Sete em cada dez adolescentes brasileiros não conseguem resolver um problema simples de matemática sem que alguém explique o passo a passo antes. É esse o retrato deixado pelo Pisa 2025, divulgado em 8 de setembro pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), num momento em que professores, famílias e formuladores de política em todo o mundo tentam entender que papel a inteligência artificial cumpre nessa história.1
O retrato global: o pior resultado desde o início da série
A edição 2025 do Pisa reuniu mais de 760 mil estudantes de 91 países e economias, a maior aplicação já realizada. Entre os países da OCDE, a leitura caiu 28 pontos desde 2015, o equivalente a cerca de um ano e meio de aprendizagem perdido, enquanto a matemática recuou 22 pontos, quase um ano letivo inteiro. Um em cada cinco estudantes de 15 anos hoje é considerado de baixo desempenho nas três áreas avaliadas, ciências, leitura e matemática, ante 16% em 2022.2
A própria OCDE associou parte da queda ao uso excessivo de telas e ferramentas digitais em sala de aula. Estudantes que disseram não usar IA generativa para redigir textos escolares tiveram desempenho superior aos que recorreram à tecnologia sem orientação, um dado que reacende, em escala internacional, um debate sobre o que a inteligência artificial está fazendo com as habilidades mais elementares dos jovens.2
É esse exatamente o alerta levantado pelo economista Daniel Susskind em artigo publicado no Financial Times. Para ele, numeracia e alfabetização não são apenas habilidades simples, mas a base sobre a qual se apoiam capacidades mais avançadas, como criatividade, julgamento e raciocínio, ainda que ninguém saiba ao certo quais profissões e competências dominarão o mercado de trabalho do futuro.1
Não basta usar a inteligência artificial. É preciso usá-la de forma crítica, o que só é possível quando os fundamentos permanecem sólidos.
O Brasil no Pisa 2025: estagnação em patamar baixo
Os estudantes brasileiros somaram 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências, resultado estatisticamente próximo ao de 2022 e ainda distante da média da OCDE, de 466, 469 e 486 pontos, respectivamente. O país aparece na 52ª posição em leitura, 67ª em ciências e 71ª em matemática entre os participantes.3
Os números por trás da média preocupam mais que o ranking. Apenas 28% dos estudantes brasileiros alcançaram o nível considerado básico em matemática, contra 65% na média da OCDE, o que significa que cerca de sete em cada dez jovens de 15 anos não conseguem reconhecer, sem instruções diretas, como uma situação cotidiana pode ser traduzida em termos matemáticos. Em leitura, menos da metade dos estudantes chegou ao nível mínimo de proficiência.4
Há também um dado de contexto que conversa diretamente com o argumento de Susskind sobre distração digital. Em 2022, apenas 37% das escolas brasileiras avaliadas pelo Pisa tinham algum tipo de restrição ao uso de celular em sala. Em 2025, esse percentual saltou para 81%, reflexo direto da Lei federal 15.100/2025, sancionada em janeiro daquele ano.4
Da calculadora ao chatbot: uma lição que o Brasil já viveu
Susskind recorre a um paralelo histórico para propor um caminho. Quando a calculadora eletrônica chegou às escolas e às provas nos anos 1980, o temor era o mesmo que hoje ronda a inteligência artificial: o de que a tecnologia esvaziasse o aprendizado dos fundamentos. A solução encontrada foi dividir o ensino de matemática em duas frentes, uma com calculadora e outra sem, avaliando as duas separadamente. Para o autor, é hora de aplicar a mesma lógica a todas as disciplinas, ensinando a usar a IA e também a funcionar sem ela.1
No Brasil, algo parecido começa a tomar forma, ainda que por caminhos distintos. Em abril de 2026, o Ministério da Educação (MEC) lançou o documento orientador Inteligência Artificial na Educação Básica, que propõe que o ensino com IA, o uso de ferramentas de inteligência artificial em sala, caminhe sempre ao lado do ensino sobre IA, a compreensão crítica de como esses sistemas funcionam e de seus limites.5
O documento do MEC cita dados da pesquisa TIC Educação, segundo a qual 37% dos estudantes brasileiros que usam internet já recorrem a plataformas de IA generativa em pesquisas e atividades escolares, proporção que sobe a 70% entre os alunos do ensino médio. Do lado dos professores, 43% já usam ferramentas de IA generativa para preparar aulas e materiais didáticos.6
O experimento brasileiro: a lei do celular como laboratório
Passado um ano de vigência da Lei 15.100/2025, uma pesquisa nacional conduzida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) em parceria com o Instituto Alana e a Unesco mostrou que 92% das escolas brasileiras já aplicam algum tipo de restrição ao uso de celular para fins não pedagógicos. Entre os efeitos percebidos, 83% dos estudantes ouvidos disseram prestar mais atenção às aulas, e a maioria dos gestores e professores relatou queda em casos de cyberbullying.7
O caso brasileiro funciona como um teste em tempo real da tese de Susskind. Antes de discutir como a inteligência artificial deve entrar na sala de aula, o país já precisou disciplinar o uso do próprio celular, o instrumento mais básico de acesso a essas ferramentas. Os efeitos da lei sobre o desempenho acadêmico propriamente dito, porém, ainda não têm dados conclusivos suficientes para serem atribuídos com segurança ao Pisa 2025, já que a aplicação das provas ocorreu entre abril e maio daquele mesmo ano, período inicial de adaptação à norma.
Contraponto
Nem todos concordam que a solução esteja centrada em regular o acesso à tecnologia. Educadores ouvidos por veículos brasileiros durante a implementação da lei do celular apontaram efeitos colaterais, como aumento da desmotivação em algumas redes e a perda de ferramentas pedagógicas legítimas em contextos técnicos. Organismos como a Internacional da Educação também atribuem parte relevante da queda global do Pisa à escassez crônica de professores e à desigualdade de recursos entre redes de ensino, fatores estruturais que nenhuma restrição de tela resolve sozinha.8
O que fica
O paralelo entre calculadora e inteligência artificial, proposto por Susskind, é sedutor por sua simplicidade, mas o caso brasileiro mostra que a execução é mais complexa do que dividir provas em duas colunas. Antes de chegar à pergunta sobre como ensinar com IA, o país ainda está resolvendo o problema anterior, o de garantir que a maioria dos estudantes domine leitura e matemática em nível básico. As diretrizes do MEC e a lei do celular indicam que o debate já chegou à política pública brasileira. Resta saber se essas medidas serão suficientes para reverter uma trajetória que, segundo o próprio Pisa, permanece estagnada em patamar historicamente baixo.
Perguntas frequentes
O que o Pisa 2025 mostrou sobre o uso de IA nas escolas?
A OCDE constatou que estudantes que não usaram inteligência artificial para redigir textos escolares tiveram desempenho superior aos que usaram sem orientação, reforçando a preocupação com o uso excessivo ou mal mediado dessas ferramentas em sala de aula.
Qual foi o desempenho do Brasil no Pisa 2025?
O Brasil obteve 408 pontos em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências, ficando nas posições 52ª, 71ª e 67ª respectivamente entre os países avaliados, com resultado estatisticamente estável em relação a 2022.
O que muda com a lei que restringe o celular nas escolas brasileiras?
A Lei 15.100/2025 limita o uso de aparelhos eletrônicos portáteis para fins não pedagógicos nas escolas públicas e privadas. Um ano após sua entrada em vigor, 92% das escolas já aplicavam alguma forma de restrição.
O que as diretrizes do MEC propõem sobre inteligência artificial na educação básica?
O documento lançado em abril de 2026 defende que o ensino com ferramentas de IA caminhe junto ao ensino sobre IA, ou seja, a compreensão crítica de como esses sistemas funcionam, seguindo uma progressão de habilidades por etapa escolar.