Educação · Inteligência artificial e aprendizagem

Este artigo parte da reportagem de Susan Svrluga publicada pelo The Washington Post em 22 de setembro de 2026, disponível aqui. O texto a seguir não é tradução: incorpora pesquisas independentes e desenvolve o contexto brasileiro. Todas as fontes estão listadas ao final.

Os trabalhos de casa melhoraram. As provas pioraram. Essa assimetria, relatada por professores de universidades dos Estados Unidos e do Canadá, resume o dilema que a inteligência artificial generativa colocou para a educação em menos de quatro anos. Quando um estudante entrega um texto impecável e não consegue explicar o próprio argumento, a pergunta deixa de ser se houve fraude. Passa a ser outra, mais incômoda: houve aprendizado?

A reportagem do Washington Post reuniu relatos de docentes do MIT, de Berkeley, da Universidade da Virgínia e da Carleton University, no Canadá, que convergem para o mesmo diagnóstico.1 A preocupação inicial com a trapaça, dominante quando o ChatGPT foi lançado no fim de 2022, deu lugar a um temor de fundo: o uso sem mediação estaria corroendo a capacidade dos alunos de pensar por conta própria. No Brasil, os números indicam que o país já está dentro desse experimento, com adoção em massa e orientação escassa.

O que os professores estão observando

Eric Klopfer, professor do MIT que co-presidiu um comitê da instituição sobre IA no ensino, descreveu ao jornal americano um padrão recorrente: tarefas entregues com qualidade superior e desempenho inferior nos exames. Para ele, trata-se de uma sensação de compreensão que não se sustenta quando a ferramenta sai de cena. "É a ilusão do aprendizado", resumiu.1

Em Berkeley, o professor de computação Dan Garcia relatou ao Post estudantes que passavam em todos os testes automatizados dos seus programas, mas tiravam nota mínima em uma avaliação oral criada justamente para verificar se entendiam o código que haviam entregado. Na Carleton University, a professora Shawna Dolansky recebeu esboços de ensaio sofisticados demais para calouros, alguns com citações que não existiam nos livros referenciados. Quando pediu que os alunos explicassem as ideias, eles não conseguiram.1

Relatos de sala de aula não são prova científica. Mas o que chama atenção é que eles descrevem exatamente o mecanismo que pesquisas controladas começaram a medir.

O que a ciência já conseguiu medir

O estudo mais citado sobre o tema foi publicado em 2025 na revista PNAS por pesquisadores da Universidade da Pensilvânia.2 Cerca de mil estudantes de ensino médio foram divididos em três grupos para praticar matemática: um sem IA, outro com uma interface semelhante ao ChatGPT padrão e um terceiro com um tutor configurado para dar pistas em vez de respostas. Durante os exercícios, os dois grupos com IA foram muito melhor. Na prova feita sem a ferramenta, o grupo que usou a versão padrão teve notas 17% menores do que o grupo que nunca teve acesso à tecnologia. O tutor com salvaguardas praticamente anulou essa perda.

0 (grupo sem IA) Exercícios com IA · versão padrão +48% Exercícios com IA · tutor com salvaguardas +127% Prova sem IA · ex-usuários da versão padrão −17% Prova sem IA · ex-usuários do tutor sem perda significativa
Variação no desempenho em relação ao grupo que nunca usou IA. Fonte: Bastani et al., PNAS, 2025.2 Elaboração: O Tecido.

Outros trabalhos apontam na mesma direção. Um experimento do MIT Media Lab liderado pela pesquisadora Nataliya Kosmyna monitorou a atividade cerebral de participantes que escreviam redações sozinhos, com um buscador ou com um modelo de linguagem. O grupo que dependia da IA apresentou a menor conectividade neural e teve dificuldade para citar trechos do próprio texto logo após escrevê-lo.3 A reportagem do Post menciona ainda um estudo de 2026 da Carnegie Mellon, conduzido por Grace Liu, em que poucos minutos de resolução de problemas com IA bastaram para que os participantes, ao perder o acesso, tivessem desempenho pior e desistissem mais cedo.1 Fora da escola, uma pesquisa da Microsoft Research com a Carnegie Mellon, feita com profissionais do conhecimento, associou maior confiança na IA a menor esforço de pensamento crítico declarado.10

O mecanismo: descarga cognitiva e dificuldade desejável

Luca Cian, da Universidade da Virgínia, lembrou ao jornal americano que buscadores e GPS já reduziam a retenção de informação, e classificou os modelos de linguagem como provavelmente os mais poderosos instrumentos de descarga cognitiva já construídos.1 A psicologia cognitiva ajuda a entender por que isso importa. Desde os anos 1990, os pesquisadores Robert e Elizabeth Bjork documentam as chamadas dificuldades desejáveis: o esforço de recuperar uma informação, errar e tentar de novo é justamente o que consolida o aprendizado.12 Uma ferramenta que remove essa fricção torna o estudo mais confortável e, pelo mesmo motivo, menos eficaz.

Gireeja Ranade, de Berkeley, descreveu ao Post a forma mais sutil desse problema: alunos que pediam apenas uma dica recebiam mais ajuda do que percebiam, e passavam a confundir a leitura de uma demonstração matemática com a capacidade de fazê-la sozinhos.1

A IA não elimina o esforço de aprender. Ela permite pular esse esforço sem que o estudante perceba que pulou.Análise · O Tecido

O Brasil já está dentro do experimento

Os casos relatados pelo Washington Post vêm do ensino superior americano, mas os dados brasileiros mostram que a exposição começa antes, na educação básica. A pesquisa TIC Educação 2024, do Cetic.br, mostrou que 70% dos estudantes do ensino médio usuários de internet recorrem à IA generativa em pesquisas escolares, o equivalente a cerca de 5,2 milhões de jovens. Apenas 32% disseram ter recebido orientação da escola sobre como usar essas ferramentas.4

Os resultados do Pisa 2025, divulgados pela OCDE neste mês, mediram pela primeira vez o uso de chatbots para estudar: 48% dos estudantes brasileiros usam essas ferramentas ao menos uma vez por semana para aprender, acima da média de 46% dos países da organização.7 O mesmo exame registrou 377 pontos do Brasil em matemática, com apenas 28% dos alunos alcançando o nível básico de proficiência, contra 69% na média da OCDE. É um dado que dá peso ao alerta: a tecnologia chega a um sistema em que a base de aprendizagem ainda é frágil.

Alunos do ensino médio que usam IA generativa em pesquisas escolares 70% Estudantes que usam chatbots semanalmente para aprender (Pisa) 48% Escolas que permitem formalmente o uso de IA pelos alunos 37% Alunos que receberam orientação da escola sobre IA 32% Escolas com guia formal de orientação sobre IA 22%
Em verde, indicadores de uso; em ocre, indicadores de mediação. Fontes: TIC Educação 2024 e 2025 (Cetic.br) e Pisa 2025 (OCDE).4,5,7 As pesquisas usam perguntas e universos diferentes; os números indicam ordem de grandeza, não comparação direta. Elaboração: O Tecido.

Do lado das escolas, a TIC Educação 2025 constatou que apenas 22% das instituições têm algum guia formal sobre IA para ensino, aprendizagem ou gestão, e que 37% permitem oficialmente o uso da tecnologia pelos alunos.5 Já um estudo qualitativo do Cetic.br com alunos e professores de São Paulo e Recife encontrou uso amplo e pouco estruturado: a IA aparece como apoio pontual para resumos e pesquisas, mas também como assistente pessoal e até fonte de suporte emocional.6

Há uma particularidade brasileira que torna o risco descrito pelos professores americanos especialmente concreto. Os exames que definem trajetórias no país, como o Enem e os vestibulares, são presenciais e feitos sem acesso a ferramentas. Se a distância entre a tarefa feita em casa e a prova feita sozinho se confirmar em escala, é nesses momentos decisivos que ela vai aparecer.

A resposta regulatória brasileira

O país começou a reagir em 2026. No início do ano, o Ministério da Educação publicou um referencial, sem caráter normativo, para orientar o desenvolvimento e o uso responsável de IA na educação.9 Em 1º de setembro, o Conselho Nacional de Educação aprovou as primeiras diretrizes nacionais sobre o tema, válidas da educação básica ao ensino superior.8 O texto classifica usos de IA por nível de risco, proíbe o emprego da tecnologia para corrigir e atribuir notas a redações e provas dissertativas e veda o acesso direto e sem supervisão de crianças da educação infantil e dos anos iniciais do ensino fundamental a ferramentas generativas ou conversacionais. As diretrizes aguardam homologação do MEC, e as redes terão até 12 meses para se adequar depois disso.

As normas se somam à Lei nº 15.100, de janeiro de 2025, que restringiu o uso de celulares em escolas de educação básica.13 Juntas, sinalizam uma mudança de postura: a discussão deixa de ser sobre acesso à tecnologia e passa a ser sobre as condições em que ela entra no processo pedagógico.

O que muda na forma de ensinar e avaliar

Nas universidades ouvidas pelo Post, as respostas vão da volta das provas manuscritas e orais à inversão da sala de aula, com leitura e escrita feitas presencialmente e o tempo em casa reservado para outras atividades. Dolansky, depois de três décadas, abandonou as redações para casa, tornou suas aulas livres de tecnologia e passou a exigir anotações à mão nas margens dos livros.1

O experimento da Pensilvânia sugere, porém, que o desenho da ferramenta importa tanto quanto a decisão de usá-la. O tutor que devolvia perguntas em vez de respostas preservou o aprendizado e ainda melhorou o desempenho nos exercícios.2 Isso desloca parte da responsabilidade para quem desenvolve e contrata plataformas educacionais: um produto otimizado para entregar respostas rápidas pode ser excelente para produtividade e ruim para formação.

Para professores e redes de ensino, três implicações práticas emergem das evidências. A avaliação precisa medir o processo, e não só o produto final, o que favorece defesas orais, escrita em sala e registros de rascunho. As atividades devem deixar explícito quando a IA é bem-vinda e quando o esforço individual é o objetivo da tarefa. E a formação docente passa a ser condição para qualquer política funcionar, já que é o professor quem transforma uma regra geral em prática cotidiana.

A pergunta que importa

O debate sobre IA na educação costuma oscilar entre o entusiasmo e a proibição. As evidências reunidas até aqui apontam para uma questão mais precisa: em que momento a ferramenta amplia o raciocínio do estudante e em que momento passa a substituí-lo. A resposta varia conforme a idade, a disciplina e o objetivo de cada atividade, e por isso não cabe inteiramente numa norma nacional.

Dolansky disse ao Post que o que ensina ficou mais valioso depois da IA: como os humanos pensam, sentem e se expressam.1 Para um sistema educacional como o brasileiro, que ainda luta para garantir o básico em leitura e matemática, o risco é duplo. A tecnologia pode ajudar a recuperar aprendizagens. Ou pode tornar invisível, por mais alguns anos, o quanto ainda falta aprender.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial prejudica o aprendizado dos estudantes?

Depende de como é usada. No experimento publicado na PNAS em 2025, o acesso livre ao GPT-4 melhorou o desempenho nos exercícios em 48%, mas reduziu em 17% as notas na prova sem a ferramenta. Uma versão configurada para dar pistas em vez de respostas praticamente eliminou essa perda.

O que é a "ilusão de aprendizagem" causada pela IA?

É a sensação de ter compreendido um conteúdo porque a resposta da IA parece clara e correta. O estudante confunde reconhecer uma boa solução com ser capaz de produzi-la, e a diferença aparece em provas presenciais e exames orais.

Quantos estudantes brasileiros usam IA nos estudos?

Pela TIC Educação 2024, 70% dos alunos do ensino médio usuários de internet usam IA generativa em pesquisas escolares, e só 32% receberam orientação da escola. No Pisa 2025, 48% dos estudantes brasileiros disseram usar chatbots semanalmente para aprender.

Existe regra para o uso de IA nas escolas brasileiras?

O CNE aprovou em 1º de setembro de 2026 diretrizes nacionais que classificam usos por nível de risco, proíbem a correção de redações e provas dissertativas por IA e vedam o acesso sem supervisão nas etapas iniciais. O texto aguarda homologação do MEC, com prazo de até 12 meses para adequação.

Como usar IA nos estudos sem prejudicar o aprendizado?

As evidências favorecem usos que preservam o esforço: tentar resolver antes de consultar, pedir pistas em vez de respostas, explicar a solução com as próprias palavras e usar a ferramenta para se testar.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Educação