Um novo livro do professor galego Rubén J. Calviño reacende um debate incômodo: passamos décadas na escola sem que ninguém nos ensine, de fato, como o cérebro aprende. A boa notícia é que a ciência cognitiva já sabe o que funciona.
Nesta reportagem
- A ilusão de estar aprendendo
- O que a evidência recomenda em vez de reler
- Por que o Brasil sente esse problema com mais força
- Contraponto: talento também importa?
- Perguntas frequentes
Existe um hábito quase universal entre estudantes de qualquer idade: reler os apuntes na véspera da prova, grifar parágrafos inteiros e confiar que a familiaridade com o texto é sinônimo de domínio do conteúdo. O problema, segundo pesquisas recentes em psicologia cognitiva, é que essa sensação de conhecimento é em boa parte uma ilusão produzida pelo próprio cérebro, que prioriza eficiência e conforto, não aprendizagem profunda.
É essa a tese central de Tu cerebro tiene truco, livro do professor de ensino fundamental Rubén J. Calviño (A Coruña, 1997), lançado em 2026 pela editora Plataforma Editorial. Em entrevista ao jornal espanhol El País, o autor argumenta que técnicas populares como reler anotações, sublinhar páginas inteiras ou concentrar todo o esforço nos dias anteriores a uma avaliação têm baixo impacto sobre a retenção de longo prazo, mesmo sendo as estratégias mais praticadas em salas de aula ao redor do mundo1.
A ilusão de estar aprendendo
Calviño recorre a um argumento já consolidado na literatura de ciência cognitiva: reconhecer uma informação não é o mesmo que ser capaz de evocá-la sem apoio externo. Ler um trecho pela terceira ou quarta vez cria familiaridade, e o cérebro interpreta essa familiaridade como sinal de que o conteúdo já está consolidado. Só que a familiaridade é frágil: some assim que o texto de apoio desaparece, como acontece justamente durante uma prova ou uma apresentação de trabalho.
O mesmo raciocínio vale para as sessões de estudo concentradas na véspera de uma avaliação, prática conhecida popularmente como virar a noite estudando. Segundo o autor, é normal lembrar bastante informação no dia seguinte a uma maratona de estudos, mas isso não significa que o conteúdo foi consolidado na memória de longo prazo. A consolidação depende de reativações espaçadas ao longo de dias e semanas, e também do sono, período em que o cérebro reorganiza e fixa o que foi aprendido.
O que a evidência recomenda em vez de reler
A alternativa proposta não é misteriosa, mas exige mais esforço mental do que simplesmente passar os olhos pelo texto outra vez. Um estudo conduzido com universitários chilenos na Universidad de Talca comparou diretamente os dois métodos: um grupo relia um texto de história, outro tentava recuperar o conteúdo de memória antes da avaliação final. Quem praticou a recuperação ativa lembrou, em média, quase o dobro de conceitos em relação a quem apenas releu o material, resultado atribuído ao chamado efeito de teste ("testing effect")2.
Pesquisadores como o biólogo espanhol Héctor Ruiz Martín, diretor da International Science Teaching Foundation e autor de obras de referência sobre neurociência aplicada à educação, chegam a conclusões semelhantes: estratégias como a prática de evocação, o estudo entrelaçado entre temas diferentes e a ativação de conhecimentos prévios antes de iniciar um conteúdo novo produzem aprendizagem mais duradoura do que a leitura passiva e repetida3.
Contraponto
Nem toda a comunidade educacional concorda sobre a melhor forma de traduzir essas descobertas para a sala de aula real. Redes com turmas superlotadas, carga horária apertada e docentes sobrecarregados enfrentam dificuldade prática para substituir a releitura por atividades de recuperação ativa, que exigem planejamento de exercícios, testes de baixo risco e tempo de correção. Especialistas em política educacional apontam que a formação continuada de professores em estratégias baseadas em evidências ainda é incipiente no Brasil, o que limita a adoção em larga escala, mesmo quando a eficácia da técnica está bem documentada academicamente4.
Um mito que ainda resiste: os estilos de aprendizagem
Calviño também usa a entrevista para desmontar a crença de que cada estudante aprende melhor de acordo com um estilo fixo, visual, auditivo ou cinestésico, e que o ensino deveria se adaptar a esse perfil individual. A pesquisa em psicologia educacional não sustenta essa hipótese: adaptar o ensino ao suposto estilo de cada aluno não produz ganhos de aprendizagem comprovados, apesar de a ideia continuar amplamente difundida em escolas e cursos de formação de professores.
Por que o Brasil sente esse problema com mais força
O debate sobre técnicas de estudo ineficazes ganha peso adicional no contexto brasileiro. Os resultados do Pisa 2022, divulgados pelo Inep, mostram que metade dos estudantes brasileiros de 15 anos não atinge o nível básico de proficiência em leitura, considerado pela OCDE o mínimo necessário para o exercício pleno da cidadania5. Em matemática, o cenário é ainda mais crítico: 73% dos estudantes ficaram abaixo do nível mínimo esperado6.
Parte desse resultado está ligada a fatores estruturais, como desigualdade socioeconômica e infraestrutura escolar, mas educadores também apontam que a ausência de uma disciplina ou formação específica dedicada a ensinar como aprender contribui para o problema. A Base Nacional Comum Curricular prevê a competência geral de aprender a aprender, mas não existe, na prática, um currículo estruturado que ensine explicitamente estratégias de estudo baseadas em evidências, o que faz com que o repertório de cada aluno dependa muito da sorte de ter tido um professor ou uma família que já conhecesse essas técnicas.
O papel da inteligência artificial nesse cenário
Calviño observa ainda que o acesso quase ilimitado a conteúdo em vídeo, podcast e texto, incluindo ferramentas de inteligência artificial, amplia as oportunidades de aprender, mas também aumenta o risco de uma compreensão superficial quando não há esforço ativo de processamento da informação. Reconhecer um conceito por estar constantemente exposto a ele nas redes sociais ou em resumos gerados por IA não equivale a tê-lo integrado de fato, um alerta relevante em um momento de expansão acelerada de ferramentas de estudo assistidas por IA no país.
Glossário rápido
- Efeito de teste (testing effect)
- Fenômeno pelo qual tentar recuperar uma informação da memória, e não apenas revisá-la passivamente, fortalece a retenção de longo prazo.
- Prática entrelaçada
- Técnica de alternar entre temas ou tipos de problema diferentes durante o estudo, em vez de praticar um único assunto de forma bloqueada.
- Conhecimento prévio
- Informações e experiências que o estudante já possui antes de um novo conteúdo, usadas como ponto de conexão para ancorar o aprendizado.
- Consolidação da memória
- Processo pelo qual uma informação recém-aprendida se transforma em memória estável de longo prazo, favorecido por reativações espaçadas e pelo sono.
Perguntas frequentes
Reler os apuntes várias vezes é uma técnica de estudo ineficaz?
Segundo pesquisas em psicologia cognitiva, a releitura melhora pouco a retenção de longo prazo porque gera apenas familiaridade com o texto, não a capacidade de recuperar a informação sem apoio externo. Técnicas como a prática de recuperação ativa e a conexão com conhecimentos prévios tendem a ser mais eficazes.
Estudar tudo na véspera da prova funciona?
Pode ajudar no desempenho imediato do dia seguinte, mas a informação tende a se perder rapidamente porque não houve tempo para reativações espaçadas nem para a consolidação que ocorre durante o sono. É considerada uma das estratégias menos eficazes para reter conhecimento a médio e longo prazo.
Existem mesmo estilos de aprendizagem, como visual ou auditivo?
A ideia é popular, mas a evidência científica não confirma que adaptar o ensino ao suposto estilo individual de cada estudante melhore o aprendizado. É considerado um mito pedagógico amplamente difundido, ainda que sem respaldo consistente na pesquisa.
Qual é a técnica de estudo mais recomendada pela ciência cognitiva?
Não há uma técnica única, mas a combinação de ativação de conhecimentos prévios, compreensão da estrutura geral do conteúdo antes dos detalhes, prática de recuperação ativa e revisão espaçada ao longo do tempo aparece de forma recorrente como mais eficaz do que releitura ou sublinhado passivo.
TIENE TRUCO
Rubén J. Calviño · Plataforma Editorial, 2026
O livro reúne, em linguagem acessível, as principais descobertas da psicologia cognitiva sobre como o cérebro aprende de verdade, com foco em estratégias aplicáveis por estudantes de qualquer nível.
Ver na Amazon →Referências
- MENESES, Nacho. "El cerebro nos hace creer que estamos aprendiendo mucho más de lo que realmente aprendemos". El País, 27 ago. 2026. Disponível em: elpais.com.
- PINEIDA, Alfredo et al. "Efecto de la recuperación como modalidad de estudio en estudiantes universitarios". Revista de Psicología, Universidad de Talca, 2018. Disponível em: redalyc.org.
- RUIZ MARTÍN, Héctor. Aprendiendo a aprender: mejora tu capacidad de aprender descubriendo cómo aprende tu cerebro. Vergara, 2020. Perfil da obra em: science-teaching.org.
- Instituto de Estudos Avançados / USP. "Políticas baseadas em evidências podem melhorar aprendizagem". Disponível em: rp.iea.usp.br.
- INEP/MEC. Nota sobre o Brasil no Pisa 2022. Diretoria de Avaliação da Educação Básica. Disponível em: download.inep.gov.br.
- Agência Brasil / EBC. "Pisa: menos de 50% dos alunos sabem o básico em matemática e ciências". 5 dez. 2023. Disponível em: agenciabrasil.ebc.com.br.