Caderno Educação · Análise

Um menino de sete anos soletrando palavras devagar, sílaba por sílaba. Foi essa cena doméstica que levou a colunista Allysia Finley, do The Wall Street Journal, a formular a pergunta que hoje atravessa secretarias de educação em dezenas de países: quanto tempo falta para que ler e escrever se tornem habilidades tão dispensáveis quanto decorar mapas de estrada1? A provocação chega em um momento preciso. Na mesma semana em que o artigo foi publicado, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) divulgou os resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) 2025, e os números confirmam um desconforto que já não é apenas anedótico.

O que os números da PISA 2025 mostram

A edição de 2025 do PISA, que avaliou mais de 760 mil estudantes de 15 anos em 91 países e economias, registrou as menores médias já observadas em leitura e matemática desde que o exame começou a ser aplicado, no ano 20002. Entre 2015 e 2025, a pontuação média de leitura entre os países da OCDE caiu 28 pontos, o equivalente a cerca de um ano e meio de aprendizagem perdido. A matemática recuou 22 pontos, quase um ano letivo inteiro. Hoje, um em cada cinco adolescentes de 15 anos nos países da OCDE está classificado como estudante de baixo desempenho simultaneamente nas três áreas testadas (leitura, matemática e ciências), proporção que era de 16% em 20222.

Um dado específico chamou a atenção de pesquisadores e comentaristas: o crescimento da chamada leitura apressada, quando o estudante responde rápido, mas de forma incorreta. Segundo o relatório da OCDE, essa proporção subiu de quase 7% em 2018 para 11% em 2025, um padrão que os próprios pesquisadores associam à queda de atenção, persistência e confiança dos estudantes diante de tarefas mais difíceis2. Para Finley, esse é o sintoma mais preocupante do relatório, justamente porque envolve as competências que mais importam na era da inteligência artificial: avaliar informações, cruzar fontes e pensar de forma crítica sobre o que se lê1.

Onde a tecnologia atalha a luta cognitiva necessária para aprender, ela compromete o desenvolvimento dos estudantes. Trecho do relatório PISA 2025, citado por Allysia Finley no The Wall Street Journal

O retrato brasileiro: estagnação, não colapso

O Brasil, que participa do PISA desde 2000 mas não é membro efetivo da OCDE, obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências na edição de 20253. Os números são estatisticamente equivalentes aos de 2022 (379, 410 e 403, respectivamente), o que descarta uma queda abrupta recente, mas também expõe algo mais duro de digerir: o país permanece, há uma década, no mesmo patamar. Entre os estudantes brasileiros, 72% não atingem o nível básico em matemática e 43,8% ficam abaixo do mínimo esperado simultaneamente nas três áreas avaliadas3. Na comparação internacional, o Brasil ocupa a 71ª posição em matemática, a 67ª em ciências e a 52ª em leitura entre os 89 países participantes, ficando atrás de Uruguai, Chile, México, Costa Rica, Peru e Colômbia, mas à frente de Argentina, Paraguai e El Salvador3.

PISA 2025 · Brasil vs. média OCDE Matemática 377 vs 469 Leitura 408 vs 466 Ciências 409 vs 486 Brasil Média OCDE

Fonte: OCDE, PISA 2025 Results (Volume I), com dados nacionais divulgados pelo Inep/MEC.

A inteligência artificial já está na rotina escolar brasileira

Enquanto o debate internacional gira em torno de quanto a IA generativa prejudica o aprendizado, o Brasil já vive esse cenário em escala considerável. Segundo a pesquisa TIC Educação 2025, do Cetic.br (Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR), sete em cada dez estudantes brasileiros do ensino médio que usam internet já recorrem a ferramentas como ChatGPT, Copilot ou Gemini para fazer pesquisas escolares. No entanto, apenas 32% deles dizem ter recebido qualquer orientação da escola sobre como usar essas ferramentas4. O uso já aparece também entre alunos dos anos finais do ensino fundamental (39%) e, em menor escala, nos anos iniciais (15%)4.

O paradoxo é que a adoção institucional caminha mais devagar do que o uso informal dos estudantes. Apenas 37% das escolas brasileiras permitem formalmente o uso de IA pelos alunos em tarefas educacionais, mas 53% dos gestores escolares já usam essas ferramentas em suas próprias rotinas administrativas e pedagógicas5. Um estudo setorial do próprio Cetic.br, conduzido a partir de grupos focais com professores e alunos de escolas públicas e privadas de São Paulo e Recife, concluiu que o uso intenso e diversificado da IA na educação brasileira ainda ocorre sem diretrizes claras, o que amplia as dúvidas sobre como aproveitar as oportunidades da tecnologia sem comprometer a aprendizagem6.

A aposta brasileira: regular a distração antes de regular a IA

Diferentemente dos Estados Unidos, onde a discussão de Finley se concentra no uso de IA para redigir textos e resolver problemas de matemática, o Brasil tomou uma rota mais direta para conter a distração digital em sala: proibir o celular. A Lei nº 15.100, sancionada em janeiro de 2025 e regulamentada em fevereiro daquele ano, restringe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos em toda a educação básica, pública e privada7. O Ministério da Educação chegou a associar a relativa estabilidade do desempenho brasileiro na PISA 2025, frente à queda mais acentuada em outros países, ao avanço da regulação de distrações digitais nas escolas3.

Contraponto

Nem todo uso de tecnologia em sala prejudica o aprendizado, segundo a própria PISA 2025. O relatório da OCDE observa que o uso moderado de dispositivos digitais para fins pedagógicos está associado a melhor desempenho em ciências, enquanto o uso excessivo e a distração digital caminham junto a resultados piores2. No Brasil, pesquisadores e educadores ouvidos pela Fundação Lemann sobre a Lei 15.100 defendem posição semelhante: a proibição pura do aparelho, sem trabalho pedagógico de formação para o uso consciente, resolve apenas parte do problema. Relatos de professores levantados pelo Centro do Professorado Paulista no primeiro semestre de aplicação da lei mostraram que mais da metade considera que a norma não está sendo cumprida de fato nas escolas8. O diagnóstico que emerge não é o de que a tecnologia deva ser banida, mas o de que ela exige mediação, formação de professores e regras claras, elementos que a maioria das escolas brasileiras ainda não construiu.

O que fica desse retrato

Correlação não é o mesmo que causa, e tanto a PISA quanto o artigo de Finley fazem essa ressalva ao tratar do vínculo entre uso de IA e queda de desempenho. Mas o padrão que se repete, tanto nos dados internacionais quanto nos brasileiros, aponta na mesma direção: aprendizagem depende de esforço cognitivo, não de consumo de conteúdo. É a diferença entre assistir a um jogo e jogar. Quando a tecnologia elimina esse esforço, seja pela tela que distrai, seja pelo chatbot que resolve a tarefa no lugar do aluno, o resultado tende a ser o mesmo: menos retenção, menos capacidade de avaliar informação e menos autonomia intelectual. Para o Brasil, que já enfrenta uma década de estagnação educacional antes mesmo da explosão da IA generativa, o desafio agora é duplo, recuperar o terreno perdido e, ao mesmo tempo, construir regras claras para uma tecnologia que já entrou na sala de aula pela porta dos fundos.

Este texto usa como ponto de partida a coluna de opinião "Yes, Children Really Are Getting Dumber", de Allysia Finley, publicada no The Wall Street Journal em 13 de setembro de 2026. O conteúdo não é reproduzido ou traduzido integralmente; dados e argumentos foram verificados em fontes primárias adicionais, listadas nas referências. Leia o artigo original: wsj.com/opinion/yes-children-really-are-getting-dumber-fa4cb20c.

Perguntas frequentes

O que a PISA 2025 revelou sobre o desempenho de estudantes no mundo?

A PISA 2025 registrou as menores médias já observadas em leitura e matemática entre os países da OCDE desde o início do exame, em 2000. A leitura caiu 28 pontos entre 2015 e 2025, e a matemática, 22 pontos, com um em cada cinco adolescentes de 15 anos apresentando baixo desempenho simultâneo nas três áreas avaliadas.

Como o Brasil se saiu na PISA 2025?

O Brasil obteve 377 pontos em matemática, 408 em leitura e 409 em ciências, resultados estatisticamente estáveis em relação a 2022. O país está há uma década sem avanço consistente, com 72% dos estudantes abaixo do nível básico em matemática.

A inteligência artificial está piorando o aprendizado dos estudantes?

Os dados sugerem uma associação entre uso intenso de IA generativa e queda de desempenho, mas os próprios pesquisadores destacam que correlação não é causa. O uso moderado e orientado por professores tende a ter efeito distinto do uso não supervisionado para substituir tarefas escolares.

O que é "leitura apressada" (hasty reading)?

É o padrão identificado pela PISA em que o estudante responde rapidamente, mas de forma incorreta, sinal de queda de atenção e persistência diante de tarefas mais difíceis. Essa proporção quase dobrou entre 2018 e 2025 nos países da OCDE.

O que diz a lei brasileira sobre celulares nas escolas?

A Lei nº 15.100/2025 proíbe o uso de aparelhos eletrônicos portáteis pessoais por estudantes durante aulas, recreios e intervalos em toda a educação básica brasileira, pública e privada, permitindo o uso apenas para fins pedagógicos orientados por profissionais de educação.