O Tecido
26 de julho de 2026 Edição digital
Caderno Economia

Demografia & finanças públicas

Há algumas semanas, formulei para mim mesmo uma hipótese sobre o envelhecimento da população brasileira e seu custo para o Estado. O raciocínio era o seguinte: o Brasil viveu um boom de nascimentos entre as décadas de 1940 e 1980, e essa geração inteira está envelhecendo ao mesmo tempo. Isso deveria produzir um pico de custo — mais aposentadorias, mais saúde pública, mais dependentes por trabalhador ativo — concentrado nas próximas décadas. Mas, assim que essa geração específica fosse morrendo, o problema perderia força: sobrariam menos idosos (porque a geração que a sucede é numericamente menor), e os jovens de hoje, ao envelhecerem, formariam por sua vez uma geração de idosos proporcionalmente mais equilibrada com o resto da população. Em outras palavras: um pico agudo, seguido de acomodação — uma onda que sobe, atinge o topo e desce a um novo nível, menor e mais estável.

É uma hipótese razoável. Tem uma lógica interna consistente e usa um mecanismo demográfico real — o chamado efeito coorte, em que gerações particularmente grandes deixam uma marca temporária na pirâmide etária à medida que envelhecem. O problema é que, ao testar essa hipótese contra os dados de projeção populacional e fiscal disponíveis, ela não se sustenta. Não porque o mecanismo que descrevi esteja errado — ele está parcialmente certo — mas porque ignorei uma variável que muda tudo: o comportamento da fecundidade depois que o boom termina.

Esquema: a hipótese contra a projeção

Ilustração conceitual da pressão fiscal do envelhecimento ao longo do tempo — não são valores medidos, servem apenas para comparar as duas trajetórias descritas no texto

1970 2025 2070 2100 baixa alta hipótese: onda que se dissipa projeção: patamar mais alto e persistente

01A hipótese original

Minha ideia partia de um fato real: o Brasil viveu, entre 1940 e 1980, taxas de fecundidade muito altas — a média passava de seis filhos por mulher em meados do século — antes de a fecundidade começar a despencar a partir dos anos 1980. Essa geração grande, nascida durante o boom, é hoje o contingente que começa a se aposentar e vai pressionar o sistema previdenciário e de saúde nas próximas décadas com força inédita. Até aqui, os dados confirmam integralmente a hipótese.

O Brasil atravessou o que os demógrafos chamam de janela demográfica — o período em que a proporção de pessoas em idade ativa é maior do que a de dependentes, favorecendo o crescimento econômico. Essa janela começou nos anos 1970 e está no fim: a razão de dependência do país parou de cair por volta de 2022 e voltou a subir, agora puxada pelo peso crescente dos idosos, não mais compensada pela queda de crianças.

Onde eu errava era na parte seguinte do raciocínio: supor que, uma vez que essa geração específica morresse, o sistema encontraria um novo equilíbrio parecido com o anterior — só que numa escala populacional menor. Essa é a parte que os dados desmontam.

02O que os números confirmam sobre o pico que vem

Antes de chegar ao erro, vale dimensionar o tamanho do que está por vir — porque nisso a hipótese estava certa. A população em idade ativa brasileira deve atingir seu pico em 2033, com 137,5 milhões de pessoas, e a partir de 2034 começa a cair, projetada em 100,2 milhões já em 2070. A população total do país também tem data para parar de crescer: 2041, com 220,4 milhões de habitantes, antes de iniciar um declínio até 199,2 milhões em 2070.

Proporção de idosos (60 anos ou mais) na população brasileira

Em % do total da população

0% 10% 20% 30% 8,7% 2000 15,6% 2023 37,8% 2070 (proj.)

Fonte: IBGE, Projeções da População — Revisão 2024 [1]

No campo fiscal, essa curva já aparece nas projeções de despesa. Um levantamento do Ipea projeta que o gasto do INSS com aposentadorias urbanas e rurais pode saltar de 7,5% do PIB em 2014 para 13,2% do PIB em 2050 — quase dobrando em proporção à economia. Somando todos os regimes (RGPS, servidores federais, estaduais e municipais), o Brasil já gasta hoje cerca de 12% do PIB com previdência, patamar comparável ao de países da OCDE muito mais envelhecidos, mas com uma economia proporcionalmente menor sustentando essa conta.

Despesa do INSS com aposentadorias e pensões

Em % do PIB — valor observado (2014) e projeção (2050)

0% 5% 10% 15% 7,5% 2014 13,2% 2050 (proj.)

Fonte: Ipea, "Novo Regime Demográfico: Uma Nova Relação entre População e Desenvolvimento?", citado em reportagem do Senado Federal [8]

"O gasto de hoje será o déficit de amanhã. É explosivo." Paulo Tafner, pesquisador da Fipe-USP, ao jornal Gazeta do Povo

03Onde a hipótese quebra

A minha hipótese só se sustentaria se, depois que a geração do boom morresse, a fecundidade brasileira voltasse a se estabilizar perto do nível de reposição — cerca de 2,1 filhos por mulher, o mínimo necessário para que uma geração substitua exatamente a anterior. Não é isso que está acontecendo. A fecundidade brasileira já está bem abaixo desse patamar e segue em queda: caiu de 2,32 filhos por mulher em 2000 para 1,57 em 2023, e as projeções do IBGE não apontam recuperação — apontam estabilização em torno de um nível ainda mais baixo.

Isso muda o mecanismo por completo. Se cada geração nasce menor do que a anterior, indefinidamente, não existe um "novo equilíbrio" ao qual a pirâmide etária retorna. Existe, isso sim, um processo de envelhecimento estrutural que não se dissipa quando a geração original desaparece — porque a geração seguinte, mesmo menor em números absolutos, também vai envelhecer sem ser reposta por uma geração de tamanho equivalente atrás dela.

Onde a hipótese errava Eu tratava o boom de nascimentos como uma anomalia temporária que a pirâmide etária absorveria com o tempo. Na verdade, o boom foi a última fase de um padrão historicamente alto de fecundidade — e o que veio depois não foi um retorno à média, foi uma ruptura permanente para baixo. Não há "depois da onda": há um novo patamar, mais idoso e mais barato em número de nascimentos, para o qual não existe precedente de reversão espontânea em nenhum país que já passou por essa transição.

O conceito que faltava: momentum demográfico

O nome técnico para essa inércia é momentum demográfico. Mesmo que a fecundidade brasileira parasse de cair amanhã e se estabilizasse exatamente no nível atual, a população ainda envelheceria por várias décadas, simplesmente porque a base de mulheres em idade fértil já é estruturalmente menor a cada geração — o encolhimento já está embutido na pirâmide etária de hoje, antes mesmo de qualquer criança nascer. Não existe, entre os países que já envelheceram, um caso de correção automática de volta a uma estrutura etária jovem. O que se observa é a acomodação num patamar novo e persistentemente mais envelhecido, a menos que haja recuperação sustentada da fecundidade — algo que nenhum país conseguiu reverter de forma duradoura até hoje.

04O espelho japonês

O Japão está de duas a três décadas à frente do Brasil nessa curva, e funciona como um preview do que a "acomodação" realmente parece. A geração baby boom japonesa do pós-guerra está completando 75 anos agora, gerando o que especialistas locais chamam de "Problema 2025" — e o alívio que eu esperava para depois que essa geração se for não aparece nas projeções japonesas.

Em 2024, nasceram cerca de 686 mil crianças no Japão — o menor número desde 1899 — contra aproximadamente 1,6 milhão de mortes: mais de duas mortes para cada nascimento. A idade mediana do país saltou de 21 anos em 1950 para 50 anos em 2024. E a projeção da ONU para 2100 não mostra reequilíbrio algum: a proporção de pessoas com 50 anos ou mais deve chegar a 54% da população total, a de 60 anos ou mais a 43%, mesmo com a população total do país caindo a quase metade do tamanho atual.

Japão: idade mediana da população

Em anos — não há reversão projetada até o fim do século

0 20 40 60 1950 21 anos 2024 50 anos

Fonte: Projeto Colabora, com dados da Divisão de População da ONU [9]

O impacto orçamentário japonês confirma o padrão: as despesas relacionadas à previdência já respondiam por cerca de 28% de todo o orçamento geral japonês no início da década de 2010, proporção que sobe para algo entre 40% e quase 50% se excluídos os gastos com títulos públicos e repasses a governos locais — ante 26,7% em 1980. Não é um pico que passou. É uma trajetória que ainda está subindo.

05O que isso muda para o Brasil

A conclusão revisada é mais desconfortável do que a hipótese original. Não se trata de "aguentar uma ou duas décadas ruins até a coisa se ajustar sozinha". Trata-se de uma mudança estrutural e provavelmente permanente na relação entre número de contribuintes e número de beneficiários — a menos que fatores fora da demografia pura entrem na conta. O alívio populacional que eu esperava (menos idosos em termos absolutos, depois que a geração atual do boom falecer) tende a ser parcialmente neutralizado, e possivelmente superado, pela base ainda menor de jovens que sustentaria o sistema no futuro.

ContrapontoO que poderia mudar essa trajetória

Revisar a hipótese não significa tratar o cenário como inevitável. Existem forças fora da demografia pura que podem alterar significativamente a equação fiscal, e economistas divergem sobre o peso de cada uma:

  • Produtividade. Se o PIB por trabalhador crescer de forma consistente, a mesma força de trabalho menor pode sustentar uma conta previdenciária maior sem que a carga relativa sobre cada contribuinte aumente na mesma proporção.
  • Idade efetiva de aposentadoria. Países que elevaram a idade mínima e reduziram benefícios especiais amenizaram parte da pressão — a reforma previdenciária brasileira de 2019 já foi nessa direção, mas especialistas ouvidos por veículos como a Gazeta do Povo apontam a necessidade de novos ajustes até o fim da década.
  • Imigração. Fluxos migratórios líquidos positivos podem repor parte da força de trabalho jovem, como fazem hoje países europeus com fecundidade igualmente baixa — embora o Brasil não tenha, até aqui, política migratória desenhada para esse fim.
  • Recuperação da fecundidade. Nenhum país reverteu de forma sustentada uma fecundidade abaixo do nível de reposição até hoje, mas políticas de apoio à parentalidade têm produzido efeitos parciais em alguns países nórdicos — o que sugere que "nenhum precedente até agora" não é o mesmo que "impossível".

Nenhuma dessas alavancas, isoladamente, elimina a pressão descrita neste texto. Mas a combinação delas é o principal argumento de quem considera o cenário mais “um desafio administrável” do que “uma trajetória fechada”.

Nota editorial. Este texto revisita e corrige publicamente uma hipótese formulada pelo autor sobre a dinâmica fiscal do envelhecimento populacional brasileiro. Os dados demográficos citados têm como fonte primária as Projeções da População do IBGE (Revisão 2024, período 2000–2070); as projeções de despesa previdenciária citam estudos do Ipea e da Fipe-USP referenciados ao longo do texto. Onde a formulação original de uma fonte apresentava valores aproximados ou faixas de cenário, optou-se por reportar o intervalo em vez de um número único, para preservar a precisão factual. O esquema comparativo "hipótese vs. projeção" é ilustrativo e não representa dados numéricos medidos. Todas as fontes estão listadas com URL na coluna de referências.