentes de IA, sozinhos, farão diferente.

O ponto mais revelador do caso brasileiro, porém, está no Congresso. A proposta de emenda à Constituição que acaba com a escala 6x1 e reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, foi aprovada pela Câmara dos Deputados no fim de maio. No Senado, a Comissão de Constituição e Justiça aprovou o texto em 2 de setembro, mas a votação em plenário, que exige ao menos 49 votos em dois turnos, não ocorreu antes do período eleitoral e segue sem data definida.8

A PEC não trata de inteligência artificial, mas toca exatamente o ponto que Keynes deixou em aberto: ganhos de produtividade só se convertem em tempo livre por decisão coletiva. O debate brasileiro, com seus argumentos sobre custo para empregadores, geração de empregos e qualidade de vida, é a forma concreta que essa decisão assume aqui. Se a IA elevar a produtividade de parte da força de trabalho, a pergunta sobre quem fica com o ganho, se acionistas, consumidores ou trabalhadores na forma de horas, será respondida em arenas como essa, não nos laboratórios.

Contraponto

A história também registra libertação real

Ler a trajetória das máquinas apenas como sucessão de promessas frustradas seria igualmente impreciso. As jornadas caíram ao longo do século 20, ainda que menos do que Keynes previu, e a expansão do consumo que ocupou o tempo poupado inclui ganhos concretos de saúde, mobilidade e conforto. Como observam críticos da leitura pessimista, quem quisesse viver com o padrão material de 1930 provavelmente precisaria de bem menos de 15 horas semanais hoje: a escolha por mais bens é, em boa medida, uma escolha.

Há ainda sinais de que a conversão de produtividade em tempo é possível quando organizada. Um piloto britânico de semana de quatro dias reuniu 61 empresas durante seis meses, com salário integral mantido. Quanto à IA, as evidências são preliminares: o estudo publicado na HBR observou uma única empresa com cerca de 200 funcionários, e os próprios autores de Stanford tratam seus resultados como sinais descritivos. É cedo para afirmar que a IA seguirá o roteiro da lavadora, e as autoras de Berkeley sugerem que normas internas, como pausas deliberadas e sequenciamento de tarefas, podem alterar o desfecho.

Três lições da história para a era da IA

  1. O tempo poupado não tem dono automático. Ele é capturado por quem tem poder para definir metas, prazos e padrões. Sem regras explícitas, a tendência observada é a intensificação.
  2. A régua sobe junto com a ferramenta. Quando produzir um relatório leva minutos, a expectativa passa a ser mais relatórios, mais versões e respostas mais rápidas. O padrão aceitável se desloca, como aconteceu com a limpeza doméstica.
  3. O custo da transição não é distribuído por igual. Recai sobre quem está entrando no mercado, sobre quem acumula trabalho não remunerado e sobre quem tem menos acesso à própria tecnologia. No Brasil, a desigualdade de adoção medida pelo Cetic.br indica que os ganhos tendem a se concentrar onde já há mais renda.

A pergunta de Harford, portanto, tem uma resposta parcial que já se pode dar: a história ensina que a tecnologia amplia o que é possível, mas não determina o que será feito com essa possibilidade. A ilustração que acompanha a coluna no FT, uma mão robótica abrindo a porta de uma gaiola, captura bem a ambiguidade. A porta pode estar aberta. Sair por ela continua dependendo de escolhas humanas.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial vai reduzir a jornada de trabalho?

Não necessariamente. Um estudo de oito meses publicado na Harvard Business Review em fevereiro de 2026 observou que funcionários que adotaram IA generativa passaram a trabalhar mais rápido, assumir mais tarefas e estender o expediente. A história de outras tecnologias, como os eletrodomésticos, mostra que a redução de jornada depende de decisões sociais e políticas, não apenas da ferramenta.

O que Keynes previu em 1930 sobre o trabalho?

No ensaio Economic Possibilities for our Grandchildren, John Maynard Keynes previu que, em cem anos, o padrão de vida nas economias avançadas cresceria de quatro a oito vezes e que uma semana de 15 horas seria suficiente. A riqueza cresceu, mas a jornada padrão nos países desenvolvidos permanece entre 35 e 40 horas.

Por que as máquinas de lavar não reduziram o trabalho doméstico?

Segundo a historiadora Ruth Schwartz Cowan, autora de More Work for Mother (1983), os aparelhos substituíram principalmente tarefas antes feitas por homens, crianças e empregados, concentrando o trabalho restante nas mulheres, enquanto os padrões de limpeza subiram e absorveram o tempo poupado.

Quantos brasileiros usam IA generativa?

De acordo com a TIC Domicílios 2025, do Cetic.br/NIC.br, 32% dos usuários de internet com 10 anos ou mais usam IA generativa, cerca de 50 milhões de pessoas. O uso chega a 69% na classe A e a 16% nas classes D e E.

Qual a relação entre a PEC do fim da escala 6x1 e a inteligência artificial?

A PEC não trata de IA, mas enfrenta a mesma questão: como transformar ganhos de produtividade em tempo livre. A proposta reduz a jornada máxima de 44 para 40 horas semanais sem corte salarial; foi aprovada pela Câmara e pela CCJ do Senado em 2026 e aguarda votação no plenário do Senado.

A IA já está afetando o emprego de jovens?

Pesquisadores de Stanford identificaram queda relativa de 13% no emprego de trabalhadores de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA nos Estados Unidos, com atualização em agosto de 2026 indicando um hiato de 19%. Os autores tratam os dados como sinais descritivos precoces, não como prova definitiva de causalidade.

Ewerton Lopes — Curador Editorial