Caderno Política · Geopolítica & Relações Internacionais
Este texto é uma análise original produzida pela redação de O Tecido, com apuração em fontes brasileiras e internacionais. Ele foi motivado por um artigo de opinião publicado pelo The New York Times em 25 de agosto de 2026, assinado por Michal Meidan, chefe de pesquisa em energia da China no Oxford Institute for Energy Studies: "The Iran War Shows China's Energy Strategy Is Working". O conteúdo abaixo não é uma tradução nem reprodução do artigo original; é uma reportagem independente que amplia o tema com dados e fontes próprias, incluindo o impacto direto sobre o Brasil.

Quando as Forças Armadas dos Estados Unidos atacaram o Irã no fim de fevereiro de 2026 e o Estreito de Ormuz, corredor por onde passa entre um quinto e um quarto do petróleo mundial, deixou de operar com segurança, analistas em Pequim e em capitais ocidentais previram o pior para a China. O país é o maior importador de petróleo bruto do planeta e, até então, dependia de fontes externas para mais de 70% do que consome, com quase metade vindo do Golfo Pérsico. Se havia um ponto de estrangulamento capaz de expor a economia chinesa a um choque geopolítico incontrolável, era esse.

Seis meses depois, o resultado foi na direção oposta. Enquanto vizinhos asiáticos altamente dependentes da rota, como Japão, Coreia do Sul e Taiwan, precisaram recorrer a medidas emergenciais para conter o impacto nos preços internos, a China absorveu uma das maiores disrupções energéticas do século sem racionamento generalizado. Segundo dados do American Petroleum Institute, as importações chinesas de petróleo bruto caíram cerca de 40% entre fevereiro e maio de 2026, puxadas pela retração das compras no Oriente Médio, mas a economia doméstica não travou.

Duas décadas de blindagem energética

A explicação não nasceu da guerra. Ela vem sendo construída desde o início dos anos 2000. A China deixou de ser autossuficiente em petróleo em 1993 e, uma década depois, o então presidente Hu Jintao alertou publicamente para o risco de potências hostis controlarem o Estreito de Malaca, outra artéria marítima crítica para o abastecimento chinês. A resposta de Pequim foi montar, ao longo de vinte anos, uma estratégia de três frentes: diversificação de fornecedores, acúmulo de estoques estratégicos e eletrificação da frota de veículos.

O resultado dessa política é hoje mensurável. Segundo estimativas compiladas pelo projeto ChinaPower, cerca de 36% do petróleo importado pela China passava pelo Estreito de Ormuz em 2024, patamar bem inferior aos 93% do Japão ou aos 70% da Coreia do Sul no mesmo período. As reservas estratégicas chinesas, avaliadas em torno de 1,4 bilhão de barris no fim de 2025, as maiores do mundo, ofereciam cobertura estimada de aproximadamente quatro meses de importação líquida quando o conflito eclodiu.

"A geopolítica da energia está migrando do controle sobre o fluxo de petróleo para o controle sobre sistemas industriais eletrificados."

É essa mudança de eixo, do controle de rotas marítimas para o controle de cadeias produtivas elétricas, que Michal Meidan, do Oxford Institute for Energy Studies, descreve como o verdadeiro resultado estratégico da guerra do Irã para Pequim1. A eletrificação do transporte, hoje políticas de estado na China, reduziu a exposição do país a choques no preço do barril de um jeito que nenhuma negociação diplomática conseguiria replicar. De acordo com o Global EV Outlook da Agência Internacional de Energia (IEA), os veículos elétricos responderam por cerca de 55% das vendas de automóveis novos na China em 2025, e o país concentra hoje mais de 75% da produção mundial de veículos elétricos e mais de 80% da manufatura global de baterias2.

O Brasil no novo tabuleiro energético

Se a China amorteceu o choque para si, alguém precisou preencher o vácuo deixado pela retração das compras no Golfo Pérsico. Boa parte dessa lacuna foi ocupada pelo petróleo brasileiro. Dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC) mostram que as exportações brasileiras de petróleo para o mercado chinês somaram US$ 15,1 bilhões no primeiro semestre de 2026, recorde histórico para o período, com o volume embarcado crescendo 41% e o preço médio subindo quase 16% na comparação anual3. No primeiro trimestre, a China chegou a concentrar 57% de tudo o que o Brasil vendeu de petróleo ao exterior, com pico de 65% em março, justamente no auge da crise em Ormuz4.

Esse movimento tem uma base concreta na produção nacional. A Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) projeta produção de 4,2 milhões de barris por dia em 2026, avanço de 13% sobre 2025, impulsionado majoritariamente pelo pré-sal das bacias de Santos e Campos. Como a capacidade de refino doméstica é limitada e a demanda interna segue estável, a maior parte desse excedente segue para exportação, com a Ásia, e a China em particular, absorvendo a maior fatia5.

O outro lado dessa mesma moeda chegou pelo caminho da inflação. O choque nos preços internacionais do petróleo, com o Brent ultrapassando US$ 126 no fim de abril e se mantendo por meses acima de US$ 100, pressionou o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) e limitou o espaço do Comitê de Política Monetária (Copom) para reduzir a taxa Selic ao longo de 2026. Em ata divulgada em maio, o Banco Central citou explicitamente a "desancoragem adicional das expectativas de inflação para horizontes mais longos" como consequência direta da guerra no Oriente Médio6.

Ou seja: o mesmo evento que reforçou a autonomia energética chinesa exportou volatilidade para a economia brasileira via combustíveis e frete marítimo, ao mesmo tempo em que abriu uma janela comercial extraordinária para o petróleo do pré-sal. O Brasil, nesse episódio, funcionou simultaneamente como parte do problema inflacionário e como parte da solução logística chinesa.

Um modelo replicável?

Para formuladores de política brasileiros, o episódio oferece uma lição estrutural pouco discutida no debate público doméstico. A matriz elétrica brasileira já é predominantemente renovável, apoiada em hidrelétricas, mas a frota de veículos segue majoritariamente movida a combustão, e a dependência de importações de fertilizantes e insumos ligados ao petróleo continua expondo a economia a choques externos. A trajetória chinesa sugere que a resiliência energética não vem de um único fator isolado, mas da combinação deliberada entre estoques, diversificação de fornecedores e eletrificação sustentada por política industrial de longo prazo.

Contraponto

Nem todos os analistas leem o episódio como uma vitória estratégica inequívoca de Pequim. Críticos apontam que a resiliência chinesa em 2026 dependeu, em boa medida, do consumo de estoques finitos e da redução temporária das importações, uma estratégia que tem limite de tempo caso o bloqueio em Ormuz se prolongasse por mais de alguns meses. Também se argumenta que a matriz elétrica chinesa ainda depende fortemente do carvão como "backstop", o que fragiliza o discurso de transição limpa, e que a crescente concentração das exportações brasileiras de petróleo em um único comprador cria, para o Brasil, um risco de dependência comercial equivalente ao que a China buscou justamente evitar nas últimas duas décadas.

Perguntas frequentes

Por que o Estreito de Ormuz é tão importante para o comércio global de petróleo?
É a principal via marítima de saída do petróleo produzido no Golfo Pérsico, respondendo historicamente por cerca de um quinto a um quarto do volume mundial transportado por navio, segundo estimativas de mercado citadas por autoridades brasileiras e organismos internacionais.
Como a China conseguiu reduzir o impacto da crise sem racionar energia internamente?
Combinando três fatores construídos ao longo de duas décadas: diversificação de fornecedores para reduzir a dependência do Oriente Médio, as maiores reservas estratégicas de petróleo do mundo e uma frota de veículos cada vez mais elétrica, o que reduz a sensibilidade da economia a variações no preço do barril.
Qual foi o efeito da crise sobre as exportações de petróleo do Brasil?
As exportações brasileiras de petróleo para a China bateram recordes sucessivos em 2026, somando US$ 15,1 bilhões no primeiro semestre, à medida que Pequim buscou fornecedores alternativos ao Golfo Pérsico e o Brasil ampliou sua produção via pré-sal.
A alta do petróleo afetou a inflação e os juros no Brasil?
Sim. O Banco Central citou o choque do petróleo como fator de deterioração do cenário inflacionário em 2026, o que limitou o ritmo de cortes na taxa Selic ao longo do ano, segundo atas do Copom.
Nota de verificação editorial: Os valores de exportação Brasil-China, produção da ANP e participação de veículos elétricos na China variam conforme a fonte e o mês de referência, dado o caráter dinâmico da crise em curso. Recomenda-se checar dados atualizados do CEBC, ANP e IEA antes da publicação final. O nível da Selic e as projeções do Boletim Focus citadas também devem ser confirmados na data de publicação, pois o Copom se reúne periodicamente e pode alterar a taxa.