Política · Estados Unidos · Midterms 2026
Uma fotografia feita com teleobjetiva na terça-feira, 13 de outubro, a bordo do Marine One, o helicóptero presidencial, tornou-se em poucos dias o retrato mais comentado da Casa Branca de Donald Trump. Na imagem, de autoria do fotógrafo Doug Mills, do The New York Times, o presidente aparece inclinado em conversa com duas assessoras, Katie Zacharia, então recém-nomeada secretária de imprensa, e Natalie Harp, sua assistente executiva. A chefe de gabinete, Susie Wiles, está no mesmo assento, mas quase fora do enquadramento. Três dias depois, Zacharia já não estava no cargo. A coluna de opinião de Maureen Dowd publicada neste sábado no NYT usa a foto como chave de leitura para uma tese direta: a bolha que cerca o presidente está encolhendo e se tornando mais conflituosa justamente quando as eleições de meio de mandato se aproximam.[1]
O Tecido não reproduz a coluna, que é abertamente crítica ao presidente e usa adjetivos que pertencem ao gênero opinativo. O que interessa aqui é separar o que é interpretação do que é fato verificável e entender por que uma semana de turbulência no núcleo de poder em Washington tem consequências que alcançam o Brasil.
O que a foto de Marine One mostra, e o que ela sugere
Dowd insere a imagem numa tradição de fotografias que acabaram definindo presidências, como a de George W. Bush recebendo a notícia do segundo avião contra o World Trade Center numa sala de aula na Flórida, ou a de Barack Obama abaixando a cabeça para que um menino negro tocasse seu cabelo no Salão Oval. Para a colunista, a cena no helicóptero condensa, em tradução livre, "a fome de adulação de Trump", e as portas curvas da aeronave, ladeadas por fuzileiros navais, dariam ao observador a sensação de espiar o interior de uma bolha.[1]
A leitura é subjetiva, como toda interpretação de imagem. O dado objetivo é outro: a composição da foto coincide com a hierarquia real de acesso ao presidente naquela semana. As duas assessoras em primeiro plano eram, segundo a imprensa americana, figuras em atrito aberto com a chefe de gabinete, que aparece cortada da cena. O próprio Trump havia escolhido Zacharia sem consultar Wiles, movimento que integrantes da ala oeste interpretaram como um esvaziamento deliberado da autoridade da chefe de gabinete.[4]
Cinco dias no púlpito: a passagem relâmpago de Katie Zacharia
Zacharia foi anunciada por Trump nas redes sociais em 9 de outubro e assumiu oficialmente em 12 de outubro, sucedendo Karoline Leavitt. Antes, trabalhara na comunicação da empresa que opera a rede Truth Social e, por um curto período, como porta-voz do Departamento de Segurança Interna.[3] Fez uma única entrevista coletiva, de cerca de 14 minutos e poucas perguntas respondidas, que recebeu avaliações negativas inclusive entre aliados do governo. Segundo a CNN, um assessor de Trump reagiu à estreia com um palavrão e a pergunta sobre o que estava acontecendo.[2]
O episódio decisivo veio no mesmo dia, antes do voo para o Alasca. Questionada por um repórter do NYT sobre onde havia sido aprovada no exame da ordem dos advogados americana, o chamado bar exam, ela deu uma resposta sem relação com a pergunta. Depois explicou que o barulho do helicóptero a fez entender outra coisa. A apuração subsequente mostrou que ela nunca foi aprovada no exame, embora tivesse sido apresentada pelo próprio presidente como advogada.[3][6] Na sexta-feira, 16, Trump contou a jornalistas que havia sugerido a ela que reconsiderasse a função. A saída foi confirmada pela NBC News e pela CNN, e Zacharia passou a ser registrada como a secretária de imprensa de mandato mais curto da história da Casa Branca.[2][3]
A disputa pelo acesso: Susie Wiles e o "impressor humano"
Natalie Harp, de 35 anos, é conhecida em Washington pelo apelido de "impressora humana": acompanha o presidente com uma impressora portátil e lhe entrega versões em papel de reportagens e comentários das redes. Na quinta-feira, 15, ela levou a Trump a edição impressa do Politico Playbook que relatava telefonemas do presidente a aliados sondando nomes para substituir Wiles. Segundo o Politico, a leitura provocou uma explosão de irritação no Salão Oval, enquanto Wiles e seus aliados tentavam conter os danos por telefone.[4]
O mesmo noticiário mencionou negócios de pessoas próximas à chefe de gabinete no exterior, incluindo a filha, Katie Wiles, sócia de uma firma de lobby. Trump negou a reportagem, classificou-a como "fake news" e defendeu Wiles como sua chefe de gabinete mais leal e duradoura. A porta-voz Danielle Alvarez reforçou a negativa.[4]
O ponto institucional é menos anedótico do que parece. Na Casa Branca, o chefe de gabinete funciona como filtro: define quem entra, que informação chega e em que ordem. Quando uma assessora com acesso pessoal irrestrito passa a entregar ao presidente justamente as notícias que enfraquecem esse filtro, a cadeia de comando se inverte. No Brasil, a função de coordenação política e administrativa cabe à Casa Civil, e a comunicação presidencial à Secom; o desenho é diferente, mas o dilema é o mesmo em qualquer governo personalista. O fluxo de informação até o chefe do Executivo é uma decisão de poder, não um detalhe logístico.
Uma sequência de outubro que vai além da foto
A foto ganhou peso porque chegou no meio de uma série de episódios que a Axios descreveu como uma enxurrada de controvérsias nos primeiros 15 dias de outubro, substituindo a tradicional "surpresa de outubro" das campanhas americanas.[6] Entre os fatos documentados:
- Embaixada na Grécia. Kimberly Guilfoyle deixou o posto de embaixadora em Atenas depois de o Wall Street Journal revelar mensagens em que ela teria pedido a um doador republicano, Eric Deters, US$ 100 mil para quitar uma fatura de cartão American Express pouco antes da sabatina no Senado. O doador não pagou. Guilfoyle nega irregularidades e seu advogado contesta a autenticidade das mensagens. Foi a própria Zacharia quem anunciou a saída.[5]
- Execução transmitida ao vivo. O plano de transmitir pela internet o fuzilamento de um condenado foi abandonado após reação negativa de democratas e republicanos.[6]
- Ucrânia e diesel russo. Em 9 de outubro, Trump anunciou um acordo que libera exportações de diesel da Rússia. Zelensky disse à Axios que a medida não era justa nem honesta e, em outra entrevista, afirmou ter se sentido traído. Kiev também relatou restrições ao Starshield, versão militar do Starlink; Trump nega que tenha havido redução do serviço.[7]
Dowd acrescenta à lista acusações envolvendo Ric Grenell e uma doação ao Kennedy Center, que O Tecido não verificou de forma independente e registra apenas como menção da colunista.[1]
O peso das pesquisas a três semanas das midterms
As eleições de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro de 2026 e renovam toda a Câmara dos Representantes e um terço do Senado. Os institutos convergem num ponto: a aprovação de Trump está no patamar mais baixo do segundo mandato. O Pew Research Center registrou 30% de aprovação e 68% de desaprovação em levantamento de 28 de setembro a 4 de outubro, com a maior parte da queda concentrada entre eleitores que votaram nele em 2024.[8] A pesquisa Fox News divulgada nesta semana apontou 36%, com apenas 22% de aprovação para a condução da inflação, e mostrou a corrupção no governo ultrapassando ligeiramente a inflação como a preocupação mais intensa dos eleitores.[6]
Os limites da leitura pela imagem
Há bons motivos para cautela antes de decretar o estouro da bolha. Primeiro, Trump já contrariou previsões semelhantes em 2016 e em 2024, e a própria Axios observa que ele passou uma década desafiando a gravidade política.[6] Segundo, nem todos os institutos registram o mesmo grau de desgaste: o Napolitan News Service, associado a um pesquisador conservador, aponta 41% de aprovação, ainda que com o maior saldo negativo de intensidade da sua série.[9] Terceiro, a Casa Branca sustenta a leitura oposta: a porta-voz Allison Schuster afirmou que outubro está se desenhando como mais um mês extraordinário para o governo. No caso ucraniano, um funcionário americano disse à Axios que o acordo do diesel veio depois de Zelensky ignorar pedidos reiterados para parar de atacar refinarias russas.[6][7] Por fim, rotatividade de assessores é traço recorrente das gestões de Trump, e nem sempre se traduziu em perda eleitoral.
Por que isso importa para o Brasil
A semana turbulenta em Washington coincide com a reta final do segundo turno brasileiro, marcado para 25 de outubro, entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. A Axios descreveu a disputa como um teste da influência de Trump na maior economia da América Latina. O presidente americano disse acompanhar a eleição brasileira muito de perto, sem declarar apoio, e Flávio prometeu aderir à iniciativa "Escudo das Américas" caso vença.[10]
O pano de fundo econômico é concreto. Desde julho de 2025, as exportações brasileiras enfrentam a sobretaxa imposta por Washington. Em sabatina na TV Globo neste sábado, Lula afirmou que o comércio com os Estados Unidos recuou 9%, enquanto as trocas com a China cresceram 20%, e descreveu sua relação com Trump como civilizada, com negociação comercial em curso.[11] O resultado das midterms pesa nessa equação: uma Câmara sob controle democrata amplia a capacidade do Congresso de fiscalizar a política comercial e externa da Casa Branca. Para Brasília, um interlocutor americano mais pressionado internamente e um núcleo de assessores em disputa significam negociações menos previsíveis, seja qual for o vencedor no Brasil.
Leitura do Tecido
A coluna de Dowd é opinião, e assim deve ser lida. O que resiste à verificação é um padrão: em uma única semana, a Casa Branca perdeu uma secretária de imprensa, uma embaixadora e parte da autoridade da chefe de gabinete, enquanto a aprovação presidencial seguia em queda. A fotografia não prova a tese da colunista, mas documenta algo útil ao leitor: em governos centrados numa só pessoa, a proximidade física vale mais que o cargo formal, e é aí que se decidem a informação que chega ao topo e a que fica do lado de fora.
Perguntas frequentes
Quem é Katie Zacharia e por que ela deixou o cargo?
Katie Zacharia foi nomeada secretária de imprensa da Casa Branca em 9 de outubro de 2026 e deixou a função em 16 de outubro, após uma única entrevista coletiva mal avaliada e a revelação de que nunca foi aprovada no exame da ordem dos advogados nos EUA, apesar de ter sido apresentada como advogada. É considerada a secretária de imprensa de mandato mais curto da história.
Quem é Natalie Harp?
Natalie Harp é assistente executiva de Donald Trump, conhecida como "impressora humana" por levar ao presidente reportagens impressas. Em outubro de 2026, ela entregou a Trump uma reportagem do Politico sobre a possível substituição da chefe de gabinete Susie Wiles, episódio que expôs a disputa interna por acesso ao presidente.
O que diz a coluna de Maureen Dowd no New York Times?
Na coluna publicada em 17 de outubro de 2026, Maureen Dowd usa uma foto de Doug Mills feita no helicóptero Marine One para argumentar que o círculo íntimo de Trump está encolhendo e mais conflituoso, num momento de aprovação em queda e às vésperas das eleições de meio de mandato. Trata-se de texto de opinião.
Quando são as eleições de meio de mandato nos EUA em 2026?
As midterms ocorrem em 3 de novembro de 2026 e renovam todas as cadeiras da Câmara dos Representantes e um terço do Senado. O resultado define a capacidade do Congresso de aprovar ou bloquear a agenda do presidente nos dois anos finais do mandato.
Como a crise na Casa Branca pode afetar o Brasil?
O Brasil negocia com Washington a sobretaxa aplicada às suas exportações desde 2025, e Trump acompanha de perto o segundo turno brasileiro de 25 de outubro. Um governo americano sob pressão interna e com mudanças na composição do Congresso tende a tornar as negociações comerciais e diplomáticas menos previsíveis.
Ewerton Lopes — Curador Editorial · O Tecido · Caderno Política