Profissões · Engenharia · Inteligência artificial

Nota de origem. Este texto parte da entrevista com Nathalie de Marcellis-Warin publicada pelo jornal canadense La Presse em 1º de outubro de 2026, assinada por Didier Bert, “L’IA met la responsabilité des ingénieurs au défi”. O conteúdo original não foi reproduzido nem traduzido; as ideias atribuídas à entrevistada estão parafraseadas e creditadas. O contexto brasileiro e as análises são de responsabilidade de O Tecido.

Quando um engenheiro registra uma Anotação de Responsabilidade Técnica, ele não declara apenas que executou um trabalho. Declara que responde por ele. A pergunta que a inteligência artificial impõe à profissão cabe inteira nessa distinção: se parte do cálculo, da modelagem ou da otimização passa a ser produzida por um sistema que o próprio profissional não consegue inspecionar por completo, o que exatamente está sendo assinado?

Esse é o eixo da entrevista que a matemática Nathalie de Marcellis-Warin concedeu ao La Presse.[1] Professora titular do Departamento de Matemática e Engenharia Industrial da Polytechnique Montréal e presidente-diretora-geral do centro de pesquisa CIRANO desde 2016, ela foi anunciada em maio como nova dirigente do IVADO, o consórcio de pesquisa em IA liderado pela Université de Montréal, e assumiu o cargo em 1º de setembro.[2][3] Sua pesquisa recente trata justamente da adoção responsável da IA, dos efeitos da tecnologia sobre o trabalho e da aceitabilidade social do compartilhamento de dados.[2]

O que a IA muda no trabalho do engenheiro

O diagnóstico de de Marcellis-Warin tem duas metades. A primeira é de ganho: modelos de IA tornaram certos processos mais rápidos e permitiram análises que antes não eram viáveis, seja no projeto de uma ponte, seja na otimização de uma cadeia de suprimentos. Os engenheiros de software e de computação foram os primeiros atingidos, a ponto de sua formação já ter sido reorganizada, porque o próprio modo de trabalhar mudou. E ela insiste que a tecnologia ainda está perto do seu ano zero.[1]

A segunda metade é de limite. Na entrevista, ela lembra que, mesmo com a IA acelerando os cálculos, os engenheiros “continuam responsáveis pelo resultado”.[1] Daí decorre a exigência de competências que vão além de operar ferramentas: domínio de dados, capacidade de verificar e compreender o processo que levou a uma previsão, atenção a vieses que contaminam resultados e formação em ética e responsabilidade. Ela resume o impacto em dois níveis: saber usar a IA e saber usá-la de forma responsável.[1]

A distinção parece óbvia, mas desloca o centro de gravidade do ofício. Na engenharia clássica, mesmo quando o cálculo era feito por software, o método costumava ser conhecido e documentado: elementos finitos, normas de dimensionamento, coeficientes de segurança. O profissional podia refazer o raciocínio. Com modelos estatísticos treinados em grandes volumes de dados, a saída é uma inferência, e o caminho até ela nem sempre é reconstituível. A habilidade escassa deixa de ser produzir o número e passa a ser julgar se o número merece confiança. É isso que a literatura chama de explicabilidade.

Cadeia de responsabilidade no uso de IA em engenharia Fluxo com cinco etapas: dados, modelo de IA, resultado, validação humana e assinatura técnica. As duas últimas etapas estão destacadas como o ponto em que a responsabilidade profissional se concentra. ONDE A RESPONSABILIDADE SE CONCENTRA Dadosorigem e qualidade Modelo de IAvieses e limites Resultadoprevisão, não prova Validaçãojulgamento técnico AssinaturaART no Brasil A ferramenta acelera as três primeiras etapas; as duas últimas continuam humanas e indelegáveis.
Esquema editorial de O Tecido com base nos princípios descritos na entrevista ao La Presse e na legislação profissional brasileira.

No Brasil, a assinatura já tem lei

A discussão canadense encontra no Brasil um terreno jurídico bem definido. A Lei nº 5.194, de 1966, regula o exercício da engenharia e da agronomia, e a Lei nº 6.496, de 1977, instituiu a ART, o documento pelo qual o profissional registra a autoria e assume a responsabilidade técnica por obra ou serviço.[5] Nenhuma dessas normas prevê exceção para trabalhos feitos com auxílio de ferramentas, inteligentes ou não. Quem assina responde.

Há, porém, um detalhe normativo que ganha outro peso na era dos modelos generativos. A Resolução nº 1.090/2017 do Confea, que trata do cancelamento de registro por má conduta, define negligência como a atuação omissa do profissional, especialmente aquela relativa à falta de participação efetiva na autoria do projeto ou na execução do empreendimento.[4] O texto foi escrito pensando no chamado acobertamento, a prática de assinar trabalho alheio. Mas a pergunta se impõe: um projeto cujas decisões centrais foram delegadas a uma ferramenta, sem revisão crítica, configura participação efetiva? Os conselhos ainda não enfrentaram a questão de forma explícita, e ela tende a chegar às comissões de ética antes de chegar às resoluções.

O próprio Código de Ética também oferece balizas. Entre os deveres listados está o de alertar sobre os riscos e responsabilidades relativos às prescrições técnicas; entre as condutas vedadas, aceitar trabalho para o qual o profissional não tenha efetiva qualificação.[4] Aplicados à IA, os dois dispositivos sugerem que usar uma ferramenta cujo funcionamento não se consegue avaliar é, em si, um problema de competência, não apenas de tecnologia.

“A técnica avança, a responsabilidade continua e continuará sendo humana.” Apresentação da 16ª edição do Código de Ética Profissional do Confea, 2026

A 16ª edição do Código, lançada em 2026, foi aberta justamente com uma reflexão sobre inteligência artificial. O texto da presidência do Confea reconhece que a IA pode otimizar uma estrutura, prever uma safra ou mapear um território, mas sustenta que ela não substitui o julgamento ético de um profissional formado e responsável.[4] A Comissão de Ética e Exercício Profissional vai na mesma direção e associa o debate sobre IA às responsabilidades ambientais, sociais e de governança reunidas na sigla ESG.[4]

A convergência é notável. Em Montreal, de Marcellis-Warin compara o momento atual da IA ao do desenvolvimento sustentável vinte anos atrás: na época, os engenheiros foram instruídos a considerar critérios ambientais, sociais e de governança ao usar tecnologias, e hoje isso está incorporado à prática. Com a IA, diz ela, o rumo é correto, mas ainda faltam instrumentos para verificar e auditar o uso responsável.[1] Dois sistemas profissionais distintos chegaram à mesma analogia, o que diz algo sobre a natureza do problema: não se trata de proibir uma ferramenta, mas de transformar uma preocupação difusa em rotina verificável.

Quebec transformou preocupação em instrumento

No Quebec, onde de Marcellis-Warin atua, essa transformação já começou. Segundo o relatório anual 2025-2026 da Ordre des ingénieurs du Québec, 84% da população e 83% dos membros e futuros membros da Ordem declararam, em pesquisas, estar preocupados com a IA.[6] A resposta institucional veio em forma de ferramentas: um percurso de autoformação, diretrizes sobre uso responsável da IA em engenharia incorporadas ao Guia de Prática Profissional e um documento com seis eixos de vigilância para orientar os reflexos dos profissionais.[6]

O Conselho Interprofissional do Quebec, que reúne as ordens profissionais da província, foi além e nomeou riscos que interessam diretamente ao debate brasileiro. Entre eles estão a tecnicização da prática profissional e a atrofia do julgamento, isto é, a perda gradual da capacidade de avaliação de quem passa a confiar demais na máquina, além da necessidade de proteger a independência e a autonomia profissional.[7]

No Brasil, o movimento é mais incipiente. O Colégio de Entidades Nacionais aprovou em 2026 uma proposta para que o próprio Sistema Confea/Crea adote IA baseada em grandes modelos de linguagem em sua base de dados e processos internos.[12] É um passo de modernização administrativa. Até a data desta publicação, porém, O Tecido não localizou diretriz técnica do sistema dedicada especificamente ao uso de IA no exercício profissional, nos moldes do que a Ordem quebequense já disponibiliza a seus membros. Considerando que o sistema brasileiro reúne cerca de 1,3 milhão de profissionais, segundo o Confea, a lacuna não é pequena.[13]

Normas técnicas chegaram antes da lei

De Marcellis-Warin observa que organismos de normalização trabalham para definir ferramentas de auditoria do uso responsável da IA e descreve o esforço como um canteiro imenso que mal começou.[1] No Brasil, parte desse canteiro já tem produto. A ABNT publicou a NBR ISO/IEC 42001:2024, que estabelece requisitos para sistemas de gestão de IA nas organizações, além de normas sobre terminologia, gestão de riscos e governança, e o relatório técnico ISO/IEC TR 24027:2024, voltado especificamente a vieses em sistemas de IA e na tomada de decisão auxiliada por eles.[8]

A lei é outra história. O PL 2338/2023, que cria o marco legal da inteligência artificial com base em classificação por risco e direitos como explicação e contestação, foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e enviado à Câmara em março de 2025.[9] Na Comissão Especial, sucessivos calendários de votação foram descumpridos. Segundo monitoramento legislativo, o relator, deputado Aguinaldo Ribeiro, afirmou em agosto que a votação ficará para depois das eleições de outubro.[10] Para o engenheiro, isso significa que, por ora, as balizas vêm das normas técnicas e do sistema profissional, não de uma lei geral de IA.

O que muda na formação

A escola de engenharia é onde o debate ganha consequência prática. Uma proposta de sessão dirigida para o Cobenge 2026, congresso da Associação Brasileira de Educação em Engenharia, assinada por pesquisadores da UFOP e da Poli/USP com apoio de outras instituições, defende o engenheiro como validador final de sistemas automatizados e propõe que a IA permaneça subordinada ao seu julgamento técnico e ético. O texto inclui explicitamente a discussão sobre responsabilidade técnica e ART nesse novo contexto.[11]

Somando a entrevista ao La Presse às referências brasileiras, o perfil que emerge tem quatro camadas: letramento em dados, para saber de onde vem e o que vale a informação que alimenta um modelo; capacidade de validação, para confrontar resultados com princípios físicos, normas e casos conhecidos; domínio normativo, incluindo as normas da família ISO/IEC sobre IA; e formação ética aplicada, que trate a responsabilidade como parte do método, e não como capítulo final de um curso. Nenhuma dessas camadas substitui a base clássica. Ao contrário: só valida bem quem sabe calcular sem a máquina.

De Marcellis-Warin também chama atenção para um argumento que costuma ficar fora das discussões técnicas: confiança. Para ela, organizações que não estruturam responsabilidade e ética no uso da IA verão a desconfiança do público se voltar contra elas, como ocorre com pessoas que perdem a confiança na tecnologia depois de ter a identidade roubada.[1] Na engenharia, onde o erro tem forma de laje, barragem ou rede elétrica, esse custo reputacional se mede em vidas.

A medida certa

O texto de abertura do novo Código de Ética do Confea recorre à matemática grega para lembrar que a pergunta sobre a justa medida das coisas é anterior a qualquer equação.[4] A inteligência artificial não altera essa pergunta; altera a quantidade de respostas plausíveis que chegam à mesa do engenheiro, e a velocidade com que chegam. O que a entrevista de Nathalie de Marcellis-Warin deixa claro, e o que o arcabouço brasileiro já pressupõe, é que a escolha entre essas respostas continua sendo um ato profissional, com nome, registro e consequência.

A questão que fica para o Brasil não é se o engenheiro responde pelo que assina. Isso está resolvido desde 1977. A questão é se as instituições darão ao profissional instrumentos à altura da responsabilidade que já cobram dele: diretrizes claras, formação continuada, normas aplicáveis e um marco legal que distribua deveres entre quem desenvolve, quem vende e quem usa a tecnologia. No Quebec, esse trabalho começou. Aqui, o Código já fala de IA na primeira página; falta levá-la para as seguintes.

Perguntas frequentes

O engenheiro responde por erro em projeto feito com ajuda de IA?

Sim. No Brasil, a ART, instituída pela Lei nº 6.496/1977, vincula a autoria e a responsabilidade técnica ao profissional que a registra, sem exceção para ferramentas utilizadas. O Código de Ética do Confea e a Resolução nº 1.090/2017 reforçam deveres de competência e de participação efetiva na autoria.

O que é explicabilidade e por que importa na engenharia?

Explicabilidade é a capacidade de compreender e justificar como um sistema de IA chegou a determinado resultado. Na engenharia, ela permite verificar se uma previsão é tecnicamente sustentável antes de transformá-la em projeto, obra ou decisão operacional.

Quais competências o engenheiro precisa para usar IA de forma responsável?

Letramento em dados, capacidade de validar resultados contra princípios físicos e normas técnicas, conhecimento das normas de IA, como a ABNT NBR ISO/IEC 42001, e formação em ética e responsabilidade profissional, segundo especialistas como Nathalie de Marcellis-Warin, do IVADO.

O Brasil já tem lei sobre inteligência artificial?

Ainda não há lei geral. O PL 2338/2023 foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e tramita em Comissão Especial na Câmara dos Deputados. Segundo monitoramento legislativo, o relator indicou que a votação ocorrerá depois das eleições de outubro de 2026.

Que normas técnicas brasileiras tratam de IA?

A ABNT publicou, entre outras, a NBR ISO/IEC 42001:2024 (sistema de gestão de IA), a NBR ISO/IEC 23894:2023 (gestão de riscos), a NBR ISO/IEC 22989:2023 (terminologia), a NBR ISO/IEC 38507:2023 (governança) e a ISO/IEC TR 24027:2024 (vieses em sistemas de IA).

Quem é Nathalie de Marcellis-Warin?

Matemática, professora titular da Polytechnique Montréal e presidente-diretora-geral do CIRANO desde 2016. Assumiu em 1º de setembro de 2026 a direção-geral do IVADO, consórcio de pesquisa em IA liderado pela Université de Montréal. Pesquisa adoção responsável da IA e seus impactos no trabalho.

Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido, caderno Profissões