Caderno Economia · Geopolítica industrial · Saúde global

Quando o governo britânico levou o presidente-executivo da AstraZeneca a Pequim no início de 2026, a cena resumiu um dilema que hoje atravessa também o Brasil: como lucrar com a ciência farmacêutica chinesa sem ficar refém dela. Horas depois da visita, a farmacêutica anglo-sueca anunciou um investimento de US$ 15 bilhões em unidades de pesquisa e manufatura na China1. O gesto confirmou algo que a indústria global já sabia havia tempo: a China deixou de ser sinônimo de genérico barato e se tornou uma potência de inovação em medicamentos, disputando terreno diretamente com Estados Unidos e Europa.

O caso mais citado é o do ivonescimabe, remédio contra câncer de pulmão desenvolvido pela biotecnológica chinesa Akeso, que superou em testes clínicos o Keytruda, da americana Merck, até então o medicamento de prescrição mais vendido do mundo1. Não é um episódio isolado. Levantamentos citados pela reportagem do The Telegraph mostram que, em 2024, a China já tinha 1.255 fármacos em fase de pesquisa, quase oito vezes mais do que uma década antes, contra 1.441 nos Estados Unidos e apenas 400 na Europa1.

A reinvenção da indústria chinesa

Essa arrancada tem raiz em política industrial deliberada. Pequim investiu em parques biotecnológicos, subsidiou laboratórios e, a partir de 2015, reformou o sistema regulatório: o tempo médio para aprovar um medicamento para testes em humanos caiu de 501 para 87 dias, segundo estudo da Universidade de Pequim citado pelo jornal britânico1. Some-se a isso o tamanho da população chinesa, que permite recrutar voluntários para ensaios clínicos com uma velocidade impossível em mercados menores, e o resultado é o que executivos do setor já chamam de "China speed".

O apetite ocidental por essa produção científica se traduz em números concretos. Acordos de licenciamento entre empresas chinesas e multinacionais somaram US$ 138 bilhões no ano passado, quase dez vezes mais do que em 20211, e o primeiro trimestre de 2026 já bateu recorde histórico: US$ 60 bilhões em transações de "outlicenciamento", alta de 73% sobre o mesmo período do ano anterior, segundo dados da Administração Nacional de Produtos Médicos da China levantados pela imprensa especializada2.

"A ciência chinesa é hoje a melhor do mundo, e ignorá-la não é mais uma opção" resume um presidente de farmacêutica europeia ouvido pela reportagem original. Fonte: The Telegraph, 17 de setembro de 2026

Washington ergue a muralha regulatória

Do outro lado do Pacífico, a leitura é de risco estratégico. Em dezembro de 2025, o presidente Donald Trump sancionou o Biosecure Act como parte da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) para o ano fiscal de 2026, proibindo agências federais americanas de contratar equipamentos ou serviços de biotecnologia de empresas chinesas classificadas como "de preocupação"3. A norma não cita nomes específicos, mas se apoia na chamada lista 1260H do Pentágono, que cataloga companhias chinesas com vínculos militares, e a gigante WuXi AppTec é vista como candidata natural à inclusão4.

Parlamentares de ambos os partidos já sinalizam que o Biosecure Act é apenas o primeiro movimento. Discute-se em Washington uma legislação mais ampla, submetendo acordos de licenciamento com empresas chinesas a revisões de segurança nacional, além de propostas para impedir que a agência regulatória americana (FDA) aceite dados de testes clínicos realizados na China1. Para o setor farmacêutico americano, o pano de fundo é ainda mais urgente: cerca de US$ 350 bilhões em vendas de medicamentos, um quinto da receita global projetada do setor, perderão proteção de patente até o fim da década, abrindo caminho para concorrentes genéricos1.

O paradoxo europeu

Enquanto isso, a Europa hesita entre dois erros já cometidos no passado: ter sido lenta demais para reagir à concorrência chinesa em aço, painéis solares e veículos elétricos, e agora correr o risco de fechar a porta para uma área em que ainda depende fortemente de insumos e inovação chinesa. Executivos do setor citados pela reportagem original reconhecem que o continente não tem "contrapeso econômico" para excluir a China da cadeia farmacêutica sem prejudicar o próprio acesso a tratamentos1.

Onde o Brasil entra nessa disputa

A fragilidade que preocupa americanos e europeus já é realidade antiga no Brasil, só que em escala ainda maior. Segundo relatório da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), cerca de 95% dos insumos farmacêuticos ativos (IFAs) usados na produção de medicamentos no país são importados5. Há três décadas o Brasil chegava a produzir metade do IFA que consumia; hoje esse número gira em torno de 5%, com a China respondendo, segundo estimativas do setor, por mais de 40% da produção global desses insumos6.

A pandemia de Covid-19 expôs o problema de forma dramática, quando o atraso na chegada de IFA vindo da China represou a produção da vacina de Oxford na Fiocruz7. Passados os anos mais agudos da crise sanitária, a resposta brasileira não foi romper com a China, mas aprofundar a parceria em termos mais favoráveis. Em outubro de 2025, Brasil e China assinaram um acordo inédito para produção conjunta de insulina glargina e pesquisa de análogos do hormônio GLP-1, com transferência de tecnologia da chinesa Gan & Lee para a Biomm e, numa segunda fase, produção do próprio IFA em unidade da Fiocruz no Ceará8. Meses antes, Eurofarma e a estatal chinesa Sinovac haviam proposto criar um instituto conjunto de biotecnologia no Rio de Janeiro, com capacidade projetada de até 500 toneladas anuais de IFAs sintéticos e controle acionário majoritariamente nacional9.

Em janeiro de 2026, o Ministério da Saúde recebeu ainda uma comitiva da Sinopharm, o maior conglomerado farmacêutico estatal chinês, para discutir cooperação na produção de medicamentos, vacinas e hemoderivados10. O desenho é sempre o mesmo: usar a tecnologia e o capital chinês como ponte para reduzir, no médio prazo, a própria dependência do país asiático, uma lógica bem diferente da americana, que tenta erguer barreiras diretas ao acesso.

Contraponto

Nem todo especialista vê a aproximação com a China como risco a ser mitigado. Analistas ouvidos pela reportagem original argumentam que pacientes, no fim das contas, não se importam com a origem do medicamento, desde que ele passe pelos mesmos critérios de segurança e eficácia1. Para o Brasil, essa lógica tem peso adicional: acordos de transferência tecnológica com empresas chinesas têm sido o principal instrumento para reduzir, e não aprofundar, a dependência externa de insumos estratégicos, segundo a própria justificativa oficial dos acordos recentes com Gan & Lee e Sinovac8.

Por outro lado, associações do setor de insumos farmacêuticos alertam que decisões de política industrial tomadas há décadas, e não falta de tecnologia local, explicam a atual dependência de mais de 90% de IFAs vindos de China e Índia, um problema estrutural que exige investimento sustentado, não apenas parcerias pontuais, para ser revertido6.

O que está em jogo daqui para frente

Para o Brasil, o desfecho da disputa entre Washington e Pequim tem três implicações diretas. A primeira é regulatória: se os Estados Unidos avançarem em restringir o uso de dados clínicos chineses, o efeito prático pode ser um mercado global de medicamentos dividido em dois padrões técnicos, obrigando fabricantes brasileiros a escolher a qual polo se alinhar. A segunda é comercial: quanto mais a China precisar redirecionar seus acordos de licenciamento para fora dos Estados Unidos, maior a margem de negociação de países como o Brasil para atrair tecnologia chinesa em condições vantajosas, como já ocorreu nos acordos de insulina e biotecnologia assinados em 2025 e 2026. A terceira é de soberania sanitária: independentemente de qual superpotência prevaleça, a meta declarada da política industrial brasileira, elevar a produção nacional de IFA para além dos atuais 5%, depende de investimento doméstico que nenhum acordo bilateral substitui por completo6.

Fármacos em fase de pesquisa por região, 2024 Gráfico de barras comparando o número de fármacos em pesquisa na China, Estados Unidos e Europa em 2024 1.255 China 1.441 Estados Unidos 400 Europa

Número de fármacos em fase de pesquisa, por região (2024). Fonte: The Telegraph, com base em dados setoriais.

Esta análise usa como ponto de partida a reportagem "The West is hooked on Chinese drugs but they could save your life", de Ben Marlow, publicada pelo The Telegraph em 17 de setembro de 2026. Trechos e dados são citados com atribuição; o texto original, protegido por direitos autorais, não é reproduzido nem traduzido integralmente. Leia a reportagem completa em: telegraph.co.uk.

Perguntas frequentes

Por que a China se tornou uma potência em medicamentos?

Desde 2015, o governo chinês reformou a regulação sanitária, reduzindo o tempo de aprovação de testes clínicos de 501 para 87 dias, e investiu pesado em parques biotecnológicos e no retorno de cientistas formados no exterior. O resultado é um pipeline de mais de 1.200 fármacos em pesquisa, próximo ao dos Estados Unidos e maior do que o da Europa.

O que é o Biosecure Act e como ele afeta a indústria farmacêutica?

É uma lei americana sancionada em dezembro de 2025 dentro da Lei de Autorização de Defesa Nacional (NDAA) de 2026. Ela proíbe agências federais dos Estados Unidos de contratar equipamentos ou serviços de biotecnologia de empresas chinesas classificadas como ameaça à segurança nacional, com base na lista 1260H do Pentágono.

Qual é o nível de dependência do Brasil em relação a insumos farmacêuticos chineses?

Segundo a Anvisa, cerca de 95% dos insumos farmacêuticos ativos usados no Brasil são importados, e a China responde por parcela relevante desse volume, ao lado da Índia. O país já produziu metade do IFA que consumia há três décadas; hoje esse índice é de aproximadamente 5%.

O Brasil está reduzindo ou aumentando sua cooperação com a China na área farmacêutica?

Está aumentando, mas com o objetivo declarado de reduzir a dependência no médio prazo. Acordos recentes, como o de insulina glargina entre Biomm e Gan & Lee e o projeto conjunto entre Eurofarma e Sinovac, preveem transferência de tecnologia e produção futura de IFA em território nacional, e não apenas importação continuada.