O debate sobre quando a inteligência artificial vai superar os seres humanos parte quase sempre de uma pergunta mal formulada. Ela pressupõe que existe um único plano de comparação, uma régua comum onde máquinas e pessoas avançam na mesma direção até que uma ultrapasse a outra. Não existe essa régua. E é por isso que as duas respostas mais honestas para a pergunta são simultaneamente verdadeiras: a inteligência artificial já superou os seres humanos, e ela nunca vai superá-los. Tudo depende do que está sendo comparado.
A vitória que já aconteceu
Se o critério é a execução de uma tarefa bem definida, a resposta já está dada há mais de oitenta anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, o mecanismo eletromecânico desenvolvido pela equipe de Alan Turing em Bletchley Park, retratado com licenças dramáticas no filme O Jogo da Imitação, decifrava mensagens cifradas pela máquina alemã Enigma em uma fração do tempo que seria necessário a milhares de criptoanalistas humanos trabalhando manualmente1. Naquele domínio específico, decifrar um código com determinada estrutura em tempo hábil, a máquina não apenas igualou o desempenho humano: tornou possível algo que a capacidade humana, isolada, não alcançava dentro do prazo exigido pela guerra.
O mesmo padrão se repetiu em 1997, quando o Deep Blue venceu o campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, e voltou a se repetir em 2016, quando o AlphaGo derrotou Lee Sedol no jogo de Go, considerado por décadas resistente demais à força bruta computacional para ser dominado por máquinas2. Em todos esses casos, o que houve foi um algoritmo desenhado de cima para baixo, do início ao fim, para realizar uma atividade específica com mais velocidade, mais consistência e menos erro do que um ser humano conseguiria sustentar. Construímos esse tipo de sistema exatamente para isso. E funciona. Nesse sentido estrito, a máquina supera o ser humano desde que existem computadores.
O limite do aprendizado de baixo para cima
A discussão muda de figura quando o assunto deixa de ser um algoritmo fechado, desenhado para uma tarefa única, e passa a ser um sistema que aprende. A maioria das soluções de inteligência artificial hoje em uso funciona de baixo para cima: acumula histórico, extrai padrões desse histórico e generaliza a partir dele. O ponto central, frequentemente esquecido, é que esse histórico foi produzido por seres humanos. Mesmo quando um modelo resolve uma equação complexa ou vence um campeão mundial em um jogo, o que ele está fazendo, em essência, é varrer um espaço de possibilidades e escolher a que melhor pontua segundo um critério que também foi definido por pessoas.
É bastante provável que, em algum momento próximo, esses sistemas consigam aprender de forma mais autônoma, sem depender tão diretamente de dados rotulados por humanos. Isso não é o mesmo que superar a condição humana. Um sistema pode se tornar mais autônomo, mais criativo em sentido funcional, capaz de combinar informações de formas que nenhuma pessoa combinaria, e ainda assim permanecer estruturalmente diferente de nós, porque nós não somos cartesianos. Não operamos por dedução pura a partir de axiomas estáveis.
A imprevisibilidade como vantagem, não como defeito
Somos atravessados o tempo todo por processos físicos, químicos e biológicos, internos e externos, que vão da gravidade que organiza nosso equilíbrio até hormônios que alteram julgamento, atenção e disposição de um momento para o outro. O neurocientista António Damásio descreveu de forma influente como emoção e razão não são sistemas separados no ser humano, mas processos entrelaçados, o que contraria diretamente a ideia de que pensar bem significa eliminar a interferência do corpo3. Essa imprevisibilidade biológica, que muitas vezes tratamos como ruído a ser corrigido, é também o que nos faz enxergar perguntas e conexões que não estavam no roteiro. Uma máquina otimiza dentro do espaço de possibilidades que lhe foi apresentado. Um ser humano, às vezes por causa de uma distração, de um mal-estar ou de uma lembrança fora de contexto, formula uma pergunta que reconfigura o próprio espaço de possibilidades.
Mesmo que amanhã as máquinas consigam observar e representar o mundo de forma tridimensional, com sensores e modelos cada vez mais sofisticados, isso as aproximaria da nossa capacidade perceptiva, não da nossa condição inteira. Falta a elas o tipo de imprevisibilidade que não é falha de engenharia, mas é constitutiva de quem somos.
Um passo atrás não significa inofensivo
É importante separar duas afirmações que costumam ser misturadas. Dizer que as máquinas nunca superarão os seres humanos como um todo não é dizer que elas são seguras por definição. Mesmo sem terem sido treinadas explicitamente para isso, sistemas autônomos podem tomar decisões extremas, incluindo o acionamento de armamentos, se um critério interno de otimização assim indicar dentro de determinado contexto operacional. Sistemas de recomendação e geração de conteúdo já demonstraram capacidade de influenciar comportamento coletivo em escala. Esses são riscos reais, documentados e crescentes. Risco real não é sinônimo de superioridade. É possível que algo seja perigoso precisamente por operar de forma menos criteriosa do que um ser humano equivalente operaria, não mais.
É plausível que as máquinas venham a executar a esmagadora maioria das tarefas técnicas no futuro, incluindo tarefas hoje consideradas criativas. Ainda assim, sempre haverá um ser humano decidindo qual deve ser o próximo passo, porque a decisão sobre o que vale a pena otimizar, o que importa e por quê, não nasce de dados históricos. Nasce de uma experiência corporal, social e imprevisível que nenhum sistema constrói sozinho. Nesse sentido, e apenas nesse sentido, as máquinas estarão sempre um passo atrás de nós, mesmo quando executam melhor do que nós tudo o que vier antes desse passo.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial já supera os seres humanos em alguma coisa?
Sim, em tarefas fechadas e bem definidas, como decifrar códigos, jogar xadrez ou Go, sistemas construídos especificamente para isso superam o desempenho humano há décadas.
Por que a IA nunca superaria os seres humanos por completo?
Porque a maioria dos sistemas de IA aprende a partir de dados produzidos por humanos e opera por otimização dentro de um espaço de possibilidades definido, enquanto o ser humano é influenciado por processos biológicos imprevisíveis que reconfiguram esse espaço.
Isso significa que a IA é segura?
Não. Riscos reais existem, incluindo decisões autônomas extremas e influência em escala sobre comportamento humano. Risco elevado não equivale a superioridade sobre a condição humana.