Saúde · Nutrição nos primeiros anos

Por Ewerton Lopes — Curador Editorial  |  7 de outubro de 2026  |  Leitura: 11 min

Ponto de partida Este texto foi motivado pela reportagem de Linda Geddes publicada pelo The Guardian em 7 de outubro de 2026. O Tecido não reproduz nem traduz o original: as informações creditadas ao jornal britânico estão sinalizadas, e a análise foi ampliada com os estudos científicos de origem, dados oficiais brasileiros e leitura própria.

Em 30 segundos

  • O fim do racionamento de açúcar no Reino Unido, em setembro de 1953, fez o consumo praticamente dobrar e criou um experimento natural raro para estudar os efeitos do açúcar no início da vida.
  • Quem passou os primeiros 1.000 dias de vida sob racionamento teve cerca de 35% menos risco de diabetes tipo 2 e 20% menos de hipertensão na vida adulta, segundo estudo publicado na Science em 2024.
  • Trabalhos posteriores com a mesma base associam a exposição a menos doença cardiovascular, menos ansiedade e envelhecimento biológico um pouco mais lento.
  • São associações, não prova de causa, e boa parte dos estudos usa participantes sobrepostos do UK Biobank.
  • No Brasil, a regra oficial é zero açúcar até os 2 anos, mas 80,5% das crianças de 6 a 23 meses consumiam ultraprocessados no ENANI-2019.

Um racionamento que virou laboratório

Na Grã-Bretanha do início dos anos 1950, a guerra já tinha acabado, mas o açúcar continuava contado. Segundo a reportagem do The Guardian, adultos tinham direito a algo em torno de 40 gramas por dia, as crianças a bem menos, e dos bebês se esperava pouca ou nenhuma adição de açúcar1. Em fevereiro de 1953 doces e chocolates saíram da cota. Em setembro, foi a vez do próprio açúcar. No segundo semestre de 1954, o consumo médio já era quase o dobro.

Para a epidemiologia, essa virada tem um valor difícil de obter de outra forma. O consumo de açúcar de uma família costuma vir embaralhado com renda, escolaridade, região e hábitos, o que torna quase impossível isolar seu efeito. Em 1953, a mudança veio de uma decisão de governo e atingiu todos de uma vez. Isso permite comparar pessoas concebidas pouco antes e pouco depois da data, que se diferenciam principalmente pela quantidade de açúcar que encontraram no início da vida. Quem nasceu a partir de julho de 1954 já foi concebido sem racionamento, como resume o National Institutes of Health dos Estados Unidos3.

"A história criou um experimento que jamais poderíamos conduzir deliberadamente ao longo de uma vida humana."

Jiazhen Zheng, Universidade de Ciência e Tecnologia de Hong Kong (Guangzhou), ao The Guardian

O que os estudos encontraram

O trabalho que abriu essa linha de pesquisa saiu na revista Science em outubro de 2024, assinado pela economista Tadeja Gračner, da Universidade do Sul da Califórnia, com Claire Boone e Paul Gertler2. A equipe cruzou datas de nascimento com o histórico de saúde de adultos do UK Biobank, uma coorte britânica de meio milhão de voluntários. O resultado: a proteção cresceu com o tempo de exposição. Quem passou gestação e primeira infância sob racionamento teve risco cerca de 35% menor de diabetes tipo 2 e 20% menor de hipertensão, e as doenças, quando apareceram, chegaram em média quatro e dois anos mais tarde, respectivamente.

Dois detalhes do estudo merecem atenção. A exposição apenas no útero respondeu por cerca de um terço da redução de risco, o que coloca a gestação no centro da história. E o efeito ganhou força quando o racionamento se estendeu para além dos seis meses de vida, idade em que normalmente começa a introdução de alimentos sólidos.

Um ano depois, em outubro de 2025, o grupo de Zheng publicou no BMJ uma análise de 63.433 participantes nascidos entre outubro de 1951 e março de 1956, sem doença cardíaca prévia4. Desses, 40.063 tinham sido expostos ao racionamento e 23.370 não. Quanto mais longa a exposição, menores os riscos de infarto, insuficiência cardíaca, fibrilação atrial, AVC e morte cardiovascular, com atraso de até dois anos e meio no surgimento desses eventos. Para reforçar a comparação, os autores usaram grupos de controle externos, de adultos nascidos fora do Reino Unido que não passaram por mudança semelhante, segundo a página do próprio UK Biobank.

A lista seguiu crescendo. A reportagem do The Guardian relata que trabalhos recentes associaram a menor exposição ao açúcar a menos doenças do fígado, melhor saúde respiratória, menor incidência de demência e marcadores de envelhecimento biológico cerca de um ano mais jovens1. Em agosto de 2026, uma equipe liderada por Nophar Geifman, da Universidade de Surrey, relatou risco 33% menor de diagnóstico de ansiedade entre os que passaram todos os primeiros 1.000 dias sob racionamento, além de menor preferência declarada por doces na vida adulta1.

REDUÇÃO DE RISCO VS. NÃO EXPOSTOS (exposição nos 1.000 dias completos) Diabetes tipo 2 −35% Ansiedade −33% Hipertensão −20%
Associações, não relações de causa comprovadas. Diabetes e hipertensão: Gračner, Boone e Gertler, Science (2024). Ansiedade: Geifman et al., Universidade de Surrey (2026), conforme relatado pelo The Guardian.

A fome holandesa não contradiz o achado

A ideia de que a nutrição no início da vida deixa marcas duradouras não é nova. Desde os anos 1970, pesquisadores estudam o "inverno da fome" holandês de 1944-45, quando o bloqueio alemão ao transporte de alimentos deixou milhões de pessoas no oeste da Holanda à beira da inanição. Como a crise começou e terminou de forma abrupta e os registros sobreviveram, foi possível comparar quem estava em gestação durante a fome com quem nasceu antes ou foi concebido depois. Segundo o epidemiologista LH Lumey, da Universidade Columbia, ouvido pelo The Guardian, os achados mais sólidos apontam para mais sobrepeso, obesidade e diabetes tipo 2 entre os expostos1.

À primeira vista, os dois casos apontariam em direções opostas: menos comida, mais diabetes na Holanda; menos açúcar, menos diabetes na Grã-Bretanha. A diferença está na natureza da restrição. O racionamento britânico não foi fome. Ele limitou de forma seletiva um ingrediente enquanto o restante da dieta permanecia razoavelmente adequado. A conclusão, portanto, não é que comer menos protege, e sim que a qualidade e o momento da nutrição durante o desenvolvimento podem ter consequências que atravessam a vida inteira.

Como algo tão breve deixaria marcas tão longas?

Ninguém sabe ainda. Gračner admite que os dados mostram o efeito protetor, mas não o caminho. Há três hipóteses principais sobre a mesa: um efeito direto do açúcar sobre o organismo em formação, a formação precoce de preferências de paladar que acompanham a pessoa pela vida, ou uma resposta metabólica "programada" nos primeiros anos.

Um trabalho mais recente da equipe dela, ainda em revisão por pares, oferece uma pista. Segundo o relato do The Guardian, a exposição ao racionamento parece enfraquecer a influência dos genes que predispõem ao ganho de peso1. Os expostos consomem menos açúcar livre na vida adulta, mas essa diferença é parecida entre grupos de alto e baixo risco genético. Para a pesquisadora, isso sugere que o mecanismo não é apenas comportamental e pode envolver sensibilidade à insulina, regulação de apetite e saciedade ou o desenvolvimento do tecido adiposo.

No caso da ansiedade, Geifman lembra que o cérebro se desenvolve em ritmo acelerado na gestação e nos primeiros anos, e que dietas ricas em açúcar já foram associadas a inflamação e alterações na microbiota intestinal. Zheng, por sua vez, propõe que o envelhecimento biológico funcione como um caminho comum a várias doenças: seu estudo encontrou diferenças em proteínas ligadas à forma como as células respondem aos nutrientes.

O estudo do BMJ ajuda a dimensionar o quadro. Diabetes e hipertensão explicaram, juntos, 31,1% da associação entre racionamento e doença cardiovascular, enquanto o peso ao nascer respondeu por apenas 2,2%4. Em outras palavras, boa parte do efeito passa pelas doenças metabólicas, mas a maior parcela ainda não tem explicação.

E no Brasil? Uma regra mais rígida que o racionamento

O Brasil já tem, no papel, uma orientação mais severa que a da Grã-Bretanha em guerra. O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, lançado pelo Ministério da Saúde em 2019, recomenda não oferecer açúcar de nenhum tipo, nem preparações ou produtos que o contenham, até os 2 anos de idade6. A lista inclui mel, açúcar mascavo, demerara e de coco, além de alimentos ultraprocessados.

A prática está longe da norma. O Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI-2019), coordenado pela UFRJ com mais de 14 mil crianças menores de 5 anos, encontrou consumo de ultraprocessados no dia anterior à entrevista por 80,5% das crianças de 6 a 23 meses, percentual que chegava a 84,5% na Região Norte7. As bebidas adoçadas apareciam na rotina de 24,5% das crianças nessa faixa, e de 37,7% entre as de 18 a 23 meses. Segundo análise publicada nos Cadernos de Saúde Pública, apenas 8,4% das crianças de 6 a 23 meses tinham uma dieta minimamente diversa sem ultraprocessados, proporção que caía a 3,6% quando a mãe ou cuidador era negro8.

Os dados do ENANI foram coletados entre 2019 e 2020 e são a fotografia nacional mais recente da alimentação infantil. Na outra ponta da vida, o quadro é conhecido. Segundo o Vigitel 2025, que reúne dados de 2024 das capitais, o diagnóstico de diabetes entre adultos mais que dobrou desde 2006, e a obesidade também9.

ADULTOS NAS CAPITAIS BRASILEIRAS (%), 2006 vs. 2024 Diabetes 5,5 12,9 Obesidade 11,8 25,7 Hipertensão 22,6 29,7 Excesso de peso 42,6 62,6 2006 2024
Fonte: Ministério da Saúde, Vigitel 2025 (dados de 2024). Diagnóstico médico autorreferido em adultos das 26 capitais e do Distrito Federal.

Seria um erro ligar diretamente esse avanço ao açúcar consumido na infância. As causas são múltiplas, e o envelhecimento da população, o sedentarismo e o padrão alimentar adulto pesam muito. O que os estudos britânicos acrescentam é um argumento de prazo: parte do risco de doenças crônicas pode estar sendo definida antes mesmo de a criança aprender a falar, e as políticas que miram só o adulto chegam tarde a essa janela.

A principal medida fiscal em curso não foi desenhada para os 1.000 dias, mas mexe no mesmo ambiente. A Lei Complementar 214/2025, que regulamentou a reforma tributária, incluiu as bebidas açucaradas no Imposto Seletivo, que o Ministério da Fazenda mantém previsto para 1º de janeiro de 2027. As alíquotas, porém, dependem de lei ordinária ainda não aprovada, e a Câmara retirou em dezembro de 2025 um teto de 2% que o Senado havia aprovado, segundo o Congresso em Foco10. O valor final dirá se o imposto terá efeito sobre o consumo ou apenas sobre a arrecadação.

O que fica para famílias, médicos e legisladores

A primeira lição é negativa: nada nesses estudos autoriza dietas restritivas na gravidez ou na infância. Zheng foi explícito ao dizer que os achados reforçam as recomendações atuais de limitar açúcares livres, mas não devem ser lidos como prova de que restrição severa faz bem1. O próprio contraste com a fome holandesa mostra o risco da leitura apressada.

A segunda é que o racionamento britânico não representou uma privação extrema para os padrões de hoje. O consumo da época era comparável ao que as diretrizes do Reino Unido recomendam atualmente, até 30 gramas de açúcares livres por dia para maiores de 11 anos, enquanto a média britânica atual é aproximadamente o dobro disso, segundo o The Guardian1. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os açúcares livres fiquem abaixo de 10% da energia diária, e idealmente abaixo de 5%11. A pergunta relevante, portanto, não é se bebês devem viver como em tempos de guerra, e sim se cumprir o que já está recomendado pode render benefícios que alcançam a velhice.

A terceira lição é sobre onde a mudança acontece. O dado mais forte dessa história não veio de força de vontade individual, mas de uma alteração no ambiente imposta por política pública. Para um país em que oito em cada dez bebês já consomem ultraprocessados apesar de uma recomendação oficial clara, isso desloca o debate da orientação às famílias para a oferta, o preço, a rotulagem e a publicidade dirigida a crianças. Uma política pensada para administrar a escassez entregou, por acidente, o resultado que as diretrizes atuais tentam obter por convencimento.

Perguntas frequentes

O que foi o racionamento de açúcar no Reino Unido?

Foi a limitação do açúcar disponível por pessoa durante a Segunda Guerra e o pós-guerra. Adultos tinham cota próxima de 40 gramas diários e crianças pequenas, menos. O racionamento terminou em setembro de 1953, e o consumo médio quase dobrou em seguida.

O que são os primeiros 1.000 dias de vida?

É o período que vai da concepção até os 2 anos de idade, somando cerca de 270 dias de gestação e 730 dias de vida. A saúde pública o considera decisivo para crescimento, desenvolvimento e formação de hábitos alimentares.

Quanto o racionamento reduziu o risco de diabetes e hipertensão?

Segundo estudo publicado na Science em 2024, quem passou os 1.000 dias sob racionamento teve risco cerca de 35% menor de diabetes tipo 2 e 20% menor de hipertensão, com diagnóstico quatro e dois anos mais tarde, respectivamente.

Os estudos provam que o açúcar causa essas doenças?

Não. São estudos observacionais que aproveitam um experimento natural. Eles mostram associações consistentes, mas não demonstram causalidade, e muitos usam participantes sobrepostos da mesma base de dados.

Gestantes devem eliminar todo o açúcar?

Os pesquisadores não recomendam restrição severa. A orientação que se extrai dos estudos é aproximar o consumo dos limites já recomendados, sempre com acompanhamento do pré-natal.

O que o Brasil recomenda sobre açúcar para bebês?

O Guia Alimentar para Crianças Brasileiras Menores de 2 Anos, do Ministério da Saúde, orienta não oferecer açúcar de nenhum tipo, nem mel ou produtos que contenham açúcar, até os 2 anos de idade.

Este conteúdo tem caráter jornalístico e informativo e não substitui a orientação de médicos, nutricionistas ou outros profissionais de saúde.

Ewerton Lopes — Curador Editorial O Tecido · Caderno Saúde