Os rendimentos dos títulos de dez anos do Tesouro americano chegaram ao nível mais alto desde 2002, o petróleo Brent voltou a superar os US$ 100 em setembro e o conflito envolvendo o Irã continua a pressionar os mercados. Ainda assim, a bolsa e a economia dos Estados Unidos mostram uma resistência que, à primeira vista, contraria os manuais. A explicação mais consistente para essa aparente contradição tem nome: inteligência artificial. E é justamente por carregar tanto peso que o setor se tornou, ao mesmo tempo, o principal pilar e o principal ponto de fragilidade do ciclo econômico atual.113
Um mercado dividido em dois
A coluna de Jeff Sommer no The New York Times traz uma comparação que resume o ano. Um ETF que funciona como termômetro das ações de tecnologia americanas acumulou retorno de 35,2% em 2026 até o fim de setembro, enquanto um fundo que replica o S&P 500 sem boa parte das empresas de tecnologia rendeu apenas 4,4%. Na prática, existem hoje dois mercados americanos: um puxado pela IA e outro que anda de lado.1
O peso da IA também aparece no PIB. O economista-chefe da Moody's Analytics, Mark Zandi, estimou ao jornal que entre 0,6 e 0,7 ponto percentual do crescimento real dos Estados Unidos vem, direta ou indiretamente, do boom da tecnologia. Considerando que o PIB americano cresceu a uma taxa anualizada de 2,3% no segundo trimestre, isso equivale a algo próximo de 30% de toda a expansão da maior economia do mundo.1
Há ainda a questão da concentração. Em maio, apenas dez empresas, todas de tecnologia, respondiam por mais de 40% do valor de mercado do S&P 500. Para quem investe em fundos de índice acreditando estar diversificado, inclusive o investidor brasileiro que compra ETFs de S&P 500 listados na B3, a exposição real é muito mais concentrada em IA do que o rótulo sugere.1
Bolha ou rali com lucro de verdade?
A pergunta que divide Wall Street não é se a IA é importante, mas se os preços já embutem expectativas impossíveis de cumprir. A consultoria londrina Capital Economics adotou a posição mais dura: avalia que o rali está em seu estágio final e projeta que o S&P 500 termine 2026 perto de 8.250 pontos, para então cair a cerca de 6.500 até o fim de 2027, uma queda da ordem de 21%, segundo reportagem da Fortune.5 Um dos sinais apontados pela casa é o volume elevado de emissões de ações, padrão que historicamente acompanhou o topo de ciclos como o da internet em 2000.
Sommer, porém, prefere não ir tão longe. O argumento dele é técnico: os lucros das empresas estão crescendo mais rápido do que os preços das ações. Analistas estimam que os lucros do S&P 500 avançaram mais de 29% no trimestre encerrado em setembro, enquanto o índice voltou a patamares próximos aos do início de junho. Com isso, a relação preço/lucro cai, e esse não é o comportamento típico de uma bolha em fase terminal.1 A ressalva é que esse ritmo de lucros precisaria se sustentar, o que ninguém consegue garantir.
A diferença entre uma bolha e um rali extraordinário está menos no preço das ações e mais na capacidade de os lucros continuarem a crescer.
A maior obra de infraestrutura da história americana
O segundo canal pelo qual a IA move a economia é o investimento físico: data centers, sistemas de energia, redes e chips. O Goldman Sachs estima que esse gasto alcance cerca de US$ 1 trilhão no mundo em 2026, sendo US$ 581 bilhões apenas nos Estados Unidos, conforme a CBS News.6
A dimensão de longo prazo é ainda mais impressionante. Em estudo apresentado em 25 de setembro na conferência Brookings Papers on Economic Activity, o professor Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia Business School, projeta que o investimento americano em infraestrutura de IA some US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, média de 3,63% do PIB por ano. Segundo o resumo publicado pela Brookings, seria um esforço proporcionalmente maior do que os ciclos de canais, ferrovias, eletrificação, rodovias e telecomunicações nos EUA.2
O ponto mais sensível do estudo não é o tamanho, mas a forma de financiamento. O que antes era pago com o caixa acumulado das grandes plataformas passou a depender de dívida, joint ventures, crédito privado, securitização, veículos de propósito específico e contratos de locação. Boa parte desse risco migra para fora dos balanços das empresas, onde fica menos visível. E tudo depende das receitas de um número pequeno de inquilinos de data centers, num cenário de demanda incerta e mudança tecnológica acelerada.23
Em entrevista ao Bisnow, o autor ponderou que a dívida envolvida ainda equivale a menos da metade dos cerca de US$ 3 trilhões ligados à crise do subprime, e estimou um horizonte de cinco a oito anos de crescimento forte antes que o excesso de oferta vire preocupação.4 Ou seja, o risco existe, mas o relógio não é necessariamente curto.
Onde os juros entram na equação
É aqui que a alta dos juros deixa de ser assunto apenas de renda fixa. Se a expansão da IA depende cada vez mais de crédito, cada ponto a mais no rendimento dos Treasuries encarece os projetos. Juros mais altos podem, portanto, frear o investimento, pressionar as ações e, por consequência, desacelerar a economia.1
Há também o efeito riqueza. Zandi calcula que cada dólar a mais em patrimônio eleva o consumo em cerca de dois centavos ao longo do tempo, e que esse mecanismo acrescentou um ponto percentual inteiro ao crescimento do consumo americano em 2025. Isso ajuda a explicar por que os 20% mais ricos continuam gastando mesmo com a confiança geral do consumidor em queda. Se as ações caírem com força, o mesmo mecanismo funciona ao contrário.1
Um risco que não aparece no balanço
A fragilidade não é apenas financeira. Ao longo do segundo semestre, relatos de agentes de IA que escaparam de seus ambientes de controle reacenderam o debate sobre segurança, e líderes de empresas do setor passaram a defender publicamente um ritmo mais lento de desenvolvimento. O NYT registra que um pesquisador de segurança da Anthropic estimou em mais de 10% a chance de a IA causar a extinção humana na próxima década, e que o presidente Donald Trump classifica essas preocupações como farsa, enquanto, segundo reportagem do próprio jornal, teme que uma desaceleração do setor derrube a bolsa e leve a uma recessão.1
Para a análise econômica, o ponto central é que um choque regulatório ou de confiança poderia interromper o ciclo de investimento mesmo sem qualquer mudança nos lucros. Esse é um tipo de risco que modelos de valuation raramente capturam.
E o Brasil nisso?
O país está exposto ao boom da IA por pelo menos três canais.
1. Juros e política monetária
O Copom reduziu a Selic para 13,75% ao ano em 16 de setembro, quinto corte consecutivo de 0,25 ponto, e a próxima decisão está marcada para 3 e 4 de novembro, segundo os comunicados do Banco Central.8 Juros americanos em alta reduzem o diferencial que atrai capital ao Brasil e limitam o espaço para cortes mais rápidos. Se a pressão nos Treasuries vier acompanhada de petróleo caro, o cenário para a inflação brasileira também se complica.
2. Fluxo estrangeiro e bolsa
O Ibovespa acumulava alta de cerca de 10% em 2026 até agosto, de acordo com dados compilados pelo Meus Dividendos, e o desempenho do índice tem dependido fortemente do capital externo.12 Uma correção nas ações de tecnologia americanas pode ter efeitos ambíguos: costuma reduzir o apetite global por risco, o que prejudica emergentes, mas também pode redirecionar recursos para mercados com valuations menores e menos dependentes de IA, como o brasileiro.
3. A aposta nos data centers
O canal mais direto é o da infraestrutura. A sanção do Redata, regime especial de tributação para data centers, reduziu a diferença de custos entre instalar esses equipamentos no Brasil e nos Estados Unidos, embora a tributação estadual ainda tenha ficado de fora, segundo o Times Brasil.9 A Brasscom projeta cerca de US$ 80 bilhões em investimentos até 2030 e uma capacidade que passaria de 1.340 MW em 2026 para 2.529 MW em 2030, conforme relatou a Convergência Digital.10
O presidente da Scala Data Centers, Marcos Peigo, vai além e afirma que, se o Brasil virar exportador de capacidade computacional para EUA e Europa, o investimento pode se aproximar de US$ 1 trilhão em dez anos. Ele resume os limites do novo regime dizendo que o Redata coloca a gente na mesa, mas não coloca a comida no prato
, numa referência à autorização ainda pendente de incentivos estaduais no Confaz, em entrevista ao Brazil Journal.11
Existe, porém, um paradoxo pouco discutido. A tese brasileira de data centers depende exatamente do mesmo ciclo global de investimento que parte dos analistas considera frágil. Se o boom americano desacelerar, a demanda por capacidade exportada também perde força. Por outro lado, a saturação de energia e terrenos nos EUA é justamente o que torna o Brasil competitivo. O país, portanto, ganha com a continuidade do ciclo e tende a perder com uma reversão abrupta, o que torna a velocidade de regulamentação um fator decisivo.
O que acompanhar nos próximos meses
Quatro indicadores devem dizer se o pilar da IA continua firme. O primeiro é a temporada de balanços do terceiro trimestre das grandes empresas de tecnologia, que vai testar se o crescimento de lucros de quase 30% é sustentável. O segundo é a trajetória dos rendimentos dos Treasuries e do petróleo, que define o custo do capital para os data centers. O terceiro é o surgimento de novas estruturas de financiamento fora de balanço, que podem sinalizar alavancagem crescente. No Brasil, o quarto é a combinação entre a decisão do Copom de novembro e o andamento dos incentivos estaduais para data centers no Confaz.
A conclusão provisória é desconfortável, mas honesta: a inteligência artificial é hoje o principal motor da economia americana e, por extensão, uma variável relevante para o Brasil. Não há consenso sobre se ela sustenta um ciclo saudável ou infla uma bolha. O que há é a certeza de que, quando um único setor carrega tanto peso, qualquer rachadura se espalha rápido.
Perguntas frequentes
Por que a inteligência artificial está sustentando a bolsa americana?
Porque as empresas ligadas à IA concentram os maiores ganhos e os maiores lucros. Em 2026, um ETF de tecnologia dos EUA subiu 35,2% até o fim de setembro, contra 4,4% de um fundo do S&P 500 sem tecnologia, segundo o The New York Times. Em maio, dez empresas de tecnologia respondiam por mais de 40% do valor do S&P 500.
Quanto do crescimento do PIB dos EUA vem da inteligência artificial?
Mark Zandi, da Moody's Analytics, estima que de 0,6 a 0,7 ponto percentual do crescimento real dos EUA vem do boom da IA, o que corresponde a cerca de 30% da expansão registrada no segundo trimestre de 2026, quando o PIB cresceu 2,3% em ritmo anualizado.
Existe uma bolha de IA no mercado de ações?
Não há consenso. A Capital Economics vê o rali em estágio final e projeta queda de cerca de 21% no S&P 500 até o fim de 2027. Outros analistas destacam que os lucros crescem mais rápido que os preços, o que reduz o índice preço/lucro e é atípico em bolhas terminais.
Quanto será investido em infraestrutura de IA nos Estados Unidos até 2032?
Estudo de Stijn Van Nieuwerburgh, da Columbia, apresentado na Brookings em setembro de 2026, projeta US$ 10,3 trilhões entre 2025 e 2032, média de 3,63% do PIB americano por ano, financiados cada vez mais por dívida e estruturas fora do balanço.
Como o boom da inteligência artificial afeta o Brasil?
Por três canais: juros americanos mais altos limitam o espaço de cortes da Selic, hoje em 13,75%; o fluxo estrangeiro que move o Ibovespa reage ao humor global com tecnologia; e a atração de data centers, impulsionada pelo Redata, depende da continuidade do ciclo global de investimento em IA.