Caderno Política · Internacional · França
Um sábado que mudou a escala do protesto
A França foi às ruas em 17 de outubro de 2026 numa mobilização que juntou estudantes secundaristas e universitários, professores, sindicatos, agricultores, taxistas e remanescentes dos coletes amarelos. Segundo o Ministério do Interior francês, cerca de 550 mil pessoas participaram dos atos, 110 mil delas em Paris, conforme registrou a Euronews4. O dia terminou com confrontos, saques, prédios públicos incendiados e um posto de turismo em chamas em Lyon. O eco atravessou a fronteira: em Bruxelas, manifestantes viraram carros em solidariedade.
Para o correspondente Daniel Verdú, do El País, a jornada funcionou como um atestado de óbito político. A reportagem publicada neste domingo sustenta que as ruas francesas sepultaram o projeto de centro radical com que Emmanuel Macron chegou ao Eliseu em 2017 e que pretendia conter a ascensão dos extremos1. O diagnóstico é duro, mas encontra respaldo em indicadores que vão muito além da violência de um fim de semana.
Da sala de aula superlotada à crise de regime
O movimento não nasceu como protesto contra o governo. Começou em meados de setembro em um liceu de Créteil, no subúrbio de Paris, onde alunos saíram às ruas contra prédios deteriorados, turmas superlotadas, falta de professores e um sistema de ensino que consideram profundamente desigual, segundo a Al Jazeera3. Em poucas semanas, os bloqueios de escolas se espalharam pelo país e os estudantes passaram a exigir um pacote de financiamento equivalente a cerca de US$ 11 bilhões, como relatou a CNN2.
A primeira resposta do Estado foi policial. O balanço reunido pelo El País aponta cerca de 9 mil detenções desde o início do movimento, 85% delas de menores de idade, além de aproximadamente 300 estudantes, 150 profissionais da educação e 900 agentes de segurança feridos1. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, informou ao Senado que 36 investigações sobre possível violência policial já haviam sido abertas4.
É nessa passagem, de uma pauta escolar concreta para uma revolta transversal contra o custo de vida, que o caso francês ganha densidade política. O biógrafo de Macron François-Xavier Bourmaud, ouvido pelo El País, compara o momento ao ocaso do gaullismo em 1968 e destaca um ineditismo: grandes mobilizações costumam surgir depois de reformas impopulares ou de desilusões pós-eleitorais, e não a poucos meses de uma eleição presidencial, período em geral mais calmo1.
O cofre vazio e o orçamento de 2027
Bourmaud aponta ainda o fator que torna a crise mais difícil de administrar: segundo ele, não há dinheiro no caixa
, o que impede o governo de usar a saída tradicional de qualquer crise social, que é pagar por ela1.
Os números oficiais confirmam a restrição. Em junho, o Banco da França reduziu sua projeção de crescimento para 2026 a 0,5%, elevou a previsão de inflação para 2,5% e estimou que, sem novas economias, o déficit público subiria de 5,1% para 5,2% do PIB, segundo entrevista do governador Emmanuel Moulin ao jornal Les Echos6. Em setembro, o próprio governo cortou sua estimativa de crescimento para 0,5%, admitiu que a meta de déficit de 5% não seria cumprida e projetou gastos com juros da dívida de 65 bilhões de euros no ano, 4,5 bilhões acima do previsto, de acordo com o WebManagerCenter7. A dívida pública chegou a 117,5% do PIB no fim do primeiro trimestre, segundo o INSEE8, e o El País trabalha com projeções de cerca de 119%1.
É nesse quadro que o primeiro-ministro Sébastien Lecornu tenta aprovar o orçamento de 2027. A proposta prevê cerca de 45 bilhões de euros em novos esforços para levar o déficit a 5% do PIB no próximo ano. O Partido Socialista apresentou moção de rejeição prévia, e o Reagrupamento Nacional anunciou voto contrário, informou a AFP em despacho reproduzido pelo La Libre5. Sem maioria, o governo tem poucas chances de aprovar o texto pelas vias normais e pode recorrer às chamadas ordonnances budgétaires, instrumento constitucional jamais utilizado que permite fazer o orçamento valer sem votação5.
Diante dos liceus, Lecornu anunciou em 7 de outubro cinco frentes de trabalho: substituição de professores ausentes, reforma de prédios diante do calor extremo, reorganização do tempo escolar, mais clareza no Parcoursup e um novo canal de expressão para os alunos. Prometeu decisões até o fim de outubro e destacou que o orçamento da Educação Nacional chegaria a 64 bilhões de euros em 2027, alta nominal de 1,2 bilhão, segundo o Économie Matin11. A imprensa francesa avaliou que o pronunciamento trouxe mais promessas de diálogo do que respostas às reivindicações centrais.
Quando o Estado não tem caixa para pagar a crise nem maioria para negociá-la, a rua deixa de ser pressão e passa a ocupar um vácuo de poder.
A promessa que não se cumpriu
Macron chegou ao poder aos 39 anos, vindo do setor bancário e com passagem pelo Partido Socialista, prometendo uma política que não seria nem de direita nem de esquerda: flexibilizar a economia e o mercado de trabalho sem abandonar a coesão social e a mobilidade pela escola pública. O balanço do El País é que, nove anos depois, os serviços públicos foram esvaziados, a dívida saltou de 98% para perto de 119% do PIB e os polos ideológicos engoliram o debate parlamentar1.
A ruptura geracional talvez seja o dado mais eloquente. Segundo sondagens citadas pelo jornal espanhol, Macron foi o mais votado entre eleitores de 25 a 34 anos na última presidencial, mas, nas legislativas de 2024, menos de um em cada dez jovens votou em candidatos do bloco presidencial1. A reportagem recorda que o presidente admitiu ao escritor Emmanuel Carrère, em 2025, não compreender adolescentes, declaração que hoje circula nas manifestações como síntese de um governo de costas para a juventude.
A dissolução da Assembleia Nacional em junho de 2024, decidida contra a orientação de assessores, completou o quadro. Desde então, a França convive com governos minoritários, quedas sucessivas de primeiros-ministros e a recondução atribulada do próprio Lecornu em outubro de 2025. O ex-primeiro-ministro Manuel Valls, também ouvido pelo El País, descreve um Estado frágil como nunca diante da rua e avalia que, ao abalar a estabilidade herdada do gaullismo, Macron produziu uma confusão de grandes proporções1.
Os extremos como herdeiros
O resultado é um paradoxo. O macronismo prometia esvaziar os extremos e encerra o ciclo com os dois polos como favoritos ao segundo turno. Pesquisa Ipsos bva publicada em junho pelo Le Parisien atribuía ao futuro candidato do RN entre 31% e 36% das intenções de voto no primeiro turno, em todas as configurações testadas, segundo o Parlons Politique9. O barômetro Odoxa para o Public Sénat mostrou Jean-Luc Mélenchon, da LFI, empatado com o ex-primeiro-ministro Édouard Philippe na disputa pela segunda vaga10.
Cada polo capitaliza a crise à sua maneira. Para o cientista político Pascal Perrineau, citado pelo El País, a LFI é a única força capaz de entrar nas manifestações e canalizar a raiva dos estudantes, com cerca de 40% das intenções de voto entre menores de 35 anos, enquanto o RN se apresenta como o partido capaz de restabelecer a ordem1. As cenas de saque e incêndio reforçam o discurso da autoridade; a sensação de abandono da juventude alimenta o da ruptura. O centro fica sem narrativa para disputar qualquer um dos dois públicos.
Fim de um ciclo ou leitura apressada?
Há interpretações menos categóricas sobre a morte do macronismo. Defensores do governo lembram que o desemprego recuou para perto de 7% durante o primeiro mandato, o menor patamar em décadas, e que a França liderou por anos seguidos o barômetro de atratividade de investimento estrangeiro da EY na Europa. Argumentam também que choques externos, da pandemia à guerra na Ucrânia e ao conflito no Oriente Médio que encareceu energia e combustíveis em 2026, explicam parte relevante da deterioração fiscal.
O orçamento da Educação Nacional, por sua vez, passou de 48,8 bilhões de euros em 2017 para os 64 bilhões previstos em 2027, segundo a carta de Lecornu aos ministros14, embora sindicatos docentes contestem a conta e apontem a supressão de cerca de 4 mil vagas de professores no orçamento de 202615. Por fim, pesquisas são fotografias de momento: o pleito de abril de 2027 dependerá de alianças de segundo turno ainda indefinidas, e a própria eleição de Macron em 2017 mostrou como o sistema francês pode surpreender.
O espelho brasileiro
O Brasil acompanha a crise francesa a uma semana do segundo turno presidencial de 25 de outubro, entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). A primeira pesquisa Quaest da etapa final mostrou Flávio com 46% e Lula com 44%, empate técnico dentro da margem de erro, segundo o J3News13. A abstenção no primeiro turno chegou a 21,08%, cerca de 33,4 milhões de eleitores, o maior índice registrado pela Justiça Eleitoral desde 1998, de acordo com dados do TSE reportados pelo Aratu On12.
As comparações exigem cautela. O voto obrigatório, o sistema partidário e o calendário eleitoral brasileiros produzem dinâmicas próprias. Ainda assim, três paralelos merecem atenção.
A escola como estopim
Em 2015, estudantes secundaristas ocuparam cerca de duzentas escolas estaduais em São Paulo contra o plano de reorganização da rede e levaram o governo paulista a suspendê-lo. Em 2016, uma nova onda de ocupações se espalhou pelo país contra a reforma do ensino médio e o teto de gastos. Como em Créteil, a pauta começou pela infraestrutura e pelas condições de ensino.
A pauta concreta que vira mal-estar difuso
As Jornadas de Junho de 2013 começaram com a tarifa de ônibus e terminaram questionando a representação política como um todo. A França repete agora esse padrão: a reivindicação escolar abriu caminho para uma revolta contra o custo de vida que reúne grupos sem agenda comum.
O limite fiscal
O caso francês mostra o que acontece quando um governo precisa responder a demandas sociais sem espaço orçamentário e sem maioria para negociar. O dilema entre ajuste e gasto social está no centro do debate brasileiro e não terá solução mais fácil depois da eleição, seja qual for o vencedor.
A lição francesa não é ideológica. Ela diz respeito à capacidade das instituições de processar demandas antes que elas transbordem. Quando os partidos de governo deixam de falar com os jovens, o espaço é ocupado por quem promete ruptura ou ordem. Para um país que discute abstenção recorde e polarização, esse dado merece mais atenção do que o espetáculo das chamas em Paris.
O que observar nas próximas semanas
- O destino do orçamento de 2027 na Assembleia Nacional e o eventual uso inédito das ordonnances budgétaires.
- As medidas para os liceus que o governo prometeu apresentar até o fim de outubro, com custo, financiamento e calendário.
- O andamento das investigações sobre violência policial conduzidas pela Inspeção-Geral da Polícia Nacional (IGPN).
- A evolução das pesquisas presidenciais e a definição da candidatura do RN para abril de 2027.
- A sobrevivência política de Sébastien Lecornu no debate orçamentário.
Perguntas frequentes
O que aconteceu na França em 17 de outubro de 2026?
Cerca de 550 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior francês, protestaram em todo o país contra o custo de vida e as condições do ensino público. O movimento reuniu estudantes, professores, sindicatos, agricultores e remanescentes dos coletes amarelos, e terminou com confrontos, saques e incêndios em Paris, Nantes e Lyon.
Por que os estudantes franceses estão protestando?
O movimento começou em meados de setembro de 2026 em um liceu de Créteil, contra prédios deteriorados, turmas superlotadas, falta de professores e desigualdade entre escolas. Os estudantes reivindicam um pacote de financiamento estimado em cerca de US$ 11 bilhões e passaram a incorporar pautas mais amplas sobre custo de vida e futuro profissional.
O que significa o “fim do macronismo”?
A expressão descreve o esgotamento do projeto político de Emmanuel Macron, que prometia um centro capaz de esvaziar os extremos. A seis meses do fim de seu segundo mandato, sem poder concorrer novamente, Macron tem baixa popularidade, o governo não tem maioria parlamentar e as forças mais bem posicionadas para 2027 são o RN e a LFI.
Quem lidera as pesquisas para a eleição presidencial francesa de 2027?
O Reagrupamento Nacional lidera todas as configurações testadas, com 31% a 36% das intenções de voto no primeiro turno segundo o Ipsos bva (junho de 2026). A disputa pela segunda vaga está aberta entre Édouard Philippe, de centro-direita, e Jean-Luc Mélenchon, da LFI. O primeiro turno está previsto para abril de 2027.
Qual é a situação fiscal da França?
A dívida pública chegou a 117,5% do PIB no primeiro trimestre de 2026 (INSEE), o crescimento previsto para o ano caiu para 0,4% a 0,5% e o déficit deve ficar acima de 5% do PIB. Os juros da dívida devem custar cerca de 65 bilhões de euros em 2026, o que reduz a margem do governo para atender às demandas dos manifestantes.
O que a crise francesa tem a ver com o Brasil?
O Brasil vive o segundo turno presidencial em 25 de outubro de 2026, com abstenção recorde no primeiro turno (21,08%, segundo o TSE) e forte polarização. A experiência francesa mostra como demandas escolares e de custo de vida podem se transformar em crise política quando o sistema partidário perde contato com os jovens, padrão já visto no Brasil nas ocupações secundaristas de 2015 e 2016 e nas Jornadas de Junho de 2013.
Ewerton Lopes — Curador Editorial do O Tecido · Caderno Política