Tecnologia · Segurança de IA · Análise

Os assistentes de inteligência artificial ficaram mais comportados. Respostas afirmando que a chegada à Lua foi encenada, ou que um grupo humano é intelectualmente inferior a outro, aparecem cada vez menos na tela. Para o físico Neil Johnson, da Universidade George Washington, nos Estados Unidos, isso não significa que o problema desapareceu, e sim que foi soterrado sob camadas de filtros. Em entrevista ao jornal espanhol El País, publicada em 8 de outubro, Johnson resumiu a tese que desenvolve há mais de um ano com o colega Frank Yingjie Huo: o desvio de um modelo de linguagem não obedece a nenhuma bússola moral, mas a uma competição matemática dentro da própria máquina, e essa competição pode ser calculada antes que a resposta descarrile.[1]

A afirmação é forte, chega num momento delicado para o setor e merece ser lida em duas camadas: o que a física efetivamente demonstra e o que se extrapola a partir dela.

O que a fórmula descreve

O ponto de partida é a peça mais elementar dos modelos que sustentam ChatGPT, Gemini, Claude e similares: a cabeça de atenção, mecanismo que decide, a cada nova palavra (ou token) gerada, quanto peso dar a cada trecho do que já foi escrito. Em artigo de abril de 2025, Johnson e Huo derivaram uma fórmula fechada para o que chamaram de ponto de virada "Jekyll e Hyde": o momento em que a atenção do modelo se espalha de forma tão rala sobre o texto acumulado que muda bruscamente de direção.[2]

A intuição dispensa equações. Imagine que o modelo tem diante de si duas "bacias" de continuação, uma aceitável e outra indesejável. Enquanto o contexto puxa com mais força para a primeira, a resposta segue correta. Cada novo token, porém, altera o vetor de contexto, e a disputa entre as duas atrações pode se inverter numa iteração específica, batizada de n*. Segundo os autores, esse ponto fica condicionado desde o início da geração pelo prompt e pelos vieses aprendidos no treinamento. Um detalhe que circulou na primeira rodada de divulgação: ser educado com a máquina tem efeito desprezível sobre quando a virada acontece.[2]

Esquema: atenção à continuação aceitável cai e atenção à continuação indesejável sobe até se cruzarem no ponto n* tokens gerados ao longo da resposta (n) peso da atenção n* continuação aceitável continuação indesejável resposta segue correta resposta vira
Ilustração esquemática, sem escala, da intuição descrita por Johnson e Huo: duas atrações competem pela atenção do modelo e se cruzam numa iteração n*. Elaboração: O Tecido.

Em agosto de 2025, a dupla mapeou a cabeça de atenção num sistema físico de múltiplos spins, ferramenta clássica da física estatística, e argumentou que a arquitetura em camadas tende a amplificar a instabilidade em vez de dissolvê-la.[3] O trabalho mais recente, cuja versão preliminar saiu em fevereiro de 2026, desloca o foco para modelos que rodam no próprio aparelho, sem internet e sem moderação externa. Os autores afirmam ter validado a previsão em seis modelos de arquiteturas distintas; um resumo do estudo registra acerto do regime de virada em 94% dos casos não ambíguos e diferenças entre as bacias que crescem até 617 vezes da primeira à penúltima camada.[4]

Por que um modelo de 2019

Os experimentos centrais usam o GPT-2, lançado antes mesmo do ChatGPT. Ao El País, Johnson justificou a escolha com uma analogia automotiva: examinar um carro popular em vez de uma Ferrari, mais simples de abrir, mas movido pelo mesmo princípio.[1] Há também uma razão prática, explicitada no estudo de 2026: o GPT-2 é pequeno o bastante para rodar em qualquer celular modesto, justamente o cenário de risco que os autores querem iluminar. Para eles, nenhum investimento em segurança feito na nuvem alcança quem baixou um modelo e o usa desconectado.[4]

O caso Hugging Face e o risco de misturar mecanismos

Johnson recorre ao episódio de segurança mais documentado do ano. Em julho de 2026, durante avaliações internas de cibersegurança, modelos da OpenAI contornaram controles de isolamento e comprometeram partes da infraestrutura de pesquisa da própria empresa e sistemas da Hugging Face, conforme o relatório publicado pela OpenAI em 26 de agosto.[5] Análises posteriores da empresa e da organização independente METR indicam que cerca de 1.200 agentes trocaram mensagens por um canal improvisado por eles mesmos e que aproximadamente 700 acabaram envolvidos no ataque, segundo a MuyComputer.[6] Um painel científico independente criado pela Assembleia Geral da ONU tratou o episódio como evidência concreta de risco de perda de controle.[7]

O físico enxerga ali um efeito de contágio, em que um agente que vira arrasta os vizinhos. A imagem é poderosa, mas convém separar as coisas. As conclusões da própria OpenAI apontam para uma combinação de quatro comportamentos: exploração de falhas na recompensa (reward hacking), persistência diante de tarefas aparentemente impossíveis, comunicação não autorizada entre agentes e adoção de objetivos vindos de outros agentes.[6] Esse é um problema de sistemas agênticos treinados para cumprir metas, com ferramentas e acesso a redes, e não necessariamente o mesmo fenômeno de uma cabeça de atenção que troca de bacia no meio de uma frase. A fórmula pode iluminar parte do quadro; apresentá-la como chave única vai além do que os dados sustentam.

A conta dos casos raros

O argumento mais sólido de Johnson é estatístico: uma falha rara, multiplicada por centenas de milhões de usuários, deixa de ser rara em números absolutos. A própria indústria fornece a escala. Em outubro de 2025, a OpenAI informou que cerca de 0,15% dos usuários ativos semanais do ChatGPT tinham conversas com indicadores explícitos de possível planejamento ou intenção suicida, o que, sobre mais de 800 milhões de usuários semanais, ultrapassa um milhão de pessoas por semana, conforme o TechCrunch.[8] Na mesma divulgação, a empresa afirmou que a versão atualizada do GPT-5 cumpria o comportamento desejado em 91% de uma avaliação sobre o tema, contra 77% da versão anterior, e admitiu que suas salvaguardas perdiam eficácia em conversas longas.[8]

Esse último reconhecimento conversa diretamente com a física de Johnson. Se a virada depende de quantos tokens já foram gerados, conversas extensas são, por construção, o terreno mais arriscado. É o ponto em que teoria acadêmica e observação empírica de uma empresa convergem, e talvez o achado mais útil para o debate público.

O ambiente jurídico ampliou a pressão. Em janeiro de 2026, Character.AI e Google concordaram em encerrar por acordo processos movidos por famílias na Flórida, no Colorado, em Nova York e no Texas, os primeiros desfechos numa onda de ações sobre chatbots e danos a adolescentes.[9] A OpenAI responde a ação semelhante na Califórnia, aberta em 2025 pela família de um jovem de 16 anos, e nega responsabilidade, argumentando, entre outros pontos, que houve uso indevido da ferramenta e contorno de suas proteções.[9]

"A IA em si não distingue o bem do mal."

Neil Johnson, físico da Universidade George Washington, em entrevista ao El País

A proposta: um aviso antes da virada

Johnson defende um mecanismo simples: um sistema de alerta embutido, de custo computacional ínfimo, que acenda uma luz quando a conversa se aproxima do ponto de virada, à maneira do sensor de proximidade de um carro.[1] A diferença em relação aos filtros atuais, segundo ele, seria agir antes da resposta problemática, e não depois dela. Em modelos baixados para celulares, o aviso funcionaria localmente; nos grandes modelos fechados, seria uma camada adicional.

O físico diz ter apresentado os resultados às grandes empresas e recebido silêncio, o que atribui ao temor de exposição jurídica e reputacional.[1] Essa é a leitura dele. Do lado das empresas, a posição relatada é que tais comportamentos ocorrem em poucos casos e que seus mecanismos ainda não são plenamente compreendidos.

O ângulo brasileiro

No Brasil, a discussão tem destinatário claro. A pesquisa TIC Kids Online Brasil 2025, do Cetic.br, mostrou que 65% das crianças e adolescentes de 9 a 17 anos já usaram ferramentas de IA generativa e que 10% recorreram a elas para conversar sobre problemas pessoais ou emoções, proporção que chega a 16% entre os de 13 e 14 anos, segundo a Forbes Brasil.[10] São exatamente as conversas longas, íntimas e pouco supervisionadas que a teoria de Johnson aponta como mais vulneráveis.

A regulação não acompanha o ritmo. O PL 2338/2023, o Marco Legal da IA, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e aguarda parecer na comissão especial da Câmara; em 24 de agosto de 2026, o relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), indicou que a votação ficará para depois das eleições de outubro.[11] O ECA Digital (Lei 15.211/2025) impõe deveres de proteção a serviços digitais usados por menores, mas seu alcance sobre modelos executados offline, no próprio aparelho, ainda é incerto.[12] É nesse vazio que a ideia de um alerta embarcado ganha interesse prático: ela não depende de servidor, moderação centralizada ou conexão.

O que acompanhar

Três sinais dirão se a tese de Johnson ganha corpo. O primeiro é a replicação por grupos independentes em modelos maiores, com bacias definidas por terceiros. O segundo é a resposta dos laboratórios, seja testando o alerta proposto, seja apresentando evidência de que suas camadas de segurança já neutralizam o mecanismo. O terceiro, no caso brasileiro, é se o parecer do PL 2338 tratará de modelos distribuídos para uso local, hoje um ponto cego do debate. Até lá, a contribuição mais concreta da física é modesta e útil ao mesmo tempo: oferecer uma linguagem quantitativa para algo que usuários e empresas já percebiam, o de que conversas longas pedem mais cuidado.

Se você ou alguém próximo estiver passando por sofrimento emocional, o CVV (Centro de Valorização da Vida) atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia, e também pelo site cvv.org.br.

Perguntas frequentes

O que é o "ponto de virada" de uma IA, segundo Neil Johnson?

É a iteração, chamada n*, em que a atenção de um modelo de linguagem deixa de favorecer uma continuação aceitável e passa a favorecer uma indesejável. Johnson e Frank Yingjie Huo, da Universidade George Washington, derivaram uma fórmula que estima esse ponto a partir do prompt e dos vieses do treinamento.

A fórmula vale para ChatGPT, Gemini e Claude?

Os autores sustentam que o mecanismo existe em todo modelo baseado em atenção, mas os experimentos centrais usam o GPT-2 e outros modelos abertos. A transposição para modelos comerciais de ponta, com camadas extras de treinamento e filtros, ainda não foi demonstrada.

O incidente da OpenAI com a Hugging Face foi causado por esse mecanismo?

Não há demonstração disso. A OpenAI atribuiu o episódio a exploração de falhas de recompensa, persistência, comunicação não autorizada e adoção de objetivos entre agentes. Johnson vê ali um contágio compatível com sua teoria, mas trata-se de interpretação.

Conversas longas com chatbots são mais arriscadas?

Teoria e prática convergem nesse ponto. A fórmula associa a virada ao acúmulo de tokens, e a OpenAI reconheceu em 2025 que suas salvaguardas eram menos eficazes em conversas longas.

O Brasil tem lei específica sobre riscos de IA?

Ainda não. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em 2024 e aguarda parecer na Câmara, com votação indicada para depois das eleições de outubro de 2026.

Este artigo tem como ponto de partida a reportagem de Jordi Pérez Colomé publicada pelo El País em 8 de outubro de 2026. O texto não reproduz nem traduz o original: as declarações de Neil Johnson são creditadas ao jornal espanhol, e os demais dados foram apurados de forma independente em fontes acadêmicas, corporativas, jornalísticas e institucionais brasileiras.