Caderno Educação O Tecido · Jornalismo Cívico
RECEITA x ENGAJAMENTO x RESSENTIMENTO

Um relatório internacional lançado em 2026 mostra que a "manosfera" opera menos como um movimento espontâneo e mais como uma cadeia de monetização: conteúdo de autoajuda vira narrativa de vitimização, que vira assinatura paga, curso ou suplemento. Para O Tecido, o dado mais relevante para famílias brasileiras não é ideológico, mas financeiro e educacional.

Durante anos, escolas, famílias e pesquisadores tentaram entender por que tantos rapazes jovens pareciam cada vez mais atraídos por discursos de ressentimento contra mulheres, por apostas online e por promessas de riqueza rápida. A explicação mais comum foi política: um levante conservador espontâneo entre a geração Z masculina. Um estudo publicado em 2026 pela organização de segurança digital Reset Tech em parceria com a ONG Equimundo propõe outra leitura, sustentada em números. O relatório, intitulado "The Grift Economy", descreve um sistema no qual jovens são primeiro atraídos por conteúdo de autoajuda sobre namoro, dinheiro ou boa forma física, depois expostos a narrativas que transformam frustração pessoal em uma suposta perseguição coletiva contra os homens, e por fim direcionados a produtos pagos, como cursos de "coaching", suplementos não regulamentados e criptoativos.

Segundo a reportagem da revista Wired que deu origem a essa cobertura, os pesquisadores estimam que apenas a plataforma de assinatura do influenciador Andrew Tate, cobrada a 99 dólares mensais, gera algo em torno de 184 milhões de dólares por ano em receita bruta. Criadores de conteúdo do mesmo ecossistema, segundo a mesma apuração, podem faturar entre 1 milhão e 10 milhões de dólares anuais somando patrocínios, cursos, assinaturas e cachês de palestras.

Esta reportagem foi inspirada no artigo "The 'Manosphere' Isn't a Movement. It's a Multibillion-Dollar Grievance Industry", publicado pela revista norte-americana Wired em agosto de 2026. Leia o original em: wired.com/story/the-manosphere-isnt-a-movement-its-a-multibillion-dollar-grievance-industry. O Tecido não traduz nem reproduz o conteúdo original; a apuração abaixo é independente e voltada ao contexto brasileiro.

O fenômeno também tem endereço no Brasil

A machosfera, como parte da pesquisa acadêmica brasileira tem chamado esse universo, não é um fenômeno importado apenas em teoria. Levantamentos de instituições de ensino e organizações de imprensa nacionais têm mapeado influenciadores brasileiros que replicam o roteiro descrito pela Reset Tech e pela Equimundo: conteúdo sobre autoestima e disciplina que evolui para discurso antifeminista e, na sequência, para a venda de mentorias e cursos. Uma reportagem do jornal da Universidade Federal Fluminense descreve como criadores nacionais associados ao chamado "Movimento Red Pill" constroem, para seu público, um modelo de masculinidade baseado em sucesso financeiro e controle emocional, no qual "ser homem" precisa ser constantemente provado e comprovado com consumo.2

Pesquisadores ligados ao Instituto Humanitas Unisinos observam ainda uma diferença regional relevante: enquanto na Argentina a chamada machosfera se fundiu de forma mais direta com a política partidária, ancorada na figura do presidente Javier Milei, no Brasil o fenômeno segue mais fragmentado entre múltiplos influenciadores digitais, sem um líder único que capture o mesmo nível de identificação política entre os jovens.1 Isso não torna o problema menor. Torna-o mais difuseo e, por isso, mais difícil de identificar dentro de casa.

"Eles estão sendo enganados. Merecem receber informação direta sobre produtos que realmente cumprem o que prometem, e não serem trapaceados." Gary Barker, fundador e CEO da Equimundo, em entrevista à Wired

Por que os adolescentes são o alvo perfeito

Dados nacionais ajudam a entender por que essa engenharia de conteúdo funciona tão bem no Brasil. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, entidade ligada ao Comitê Gestor da Internet no país, mostra que 46% das crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos assistem a vídeos de influenciadores digitais mais de uma vez por dia, um consumo maior do que o de séries, filmes ou tutoriais.3 O celular é a porta de entrada para 96% desse público, usado várias vezes ao dia por 74% dos entrevistados. É justamente nesse formato, rápido, íntimo e recorrente, que discursos de autoajuda migram para discursos de ressentimento sem que pais e responsáveis percebam a transição.

O relatório internacional destaca um mecanismo específico: contas que usam dados econômicos reais, como o desemprego entre jovens, para sustentar a falsa alegação de que apenas homens são afetados pela dificuldade de entrada no mercado de trabalho. A tática transforma uma ansiedade legítima, a competição por vagas e credenciais, em uma narrativa de inimigos nomeados. Segundo a apuração, essas comunidades também têm sido associadas ao chamado "looksmaxxing", conteúdo que promete melhorar a aparência física e que, segundo os pesquisadores, movimentou mais de 14,6 bilhões de visualizações em plataformas como TikTok, Instagram e Facebook durante o período analisado.

Contraponto: nem todo criador de conteúdo sobre masculinidade é predatório

É importante que o alerta sobre exploração financeira não seja confundido com a demonização de todo conteúdo voltado a homens jovens. Especialistas em educação e saúde mental, incluindo os próprios autores do relatório da Reset Tech e da Equimundo, reconhecem que parte da audiência busca, de forma genuína, orientação sobre disciplina, carreira ou relacionamentos, temas legítimos e necessários para o desenvolvimento de qualquer adolescente. O problema identificado pela pesquisa não é a existência de conteúdo motivacional, mas a arquitetura de recomendação das plataformas, que empurra o usuário do conselho prático para a narrativa de vitimização, e desta para o produto pago. A crítica recai sobre o modelo de negócio, não sobre o interesse do jovem em se desenvolver.

O outro lado da equação: representação que ainda falta

Se a exploração financeira de rapazes é uma face do problema, a sub-representação de mulheres em espaços de poder é a outra, e as duas estão conectadas pela mesma raiz: a desigualdade de gênero segue sendo tratada como pauta secundária na formação cívica dos jovens. Dados do Conselho Nacional de Justiça mostram que, embora as mulheres sejam maioria da população brasileira, cerca de 51,5%, elas ocupam apenas 40,1% dos cargos de magistratura ativos no país. A proporção cai de forma constante conforme se avança na carreira: 46,1% entre juízas substitutas, 41,2% entre titulares e apenas 27,9% nas vagas de desembargadora em tribunais de segunda instância.4 Segundo levantamento do Migalhas, a presença feminina nos tribunais superiores fica ainda mais baixa, próxima de 22%.5

Esses números importam para uma redação de educação porque descrevem, em linguagem estatística, o mesmo problema que o relatório sobre a manosfera descreve em linguagem de mercado: sistemas inteiros, sejam algoritmos de recomendação ou estruturas de carreira, continuam favorecendo a permanência de homens em posições de topo e tratando a presença feminina como exceção a ser corrigida por resolução administrativa, e não como padrão. O CNJ instituiu em 2018 uma política nacional para incentivar a participação institucional feminina no Judiciário justamente por reconhecer esse padrão estrutural.6

A posição de O Tecido

Editorial

Para pais e mães de filhos, nossa recomendação é vigilância ativa, não pânico. O conteúdo que promete disciplina, autoestima e sucesso financeiro não é, em si, um problema. O ponto de atenção deve ser o momento em que esse conteúdo passa a nomear inimigos, vender soluções milagrosas ou pedir dinheiro. Rapazes que consomem esse tipo de material raramente enxergam a si mesmos como vítimas de um esquema; a pesquisa citada nesta reportagem mostra que muitos acreditam estar recebendo informação neutra e imparcial, enquanto acusam justamente as mulheres de viverem em bolhas de conteúdo. Reconhecer esse ponto cego é o primeiro passo da conversa em casa.

Para pais e mães de filhas, a resposta não deve ser proteção pelo silêncio. Alertar sobre a existência dessa cultura é necessário, mas o mais importante é preparar as meninas para dois movimentos simultâneos: primeiro, que elas saibam reconhecer e denunciar qualquer forma de agressão, digital ou presencial, assim que ela ocorrer; segundo, e talvez mais decisivo a longo prazo, que elas cresçam apostando em ocupar espaço, dentro das empresas, na cultura organizacional e, sobretudo, na política e no Judiciário. Os números do CNJ mostrados nesta reportagem não são uma fatalidade. São um indicador de quanto trabalho ainda falta, e de que esse trabalho começa na formação que oferecemos às meninas hoje.

Educação cívica, neste caso, não é uma disciplina isolada. É a combinação de duas tarefas ao mesmo tempo: proteger meninos de serem usados como produto por uma indústria do ressentimento, e apoiar meninas para que ocupem, com naturalidade, os lugares de decisão que ainda lhes são negados.

Ewerton Lopes — Curador Editorial
O Tecido