Caderno Ciência · Inteligência artificial e pesquisa
Durante anos, a promessa pareceu simples: bastaria dar às máquinas acesso ao conhecimento acumulado para que a descoberta científica ganhasse velocidade. Em parte, aconteceu. Cientistas usam inteligência artificial mais do que quase qualquer outra categoria profissional, economizam horas por semana e produzem mais hipóteses do que conseguiam antes. O problema é o que vem depois. Hipótese não é descoberta. Entre uma e outra existem uma bancada, um reagente, um animal de laboratório, um comitê de ética e, na medicina, um ensaio clínico. É justamente nesse trecho que a fila começou a crescer.
É o que indica o relatório AI in Science: Early Insights, divulgado em setembro por pesquisadores do Google, do Google DeepMind e do MIT FutureTech, com coautores das universidades de Chicago, Oxford, Carnegie Mellon e Pensilvânia2. O estudo cruza três bases de dados: uma amostra de 15 milhões de interações anônimas com o Gemini (das quais cerca de 360 mil foram classificadas como trabalho científico), um inventário de 2.690 modelos de IA especializados publicados desde 2012 e uma pesquisa com 637 cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido, realizada entre julho e agosto de 2026.
A reportagem da Scientific American1 resumiu o contraste com uma imagem eficiente: na matemática, a IA já ocupa uma sala no departamento e disputa crédito por resultados; na biologia e na química, ainda não conseguiu entrar no prédio. A pergunta que o relatório tenta responder com dados é por que essa diferença existe e onde, exatamente, a aceleração trava.
Onde a IA acelerou e onde parou
A adoção é ampla. Quase metade dos cientistas entrevistados (46,6%) diz usar ferramentas de IA de forma intensiva, e outros 30,6% as usam com frequência2. Nas interações com o Gemini, as ocupações das ciências da vida, físicas e sociais aparecem cerca de 2,7 vezes mais do que seu peso no emprego total dos Estados Unidos. Cerca de três em cada quatro pesquisadores relatam ganho líquido de tempo, com média próxima de 6,9 horas por semana, e apenas 6% dizem perder tempo com a tecnologia.
Esse tempo não virou folga. Segundo os entrevistados, ele foi reinvestido principalmente em mais produção (quase 30%), em execução de experimentos e coleta de dados (21%) e em problemas mais difíceis (19%). Cerca de 84% relatam aumento da produção do próprio laboratório nos últimos três anos.
O dado que muda a leitura vem em seguida. Para 43,5% dos cientistas, o principal gargalo da pesquisa se deslocou nos últimos dois anos para etapas posteriores, como experimentação física, validação clínica e coleta de campo. Só 13,8% viram o movimento contrário. E 40,5% afirmam que cresceu seu estoque de hipóteses ainda não testadas, contra 24,8% que viram esse estoque diminuir2. Hoje, o gargalo mais citado é justamente a experimentação física e a coleta de dados (24% do total, chegando a 30% nas ciências físicas e engenharias).
Os autores interpretam o fenômeno com uma ideia conhecida da economia da produção: quando uma etapa de uma cadeia fica mais rápida, o ritmo do conjunto passa a ser ditado pelo elo que não mudou. A IA barateou a análise de dados, a escrita de código e a revisão de literatura. Não barateou o tempo de cultivo de uma célula, a síntese de uma molécula ou o acompanhamento de um paciente.
O custo invisível da verificação
Há um segundo freio, menos visível. Entre os cientistas que economizam tempo com IA, 89% gastam mais de um décimo dessa economia conferindo os resultados das ferramentas, e 46% gastam mais de um quarto2. O relatório chama isso de uma espécie de taxa de verificação, e ela é particularmente alta nas ciências da vida.
Em entrevista à Scientific American1, o economista do Google Mihai Codreanu, um dos três coordenadores do estudo, explicou que o custo de checagem varia muito entre áreas e ajuda a definir onde a IA é de fato útil. Uma demonstração matemática pode ser verificada contra regras formais. A função prevista para uma proteína, por outro lado, só se confirma quando a proteína é produzida e testada em um sistema vivo.
O efeito colateral aparece na percepção sobre a qualidade da produção científica. Na pesquisa, 40% dos cientistas dizem que aumentou o número de artigos de baixa qualidade em sua área, e 45% relatam mais esforço por artigo publicado, em parte por exigências maiores de revisão e validação2.
A inteligência artificial barateou a pergunta. A resposta continua custando o preço do mundo físico.
Por que a biologia anda mais devagar que a matemática
A reportagem da Scientific American1 ouviu leituras diferentes para o mesmo problema. Para o economista Daron Acemoglu, do MIT, laureado com o Nobel, a IA avança mais onde existe uma verdade de referência clara para comparar resultados, algo que falta na maior parte da medicina. Já James Zou, cientista de dados biomédicos da Universidade Stanford, que desenvolve laboratórios virtuais automatizados, aponta limites práticos: a automação real ainda cobre sobretudo alguns experimentos de química, fica muito mais difícil quando envolve animais e esbarra no custo elevado dos laboratórios robotizados.
Há ainda a lentidão que existe por escolha. Ensaios clínicos seguem o ritmo da revisão regulatória e de checagens de segurança antes, durante e depois do estudo. Ninguém apresentou até agora uma proposta convincente de como a IA comprimiria esse tempo, nem por que a sociedade deveria querer isso.
Os dados do relatório reforçam a assimetria. As ciências da vida e da saúde estão sub-representadas no uso do Gemini em relação ao número de pesquisadores, mas concentram quase 36% dos modelos especializados do inventário, contra 23% das interações com o modelo generalista2. Os autores descrevem uma divisão de trabalho: modelos de linguagem cuidam de código, escrita e análise estatística, enquanto modelos como o AlphaFold fazem previsões de domínio. Os dois se complementam, mas nenhum resolve a etapa de bancada.
O risco do efeito poste de luz
O achado mais preocupante, segundo os próprios autores, está em outro ponto. Quase metade dos cientistas (49%) diz que a IA os empurrou para perguntas mais seguras e incrementais, em que há dados abundantes e parâmetros de comparação estabelecidos. Só 28% dizem ter passado a arriscar mais2. O relatório associa o padrão ao chamado efeito poste de luz, descrito na literatura econômica: procura-se onde é mais fácil enxergar, não necessariamente onde está a resposta. Se a IA reduz principalmente o custo do trabalho incremental, o volume de artigos pode crescer sem que a fronteira do conhecimento se mova na mesma proporção.
A aposta americana nos laboratórios em nuvem
Os Estados Unidos decidiram atacar o gargalo físico com dinheiro público. Em julho, a National Science Foundation (NSF) anunciou um investimento inicial de US$ 380 milhões em 20 equipes para montar uma rede nacional de laboratórios automatizados e controlados por IA, com complemento de até US$ 20 milhões em filantropia do Astera Institute3. O programa integra a Genesis Mission, iniciativa da Casa Branca voltada ao uso de IA na descoberta científica.
Um dos nós dessa rede é o DREAM Cloud Lab, da Universidade Northwestern, que recebeu US$ 20 milhões por quatro anos para se tornar o primeiro laboratório em nuvem de acesso público dedicado à engenharia de proteínas4. A proposta é permitir que pesquisadores projetem, produzam e testem proteínas remotamente, usando síntese de proteínas sem células vivas e equipamentos automatizados em ciclos de projetar, construir, testar e aprender. Os dados gerados devem alimentar uma base nacional de funções de proteínas. À Scientific American1, o coordenador do projeto, Julius Lucks, disse que o avanço será gradual e que a própria experiência vai indicar qual etapa automatizar em seguida.
A lógica é coerente com o diagnóstico do relatório: se o gargalo migrou para a bancada, é na bancada que o investimento precisa chegar. Os autores recomendam direcionar recursos para capacidade de experimentação física, ferramentas de verificação e bases de dados que permitam à IA enfrentar perguntas mais arriscadas2.
O que isso significa para a ciência brasileira
O relatório não traz um recorte específico sobre o Brasil, mas oferece pistas relevantes. O uso científico de IA cresce na proporção do tamanho da força de trabalho em pesquisa de cada país, e o desenvolvimento de modelos especializados está concentrado em poucos polos: Estados Unidos, China, Reino Unido, União Europeia, Coreia do Sul e Canadá, que respondem pela maior parte do inventário2. Países de renda média da América Latina, do Sudeste Asiático e da África aparecem com baixa propensão a desenvolver modelos, mas com propensão maior a citá-los, o que sugere que modelos abertos chegam a quem não tem capacidade de construí-los.
No plano das políticas públicas, o Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23,03 bilhões entre 2024 e 20285. Uma análise do Instituto de Economia da Unicamp apontou que o plano tem viés de oferta, com peso relevante em infraestrutura computacional, incluindo a atualização do supercomputador Santos Dumont, do LNCC, orçada em R$ 1,8 bilhão6. Capacidade computacional é necessária. O que o relatório internacional sugere é que ela, sozinha, tende a produzir mais hipóteses do que o sistema consegue testar.
O Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas, ilustra bem a cadeia. Em evento aberto ao público em 2026, pesquisadores do centro explicaram que modelos de IA conseguem avaliar a afinidade de até 200 mil combinações moleculares na busca por candidatos a fármacos. Mas, antes, a estrutura tridimensional das moléculas precisa ser determinada com a luz síncrotron do Sirius, e os candidatos selecionados ainda passam por síntese e testes em modelos animais7. A IA acelera o meio do caminho. O começo e o fim continuam dependendo de infraestrutura física e de gente qualificada.
A pesquisa clínica mostra o mesmo dilema pelo lado regulatório. A Lei 14.874/2024, regulamentada pelo Decreto 12.651 em outubro de 2025, reorganizou a análise ética: a Conep passou a supervisionar os comitês locais, e o parecer ético ganhou prazo máximo de 30 dias úteis, quando antes alguns estudos esperavam mais de 200 dias para começar89. Mas a própria Anvisa registrou, em documento de 2025, que cerca de 23% das petições de pesquisa clínica vinham sendo liberadas por decurso de prazo, sem análise da agência, em um quadro de servidores não recomposto, o que a agência classificou como risco relevante aos participantes10. Encurtar prazos sem ampliar a capacidade de avaliação desloca o gargalo em vez de eliminá-lo.
Para o Brasil, portanto, a questão não se resume a quanto investir em IA, mas em qual elo da cadeia o próximo real vai fazer diferença: processadores, ou também técnicos de laboratório, biotérios, centros de ensaios clínicos, comitês de ética e analistas regulatórios.
Contraponto
O relatório tem limites que os próprios autores reconhecem. A pesquisa com cientistas é autodeclarada e foi feita por painel on-line, o que pode sobrerrepresentar entusiastas da IA e inflar tanto a adoção quanto a economia de tempo. Os dados de uso vêm apenas do Gemini e excluem contratos corporativos, justamente onde áreas reguladas como a saúde tendem a operar. Os resultados mostram associações, não causalidade. E o estudo foi conduzido majoritariamente por uma empresa com interesse comercial direto na expansão da IA na ciência2.
Também há leituras menos pessimistas dos mesmos números. Um estoque maior de hipóteses pode significar escolha mais criteriosa do que testar, e não apenas congestionamento. Cerca de 68% dos entrevistados relatam mais acesso a ideias de outras disciplinas, e 67% veem aumento na ambição das perguntas em suas áreas, dado que convive, de forma não resolvida, com a percepção individual de trabalho mais incremental. Por fim, parte da lentidão da pesquisa com seres humanos é proteção deliberada, e não defeito a ser corrigido pela tecnologia.
O relatório não afirma que a IA fracassou na ciência. Afirma algo mais desconfortável para quem esperava uma revolução imediata: a tecnologia está mudando o formato do trabalho científico, e não apenas sua velocidade. O pesquisador passa a gastar menos tempo produzindo e mais tempo checando, escolhendo o que merece um teste caro e decidindo qual padrão de evidência aceitar. Enquanto o mundo físico não acelerar, a descoberta continuará andando no passo da bancada.
Perguntas frequentes
A inteligência artificial está acelerando a pesquisa científica?
Nas etapas computacionais, sim. Segundo o relatório AI in Science: Early Insights, de Google, Google DeepMind e MIT FutureTech, cerca de três em cada quatro cientistas relatam economia líquida de tempo, em média perto de 6,9 horas por semana, reinvestidas principalmente em mais pesquisa. A aceleração, porém, não se estende na mesma medida aos experimentos físicos.
Por que a IA não acelera experimentos de laboratório na mesma proporção?
Porque experimentos dependem de materiais, equipamentos, organismos vivos, regras de segurança e aprovações éticas. Uma prova matemática pode ser verificada por regras formais; uma proteína ou um medicamento precisam ser produzidos e testados. Para 43,5% dos cientistas entrevistados, o principal gargalo migrou para essas etapas finais.
O que é o estoque de hipóteses não testadas?
É o acúmulo de ideias e previsões que um pesquisador tem, mas ainda não conseguiu verificar experimentalmente. Na pesquisa com 637 cientistas, 40,5% disseram que esse estoque aumentou nos últimos três anos, sinal de que a IA gera hipóteses mais rápido do que os laboratórios conseguem testá-las.
Quanto tempo os cientistas gastam verificando resultados de IA?
Entre quem economiza tempo com IA, 89% usam mais de 10% dessa economia para conferir os resultados das ferramentas, e 46% usam mais de 25%. A verificação é mais pesada nas ciências da vida.
O que são laboratórios em nuvem programáveis?
São laboratórios automatizados que pesquisadores podem operar remotamente, programando experimentos que robôs executam. Em julho de 2026, a NSF destinou US$ 380 milhões a 20 equipes para criar uma rede desses laboratórios nos Estados Unidos, incluindo o DREAM Cloud Lab, da Northwestern, voltado à engenharia de proteínas.
Como essa discussão afeta a ciência no Brasil?
O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial prevê R$ 23,03 bilhões até 2028, com peso relevante em infraestrutura computacional. O relatório sugere que o gargalo tende a migrar para experimentação, validação e avaliação regulatória, áreas em que o Brasil enfrenta limites de pessoal e estrutura, como mostram os dados da Anvisa sobre a análise de pesquisas clínicas.
Referências
- HALL, Peter. Why AI is speeding up scientific research but not lab experiments. Scientific American, setembro de 2026. https://www.scientificamerican.com/article/why-ai-is-speeding-up-scientific-research-but-not-lab-experiments/
- CODREANU, Mihai; IMAS, Alex; MATEOS-GARCIA, Juan et al. AI in Science: Early Insights. Google, Google DeepMind e MIT FutureTech, setembro de 2026.
- NATIONAL SCIENCE FOUNDATION. NSF announces $400M investment in new national network of AI-programmable cloud laboratories in alignment with the U.S. government's Genesis Mission. Julho de 2026.
- NORTHWESTERN UNIVERSITY, McCormick School of Engineering. AI-Directed Protein-Engineering Cloud Lab Receives $20 Million from NSF. Julho de 2026.
- MINISTÉRIO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO; CGEE. IA para o bem de todos: Plano Brasileiro de Inteligência Artificial 2024-2028. Brasília, 2025.
- INSTITUTO DE ECONOMIA DA UNICAMP. O Plano Brasileiro de Inteligência Artificial: da euforia à inquietação?
- JORNALISMO JÚNIOR (ECA-USP). Ciência Aberta 2026: laboratórios que desenvolvem biotecnologias revolucionárias. Junho de 2026.
- BRAZIL JOURNAL. A lei que trouxe as pesquisas clínicas de volta ao Brasil. 2026.
- BRASIL. Lei nº 14.874, de 28 de maio de 2024, e Decreto nº 12.651, de outubro de 2025, que dispõem sobre a pesquisa com seres humanos.
- AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (Anvisa). Voto em Circuito Deliberativo nº 1.395/2025, sobre indicadores de análise de pesquisa clínica.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido