Política · Geopolítica e infraestrutura
Quando um brasileiro faz um pagamento para o exterior, assiste a uma série em uma plataforma de streaming ou envia um e-mail de trabalho para Lisboa, os dados quase nunca passam pelo espaço. Eles descem ao leito do oceano e percorrem cabos de fibra óptica que atravessam milhares de quilômetros de fundo marinho. Essa rede, invisível para quase todos, tornou-se nos últimos anos um dos terrenos mais sensíveis da disputa entre potências.
É esse o tema de dois livros resenhados em conjunto pelo jornalista Tim Judah na seção de livros do Financial Times: The Undersea War, da sueca Elisabeth Braw, pesquisadora sênior do Atlantic Council, e Deep Connections: The Hidden Battles to Control Subsea Cables, da holandesa Katja Bego, pesquisadora sênior da Chatham House.123 Segundo a resenha, as duas autoras convergem em um ponto: sem esses cabos a vida moderna pararia, e é exatamente por isso que eles se tornaram alvos prioritários em um eventual conflito, tanto para adversários do Ocidente quanto para o próprio Ocidente.1
O debate, que costuma ser associado ao Mar Báltico e ao Estreito de Taiwan, tem endereço também no Brasil. Quase todo o tráfego internacional de dados do país depende de um trecho de areia no litoral cearense, e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) passou a tratar essa concentração como um risco sistêmico.
Uma rede gigantesca sustentada por poucos navios
Os números reunidos por Bego e citados pelo FT dão a escala do problema. Há mais de 600 cabos submarinos em operação ou em planejamento no mundo, que somavam cerca de 1,7 milhão de quilômetros em 2025. O mais longo contorna a África e tem 45 mil quilômetros, e a Meta planeja um novo sistema de 50 mil quilômetros para dar a volta no planeta.1 A União Internacional de Telecomunicações (UIT), agência da ONU, trabalha com uma contagem mais restrita, de cerca de 500 cabos efetivamente em serviço, que cobrem a mesma ordem de 1,7 milhão de quilômetros.7 A diferença está em incluir ou não os projetos ainda não inaugurados.
Por essa malha passa até 99% do tráfego internacional de dados e comunicações, das transferências bancárias às plataformas de vídeo.1 O contraste está no tamanho da estrutura que a mantém de pé. De acordo com a resenha, existem apenas algumas dezenas de navios dedicados ao reparo de cabos no mundo e menos de 80 capazes de lançar e manter essas linhas. Ocorrem entre 150 e 200 falhas por ano, e de 70% a 80% delas são causadas acidentalmente por atividade humana, sobretudo pesca e âncoras arrastadas. O restante se deve em boa parte a fenômenos naturais, como terremotos e vulcões submarinos.1 Na avaliação das autoras, o sistema dá conta desse volume com dificuldade, e uma campanha de sabotagem em larga escala seria desastrosa.
Uma vulnerabilidade tão antiga quanto o próprio cabo
A insegurança não é novidade. O primeiro cabo submarino transatlântico foi lançado em 1858, ligando a Irlanda à Terra Nova, e desde então a proteção dessas linhas é uma questão estratégica. Bego lembra, segundo o FT, que em 1870 as empresas de cabos respondiam por quase um terço de todo o capital levantado na Bolsa de Londres. O domínio britânico sobre o setor tinha base material: o império controlava, na península Malaia e em Bornéu, a maior parte das árvores de guta-percha, látex resistente à água salgada usado para isolar a primeira geração de cabos.1
O uso militar veio cedo. Em agosto de 1914, um dia depois de declarar guerra à Alemanha, o Reino Unido enviou um navio da Marinha Real para cortar os principais cabos alemães, o que prejudicou de forma significativa as comunicações de Berlim durante o conflito.1 Mais de um século depois, a lógica permanece, com uma camada comercial a mais. Os dois livros tratam do esforço dos Estados Unidos para afastar a China do mercado de cabos, movimento que, conforme a resenha, não se explica apenas por razões de segurança.1
O Báltico como laboratório da zona cinzenta
O episódio que tornou o tema inescapável na Europa ocorreu em outubro de 2023, quando um navio ligado à China, vindo da Rússia, danificou dois cabos de dados e o gasoduto Balticconnector, entre a Estônia e a Finlândia. Braw, de acordo com o FT, compara o caso à cena da cabeça de cavalo na cama em O Poderoso Chefão: um recado de intimidação dirigido a Helsinque, Tallinn e seus aliados.1
No Natal de 2024 veio o caso mais emblemático. O petroleiro Eagle S, com bandeira das Ilhas Cook e apontado pela Finlândia como parte da frota-sombra usada pela Rússia para contornar sanções ao seu petróleo, arrastou a âncora por cerca de 90 quilômetros no Golfo da Finlândia. Danificou o cabo de energia Estlink 2, entre Finlândia e Estônia, e quatro cabos de dados.4 O Estlink 2 só voltou a funcionar em agosto de 2025, depois de mais de sete meses parado e de um reparo estimado em até 60 milhões de euros.5
A resposta judicial expôs o problema de fundo. Em outubro de 2025, o Tribunal Distrital de Helsinque arquivou o processo contra o capitão e dois oficiais por entender que a Finlândia não tinha jurisdição, cabendo o caso ao Estado de bandeira ou aos países de origem da tripulação. O Estado finlandês ainda foi condenado a pagar cerca de 195 mil euros em custas da defesa.45 Em 27 de agosto de 2026, o Tribunal de Apelação reverteu a decisão, reconheceu a jurisdição finlandesa e devolveu o processo à primeira instância para julgamento do mérito. Os três acusados, porém, já haviam deixado o país.6
O padrão descrito pelas autoras é constante: quando flagrados, os comandantes afirmam que tudo não passou de acidente. Além das 12 milhas náuticas das águas territoriais, lembra a resenha, a lei do Estado costeiro deixa de se aplicar, o que torna o policiamento difícil, quando não impossível.1 É a definição prática de uma operação de zona cinzenta: dano real, autoria plausível de ser negada e custo político baixo para quem age.
Os governos ocidentais reagiram. Em 2025, quando o Yantar, navio amplamente considerado de espionagem russo, contornava a Escócia, possivelmente mapeando cabos e dutos, o então secretário de Defesa britânico John Healey dirigiu-se a Vladimir Putin com uma frase que abre os dois livros: "Nós vemos você. Sabemos o que está fazendo."1 A OTAN lançou a missão Baltic Sentry, ainda em curso, para vigiar a infraestrutura submarina da região, tarefa facilitada pela entrada de Finlândia e Suécia na aliança.4 A corrida tecnológica também avança: sensores acoplados aos cabos podem detectar sabotadores e até submarinos, o que é útil quando o submarino é do adversário e incômodo quando é do próprio país. Resta saber quem pagará por eles.1
A resposta multilateral ainda é voluntária
No plano global, a principal iniciativa é o Órgão Consultivo Internacional para a Resiliência de Cabos Submarinos, criado em 2024 pela UIT e pelo Comitê Internacional de Proteção de Cabos (ICPC). Depois da Declaração de Abuja, de fevereiro de 2025, o grupo aprovou em 3 de fevereiro de 2026 a Declaração do Porto, com participação de mais de 70 países.78 As recomendações pedem regulação mais ágil, cooperação transfronteiriça, melhores dados de risco e reparos mais rápidos. São, no entanto, diretrizes não vinculantes.8 Na abertura do encontro, a secretária-geral da UIT, Doreen Bogdan-Martin, alertou que, com a dependência crescente de nuvem e inteligência artificial, mesmo interrupções pequenas passaram a ter efeitos em cadeia.7
O Brasil e a Praia do Futuro
Se o Báltico é o laboratório da sabotagem, o Brasil é um estudo de caso sobre concentração. A Praia do Futuro, em Fortaleza, abriga 16 cabos submarinos responsáveis por quase 90% do tráfego internacional de dados que entra e sai do país. Segundo a consultoria TeleGeography, citada pelo Olhar Digital, é o maior ponto de chegada de cabos da América Latina.11 A escolha tem razões físicas: a capital cearense está entre os grandes centros urbanos brasileiros mais próximos, ao mesmo tempo, dos Estados Unidos, da Europa e da África, e o leito oceânico local é estável, com pouca movimentação de sedimentos, conforme explica o professor Rodrigo Porto, da Universidade Federal do Ceará.11 É ali que chega, por exemplo, o EllaLink, que liga o Brasil a Sines, em Portugal. No Sudeste, Rio de Janeiro, Santos e Praia Grande recebem sistemas que seguem para os Estados Unidos e para o Cone Sul.
A vantagem geográfica atraiu data centers e provedores de nuvem para o Ceará, mas também criou um ponto único de falha. Em fevereiro de 2026, o conselheiro da Anatel Alexandre Freire mencionou episódios na Praia do Futuro em que obras sobre as redes colocaram as conexões nacionais em risco, e citou relatórios elaborados com o Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência.12 Em 26 de maio, a agência abriu uma tomada de subsídios de 45 dias para atualizar a regulação do setor.9 Os temas incluem segurança e resiliência das redes, diversificação geográfica dos pontos de aterragem, monitoramento de incidentes e cooperação internacional, com o objetivo declarado de mitigar riscos sem criar barreiras ao mercado.910
A área militar acompanha o movimento. Em novembro de 2025, a Marinha coordenou em Fortaleza o 2º Exercício de Proteção de Cabos Submarinos, com o Grupo-Tarefa "Terra da Luz", participação de GSI, Abin, Polícia Federal e Anatel, e testes de um veículo submarino remotamente operado de fabricação nacional.13 O exercício anterior reuniu operadoras de origens diversas, de empresas americanas e europeias à chinesa HMN Tech e à Angola Cables, retrato de um país que depende de fornecedores de todos os blocos.13 Em julho deste ano, uma palestra na Escola Superior de Guerra classificou a dependência de um único trecho de praia como um gargalo grave para um país de dimensões continentais.14
Até aqui, os riscos mais citados por autoridades brasileiras são acidentes, obras e a própria concentração geográfica, e não ataques atribuídos a outros Estados. Mas a lição do Báltico é que a fronteira entre acidente e sabotagem pode levar anos para ser traçada nos tribunais, e que a capacidade de reparo não acompanha o ritmo da dependência.
O risco de enxergar sabotagem em tudo
Há argumentos sólidos contra uma leitura alarmista. A maioria esmagadora das falhas é acidental, e nenhum tribunal estabeleceu até agora a responsabilidade de um Estado por qualquer dos incidentes no Báltico. Tratar cada rompimento como ato de guerra pode inflar percepções de ameaça e justificar gastos militares e medidas de exceção pouco transparentes.
A agenda de segurança também serve a interesses comerciais. A própria resenha do FT observa que a pressão americana para excluir a China do setor não se deve só à segurança. Para o Brasil, que convive com fornecedores e investidores de vários blocos, importar sem filtro a lógica de exclusão pode encarecer a conectividade.
Por fim, a concentração em Fortaleza não é apenas vulnerabilidade: ela formou um polo de data centers e empregos qualificados no Nordeste. Diversificar pontos de aterragem por imposição regulatória tem custo, e a Anatel reconhece esse dilema ao falar em evitar barreiras ao mercado.
O que acompanhar nos próximos meses
Três frentes merecem atenção. A primeira é a proposta regulatória que a Anatel deve apresentar após a consulta encerrada em julho, e se ela trará exigências de redundância geográfica para novos sistemas. A segunda é o novo julgamento do caso Eagle S na Finlândia, que pode firmar um precedente sobre a jurisdição de países costeiros fora de suas águas territoriais. A terceira é a expansão de cabos das grandes empresas de tecnologia, que já financiam boa parte da nova infraestrutura e cujas rotas definirão onde o Brasil se conecta ao mundo.
Para quem pouco sabia do assunto, Judah avalia que ler os dois livros equivale a um curso universitário sobre o tema: Bego é mais exaustiva, e a escrita de Braw tem mais brilho.1 Para o leitor brasileiro, a leitura sugere uma pergunta desconfortável: a soberania digital do país tem um endereço físico, e ele cabe em poucos quilômetros de areia no litoral cearense.
Perguntas frequentes
Por que os cabos submarinos são considerados infraestrutura crítica?
Porque transportam até 99% do tráfego internacional de dados, incluindo transações financeiras, comunicações corporativas e serviços de nuvem. Satélites respondem por uma fração pequena desse volume.
Por que é tão difícil punir quem danifica cabos submarinos?
Fora das 12 milhas náuticas do mar territorial, a lei penal do país costeiro em regra não se aplica, e a responsabilidade recai sobre o Estado de bandeira ou o país de origem da tripulação. No caso Eagle S, a primeira instância finlandesa se declarou sem jurisdição em 2025, decisão revertida em agosto de 2026.
Quantos cabos submarinos chegam ao Brasil e onde?
A Praia do Futuro, em Fortaleza, recebe 16 cabos internacionais e concentra quase 90% do tráfego internacional de dados do país. Rio de Janeiro, Santos e Praia Grande são os outros pontos de aterragem relevantes.
O que a Anatel está discutindo?
Uma atualização das regras para cabos submarinos, com foco em segurança, resiliência, diversificação geográfica dos pontos de chegada, monitoramento de incidentes e cooperação internacional, sem criar barreiras ao mercado.
Quais livros tratam do tema?
The Undersea War, de Elisabeth Braw, e Deep Connections: The Hidden Battles to Control Subsea Cables, de Katja Bego, resenhados em conjunto no Financial Times.
Referências
- JUDAH, Tim. Undersea cables: the battle for the ocean floor. Financial Times, FT Books Essay, set. 2026. https://www.ft.com/content/f5ca2cc7-dcbd-40cd-a173-9b9da94cb655
- Hachette UK. The Undersea War, de Elisabeth Braw. Página da obra e perfil da autora no Atlantic Council.
- Chatham House. Perfil de Katja Bego, Senior Research Fellow, Europe Programme, 2026.
- Reuters, via gCaptain. Finnish Court Dismisses Case Against Eagle S Crew in Baltic Sea Cable Breach Trial, out. 2025.
- Submarine Networks. Finnish Court Dismisses Case against Eagle S: Alleged Sabotage of Cables in the Baltic Sea, out. 2025.
- The Record (Recorded Future News). Finland appeals court revives case against Eagle S officers over cable breaks, ago. 2026.
- União Internacional de Telecomunicações (UIT). Porto Summit drives critical cooperation on submarine cable resilience, 3 fev. 2026.
- UIT. International Submarine Cable Resilience Summit 2026: resultados e recomendações do Órgão Consultivo Internacional, fev. 2026.
- Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Anatel publica tomada de subsídios sobre cabos submarinos, 26 maio 2026.
- Movimento Econômico. Anatel abre debate sobre os riscos da concentração de cabos submarinos, maio 2026.
- Olhar Digital. Como praia de Fortaleza se tornou o principal hub de internet do Brasil, jun. 2025.
- Sindpd. Anatel propõe nova regulação para cabos submarinos, fev. 2026.
- Agência Marinha de Notícias. Brasil aperfeiçoa resposta a ameaças contra cabos submarinos no litoral cearense, nov. 2025; e Brasil reforça proteção de cabos submarinos em exercício inédito em Fortaleza (CE).
- Revista Sociedade Militar. Cabos submarinos: por que 16 fios que chegam em Fortaleza sustentam quase toda a soberania digital do Brasil, ago. 2026.