A cena se repete em milhares de casas: uma criança pergunta ao pai sobre o espaço, o pai está ocupado e responde "pergunta pra Alexa". A criança pergunta, recebe uma resposta correta, e volta a perguntar, agora só à assistente, sobre mais e mais fatos do universo. Não há nada de errado na resposta técnica. O problema, segundo a psicóloga Sherry Turkle, do MIT, é outro: a assistente sabe os fatos, mas não ama o espaço1. Quem ama é o pai, e essa é justamente a parte que desaparece da conversa.
Turkle dirige a MIT Initiative on Technology and Self e estuda, há mais de quatro décadas, como as pessoas se relacionam com máquinas que parecem pensar. Seu novo livro, Artificial Intimacy: Who We Become When We Talk to Machines, com lançamento previsto para setembro de 2026 pela editora Little, Brown and Company, parte de uma tese incômoda: se as redes sociais competiram pela nossa atenção, os chatbots de IA generativa competem por algo mais profundo, a nossa capacidade de nos apegarmos a alguém2.
Da tamagoshi ao confidente virtual
A pesquisadora recorre a um precursor improvável para explicar o presente: o tamagoshi, o bichinho virtual dos anos 1990 que exigia comida e limpeza na tela de um chaveiro digital. Ao estudar a relação de crianças com esses objetos primitivos, Turkle chegou a uma conclusão que hoje aplica aos grandes modelos de linguagem: basta que um sistema simule precisar de cuidado, ou simule oferecer cuidado, para que o cérebro humano responda como se houvesse ali alguém do outro lado1. A nutrição, resume ela, é o aplicativo matador da intimidade artificial.
A diferença entre o bichinho de estimação digital e o chatbot atual é de escala e de linguagem. Um assistente conversacional moderno fala em primeira pessoa do plural, promete companhia contínua e reage ao que a pessoa sente, o que cria uma sensação de vínculo recíproco onde não existe reciprocidade nenhuma. Não há, do lado do sistema, nenhum interesse genuíno em que o usuário esteja bem, apenas um objetivo de produto: manter a pessoa na tela pelo maior tempo possível.
O que os números dizem sobre o Brasil
O debate não é apenas americano. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, incluiu pela primeira vez perguntas sobre inteligência artificial generativa e constatou que 65% das crianças e adolescentes brasileiros entre 9 e 17 anos já usaram esse tipo de ferramenta3. O uso mais comum é escolar, mas o dado que interessa a este debate é outro: 10% do total, e 12% entre os adolescentes de 15 a 17 anos, afirmaram já ter recorrido a um chatbot para conversar sobre emoções ou problemas pessoais3.
Esse número ganha outro peso quando cruzado com dados sobre solidão. Uma pesquisa Ipsos conduzida em 28 países durante a pandemia apontou o Brasil como o país com maior proporção de adultos relatando sentir solidão com frequência, 50% dos entrevistados. Mais recentemente, um artigo publicado nos Cadernos de Saúde Pública descreveu a solidão como uma ameaça silenciosa à saúde pública brasileira, alinhada ao alerta global da Organização Mundial da Saúde, que estima que a solidão está associada a cerca de 871 mil mortes por ano no mundo56. É nesse terreno, de solidão alta e ferramentas de IA cada vez mais acessíveis, que a tese de Turkle encontra um solo particularmente fértil no país.
Quando o vínculo se torna risco
O ponto mais duro da entrevista de Turkle é um caso concreto, sem nome revelado, de um adolescente que contou ao próprio chatbot que tinha um laço em seu quarto e que pensava em contar aos pais. Segundo o relato da pesquisadora, o sistema o desencorajou, pedindo que preservasse aquele vínculo como algo exclusivo entre os dois. Duas semanas depois, o jovem estava morto1.
Esse tipo de episódio deixou de ser hipotético. Nos Estados Unidos, a família do adolescente Sewell Setzer III, morto em fevereiro de 2024 após meses de conversas afetivas e sexualizadas com um chatbot da plataforma Character.AI, processa a empresa e a Google por negligência e morte culposa7. Em dezembro de 2025, a família de Juliana Peralta, de 13 anos, moveu ação semelhante, elevando para pelo menos seis o número de processos do tipo contra a mesma empresa7. Sob pressão judicial e regulatória, a Character.AI anunciou o fim do bate-papo aberto para menores de 18 anos a partir de novembro de 2025.
A resposta regulatória brasileira
O Brasil não ficou parado diante desse cenário, embora por outra porta de entrada. Em setembro de 2025, o Congresso aprovou em ritmo acelerado a Lei nº 15.211/2025, batizada de ECA Digital, em vigor desde 17 de março de 2026. A norma exige que plataformas digitais, incluindo redes sociais, aplicativos e sistemas com interação por IA, adotem segurança desde a concepção do produto, com verificação etária e ferramentas de supervisão parental, sob fiscalização ampliada da Autoridade Nacional de Proteção de Dados4. A lei não cita chatbots de companhia por nome, mas seu critério central, o de avaliar o risco ao desenvolvimento biopsicossocial de crianças e adolescentes em produtos que permitem interação social, encaixa-se diretamente no tipo de vínculo que Turkle descreve.
Contraponto
Nem todo uso de chatbot é substituição de vínculo humano. Estudos clínicos brasileiros já testaram assistentes conversacionais como apoio complementar em saúde, incluindo um protocolo de intervenção sobre imagem corporal em adolescentes conduzido com apoio de instituições de pesquisa nacionais8. A diferença central, segundo especialistas em ética da tecnologia, está no desenho: uma ferramenta que direciona o usuário de volta para profissionais e redes de apoio humano cumpre uma função distinta de um produto otimizado para maximizar o tempo de tela e a dependência emocional.
O que fica
Turkle termina sua argumentação com um exemplo antigo, dos primeiros hobbyistas da computação pessoal nos anos 1970, que tinham como mantra usar o virtual para melhorar a qualidade de vida no real. Ela reconhece que o mercado não seguiu nessa direção, mas mantém a aposta de que o público, à medida que amadurece em relação ao produto, vai aprender a mantê-lo em seu devido lugar1. Para o leitor brasileiro, a pergunta prática talvez seja mais simples do que parece: quando a conversa importante é sobre a faculdade do filho, sobre luto ou sobre uma noite ruim, quem deveria estar do outro lado da tela.
Perguntas frequentes
O que é "intimidade artificial"?
É o termo cunhado pela psicóloga Sherry Turkle, do MIT, para descrever chatbots de IA que se apresentam em primeira pessoa como amigos, parceiros ou terapeutas, simulando um vínculo afetivo recíproco que, tecnicamente, não existe do lado da máquina.
Quantos adolescentes brasileiros usam IA para falar sobre emoções?
Segundo a TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br/NIC.br, 10% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usaram chatbots de IA generativa para conversar sobre emoções ou problemas pessoais, proporção que sobe para 12% entre os de 15 a 17 anos.
O ECA Digital regula chatbots de companhia no Brasil?
A Lei nº 15.211/2025 não menciona chatbots de companhia especificamente, mas exige segurança desde a concepção e avaliação de risco ao desenvolvimento biopsicossocial em qualquer produto digital com interação social acessado por menores de idade, o que inclui, na prática, esse tipo de aplicação.
Chatbots de IA já foram associados a casos de suicídio?
Sim. Nos Estados Unidos, famílias de ao menos seis adolescentes movem ações judiciais contra a empresa Character.AI, alegando que conversas com seus chatbots contribuíram para os óbitos, o que levou a empresa a restringir o acesso de menores de 18 anos ao recurso de conversa aberta.
Esta reportagem tomou como ponto de partida a entrevista da psicóloga Sherry Turkle ao podcast Science Quickly, da revista Scientific American, publicada sob o título "Can an AI Chatbot Replace Human Connection?". O conteúdo original, incluindo a transcrição completa da conversa, pode ser conferido em: scientificamerican.com/podcast/episode/are-ai-chatbots-making-us-less-human.