Educação · Educação midiática

Boa parte do que o eleitor brasileiro sabe sobre os candidatos que disputam o segundo turno de 25 de outubro chegou até ele sem que tenha procurado. Veio num encaminhamento de grupo de família, num vídeo vertical de trinta segundos, numa resposta resumida de um assistente de inteligência artificial. A sensação é de estar bem informado. A pesquisa em comunicação tem um nome para essa sensação e, há quase uma década, vem medindo o seu custo democrático.

A metáfora da dieta e o alerta vindo da Espanha

Em artigo publicado nesta terça-feira (13) no jornal espanhol El País, o pesquisador Carles Pont Sorribes compara o consumo de informação à alimentação: assim como uma dieta baseada em ultraprocessados cobra seu preço do organismo, uma dieta noticiosa entregue ao acaso dos algoritmos cobra seu preço da democracia.1 O texto parte das eleições gerais antecipadas convocadas na Espanha para 29 de novembro e de dados do Digital News Report 2026, do Reuters Institute da Universidade de Oxford, segundo os quais quase metade dos espanhóis já usa plataformas como Instagram, TikTok e YouTube para se informar, e o uso de chatbots de IA para notícias dobrou em um ano, chegando a 8% dos entrevistados no país.

O autor descreve ainda uma divisão geracional nítida: jovens que se informam quase só por redes sociais e adultos acima de 45 anos que seguem fiéis à televisão. Sua conclusão é que estar informado exige atitude ativa, com busca em mais de um veículo e por mais de um canal, e que a alfabetização midiática deveria virar disciplina no ensino secundário espanhol, acompanhada de um esforço pedagógico voltado a adultos e, em especial, aos mais velhos.

O diagnóstico interessa diretamente ao Brasil, que vive o mesmo dilema com números mais acentuados e que, ao contrário da Espanha, já transformou essa proposta em norma escolar.

O que é a percepção "as notícias me encontram"

O conceito foi formulado em 2017 pelos pesquisadores Homero Gil de Zúñiga, Brian Weeks e Alberto Ardèvol-Abreu, em estudo publicado no Journal of Computer-Mediated Communication.3 A chamada news finds me perception descreve a crença de que não é preciso buscar notícias para se manter informado, porque o que for importante chegará pelas redes sociais e pelos contatos pessoais. Os autores observaram que quem cultiva essa crença tende a usar menos fontes tradicionais e a acumular menos conhecimento político ao longo do tempo, mesmo quando compartilha notícias com frequência.

Estudos posteriores reforçaram o achado. Em 2019, Gil de Zúñiga e Trevor Diehl associaram a percepção a menor conhecimento político, menor interesse por política e efeitos sobre a participação eleitoral, em artigo na revista New Media & Society.4 Em 2020, uma pesquisa comparativa em dez sociedades, publicada no International Journal of Communication, mostrou que o fenômeno se repete em contextos culturais distintos e se relaciona com idade, consumo de notícias por redes sociais, interesse político, conhecimento e voto.5

O mecanismo é simples de descrever. O feed organiza o que aparece segundo o engajamento provável, e não segundo a relevância pública. Quem delega a seleção ao algoritmo recebe fragmentos, frequentemente emocionais, e confunde o volume de exposição com compreensão. A pessoa vê muitas manchetes e retém pouco contexto.

O retrato brasileiro no Digital News Report 2026

A edição brasileira do Digital News Report 2026, assinada pelo jornalista Rodrigo Carro, mostra um país em que as redes sociais mantêm vantagem de nove pontos percentuais sobre a televisão como fonte semanal de notícias e em que 33% da população recebe conteúdo de criadores ou influenciadores focados em notícias.2 O uso semanal de chatbots de IA para se informar chegou a 13%, patamar acima do registrado na Espanha.

Os indicadores de confiança completam o quadro. A confiança geral nas notícias caiu seis pontos e chegou a 36%, o menor nível em 12 anos de série histórica e abaixo da média global de 37%. O relatório atribui a queda à polarização persistente, alimentada pela eleição presidencial e pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro no ano passado. Quase metade dos brasileiros (47%) diz evitar notícias às vezes ou com frequência, e apenas 15% pagam por jornalismo online.

Lidos em conjunto, os números descrevem o terreno mais fértil para a percepção de que as notícias chegam sozinhas: alta dependência de plataformas, baixa confiança no jornalismo profissional e uma parcela grande do público que prefere desviar o olhar. O mesmo relatório registra o fechamento de 122 veículos impressos desde 2023, num país em que muitos municípios já não têm cobertura jornalística local. Onde não há jornal, o grupo de mensagens ocupa o lugar.

Estar exposto a notícias não é o mesmo que estar informado. A distância entre uma coisa e outra é justamente o que a escola pode ensinar.Linha editorial de O Tecido

A escola brasileira já tem a norma que a Espanha ainda pede

O que o artigo do El País propõe como meta, o Brasil transformou em obrigação. Em março de 2025, o Conselho Nacional de Educação publicou a Resolução CNE/CEB nº 2/2025, que, além de regular o uso de celulares nas escolas, determinou a integração curricular da educação digital e midiática na educação básica, com currículos e planos de formação docente elaborados ao longo de 2025 e implementação efetiva a partir de 2026.6

Para orientar as redes, o MEC e a Secretaria de Comunicação Social da Presidência publicaram o guia Educação Digital e Midiática: como elaborar e implementar o currículo nas escolas,7 que articula a Base Nacional Comum Curricular, a Política Nacional de Educação Digital (Lei nº 14.533/2023) e a Estratégia Brasileira de Educação Midiática.8 A estratégia prevê formação continuada de professores, inserção do tema no Programa Nacional do Livro Didático, produção de jornalismo escolar e ações voltadas a pessoas idosas. Conselhos estaduais e municipais, como os de São Paulo, já aprovaram complementos curriculares com capítulos próprios sobre o tema, e organizações como o Instituto Palavra Aberta, por meio do programa EducaMídia, oferecem sugestões de habilidades por etapa de ensino.

A urgência tem base empírica. O relatório Leitores do Século 21, publicado pela OCDE em 2021 a partir de dados do Pisa, indicou que 67% dos estudantes brasileiros de 15 anos não conseguiam distinguir fato de opinião.9 É essa geração que hoje vota pela primeira ou segunda vez.

O que muda na prática da sala de aula

Educação midiática não se confunde com uma lista de sites confiáveis. As abordagens mais consistentes trabalham hábitos verificáveis, entre eles:

  • Leitura lateral: sair da página e checar quem publicou, antes de avaliar o conteúdo em si.
  • Distinção de papéis: diferenciar reportagem, opinião, publicidade, conteúdo de criador e resposta gerada por IA.
  • Entendimento do algoritmo: compreender por que determinado conteúdo aparece e o que fica de fora do feed.
  • Exigência de fonte: perguntar de onde vem um dado, inclusive quando quem responde é um chatbot.
  • Diversificação deliberada: montar uma rotina com veículos de linhas editoriais diferentes.

Há ainda um efeito de transbordamento pouco explorado. O artigo espanhol defende pedagogia para avós; no Brasil, o canal mais eficiente até eles pode ser o próprio estudante, que circula nos mesmos grupos de família por onde a desinformação viaja.

Entre o feed e a urna

A Justiça Eleitoral mantém, para o segundo turno, o Sistema de Alertas de Desinformação Eleitoral (Siade), canal descrito no Manual do Eleitor 2026 para denunciar conteúdos inverídicos que possam desequilibrar a disputa.10 Ferramentas desse tipo ajudam a conter danos, mas atuam depois que o conteúdo já circulou.

A contribuição da escola é anterior e mais lenta: transformar a busca ativa por informação num hábito, e não num esforço excepcional de véspera de eleição. Os dados de Oxford sugerem que o Brasil chega a 2026 com a combinação mais arriscada de fatores. A norma do CNE indica que o país decidiu responder pela via educacional. O que ainda não se sabe é se a resposta terá escala e qualidade a tempo de formar o eleitor das próximas disputas.

Perguntas frequentes

O que significa a percepção "as notícias me encontram"?

É a crença de que não é preciso procurar notícias ativamente, porque o que for importante chegará pelas redes sociais ou por contatos. O conceito foi proposto em 2017 por Gil de Zúñiga, Weeks e Ardèvol-Abreu e está associado, em diversos estudos, a menor conhecimento político.

Quantos brasileiros se informam por redes sociais e por IA?

Segundo o Digital News Report 2026, do Reuters Institute, as redes sociais superam a televisão em nove pontos percentuais como fonte semanal de notícias no Brasil, 33% recebem notícias de criadores de conteúdo e 13% usam chatbots de IA semanalmente para se informar.

Qual é o nível de confiança dos brasileiros nas notícias em 2026?

A confiança geral nas notícias caiu para 36%, o menor patamar em 12 anos de série, abaixo da média global de 37%. Quase metade da população (47%) afirma evitar notícias às vezes ou com frequência.

A educação midiática é obrigatória nas escolas brasileiras?

Sim. A Resolução CNE/CEB nº 2/2025 determinou a integração curricular da educação digital e midiática na educação básica, com implementação efetiva a partir de 2026, em conformidade com a BNCC. Cada rede define a forma de inserção, como componente específico ou de modo transversal.

O que a escola pode ensinar para combater a desinformação?

Hábitos como leitura lateral (checar quem publicou antes de avaliar o conteúdo), distinção entre fato, opinião e publicidade, compreensão do funcionamento dos algoritmos, exigência de fontes, inclusive de chatbots, e diversificação deliberada dos veículos consultados.

Este artigo foi inspirado no texto de opinião Las noticias nos encuentran, de Carles Pont Sorribes, publicado pelo jornal El País em 13 de outubro de 2026 (leia o original). O conteúdo foi ampliado com fontes independentes e contexto brasileiro.