Durante quase uma década, a inclusão de tamanhos foi tratada pelo varejo de moda como estratégia de crescimento. Campanhas com modelos de corpos diversos, coleções exclusivas e promessas de grade completa viraram vitrine institucional. Em 2026, o movimento se inverte em ritmo acelerado. Grandes redes internacionais estão encolhendo a oferta de tamanhos grandes, e a explicação que circula nos corredores do setor tem nome comercial: Ozempic.
Uma reportagem publicada pelo jornal canadense La Presse, assinada por Nathaëlle Morissette, percorreu lojas do centro de Montreal e encontrou araras quase vazias de numerações grandes na Old Navy e o desaparecimento da linha H&M+ na H&M.[1] A pergunta que o texto coloca é econômica antes de ser cultural: a demanda caiu de verdade ou as marcas estão usando a popularidade dos medicamentos à base de GLP-1 para justificar uma retirada que já estava em curso?
O que os números mostram
Os dados de mercado confirmam o recuo. Segundo levantamento da consultoria de inteligência de varejo Edited, os tamanhos 3XL e 4XL representavam 2% dos novos vestidos lançados no site da H&M entre janeiro e maio de 2025 e simplesmente desapareceram no mesmo período de 2026.[1][5] À reportagem do La Presse, a empresa confirmou a decisão e atribuiu o corte a uma queda na procura, sem comentar as causas.[1] A mudança contrasta com o anúncio de março de 2023, quando a rede sueca ampliou sua grade nos Estados Unidos até 4XL na venda online para o público feminino.[13]
O fenômeno não se limita à H&M. A mesma Edited registrou, segundo a CNN, queda de 37% nos tamanhos estendidos femininos no site da Target entre março de 2025 e março de 2026, com 30% de recuo concentrado nos últimos seis meses do período. Na Old Navy, as opções plus size diminuíram 12% na comparação anual.[2] A emissora americana NewsNation acrescenta que Zara, Mango e Aritzia também reduziram itens acima do XL, conforme apuração da Bloomberg.[4]
A tese do Ozempic e seus limites
A hipótese de que os medicamentos emagrecedores teriam esvaziado a clientela de tamanhos grandes encontra resistência entre médicos. No La Presse, a médica Marie-Philippe Morin, especialista em medicina bariátrica do Instituto Universitário de Cardiologia e Pneumologia de Quebec, classifica a associação como um atalho intelectual.[1] O argumento é aritmético. Usuários desses tratamentos perdem em média cerca de 15% do peso corporal. Uma pessoa de 136 quilos que perde 20 quilos continua, na maioria dos casos, fora da grade padrão. A própria médica lembra que a maior parte dos pacientes permanece com índice de massa corporal acima da faixa considerada normal.[1]
O segundo limite é o preço. No Quebec, o seguro público cobre o Ozempic apenas para pacientes com diabetes tipo 2. Os demais pagam do próprio bolso entre 250 e 350 dólares canadenses por mês, segundo a especialista ouvida pelo jornal.[1] A NewsNation, citando a Mayo Clinic, aponta perdas típicas entre 10% e 20% do peso, o equivalente a descer um ou dois tamanhos sem necessariamente sair da faixa plus.[4]
"Neste momento, a desculpa é o Ozempic."Gabrielle Lisa Collard, autora, ao La Presse (tradução livre)
Há ainda o problema da persistência. Análises citadas pela Cotton Incorporated lembram que a maioria dos usuários de semaglutida interrompe o tratamento em até dois anos, com tendência de recuperar o peso perdido. A estrategista da WGSN ouvida pela publicação defende que o problema real é um modelo de grade estático, incapaz de acompanhar corpos que variam de forma rápida e não linear.[3] Para quem planeja estoque, isso significa que uma redução de tamanhos baseada no uso atual dos medicamentos pode estar mirando um alvo que se move de volta.
Um recuo que começou antes das canetas
A cronologia enfraquece a explicação farmacológica. A Old Navy lançou em 2021 o programa BODEQUALITY, prometendo todos os modelos femininos do 0 ao 28, conforme recorda o La Presse.[1] Já em 2022, segundo a CNN, a rede admitiu não ter visto a demanda esperada e reduziu a presença da linha nas lojas físicas, mantendo a coleção completa apenas online. A Loft havia retirado boa parte de seus tamanhos grandes das lojas em 2021.[2] Os dois movimentos antecedem o auge comercial dos GLP-1 para emagrecimento.
O analista de varejo Neil Saunders descreveu à CNN a dinâmica que ajuda a entender a decisão: quando os tamanhos grandes vendem devagar, as redes estocam menos, o que afasta clientes, que compram ainda menos, o que justifica novos cortes.[2] É uma profecia autorrealizável de estoque. A demanda medida no ponto de venda passa a refletir a oferta e a exposição, e não a necessidade real da consumidora.
Os relatos colhidos pelo La Presse ilustram o mecanismo pelo lado da experiência de compra. Édith Bernier, fundadora do site grossophobie.ca, descreve consumidoras tratadas como clientela de segunda classe, com seções escondidas em cantos pouco visitados e provadores inacessíveis.[1] Collard menciona araras desorganizadas no fundo das lojas, com peças quase sempre pretas. Nesse ambiente, a migração para o comércio eletrônico deixa de ser preferência e passa a ser falta de opção, o que reduz ainda mais a venda física que alimenta os relatórios de demanda.
O varejo tem dados, e eles não são irrelevantes
Seria simplista tratar a decisão das redes apenas como preconceito. Há sinais concretos de mudança no consumo. Segundo a NewsNation, a empresa de análise de estoques Impact Analytics registrou dois anos seguidos de alta nas vendas do tamanho XS, com recuo nas faixas M, L e XL.[4] A varejista americana DXL, especializada em roupas masculinas grandes, estimou em teleconferência com investidores que até um quarto de seus clientes usa medicamentos para emagrecer, e o diretor da Guggenheim Partners Simeon Siegel afirmou à CNN não haver dúvida de que os GLP-1 estão provocando impactos profundos em todo o varejo.[2]
Também pesa o custo. Grades amplas exigem modelagens específicas, mais itens de estoque e maior risco de sobras, num ano em que as redes americanas absorvem o impacto de tarifas de importação.[2] Do ponto de vista de margem, cortar a ponta da curva de tamanhos é uma forma rápida de reduzir complexidade. A discussão relevante, portanto, não é se houve alguma mudança de demanda, mas se ela tem a magnitude que justifica eliminar faixas inteiras.
O espelho brasileiro
O Brasil acompanha esse debate com uma base demográfica que torna a questão ainda mais sensível. De acordo com o Vigitel 2025, divulgado pelo Ministério da Saúde com dados de 2024 para as capitais, 62,6% dos adultos têm excesso de peso e 25,7% têm obesidade. Em 2006, os índices eram de 42,6% e 11,8%.[6] Em termos de mercado, a consumidora que veste tamanhos grandes deixou há tempos de ser nicho.
O setor plus size movimentou cerca de R$ 9,6 bilhões, segundo estimativas citadas pela imprensa especializada, e projeta alcançar R$ 15 bilhões até 2027. O dado acompanhou o anúncio da entrada da Speedo no segmento, em 2025, cujo presidente destacou que mais de 90% desse mercado é formado por pequenos empreendedores.[7] A Associação Brasileira Plus Size projeta expansão de 10% ao ano, segundo o Diário do Comércio.[8]
Ao mesmo tempo, o mercado de medicamentos análogos ao GLP-1 cresce em velocidade própria. Dados do Itaú BBA divulgados pela imprensa indicam que o segmento movimentou R$ 10 bilhões em 2025, cerca de 4% do mercado farmacêutico nacional.[9] Com o fim da patente da semaglutida em março de 2026, a EMS colocou nas farmácias em junho o Ozivy, primeira caneta sintética produzida no país, e em agosto a Anvisa aprovou o primeiro genérico de semaglutida, seguido uma semana depois por um segundo registro, da Germed.[10][11] Os preços ainda dependem da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED), e a lei exige que genéricos cheguem com desconto mínimo de 35% sobre a referência.
Especialistas ouvidos pelo portal Viva ressaltam, porém, que a aprovação não garante queda imediata de preços, e que o custo segue como a principal barreira de acesso.[12] O mesmo argumento usado pelos médicos canadenses vale aqui com mais força, dado o perfil de renda da população. É improvável que as canetas, mesmo mais baratas, alterem a curva de tamanhos de um país com um quarto dos adultos com obesidade no curto prazo.
O custo econômico de uma grade curta
O caso internacional oferece ao varejo brasileiro uma lição sobre como decisões de sortimento são tomadas sob incerteza. Cortar tamanhos grandes reduz custo e complexidade no curto prazo, mas transfere participação de mercado para quem decide atender esse público. No Canadá, o La Presse cita a Womance, que já oferece metade do sortimento em tamanhos grandes e pretende chegar a três quartos, refazendo a modelagem de cada peça em vez de apenas ampliá-la proporcionalmente.[1] O cuidado técnico é relevante: um trabalho de conclusão de curso do Instituto Federal de Santa Catarina, de 2025, identificou que boa parte da moda plus size no Sul do país ainda parte de moldes adaptados de tamanhos menores, com desajustes recorrentes em quadril e abdômen.
No Brasil, onde o segmento já é dominado por pequenos negócios, a retirada de grandes redes tende a fragmentar ainda mais a oferta. Isso abre espaço para marcas especializadas e para o comércio digital, mas também empurra a consumidora para canais com menor poder de escala e preços muitas vezes mais altos. Para as grandes varejistas nacionais, que disputam participação com plataformas estrangeiras de baixo custo, abrir mão de um terço da população adulta com obesidade ou excesso de peso significativo representa uma aposta arriscada, sobretudo quando a evidência de queda estrutural na demanda continua frágil.
A questão central, que vale tanto para Montreal quanto para São Paulo, é distinguir sinal de ruído. Se a demanda por tamanhos grandes caiu porque os corpos mudaram, os dados acabarão por demonstrá-lo de forma consistente. Se caiu porque a oferta foi mal exposta, mal modelada e escondida no fundo da loja, o corte apenas confirma uma escolha comercial anterior. No segundo cenário, o GLP-1 funciona menos como causa e mais como narrativa.
Perguntas frequentes
Por que varejistas como H&M e Old Navy estão reduzindo os tamanhos plus size?
A H&M afirma ter retirado os tamanhos 3XL e 4XL por queda de demanda. Dados da consultoria Edited mostram cortes também na Target e na Old Navy. Analistas apontam um ciclo vicioso de estoque: pouca oferta e exposição ruim reduzem as vendas, o que justifica novos cortes.
As canetas emagrecedoras explicam a queda na demanda por roupas plus size?
Não de forma isolada. Médicos ouvidos pelo La Presse lembram que a perda média de peso gira em torno de 15%, o que reduz um ou dois tamanhos, mas raramente tira a pessoa da faixa plus size. O preço também limita o alcance desses tratamentos.
Qual o tamanho do mercado plus size no Brasil?
Estimativas do setor apontam movimentação de cerca de R$ 9,6 bilhões, com projeção de R$ 15 bilhões até 2027. Mais de 90% do segmento é formado por pequenos empreendedores.
Quantos brasileiros têm obesidade ou excesso de peso?
Segundo o Vigitel 2025, com dados de 2024 para as capitais, 62,6% dos adultos têm excesso de peso e 25,7% têm obesidade.
Os genéricos de semaglutida podem mudar o consumo de moda no Brasil?
A Anvisa aprovou em agosto de 2026 os primeiros genéricos, com preço ainda pendente de definição pela CMED. A lei prevê desconto mínimo de 35% sobre a referência, o que pode ampliar o acesso, mas o efeito sobre a distribuição de tamanhos ainda não é mensurável.