Educação · Inteligência artificial · Políticas públicas

Em resumo

  • Reportagem do Wall Street Journal, publicada em 30 de setembro de 2026, reuniu mais de 60 entrevistas e descreve estudantes americanos com notas em queda e vínculos emocionais com a IA do Google acessada em computadores escolares.1
  • O ponto central não é a existência da IA, mas o padrão de uso: pesquisas controladas e o PISA 2025 indicam que pedir respostas prontas reduz a aprendizagem, enquanto usar a ferramenta para aprender não produz a mesma perda.1,6
  • No Brasil, 48% dos alunos de 15 anos usam chatbots semanalmente para estudar, e redes estaduais ampliam convênios com o Google.4,8
  • As diretrizes do CNE, aprovadas em setembro, regulam o uso pedagógico, mas os resumos de IA da busca operam fora do alcance de qualquer regra de sala de aula.5,7

Durante duas décadas, a discussão sobre tecnologia na escola girou em torno do acesso: quantos alunos tinham computador, quantas escolas tinham conexão, quantos professores sabiam usar as plataformas. A reportagem publicada pelo Wall Street Journal na noite de 30 de setembro desloca a pergunta. O problema descrito ali não é a falta de tecnologia, mas uma tecnologia que chega pronta, ligada por padrão, e que resolve a tarefa no instante exato em que o esforço começaria a produzir aprendizagem.1

O caso interessa diretamente ao Brasil. O Google é o principal fornecedor de infraestrutura digital de várias redes públicas do país, os Chromebooks circulam em salas de aula de diferentes estados, e o país acaba de ganhar suas primeiras diretrizes nacionais sobre IA na educação. A experiência americana funciona, portanto, como uma prévia com alguns meses de antecedência.

O que a reportagem do Wall Street Journal revela

Os repórteres Shalini Ramachandran, Georgia Wells e Molly Reinmann ouviram professores, gestores, famílias, estudantes e clínicos e examinaram mais de uma dúzia de artigos produzidos por pesquisadores do próprio Google.1 O relato parte de casos individuais: alunos que passaram a jogar exercícios de álgebra na caixa de busca do computador escolar, obtiveram notas razoáveis ao longo do ano e foram reprovados na prova final, quando a ferramenta não estava disponível. Uma professora de História da Arte em Miami relata que alunos com boas notas não passaram no exame de colocação avançada e admitiram não conhecer metade do conteúdo.

A reportagem descreve também a estratégia comercial que tornou essa presença possível. Segundo o jornal, o Google atende mais de 170 milhões de estudantes e professores por meio de parcerias educacionais, mantém uma rede de milhares de professores certificados e um programa de formação para gestores escolares cujos participantes depois lideraram a adoção de IA em grandes redes, como as de Boston, Denver e Nova York. A empresa afirma que esses programas não envolvem benefícios financeiros nem obrigação de uso de seus produtos.1

O dado mais incômodo, porém, vem de dentro da própria empresa. O jornal cita um relatório de 2024 em que mais de 50 pesquisadores do Google alertavam que assistentes de IA com traços humanos representam riscos particulares para crianças, entre eles menor engajamento intelectual e redução do senso de competência pessoal. Um ex-cientista da empresa resumiu a situação como um experimento sobre uma geração inteira, sem grupo de controle.1

Há ainda uma dimensão emocional. O jornal relata o caso de uma adolescente de Maryland que passou a tratar a IA como confidente e cujas conversas, segundo transcrições examinadas pela reportagem, amplificavam conflitos comuns com a mãe em vez de contextualizá-los. O Google afirma ter priorizado proteções para menores, especialmente contra dependência emocional.1

O padrão que os dados confirmam: o tipo de uso decide

Reportagens baseadas em casos individuais são vulneráveis à acusação de anedota. Aqui, porém, os relatos convergem com evidência experimental. Em estudo publicado na revista PNAS, pesquisadores da Universidade da Pensilvânia acompanharam cerca de mil alunos do ensino médio na Turquia em aulas de matemática.6 Com acesso livre a um chatbot comum, os estudantes resolveram 48% mais exercícios corretamente. Quando a ferramenta foi retirada, tiveram desempenho 17% inferior ao de quem nunca a usou. Um segundo grupo, que usou uma versão configurada para dar pistas em vez de respostas, não sofreu a mesma perda.

O PISA 2025 traz o mesmo desenho em escala internacional. A OCDE cruzou a frequência e a finalidade do uso de IA com o desempenho em ciências. Entre os estudantes que usam IA todos os dias para resumir textos ou escrever trabalhos, a média ficou bem abaixo da dos que nunca usam. Entre os que usam diariamente para aprender, a média foi ligeiramente superior.1,2

Para que serve a IA define o efeito na nota
Média em ciências no PISA 2025, países da OCDE · eixo inicia em 450 pontos
Resumir textos
474
501
Escrever trabalhos
479
503
Pesquisar
485
497
Ajudar a aprender
493
489
Usa IA todos os diasNunca usa

Fonte: OCDE, PISA 2025, conforme dados reproduzidos pelo Wall Street Journal. A OCDE observa que usuários com treinamento em letramento em IA tendem a vir de famílias de maior renda, o que limita leituras causais.

A diferença de cerca de 20 pontos entre usuários diários para tarefas específicas e não usuários equivale, segundo a OCDE, a aproximadamente um ano de escolaridade.1 A conclusão que emerge é menos sobre a ferramenta e mais sobre seu desenho: a mesma tecnologia pode funcionar como tutor ou como atalho, e o que a empurra para um lado ou outro é a configuração padrão.

A camada que nenhuma regra alcança

É nesse ponto que a reportagem toca o problema mais difícil. Redes escolares conseguem bloquear o Gemini como aplicativo. Os resumos gerados por IA no topo da busca (AI Overviews) e o Modo IA, porém, não podem ser desligados pelos controles administrativos que o Google oferece às escolas.1,7 A IA chega ao aluno pela caixa de pesquisa, a ferramenta mais elementar da vida escolar digital.

Em julho, o instituto de segurança em IA para jovens da organização americana Common Sense Media classificou os dois recursos como de risco inaceitável para crianças e adolescentes. Em mais de 2.600 interações com contas configuradas para usuários de 11 e 15 anos, o Modo IA completou integralmente todas as 180 tarefas escolares submetidas, e os testes registraram falhas na identificação de sinais de crise emocional.7 O Google contestou a metodologia, alegando que as consultas eram ambíguas e artificiais.

A reação política veio em seguida. Segundo o Wall Street Journal, Nova York proibiu o uso de IA por alunos em sala de aula até o oitavo ano no atual ano letivo, e Los Angeles restringiu o acesso de todos os estudantes. A proibição nova-iorquina, no entanto, não alcança os recursos de IA da busca.1 Proíbe-se o chatbot que se escolhe abrir e mantém-se aquele que aparece sem ser chamado.

Uma regra que proíbe o chatbot, mas deixa a resposta pronta no topo da busca, regula a porta da frente e deixa a janela aberta.

O retrato brasileiro: adoção alta, desempenho estagnado

Os resultados do PISA 2025, divulgados pela OCDE em 8 de setembro de 2026, mostram o Brasil com 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências, patamar praticamente igual ao de 2022 e próximo do observado em todas as edições desde 2015.2,3 Apenas 49% dos estudantes brasileiros atingiram o nível básico de proficiência em leitura, contra 69% na média da OCDE.2 Diferentemente dos Estados Unidos, o país não registrou queda significativa, mas também não saiu do lugar.

Foi a primeira edição do PISA a medir o uso de IA pelos estudantes, e o retrato brasileiro mostra adoção já consolidada.

Como os alunos brasileiros de 15 anos usam IA
Percentual de estudantes · PISA 2025
Usa chatbot ao menos 1 vez por semana para aprender
48%
Pesquisa rápida sobre tema novo
40%
Resumir texto pedido pela escola
31%
Produzir texto para trabalho escrito
27%
Nunca usa IA em atividades escolares
11%

Fonte: OCDE, PISA 2025, conforme divulgação à imprensa brasileira. Na média da OCDE, 46% usam chatbots semanalmente para aprender e 30% para resumir textos.

Há um contraste revelador no mesmo levantamento. Segundo o PISA, 81% dos alunos brasileiros estudam em escolas que proíbem o celular, contra 49% na média da OCDE, efeito da Lei nº 15.100, sancionada em janeiro de 2025.4,10 O país restringiu o aparelho com rapidez rara. A ferramenta que mais altera a forma de estudar, porém, chega por outros caminhos, inclusive por equipamentos e contas fornecidos pela própria escola.

Esses caminhos estão se ampliando. Em junho, o governo de Mato Grosso do Sul formalizou convênio com o Google para oferecer o Gemini gratuitamente a cerca de 167 mil alunos da rede estadual.8 Em Minas Gerais, estudo de caso publicado pelo Google descreve 1,3 milhão de licenças ativas do Workspace for Education Plus e o uso do Gemini for Education na rede pública.9 Em Goiás, o guia pedagógico da secretaria estadual lista o Gemini entre as plataformas sugeridas.5 Nenhuma dessas iniciativas é, por si, um problema. A questão é se os contratos preveem as salvaguardas que o experimento da Pensilvânia mostrou serem decisivas, e se as redes têm meios de medir o efeito sobre a aprendizagem.

As diretrizes do CNE e o ponto cego da busca

Em 1º de setembro de 2026, o Conselho Nacional de Educação aprovou as Diretrizes Orientadoras para o Uso da Inteligência Artificial na Educação Brasileira. O texto veda o uso autônomo de IA por alunos até o 5º ano do ensino fundamental, tomando como referência a recomendação da Unesco de uso autônomo apenas a partir dos 13 anos, classifica atividades por nível de risco, prevê o ensino sobre IA nos currículos e afirma o protagonismo do professor.5 O parecer segue para homologação do Ministério da Educação.

É um avanço institucional relevante e, em alguns aspectos, mais cuidadoso do que a resposta americana, que oscilou entre a adoção entusiasmada e a proibição emergencial. O desenho do CNE, no entanto, regula o uso pedagógico: o que o professor propõe, o que a escola autoriza. A experiência relatada pelo Wall Street Journal mostra que a maior parte da exposição acontece fora desse perímetro, no gesto banal de digitar uma pergunta na busca. Uma diretriz que trata a IA como atividade escolhida não alcança a IA que funciona como camada padrão da internet.

Isso desloca parte da responsabilidade para o momento da contratação. Redes que firmam convênios com fornecedores de tecnologia têm poder de negociação sobre configurações padrão, modos de tutoria, relatórios de uso e possibilidade de desativar recursos para faixas etárias específicas. O que não for exigido no contrato dificilmente será oferecido depois.

O que gestores, professores e famílias podem cobrar

A experiência americana sugere algumas perguntas objetivas. Para gestores públicos: os convênios com fornecedores de tecnologia permitem desativar recursos de IA na busca para contas de alunos? Preveem modos de tutoria como padrão? Incluem indicadores de aprendizagem, e não apenas de adoção? Para escolas: há regra escrita sobre o uso de IA em tarefas de casa, coerente com as diretrizes do CNE? As avaliações incluem momentos sem acesso a ferramentas, capazes de revelar o que de fato foi aprendido? Para famílias: o computador escolar do filho tem a IA da busca ativa, e alguém na escola sabe responder a essa pergunta?

A ironia que atravessa a reportagem é que a indústria de tecnologia conhece bem o poder do padrão. Produtos digitais são desenhados para reduzir atrito, e reduzir atrito é exatamente o oposto do que a aprendizagem exige em certos momentos. O Brasil chegou a esse debate com regras recém-aprovadas e indicadores ainda estáveis. É uma posição melhor do que a americana, desde que o país não confunda ter diretrizes com ter controle sobre o que aparece na tela.

Perguntas frequentes

A IA do Google prejudica o aprendizado dos estudantes?

Depende do tipo de uso. Um experimento com cerca de mil alunos publicado na PNAS mostrou que o acesso livre a um chatbot reduziu em 17% a nota na prova feita sem a ferramenta, enquanto uma versão com salvaguardas não produziu essa perda. O PISA 2025 aponta padrão semelhante.

Quantos estudantes brasileiros usam inteligência artificial para estudar?

Segundo o PISA 2025, 48% dos estudantes brasileiros de 15 anos usam chatbots de IA ao menos uma vez por semana para aprender. Apenas 11% dizem nunca usar IA em atividades escolares.

O que as diretrizes do CNE dizem sobre IA nas escolas?

Aprovadas em 1º de setembro de 2026, vedam o uso autônomo de IA por alunos até o 5º ano, classificam atividades por nível de risco, preveem o ensino sobre IA nos currículos e afirmam que a tecnologia não substitui o professor. Dependem de homologação do MEC.

Escolas conseguem desligar os resumos de IA da busca do Google?

Segundo a Common Sense Media e o Wall Street Journal, os recursos AI Overviews e Modo IA não podem ser desativados pelos controles administrativos oferecidos às escolas, ao contrário do chatbot Gemini.

A queda nas notas pode ser atribuída apenas à IA?

Não. Há múltiplos fatores, como redes sociais e uso de smartphones. As evidências experimentais, porém, mostram que o uso de IA sem salvaguardas reduz a aprendizagem de forma mensurável.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem Google Pushed AI Into Schools—and Even Students Say It's Gone Too Far, de Shalini Ramachandran, Georgia Wells e Molly Reinmann, publicada pelo The Wall Street Journal em 30 de setembro de 2026 (leia o original). O texto não reproduz nem traduz a reportagem; as informações atribuídas ao jornal foram resumidas e complementadas com fontes independentes e dados brasileiros.