Caderno Empreendedorismo

Durante boa parte da década passada, os relatórios sobre ecossistemas de startups contaram uma história de dispersão. Ainda havia uma hierarquia clara, com o Vale do Silício muito à frente e um pequeno grupo de cidades logo atrás. Mesmo assim, o mapa parecia mais aberto a cada edição. Berlim, Bengaluru, Shenzhen, Toronto, Lagos e São Paulo subiam no ranking, fundos locais ganhavam escala e fundadores que haviam vendido suas empresas reinvestiam o capital e a experiência em novas companhias na própria cidade.1

Os números confirmam esse movimento. Entre as edições de 2020 e 2024 do Global Startup Ecosystem Report (GSER), da Startup Genome, a participação dos 20 maiores ecossistemas no valor global caiu de 75,4% para 69,7%. A fatia do Top 10 recuou de 63,8% para 58%. A do Vale do Silício passou de 27,3% para 24,5%.1 A literatura acadêmica chama o fenômeno de difusão regional. Até 2023, ele parecia uma tendência de mão única, sustentada por conectividade global, instituições mais maduras e capital mais disposto a circular.

Essa premissa não se sustenta mais. A edição de outubro da newsletter The Ecosystem Brief, assinada por Marc Penzel, fundador e presidente da Startup Genome, mostra que em dois anos a concentração voltou ao ponto de partida.1 O argumento deste texto parte desse dado. Para países fora dos polos pioneiros, financiar a formação de novos hubs deixou de ser política acessória de inovação. Passou a ser condição para que o país tenha participação no valor gerado pela tecnologia que está reorganizando a economia.

A reversão em números

No GSER 2026, publicado em junho, o Top 20 voltou a concentrar 75,4% do valor global de ecossistemas, o mesmo patamar de 2020. O Top 10 chegou a 64,4%, acima do nível de 2020, e o Vale do Silício subiu para 28,3%.1 O relatório informa ainda que o valor do ecossistema do Vale passou de US$ 3 trilhões, quase três vezes o do segundo colocado.2

GSER 2020 GSER 2024 GSER 2026 75,4 69,7 75,4 63,8 58,0 64,4 27,3 24,5 28,3 Top 20 Top 10 Vale do Silício % do valor global de ecossistemas de startups
Participação no valor global de ecossistemas (Ecosystem Value). Fonte: Startup Genome, The Ecosystem Brief, out. 2026, com dados das edições 2020, 2024 e 2026 do GSER. Elaboração: O Tecido.

Segundo a Startup Genome, a causa principal é a inteligência artificial. O valor dos ecossistemas de startups nativas de IA passou de US$ 1 trilhão em 2025, com alta de 507% desde 2020, ritmo cerca de doze vezes maior que o do restante do setor de tecnologia. A América do Norte recebeu 78% do venture capital global destinado a startups nativas de IA entre o segundo semestre de 2023 e 2025. Nesse período, os Estados Unidos criaram 43,2% de todas as startups do segmento. O Reino Unido, segundo colocado, criou 9%.1

Esses números mostram mais do que liderança. A tecnologia que mais cresce em valor está se concentrando de forma mais intensa que as anteriores, e no momento em que as cadeias de valor estão sendo redesenhadas.

As cinco leis de Lerner

Para explicar por que a concentração tende a persistir, a newsletter recorre a Josh Lerner, professor da Harvard Business School que estuda há décadas a geografia da inovação. Segundo o texto, Lerner observa um padrão recorrente nas tecnologias de fronteira, que pode ser resumido em cinco regularidades:1

  1. A tecnologia nasce concentrada. O trabalho de fronteira se instala onde já existem capital, talento e conhecimento técnico de fronteira.
  2. A expansão geográfica é lenta. As vagas ligadas à nova tecnologia demoram a aparecer em outras regiões.
  3. A qualificação média cai com o tempo, mas com atraso. Primeiro a tecnologia chega a novas regiões. Só depois surgem funções menos especializadas.
  4. O uso se espalha mais rápido que a criação. As funções que aplicam a tecnologia se difundem antes das funções que a desenvolvem.
  5. A vantagem dos pioneiros dura décadas. O polo que concentra primeiro as funções de alta qualificação tende a mantê-las por 30 anos ou mais.

A quarta e a quinta leis são as mais relevantes para quem formula política pública fora dos grandes centros. A IA vai chegar ao Brasil de qualquer forma, por meio de assinaturas, APIs e ferramentas embutidas em softwares que as empresas já usam. O que não chega espontaneamente é a parte da cadeia que acumula valor: pesquisa, desenvolvimento de modelos, engenharia de fronteira e a propriedade das empresas que fazem esse trabalho. A newsletter chama essa diferença de difusão do uso e difusão da criação.1

O risco para quem está fora dos grandes polos não é deixar de adotar a IA. É se tornar um usuário muito produtivo de uma tecnologia cujos ativos mais valiosos pertencem a empresas de outros países.

Quem fica com o ganho

A esse diagnóstico geográfico se soma uma questão distributiva. Daron Acemoglu, do MIT, argumenta que mesmo quando a IA aumenta a produtividade, os ganhos podem ficar mais com o capital do que com o trabalho.8 Se a criação permanece concentrada em poucos lugares, como prevê Lerner, e o uso se espalha rapidamente pelo mundo, como acontece com serviços digitais, o resultado provável é assimétrico. Os benefícios ficam com os donos do capital em poucas cidades, enquanto custos como a substituição de postos de trabalho se distribuem amplamente.1

Em revoluções tecnológicas anteriores, perdas em uma região costumavam ser compensadas por ganhos em outras dentro do mesmo país. A eletrificação acabou com ofícios, mas criou fábricas, empregos e receita tributária no próprio território. Com a IA, a Startup Genome alerta que esse mecanismo nacional de compensação pode não se repetir. Os empregos eliminados seriam locais, enquanto a receita das empresas que vendem a tecnologia ficaria no exterior.1 Para um país de renda média como o Brasil, essa é a questão central da política industrial nos próximos anos.

Orçamentos que não acompanham a mudança

A newsletter aponta um fator menos visível: os orçamentos públicos mudam muito mais devagar que a tecnologia. Em uma consulta da Startup Genome a líderes de ecossistemas, 54% dos que informaram um número disseram destinar menos de 5% do orçamento de 2026 a políticas novas voltadas à IA. Em média, 62% dos orçamentos foram simplesmente repetidos do ano anterior.1

A recomendação da organização é rever o orçamento a partir do zero. O primeiro passo seria identificar as capacidades que determinam onde a IA é criada: talento empreendedor, comunidades técnicas especializadas, programas de fronteira, capital de estágio inicial e caminhos para levar pesquisa ao mercado. O segundo seria perguntar quais gastos atuais ainda se justificam.1 Em 2025, JF Gauthier, fundador e CEO da Startup Genome, já sugeria uma regra prática: reservar ao menos 25% do orçamento público de IA para formar um ecossistema local de startups nativas, em vez de gastar tudo com infraestrutura e com a compra de soluções americanas e chinesas.10 A lógica é que, se a mudança tecnológica é exponencial, ajustes orçamentários marginais produzem uma resposta proporcionalmente pequena.

O Brasil no mapa: liderança regional e perda de posições

São Paulo segue como o principal ecossistema da América Latina. Em 2025, o Brasil recebeu US$ 2,03 bilhões em venture capital, distribuídos em 363 rodadas, o que corresponde a 52,9% do financiamento da região. A maior parte foi para a capital paulista.3 No ranking global, porém, a cidade vem perdendo posições. Estava em 26º lugar no GSER 20235 e aparece em 37º no GSER 2026.3

A avaliação feita pelo Sebrae em parceria com a Startup Genome, que analisou São Paulo, Florianópolis e Recife, ajuda a entender a queda. O estudo afirma que o recuo não se deve à falta de atividade. São Paulo tem muitas startups e uma rede de contatos eficiente nos estágios iniciais, mas falha em coordenar iniciativas, tem dificuldade para levar empresas da fase semente à Série A e ainda tem uma cultura de equity pouco desenvolvida. Enquanto outros polos avançam com estratégias coordenadas e foco internacional desde o início, o ecossistema paulista continua muito voltado ao mercado doméstico e pouco articulado.4

No governo federal, o principal instrumento é o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial (PBIA), lançado em 2024 com previsão de R$ 23 bilhões até 2028.6 O desenho dá peso à inovação empresarial: cerca de 60% dos recursos estão no eixo que inclui apoio e aceleração de startups especializadas em IA e retenção de talentos.7 Uma parte relevante do plano, porém, vai para infraestrutura. Só o novo supercomputador do Laboratório Nacional de Computação Científica tem R$ 1,8 bilhão previstos.9 Infraestrutura é necessária, e um país sem capacidade computacional própria depende de terceiros. Mas pelos critérios de Lerner e da Startup Genome, a pergunta que define o resultado é outra: quanto desse dinheiro chega de fato a fundadores, pesquisadores que querem empreender, fundos de estágio inicial e comunidades técnicas fora do eixo Rio-São Paulo, na forma de capital de risco e não apenas de crédito.

O que uma política de hubs pode fazer

Construir hubs não equivale a inaugurar prédios com o nome de parque tecnológico. A experiência internacional e a própria trajetória brasileira indicam pelo menos quatro frentes de ação.

A primeira é tratar talento como infraestrutura. Bolsas para manter pesquisadores de IA no país, regras de propriedade intelectual que permitam a docentes criar empresas e programas que aproximem engenheiros experientes de laboratórios universitários têm efeito mais duradouro que qualquer equipamento.

A segunda é oferecer capital de risco no estágio em que o mercado não oferece. O gargalo identificado em São Paulo está na passagem da fase semente para a Série A.4 É nesse ponto que fundos com participação pública, operando com gestores privados e critérios de mercado, fazem diferença. Linhas de crédito, por mais amplas que sejam, não substituem esse tipo de capital.

A terceira é usar as compras públicas. O Marco Legal das Startups criou o contrato público para solução inovadora, que permite ao Estado contratar o teste de soluções ainda não disponíveis no mercado.11 Saúde, agro, gestão tributária e segurança pública geram dados e problemas em escala nacional. Usar o poder de compra do Estado para criar demanda por IA desenvolvida no país é uma política industrial de baixo custo relativo.

A quarta é distribuir a rede pelo território. Recife, com o Porto Digital, e Florianópolis mostram que existem polos fora de São Paulo com densidade técnica real.4 Uma estratégia que trate esses polos como uma rede, com especializações complementares, aumenta as chances do país de capturar parte da criação. Apostar apenas na capital paulista concentra o risco.

O prazo é curto

Nada disso significa que a geografia da IA já esteja definida. A década passada mostrou que o mapa da inovação pode se ampliar quando há capital, talento e instituições funcionando em conjunto. Mas se as regularidades descritas por Lerner valerem também para a IA, o período em que ainda é possível mudar a distribuição é mais curto do que a maioria dos governos supõe, e a vantagem obtida agora tende a durar uma geração.1

Para o Brasil, isso exige uma mudança de critério. Medir quantas empresas adotaram IA é insuficiente. O indicador que importa é quantas empresas brasileiras criam IA, quantos pesquisadores permanecem no país e quanto do valor gerado fica aqui. Essas metas dependem de escolhas orçamentárias, incluindo a decisão de retirar recursos de programas pensados para a fase anterior da tecnologia. O custo de não decidir também é alto, só que menos visível.

Perguntas frequentes

Por que a IA está concentrando a inovação em poucos lugares?

Porque o desenvolvimento de tecnologia de fronteira depende de capital, talento e conhecimento que já estão reunidos em poucos polos. Segundo a Startup Genome, a América do Norte recebeu 78% do venture capital global para startups nativas de IA entre o segundo semestre de 2023 e 2025.

Qual a diferença entre difundir o uso e difundir a criação da IA?

Difundir o uso significa que empresas e pessoas em qualquer lugar passam a aplicar a tecnologia. Difundir a criação significa que pesquisa, modelos, engenharia de fronteira e a propriedade das empresas também se espalham. O uso se difunde rápido. A criação tende a ficar onde começou, às vezes por décadas.

Como está o Brasil nesse cenário?

São Paulo é o 1º ecossistema da América Latina, mas caiu do 26º lugar global em 2023 para o 37º em 2026. O país tem o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial, com R$ 23 bilhões previstos até 2028, cuja eficácia depende de quanto dos recursos chega a startups e talentos que criam tecnologia.

O governo deve investir diretamente para criar hubs de inovação?

A evidência sugere que sim, desde que siga a lógica de mercado: fundos com gestão privada, metas mensuráveis, continuidade além dos ciclos eleitorais e foco nos gargalos que o mercado não resolve sozinho, como o capital de estágio inicial e a retenção de talentos.

Este artigo tem como ponto de partida a edição de 7 de outubro de 2026 da newsletter The Ecosystem Brief, da Startup Genome ("The reemerging concentration problem"), que foi usada como referência e não traduzida. Os dados sobre o Brasil e a análise são de responsabilidade de O Tecido.