Durante décadas, a medicina separou as doenças em caixas distintas: infecciosas de um lado, crônicas de outro, males do coração longe dos males do cérebro. Uma nova geração de pesquisas está derrubando essas fronteiras e apontando para um denominador comum inesperado.
Nos últimos anos, cardiologistas, oncologistas e neurologistas passaram a repetir, cada um a seu modo, uma mesma frase: estamos todos estudando a mesma doença. O "denominador comum" é a inflamação, mais especificamente a inflamação crônica de baixo grau, aquela que permanece ativa no corpo mesmo quando não há nenhuma ameaça imediata a combater.[1] Reportagem publicada em julho pelo The New York Times Magazine reuniu entrevistas com dezenas de pesquisadores para mapear como esse campo mudou nos últimos vinte anos, mostrando que a inflamação crônica não é apenas sintoma de doenças como câncer, Alzheimer e diabetes, mas, em muitos casos, parte da própria causa.[1]
O mecanismo começa com uma célula chamada macrófago, presente em todos os órgãos principais do corpo desde o nascimento e com uma linhagem evolutiva de cerca de 600 milhões de anos.[1] Em condições normais, os macrófagos varrem detritos celulares e mantêm o organismo em ordem. Diante de uma infecção ou lesão, eles disparam uma cascata de proteínas mensageiras que recrutam outras células de defesa, elevam a temperatura local e tornam os vasos sanguíneos mais permeáveis, produzindo os sinais clássicos da inflamação aguda: vermelhidão, calor, inchaço e dor. Quando a ameaça é neutralizada, o sistema deveria voltar à calmaria. O problema surge quando essa desativação falha e um nível residual de atividade imunológica persiste, silenciosamente, por anos.
O que isso significa para o coração dos brasileiros
No Brasil, o elo entre inflamação crônica e doença cardiovascular já tem consequência estatística concreta. As doenças cardiovasculares são a principal causa de morte no país, respondendo por cerca de 400 mil óbitos por ano, uma média próxima de 45 mortes por hora, segundo dados consolidados pelo Ministério da Saúde e pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).[2][3] Parte desse quadro é explicada pela aterosclerose, o acúmulo de placas de gordura nas artérias, cujo elo com a inflamação foi comprovado em um ensaio clínico de referência financiado pela farmacêutica Novartis e publicado em 2017 no New England Journal of Medicine: um anticorpo anti-inflamatório reduziu em cerca de 15% o risco de infarto e AVC em pacientes com histórico cardiovascular, mesmo sem alterar os níveis de colesterol.[1]
Esse mesmo estudo, no entanto, registrou um efeito colateral importante: um pequeno aumento nas mortes por infecção e sepse entre os pacientes tratados, já que suprimir a inflamação também enfraquece a capacidade do organismo de combater agentes invasores.[1] É esse duplo papel, protetor e potencialmente destrutivo ao mesmo tempo, que torna a inflamação crônica um alvo terapêutico particularmente delicado.
Os medicamentos para diabetes que reduzem inflamação
A novidade mais recente nesse território são os agonistas do receptor de GLP-1, classe que inclui semaglutida (Ozempic e Wegovy). Em fevereiro deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ampliou a indicação do Wegovy no Brasil para reduzir o risco de infarto e AVC em adultos com doença cardiovascular estabelecida e obesidade ou sobrepeso, com base no estudo internacional SELECT, que acompanhou mais de 17 mil pacientes em 41 países e registrou redução de 20% nesses eventos.[4][5] O mesmo movimento regulatório ampliou o uso do Ozempic para pacientes com diabetes tipo 2 e doença renal crônica.[4]
Segundo a reportagem original do Times, pesquisadores como o endocrinologista canadense Daniel Drucker, da Universidade de Toronto, relatam que pacientes em uso de GLP-1s descrevem melhoras em quadros tão diversos quanto artrite, doença de Crohn, fadiga pós-Covid e endometriose, um padrão que só recentemente começou a ser associado a uma ação direta desses medicamentos sobre células imunes no intestino e no cérebro, e não apenas ao emagrecimento.[1] A perda de peso, aliás, explicaria só um terço da redução de risco cardiovascular observada no estudo Wegovy mencionado acima.[1]
Inflammaging: a inflamação que acompanha o envelhecer
Em 2000, o pesquisador italiano Claudio Franceschi cunhou o termo "inflammaging" para descrever como macrófagos acumulam desgaste ao longo da vida, tornando-se menos eficientes e permanecendo ativos mesmo sem ameaça real. A Fiocruz, referência em saúde pública no Brasil, vem tratando o tema como prioridade diante do envelhecimento populacional acelerado do país: estudos da instituição associam a inflamação sistêmica crônica de baixa intensidade ao declínio cognitivo e ao avanço de doenças neurodegenerativas, cardiovasculares e respiratórias entre idosos brasileiros.[6][7]
Um estudo publicado em 2025 na revista Nature Aging, conduzido por Alan Cohen (Columbia) comparando populações indígenas da Bolívia e da Malásia com moradores da Itália e de Singapura, mostrou algo inesperado: os grupos indígenas apresentavam os mesmos marcadores inflamatórios elevados associados ao envelhecimento, mas esses níveis permaneciam estáveis ao longo da vida e não evoluíam para doença, ao contrário do que ocorria nos países industrializados.[1] O achado reforça a hipótese de que fatores do estilo de vida moderno, sedentarismo, poluição, má alimentação e privação de sono, interagem com a inflamação crônica de um jeito ainda mal compreendido.
Nem toda promessa vendida em nome da inflamação resiste ao escrutínio científico. Nutricionistas brasileiros vêm alertando para o modismo das chamadas "dietas anti-inflamatórias" difundidas em redes sociais, que frequentemente rotulam alimentos comuns, como pão, macarrão e leite, como vilões sem respaldo em evidência robusta. Helen Hermsdorff, pesquisadora da Universidade Federal de Viçosa (UFV), afirma que alegações desse tipo "carecem de evidências científicas" e defende que a atenção deve recair sobre o padrão alimentar como um todo, e não sobre supostos alimentos milagrosos.[8] Médicos consultados por veículos de saúde reforçam recomendação semelhante: em vez de protocolos restritivos, o que a ciência sustenta com mais solidez é o modelo da dieta mediterrânea, rica em vegetais, grãos integrais e gorduras boas.[9] O risco, segundo especialistas, é a indústria do bem-estar transformar um campo científico legítimo, mas ainda incompleto, em prateleira de suplementos "under-dosed" e curas rápidas.
A fronteira que falta explorar: o cérebro
Até 2015, acreditava-se que o cérebro tivesse um sistema imunológico isolado do resto do corpo, sem vasos linfáticos que o conectassem aos gânglios linfáticos. Nesse ano, o neuroimunologista Jonathan Kipnis, da Washington University em St. Louis, identificou uma rede de vasos escondida nas meninges que desfez essa separação.[1] Trabalhos posteriores da neurocientista Beth Stevens, do Boston Children's Hospital, mostraram que a microglia, os macrófagos exclusivos do sistema nervoso central, também poda conexões sinápticas durante o desenvolvimento cerebral, um processo que, se falhar, pode contribuir para condições como esquizofrenia, Alzheimer e Parkinson.[1]
Pesquisas brasileiras têm caminhado em direção semelhante. Estudos conduzidos com modelos animais no país investigam como a inflamação sistêmica de baixa intensidade, induzida cronicamente, se relaciona ao déficit cognitivo associado ao envelhecimento, com a ativação da microglia como peça central do processo.[10]
O próximo passo: medir a inflamação em tempo real
Hoje, detectar inflamação crônica exige exame de sangue e mede apenas uma proteína isolada liberada pelo fígado, sem indicar onde ou por que a inflamação está ocorrendo. Segundo a reportagem do Times, pesquisadores da Northwestern University planejam testar, já no próximo ano, monitores de inflamação inspirados nos sensores de glicose usados por pacientes diabéticos, capazes de acompanhar em tempo real quatro ou cinco proteínas inflamatórias.[1] A promessa, segundo cientistas ouvidos pela publicação, é que checar marcadores inflamatórios se torne rotina, como hoje é medir pressão arterial ou colesterol, embora a capacidade de medir provavelmente avance mais rápido do que a capacidade de saber o que fazer com esses números.
Perguntas frequentes sobre inflamação crônica
O que é inflamação crônica de baixo grau?
É a atividade persistente e de baixa intensidade do sistema imunológico na ausência de uma ameaça imediata, diferente da inflamação aguda (febre, inchaço, dor), que é breve e visível. Ela é associada a doenças como diabetes tipo 2, câncer, Alzheimer e doenças cardiovasculares.
É possível medir a própria inflamação crônica?
Hoje, de forma limitada. O exame mais comum mede a proteína C-reativa no sangue, mas não indica a origem nem a causa da inflamação. Dispositivos de monitoramento contínuo, semelhantes aos sensores de glicose, ainda estão em fase de testes internacionais.
Dietas anti-inflamatórias funcionam?
Padrões alimentares equilibrados, como a dieta mediterrânea, têm respaldo científico consistente para saúde cardiovascular e metabólica. Já a demonização de alimentos específicos como "inflamatórios" nas redes sociais carece, na maioria dos casos, de evidência robusta, segundo nutricionistas brasileiros.
Os medicamentos GLP-1 (Ozempic, Wegovy) tratam inflamação?
Estudos mostram que essa classe de medicamentos reduz marcadores de inflamação e o risco de eventos cardiovasculares além do que se explicaria apenas pela perda de peso, embora o mecanismo completo ainda esteja sendo investigado. No Brasil, a Anvisa ampliou formalmente essas indicações em 2026.