A geração que fica para trás: o alerta britânico sobre a saúde infantil e o espelho brasileiro
Pediatras do Reino Unido classificam como "vergonha nacional" o retrocesso em doze indicadores de saúde das crianças britânicas. No Brasil, vacinação em queda, obesidade infantil em ascensão e sofrimento psíquico entre adolescentes desenham um quadro que exige o mesmo tipo de atenção — com números próprios.
Um relatório do Royal College of Paediatrics and Child Health (RCPCH), divulgado nesta semana no Reino Unido, chegou a uma conclusão dura: a geração de crianças que cresce hoje no país tende a ser uma das menos saudáveis em décadas. A entidade analisou doze indicadores — de mortalidade infantil a obesidade, cobertura vacinal, saúde bucal, asma e transtornos mentais — e encontrou estagnação ou piora em praticamente todos eles. Para a médica Helen Stewart, responsável por melhoria de saúde do RCPCH, o retrato "deveria ser uma vergonha nacional".
O caso britânico chama atenção por um motivo específico: trata-se de um país de alta renda, com sistema público de saúde universal consolidado há quase oito décadas, onde a expectativa é de avanço contínuo, não de retrocesso. Ainda assim, apenas 84% das crianças inglesas recebem as duas doses da vacina tríplice viral até os cinco anos — abaixo da meta de 95% da Organização Mundial da Saúde e o pior resultado entre os países do G7. Uma pesquisa YouGov encomendada para o relatório mostrou que só 12% dos pais britânicos acreditam que a saúde infantil melhorou na última década.
O documento também expôs desigualdades internas severas: mortalidade infantil e obesidade são mais que o dobro nas áreas mais pobres do Reino Unido em comparação com as mais ricas — um padrão que, como se verá adiante, tem eco direto na realidade brasileira, ainda que por caminhos distintos.
Vacinação: o Brasil também perdeu terreno
Se a comparação internacional parece distante, os dados nacionais sugerem o contrário. O Anuário VacinaBR 2025, produzido pelo Instituto Questão de Ciência com apoio da Sociedade Brasileira de Imunizações e da Unicef, documenta uma queda contínua da cobertura vacinal infantil no país desde 2015, intensificada após a pandemia. Em 2023, ano mais recente com dados consolidados, menos de um terço dos municípios brasileiros (32%) atingiu a meta de cobertura para o conjunto de quatro vacinas básicas do primeiro ano de vida — pentavalente, poliomielite, pneumocócica e tríplice viral.
A evasão entre a primeira e a segunda dose da tríplice viral, vacina que protege contra sarampo, caxumba e rubéola, é especialmente preocupante: em alguns estados, esse abandono ultrapassa 50% dos vacinados, segundo o mesmo levantamento. O sarampo foi declarado eliminado no Brasil em 2016, mas boletins estaduais recentes já registram reintrodução de casos ligados à baixa cobertura e à circulação internacional do vírus — um alerta emitido, por exemplo, pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal em 2025.
Em 2023, menos de um terço dos municípios brasileiros cumpriu a meta de cobertura para as quatro vacinas básicas do primeiro ano de vida.
Obesidade infantil: uma curva que não para de subir
Enquanto o Reino Unido relata estagnação nos índices de obesidade infantil, o Brasil caminha na direção oposta — para pior. O Atlas Mundial da Obesidade 2026, da Federação Mundial de Obesidade, mostra que 20,7% das crianças e adolescentes do mundo entre 5 e 19 anos vivem hoje com sobrepeso ou obesidade, cerca de 419 milhões de pessoas. Para o Brasil, a projeção é particularmente severa: partindo de 34% em 2020, a proporção de crianças e adolescentes brasileiros com excesso de peso pode chegar a 50% em 2035, segundo estimativas da mesma entidade — o equivalente a mais de 20 milhões de jovens.
O vice-presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica, Bruno Halpern, atribui parte do fenômeno à oferta abundante e barata de alimentos ultraprocessados, com impacto desproporcional sobre famílias de renda mais baixa — o mesmo tipo de gradiente socioeconômico que o relatório britânico identificou para seus próprios indicadores. Dados do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social reforçam essa leitura: em domicílios chefiados por pessoas pardas, a insegurança alimentar grave atingiu 56,9% em 2024, mais que o dobro da taxa registrada em domicílios chefiados por pessoas brancas (24,4%) — evidência de que fome e obesidade infantil convivem no mesmo território social.
Saúde mental: sofrimento que cresce em silêncio
O relatório do RCPCH inclui transtornos mentais entre os indicadores que pioraram no Reino Unido. No Brasil, o quadro também é de deterioração. Segundo a Unicef, quase um em cada seis adolescentes brasileiros entre 10 e 19 anos vive com algum transtorno mental. Um levantamento da Fundação Oswaldo Cruz aponta que a taxa de suicídio entre jovens de 10 a 24 anos cresceu 6% ao ano no país, enquanto as notificações de autolesão na mesma faixa etária aumentaram 29% ao ano entre 2011 e 2022.
Dados mais recentes do Ministério da Saúde, sistematizados pela Fundação Oswaldo Cruz do Rio de Janeiro, mostram que, em 2025, os atendimentos de saúde mental já respondiam por cerca de 22% de todo o atendimento de atenção primária a adolescentes de 10 a 19 anos no país — quase 3 milhões de consultas em um universo de 13,3 milhões de atendimentos totais para essa faixa etária.
Asma e mortalidade infantil: avanços que convivem com lacunas
Nem tudo é retrocesso. A mortalidade infantil brasileira segue em trajetória histórica de queda: o IBGE registrou 12,3 óbitos para cada mil nascidos vivos em 2024, ante 146,6 por mil em 1940. Ainda assim, o indicador brasileiro permanece bem acima da média de países europeus — o que reproduz, em outra escala, a mesma crítica que os pediatras britânicos fazem ao comparar o Reino Unido com seus vizinhos do continente.
Já as internações por asma em crianças mostram um padrão preocupante de concentração etária: um levantamento sobre dados do DATASUS identificou 533.186 internações por asma em crianças e adolescentes no período estudado, com mais da metade (51%) concentrada em crianças de 1 a 4 anos e a região Nordeste respondendo pela maior fatia dos casos (37%). A mortalidade hospitalar por asma, embora baixa em termos absolutos, é mais alta entre adolescentes de 15 a 19 anos — sinal de que o agravamento da doença nessa faixa etária tende a ser subestimado até se tornar grave.
Contraponto — Por que comparar Brasil e Reino Unido exige cautela
Os dois países partem de patamares muito diferentes. O Reino Unido tem um sistema de saúde universal, o NHS, operando desde 1948, e seus indicadores de saúde infantil já estiveram entre os melhores da Europa — a crítica dos pediatras britânicos é, em essência, sobre perda de terreno relativo. O Brasil, por outro lado, ainda constrói cobertura universal via SUS em um país continental e desigual, e seus indicadores partem de um piso historicamente mais baixo, ainda que em trajetória de melhoria estrutural ao longo de décadas.
Isso significa que uma queda de alguns pontos percentuais na cobertura vacinal britânica e uma evasão de 50% entre doses no Brasil não são fenômenos de mesma gravidade absoluta — mas ambos revelam a mesma vulnerabilidade: sistemas de saúde pública que dependem de confiança social contínua e de investimento sustentado para não retroceder. É esse paralelo estrutural, e não a equivalência numérica, que justifica lê-los lado a lado.
O que os dois países têm em comum
O relatório do RCPCH pede ao próximo governo britânico investimento sustentado, melhor uso de dados e metas nacionais vinculantes para a saúde infantil nos seus primeiros cem dias. No Brasil, entidades como a Sociedade Brasileira de Pediatria e a Fiocruz têm feito pedidos semelhantes: fortalecimento do Programa Nacional de Imunizações, políticas de regulação de alimentos ultraprocessados voltados ao público infantil e ampliação do cuidado em saúde mental na atenção primária, sobretudo para adolescentes.
O ponto de convergência entre os dois cenários não é a gravidade — é o diagnóstico compartilhado de que a saúde da infância não melhora por inércia. Ela depende de investimento contínuo, dados confiáveis e prioridade política renovada a cada geração.
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Nesta reportagem
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Glossário
- RCPCH
- Royal College of Paediatrics and Child Health, entidade que reúne pediatras do Reino Unido.
- SISVAN
- Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional do Ministério da Saúde brasileiro.
- PNI
- Programa Nacional de Imunizações, responsável pelo calendário vacinal público no Brasil desde 1973.
Referências
- The Guardian. "UK children will be one of unhealthiest generations in decades, doctors say", 14 jul. 2026. theguardian.com
- UNICEF Brasil. Anuário VacinaBR 2025. unicef.org/brazil
- Sociedade Brasileira de Imunizações. Análise do cenário das coberturas vacinais no Brasil. sbim.org.br
- Agência Brasil. "Uma em cada cinco crianças e adolescentes tem sobrepeso ou obesidade", mar. 2026. agenciabrasil.ebc.com.br
- Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social. Estratégia de Prevenção da Obesidade. gov.br/mds
- UNICEF Brasil. Saúde mental de adolescentes. unicef.org/brazil
- Portal de Boas Práticas, Fiocruz/IFF. Saúde de Adolescentes no Brasil, 2025. portaldeboaspraticas.iff.fiocruz.br
- IBGE Educa. Mortalidade infantil em queda, 2024. educa.ibge.gov.br
- Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences. Internações por asma em crianças e adolescentes: panorama nacional (DATASUS), 2026. bjihs.emnuvens.com.br