Quando as Forças Armadas dos Estados Unidos atacaram o Irã no fim de fevereiro de 2026 e o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa entre um quinto e um quarto do petróleo mundial, deixou de operar com segurança, analistas em Pequim e em capitais ocidentais previram o pior para a China. O país é o maior importador de petróleo bruto do planeta e, até então, dependia de fontes externas para mais de 70% do que consome, com quase metade vindo do Golfo Pérsico. Se havia um ponto de estrangulamento capaz de expor a economia chinesa a um choque geopolítico incontrolável, era esse.
Seis meses depois, o resultado foi na direção oposta. Enquanto vizinhos asiáticos altamente dependentes da rota, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, precisaram recorrer a medidas emergenciais para conter o impacto nos preços internos, a China absorveu uma das maiores disrupções energéticas do século sem racionamento generalizado. Segundo dados do American Petroleum Institute, as importações chinesas de petróleo bruto caíram cerca de 40% entre fevereiro e maio de 2026, puxadas pela retração das compras no Oriente Médio, mas a economia doméstica não travou.
Duas décadas de blindagem energética
A explicação não nasceu da guerra. Ela vem sendo construída desde o início dos anos 2000. A China deixou de ser autossuficiente em petróleo em 1993 e, uma década depois, o então presidente Hu Jintao alertou publicamente para o risco de potências hostis controlarem o Estreito de Malaca, outra artéria marítima crítica para o abastecimento chinês. A resposta de Pequim foi montar, ao longo de vinte anos, uma estratégia de três frentes: diversificação de fornecedores, acúmulo de estoques estratégicos e eletrificação da frota de veículos.
O resultado dessa política é hoje mensurável. Segundo estimativas compiladas pelo projeto ChinaPower, cerca de 36% do petróleo importado pela China passava pelo Estreito de Ormuz em 2024, patamar bem inferior aos 93% do Japão ou aos 70% da Coreia do Sul no mesmo período. As reservas estratégicas chinesas, avaliadas em torno de 1,4 bilhão de barris no fim de 2025, as maiores do mundo, ofereciam cobertura estimada de aproximadamente quatro meses de importação líquida quando o conflito eclodiu.
É essa mudança de eixo, do controle de rotas marítimas para o controle de cadeias produtivas elétricas, que Michal Meidan, do Oxford Institute for Energy Studies, descreve como o verdadeiro resultado estratégico da guerra do Irã para Pequim1. A eletrificação do transporte, hoje políticas de estado na China, reduziu a exposição do país a choques no preço do barril de um jeito que nenhuma negociação diplomática conseguiria replicar. De acordo com o Global EV Outlook da Agência Internacional de Energia (IEA), os veículos elétricos responderam por cerca de 55% das vendas de automóveis novos na China em 2025, e o país concentra hoje mais de 75% da produção mundial de veículos elétricos e mais de 80% da manufatura global de baterias2.
O Brasil no novo tabuleiro energético
Se a China amorteceu o choque para si, alguém precisou preencher o vácuo deixado pela retração das compras no Golfo Pérsico. Boa parte dessa lacuna foi ocupada pelo petróleo brasileiro. Dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que as exportações brasileiras de petróleo para o mercado chinês somaram US$ 15,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde histórico para o período, com o volume embarcado crescendo 41% e o preço médio subindo quase 16% na comparação anual3. No primeiro trimestre, a China chegou a concentrar 57% de tudo o que o Brasil vendeu de petróleo ao exterior, com pico de 65% em março, justamente no auge da crise em Ormuz4.
Esse movimento tem uma base concreta na produção nacional. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) projeta produção de 4,2 milhões de barris por dia em 2026, avanço de 13% sobre 2025, impulsionado majoritariamente pelo pré-sal das bacias de Santos e Campos. Como a capacidade de refino doméstica é limitada e a demanda interna segue estável, a maior parte desse excedente segue para exportação, com a Ásia, e a China em particular, absorvendo a maior fatia5.
O outro lado dessa mesma moeda chegou pelo caminho da inflação. O choque nos preços internacionais do petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 126 no fim de abril e se mantendo por meses acima de US$ 100, pressionou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e limitou o espaço do Comitê de Política Monetária (Copom) para reduzir a taxa Selic ao longo de 2026. Em ata divulgada em maio, o Banco Central citou explicitamente a "desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos" como consequência direta da guerra no Oriente Médio6.
Ou seja: o mesmo evento que reforçou a autonomia energética chinesa exportou volatilidade para a economia brasileira via combustíveis e frete marítimo, ao mesmo tempo em que abriu uma janela comercial extraordinária para o petróleo do pré-sal. O Brasil, nesse episódio, funcionou simultaneamente como parte do problema inflacionário e como parte da solução logística chinesa.
Um modelo replicável?
Para formuladores de política brasileiros, o episódio oferece uma lição estrutural pouco discutida no debate público doméstico. A matriz elétrica brasileira já é predominantemente renovável, apoiada em hidrelétricas, mas a frota de veículos segue majoritariamente movida a combustão, e a dependência de importações de fertilizantes e insumos ligados ao petróleo continua expondo a economia a choques externos. A trajetória chinesa sugere que a resiliência energética não vem de um único fator isolado, mas da combinação deliberada entre estoques, diversificação de fornecedores e eletrificação sustentada por política industrial de longo prazo.
Nem todos os analistas leem o episódio como uma vitória estratégica inequívoca de Pequim. Críticos apontam que a resiliência chinesa em 2026 dependeu, em boa medida, do consumo de estoques finitos e da redução temporária das importações, uma estratégia que tem limite de tempo caso o bloqueio em Ormuz se prolongasse por mais de alguns meses. Também se argumenta que a matriz elétrica chinesa ainda depende fortemente do carvão como "backstop", o que fragiliza o discurso de transição limpa, e que a crescente concentração das exportações brasileiras de petróleo em um único comprador cria, para o Brasil, um risco de dependência comercial equivalente ao que a China buscou justamente evitar nas últimas duas décadas.