A inteligência artificial está saindo da tela e entrando no chão de fábrica
Nesta reportagem
Depois de dois anos em que o debate sobre inteligência artificial girou quase inteiramente em torno de chatbots e geração de texto, a indústria global de tecnologia começou a apontar para uma direção diferente em 2026: a IA que sai da tela e passa a enxergar, ouvir, tocar e se mover pelo mundo físico. O tema dominou a agenda da Conferência Mundial de Inteligência Artificial (WAIC), realizada em Shanghai entre 17 e 20 de julho, que reuniu mais de 800 expositores e destacou uma mudança de eixo da IA digital para a física, com robôs colaborativos assumindo tarefas reais e dispositivos inteligentes incorporando IA ao cotidiano[1,2].
Em artigo publicado no China Daily, o economista Li Meng, presidente da Sociedade Chinesa para o Desenvolvimento Sustentável, argumenta que a verdadeira inteligência exige compreender a causalidade física dinâmica, não apenas interpretar textos estáticos, e que a IA física funciona como o "cérebro" que conecta modelos de linguagem multimodais a corpos robóticos capazes de agir no mundo real[1]. Segundo ele, esse movimento já é visível na disputa entre modelos digitais como GPT, Claude e Grok, de um lado, e a safra de modelos abertos chineses de empresas como Zhipu AI, Moonshot AI e MiniMax, de outro, num cenário em que a China teria reduzido a distância tecnológica em relação aos Estados Unidos e, em certas áreas de IA multimodal, superado concorrentes ocidentais[1].
Os números do mercado sustentam a virada de prioridade. O mercado de IA incorporada (embodied AI) deve saltar de US$ 3,22 bilhões em 2025 para US$ 3,8 bilhões em 2026, com projeção de alcançar US$ 7,24 bilhões até 2030, puxado pela adoção de robótica, automação de logística e expansão de aplicações em saúde[3]. No segmento específico de robôs humanoides, o crescimento tem sido ainda mais abrupto: as entregas mundiais somaram cerca de 19,1 mil unidades no primeiro semestre de 2026, um avanço de 272% em relação ao mesmo período de 2025, com mais de 97% da produção concentrada em fabricantes chineses[6].
O paradoxo que trava os robôs
O texto do China Daily recorre a um conceito conhecido na robótica desde os anos 1980, o Paradoxo de Moravec, para descrever o que chama de "inteligência desigual" (jagged intelligence) na nova geração de sistemas físicos[1]. A formulação original, do pesquisador Hans Moravec, constatou que tarefas de raciocínio abstrato, difíceis para humanos, são relativamente fáceis para computadores, enquanto habilidades sensoriomotoras básicas, triviais para uma criança de um ano, continuam sendo um dos maiores desafios de engenharia em IA. Essa assimetria explica por que, mesmo com modelos de linguagem cada vez mais sofisticados, humanoides ainda cometem erros grosseiros ao manipular objetos irregulares, caminhar em terrenos não estruturados ou reagir a situações imprevistas. Analistas do setor apontam que a próxima geração de "cérebros" para esses robôs, com avanços relevantes em compreensão multimodal e planejamento de ações, deve chegar a partir de 2027, num momento que executivos do setor já comparam ao lançamento do ChatGPT para a IA generativa em 2022[9].
Fabricantes como Figure AI, Unitree, Tesla e a chinesa AgiBot vêm testando humanoides em ambientes produtivos reais. A BMW iniciou pilotos com robôs da Figure AI em suas linhas em 2024 e ampliou os testes em 2026, enquanto a fornecedora de autopeças Schaeffler anunciou planos para implantar até dois mil humanoides em suas operações nos próximos anos[5]. Ainda assim, especialistas do setor ponderam que não se trata de adoção em massa, mas de grandes empresas testando, com investimento real, onde a tecnologia consegue de fato gerar valor[5].
Contraponto
Nem todo o setor compartilha o otimismo em torno da IA física. Parte da narrativa em torno do termo "Physical AI" foi cunhada e popularizada pela Nvidia, maior fornecedora de chips para treinamento desses modelos, o que levanta a ressalva de que a categoria também serve a interesses comerciais diretos de quem vende a infraestrutura de computação necessária para viabilizá-la[8].
Consultorias de mercado também divergem bastante sobre o tamanho real da oportunidade: previsões mais restritas ao software e às plataformas de IA física apontam um mercado ainda pequeno, próximo de US$ 1,5 bilhão em 2026, embora com potencial de crescer para a casa de dezenas de bilhões até o início da próxima década, a depender de quanto do hardware robótico for contabilizado dentro da categoria[7].
Há ainda o argumento, presente no próprio artigo do China Daily, de que a "inteligência desigual" da IA física deve desacelerar sua integração econômica e a geração de empregos, em contraste com a IA digital, que já desloca funções administrativas e de programação em ritmo mais acelerado[1].
Da divergência à integração em formato K
Um dos pontos centrais do artigo original é a proposta de usar a IA física como ferramenta para reverter o que Li Meng chama de "divergência em formato K", quando setores de ponta da economia crescem aceleradamente enquanto indústrias tradicionais estagnam ou recuam[1]. Segundo o autor, uma iniciativa coordenada de "IA física+" poderia integrar cadeias produtivas emergentes e tradicionais simultaneamente, atualizando parques industriais antigos ao mesmo tempo em que se abre espaço para novos setores de governança, segurança e auditoria de sistemas robóticos[1].
A leitura de Li Meng dialoga com o que já se observa em pisos de fábrica fora da China. Consultorias que acompanham o setor descrevem a integração entre robótica e IA como um dos movimentos mais estruturantes da transição da Indústria 4.0 para a 5.0, em que robôs colaborativos assumem tarefas repetitivas ou de maior risco físico enquanto trabalhadores humanos se concentram em atividades analíticas e de decisão[4].
Onde o Brasil entra nessa corrida
No Brasil, a conversa sobre IA física ainda está em estágio inicial se comparada à adoção de ferramentas de IA generativa. Segundo a pesquisa TIC Empresas 2025, do Cetic.br/NIC.br, a proporção de empresas brasileiras que usam algum tipo de inteligência artificial passou de 13% em 2024 para 17% em 2025, com salto mais expressivo entre grandes companhias, de 38% para 50% no mesmo período[2]. O percentual brasileiro segue abaixo da média da União Europeia, estimada em 20%[2], e a adoção segue concentrada em automação de processos administrativos, não em robótica física.
Analistas ouvidos pela imprensa de negócios brasileira avaliam que o país dificilmente vai competir na fronteira do desenvolvimento de modelos de linguagem de grande porte, mas pode se posicionar com agilidade na camada de aplicação, adaptando tecnologias de IA física já maduras a problemas específicos da indústria, da logística e do agronegócio nacionais[5]. Esse é, também, o tipo de aposta que fundos e políticas de inovação já fazem em outros mercados emergentes, ao integrar automação física com cadeias produtivas existentes em vez de tentar reconstruir a indústria do zero.
Perguntas frequentes
O que é IA física (physical AI)?
É a aplicação de inteligência artificial a sistemas que percebem e agem no mundo físico, como robôs e veículos autônomos, combinando modelos de linguagem multimodais, sensores e atuadores para que a máquina interprete o ambiente e execute tarefas em tempo real.
O que é o Paradoxo de Moravec?
É a constatação de que tarefas de raciocínio abstrato são relativamente fáceis para a IA, enquanto habilidades sensoriomotoras simples, como segurar um objeto ou caminhar em terreno irregular, continuam sendo um desafio técnico maior.
A IA física vai destruir mais empregos do que a IA digital?
Não necessariamente no curto prazo. Por depender de avanços físicos e sensoriais mais lentos, a integração econômica da IA física tende a ser mais gradual que a da IA digital, o que pode abrir espaço para novas funções ligadas à supervisão, segurança e governança de sistemas robóticos.
O Brasil está atrasado na adoção de IA física?
O país ainda está em estágio inicial mesmo na adoção de IA em geral, com 17% das empresas brasileiras usando algum tipo de inteligência artificial em 2025, segundo o Cetic.br, abaixo da média europeia. A IA física, por depender de robótica industrial, é uma camada ainda mais incipiente no mercado nacional.
Referências
- LI, Meng. "Physical AI the biggest opportunity ahead". China Daily, 27 ago. 2026. Disponível em: chinadaily.com.cn
- CGI.br/Cetic.br/NIC.br. "Uso de Inteligência Artificial por empresas brasileiras avança e atinge 17%". Jun. 2026. Disponível em: cgi.br
- Research and Markets. "Embodied Artificial Intelligence (AI) Market Global Report 2026". Disponível em: researchandmarkets.com
- Atlantico. "Robótica industrial e inteligência artificial: tendências em 2026". Jan. 2026. Disponível em: atlantico.com.br
- Pollux. "Robôs humanoides na indústria: promessa distante ou próxima fronteira da automação?". Jun. 2026. Disponível em: pollux.com.br
- Inovativos. "Mercado dos robôs humanoides dispara 272% no primeiro semestre de 2026". Ago. 2026. Disponível em: inovativos.com.br
- OpenCurious. "Top Physical AI Companies (2026): The Complete Directory". Jul. 2026. Disponível em: opencurious.com
- SVRC. "Physical AI in 2026: What It Is, Key Models, and How to Build It". Abr. 2026. Disponível em: roboticscenter.ai
- Brain_ing Digital Consulting. "Robôs humanoides ganharão inteligência avançada em 2027, prevê executivo". Ago. 2026. Disponível em: braining.com.br