Política · Geopolítica e soberania
Em resumo
- Dinamarca e Suécia respondem à ameaça russa, à concorrência chinesa e à incerteza sobre os Estados Unidos com mais gasto militar, conscrição ampliada e preparação civil.
- Em 2025, a Dinamarca gastou proporcionalmente mais em defesa que os EUA (3,25% contra 3,1% do PIB, segundo o SIPRI).
- A Suécia passou a garantir compras essenciais com cartão mesmo sem internet e estuda fazer o mesmo com seu sistema nacional de pagamentos, o Swish.
- Os dois países diversificam parceiros comerciais e de defesa e aprofundam a integração nórdica, apoiados em regras fiscais herdadas da crise dos anos 1990.
- O Brasil tem um ativo raro, o Pix, hoje alvo de tarifa americana, mas gasta 1,1% do PIB em defesa com governança fragmentada.
Por três décadas, poucos lugares do mundo aproveitaram tanto o fim da Guerra Fria e a abertura dos mercados quanto os países nórdicos. Multinacionais de alcance global, comércio sem fronteiras e a garantia de segurança americana compunham um arranjo confortável. Esse arranjo terminou. Em coluna publicada no último dia 10 no The Wall Street Journal, o comentarista econômico Greg Ip relata uma visita a Copenhague e Estocolmo e descreve como Dinamarca e Suécia reorganizaram prioridades diante de uma Rússia que ameaça seu território, de uma China que disputa seus mercados e de um aliado americano que já não oferece certezas.1
A tese do texto é direta: em vez de pagar caro pela transição para um mundo mais fechado e perigoso, os dois países parecem estar prosperando. Vale examinar o que há de concreto nessa avaliação, o que ela omite e por que interessa ao Brasil, que vive em 2026 sua própria tensão com Washington.
Como Dinamarca e Suécia estão se rearmando?
Os números confirmam a guinada. De acordo com o levantamento anual do Instituto Internacional de Pesquisa para a Paz de Estocolmo (SIPRI), divulgado em abril, a Dinamarca elevou seus gastos militares em 46% em termos reais em 2025, chegando a cerca de 3,25% do PIB. A Noruega, vizinha e parceira, subiu 49% e alcançou 3,28%. Ambas ultrapassaram, em proporção da economia, os Estados Unidos, cujo gasto caiu 7,5% no ano e ficou em 3,1% do PIB. A Suécia aparece com 2,5%, exatamente a média mundial.2 Segundo o mesmo instituto, os membros europeus da Otan aumentaram seus orçamentos de defesa no ritmo mais rápido desde 1953.
Gasto militar como proporção do PIB, 2025 (%)
Mais revelador que o volume é o consenso político. Segundo o relato do WSJ, nas eleições dinamarquesas de março e nas suecas de setembro, partidos de esquerda e de direita, incluindo as legendas anti-imigração, defenderam o reforço militar.1 A explicação está no mapa. Em fevereiro de 2025, o Serviço de Inteligência de Defesa da Dinamarca publicou uma avaliação de ameaças segundo a qual, se a guerra na Ucrânia for congelada, a Rússia poderia travar uma guerra local contra um vizinho em seis meses, ameaçar países da Otan no Báltico em dois anos e estar pronta para um conflito de grande escala na Europa em cinco, caso a aliança não acompanhe seu ritmo e os Estados Unidos fiquem de fora.4
A mobilização chega à vida civil. A Suécia, que retomou o serviço militar obrigatório em 2018, convoca cerca de 9 mil recrutas neste ano, ante 3.500 naquele momento. A Dinamarca tornou mulheres elegíveis para a conscrição e ampliou o tempo de serviço de quatro para onze meses. As famílias dinamarquesas foram orientadas a manter em casa suprimentos para três dias, incluindo água, comida, remédios e um rádio a pilha.1
Por que a Suécia criou pagamentos sem internet?
O exemplo mais engenhoso da reportagem é também o mais distante do imaginário militar. A Suécia é uma das sociedades com menor uso de dinheiro em espécie do mundo, o que a torna vulnerável a uma pane nas redes de dados. Para enfrentar esse risco, o banco central sueco coordenou um acordo com emissores, bandeiras, credenciadoras e varejo que entrou em vigor em 1º de julho de 2026: com o cartão físico e a senha, o consumidor consegue comprar alimentos, remédios e combustível mesmo sem conexão, durante interrupções de até sete dias.3
O detalhe político está no passo seguinte. No Relatório de Pagamentos 2026, o Riksbank anunciou estudos com o Swish, sistema de pagamento por celular controlado por bancos locais, para que ele também funcione offline, e classificou a iniciativa como forma de fortalecer a soberania nacional em pagamentos.3 Ao jornal americano, o presidente da instituição, Erik Thedéen, observou que as duas bandeiras dominantes de cartão no país têm a mesma nacionalidade: americana.1 Em outras palavras, a redundância não protege apenas contra hackers russos. Protege também contra a dependência de um único aliado.
A lição nórdica não está no tamanho do orçamento militar, e sim na capacidade de transformar medo difuso em política de Estado com prazo, responsável e financiamento.Análise · O Tecido
Como os nórdicos estão reduzindo a dependência dos Estados Unidos?
A reportagem descreve um despertar provocado pelo compromisso morno de Donald Trump com a Otan e pela tentativa de anexar a Groenlândia, território autônomo ligado à Dinamarca, iniciativa que, segundo o WSJ, foi engavetada por um acordo bilateral em setembro.1 Dinamarqueses e suecos perceberam que dependem de tecnologia americana em quase tudo: mísseis Patriot na defesa aérea, Palantir em sistemas de inteligência artificial policial e militar, Microsoft nos computadores do governo.
A resposta combina três movimentos. O primeiro é industrial: a Dinamarca, que admite ter negligenciado por décadas sua base de defesa, começou a produzir drones com expertise ucraniana; a Suécia, que já tem uma indústria robusta, aposta em compras conjuntas com europeus e canadenses, adquirindo fragatas francesas enquanto a França compra o avião de vigilância GlobalEye, da Saab.1 O segundo é comercial: os Estados Unidos seguem como principal mercado, mas o crescimento adicional deve vir de acordos de livre comércio da União Europeia com Canadá, Índia e Austrália. O terceiro é regional. Em 1º de outubro, os ministros nórdicos aprovaram uma declaração que cria a Aliança Nórdica de Crescimento, voltada a ampliar o acesso a capital de risco, cooperar em tecnologia quântica, centros de dados e espaço, reforçar a capacidade em minerais críticos e reduzir a burocracia para empresas.5
Qual o papel da disciplina fiscal na fórmula nórdica?
Aqui está, talvez, o ponto que diferencia os escandinavos de vizinhos maiores. A coluna lembra que a França enfrenta uma crise fiscal agravada pelo gasto militar, que o Canadá sofreu com a guerra comercial e que a política alemã foi sacudida pela ascensão de um partido de direita simpático a Moscou.1 Dinamarca e Suécia, ao contrário, chegaram a esse momento com as contas arrumadas.
No caso sueco, a explicação é histórica. No início dos anos 1990, o país viveu quebra de bancos, explosão do déficit e do desemprego e uma alta de juros que chegou, por alguns dias de 1992, a 500%. Daquele trauma nasceram regras rígidas para o déficit, um banco central independente e uma previdência que ajusta benefícios à expectativa de vida. A Dinamarca vem registrando superávits. Mesmo assim, o banco central dinamarquês adverte, segundo a reportagem, que o país pode bancar o rearmamento, mas sobrará menos dinheiro para outras prioridades.1
| Pilar | Medida concreta | Situação no Brasil |
|---|---|---|
| Defesa | Gasto acima de 3% do PIB (Dinamarca), conscrição ampliada | 1,1% do PIB, maior parte em pessoal |
| Infraestrutura crítica | Pagamento com cartão offline; Swish offline em estudo | Pix público e gratuito, alvo de tarifa americana |
| Parcerias | Compras conjuntas com Europa e Canadá; Aliança Nórdica de Crescimento | Exportação de defesa em alta; integração regional limitada |
| Âncora fiscal | Regras herdadas da crise de 1990 a 1993 | Investimento em defesa parcialmente fora da meta fiscal desde 2025 |
E o Brasil? Pix, tarifa e um orçamento de defesa que não fecha
À primeira vista, a comparação parece forçada. O Brasil não tem a Rússia do outro lado do mar. Mas 2026 aproximou o país de uma das perguntas centrais da reportagem: o que acontece quando o aliado de referência deixa de ser previsível? Em 22 de julho entrou em vigor uma tarifa adicional de 25% sobre produtos brasileiros, resultado de investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Entre as práticas apontadas como desleais está justamente o Pix, sistema de pagamentos instantâneos operado pelo Banco Central, acusado de favorecimento em detrimento de empresas americanas. O governo brasileiro classificou o tema como inegociável.7
Há uma ironia evidente. O que o Riksbank tenta construir agora, um trilho de pagamentos nacional que não dependa de bandeiras estrangeiras, o Brasil já tem desde 2020. O Pix é exatamente o tipo de ativo que os suecos querem blindar. A diferença é que a Suécia trata a questão como planejamento de contingência, com acordo entre bancos, varejo e autoridade monetária, enquanto no Brasil o tema chegou ao debate público pela via do conflito comercial.
Na defesa, o contraste é maior. O SIPRI registrou alta real de 13% no gasto militar brasileiro em 2025, para US$ 23,9 bilhões, o 21º maior orçamento do mundo. Em proporção do PIB, porém, o país caiu de 1,3% em 2016 para 1,1% em 2025, menos da metade da média global.2 Reportagem da BBC News Brasil mostrou que a fatia destinada a modernização e pesquisa gira entre 6% e 8% do orçamento da Defesa, segundo pesquisador da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército. O mesmo texto registra a declaração do ministro José Múcio, em 4 de agosto, de que o país não teria equipamento para resistir a uma invasão americana e preferiria "abrir o portão".6
O problema não é só de dinheiro. Uma lei complementar de novembro de 2025 permitiu que até R$ 30 bilhões em seis anos para projetos estratégicos fiquem fora da meta fiscal, mas o orçamento regular da pasta sofreu o maior bloqueio entre os ministérios em maio. Relatório da área técnica do Tribunal de Contas da União, ainda não julgado pelo plenário, aponta que as prioridades dependem de consenso entre os três comandantes, o que dá a cada um poder de veto, e que o governo mantém mais projetos do que consegue financiar: o programa de submarinos teve o prazo esticado de cinco para 26 anos.6 É o oposto do que a reportagem do WSJ descreve na Escandinávia, onde diagnóstico, prioridade e financiamento caminham juntos.
Há sinais de mudança. O presidente Lula disse que pretende incluir a defesa como prioridade em seu programa de governo, e as autorizações de exportação de produtos de defesa cresceram 29% no primeiro semestre.6 Mas, num ano eleitoral polarizado, o consenso suprapartidário que sustenta o rearmamento nórdico está longe de existir por aqui.
Contraponto
Os limites da comparação
Escala e coesão. Dinamarca e Suécia têm, juntas, menos de 17 milhões de habitantes, renda per capita elevada e alto grau de confiança nas instituições. Construir consenso nessas condições é mais simples do que num país continental com desigualdade profunda e demandas sociais urgentes.
Natureza da ameaça. O rearmamento nórdico responde a um risco militar concreto e próximo, documentado por serviços de inteligência. O Brasil não enfrenta ameaça convencional equivalente, e há quem defenda que 1,1% do PIB seja compatível com seu entorno estratégico. Elevar o gasto sem corrigir a governança apontada pelo TCU dificilmente compraria capacidade real.
Custos ainda não pagos. O próprio banco central dinamarquês alerta que o rearmamento reduz espaço para outras políticas. A avaliação de que os nórdicos estão prosperando é de um colunista, feita no início do ciclo. Os efeitos de longo prazo sobre o Estado de bem-estar ainda não apareceram.
Autonomia relativa. Mesmo os escandinavos seguem dependentes de caças F-35 e mísseis Patriot. A redução da dependência americana é um processo de décadas, não uma ruptura.
O que fica da fórmula nórdica
Lida com atenção, a coluna de Greg Ip descreve menos uma receita de gasto militar e mais um método de governo: reconhecer cedo uma mudança de ambiente, construir diagnóstico compartilhado entre partidos, proteger esse esforço com regras fiscais e espalhar a resiliência por áreas que parecem banais, como o terminal de cartão do supermercado. Para o Brasil, a parte transferível não é a meta de 3% do PIB. É a ideia de que soberania se exerce com redundância, prioridades claras e alianças diversificadas, e que um ativo como o Pix precisa ser tratado como infraestrutura crítica, não apenas como bandeira em disputa comercial.
Perguntas frequentes
O que é a chamada fórmula nórdica?
É o conjunto de respostas de Dinamarca e Suécia à piora do ambiente geopolítico: mais gasto militar com apoio de esquerda e direita, redundância em infraestruturas críticas como pagamentos, diversificação de parceiros e integração regional, sustentados por regras fiscais rígidas herdadas da crise dos anos 1990.
Quanto Dinamarca e Suécia gastam em defesa?
Segundo o SIPRI, em 2025 a Dinamarca destinou cerca de 3,25% do PIB à defesa, acima dos 3,1% dos Estados Unidos, após alta real de 46%. A Suécia gastou cerca de 2,5%, igual à média mundial. O Brasil ficou em 1,1%.
Por que a Suécia passou a permitir pagamentos com cartão sem internet?
Desde 1º de julho de 2026, cartão físico e senha permitem comprar alimentos, remédios e combustível sem conexão por até sete dias de pane. O objetivo é manter a economia funcionando em caso de ataque cibernético ou falha nas redes, num país que quase não usa dinheiro em espécie.
O que o Brasil pode aprender com a Dinamarca e a Suécia?
A lição principal é institucional: transformar resiliência em política de Estado, com consenso entre partidos, prioridades definidas, financiamento previsível e redundância em sistemas críticos. O Brasil já tem o Pix, mas enfrenta fragmentação na governança da defesa e um orçamento militar concentrado em pessoal.
A fórmula nórdica pode ser replicada no Brasil?
Só em parte. Os nórdicos são pequenos, ricos, coesos e vizinhos de uma ameaça militar direta. O que se transfere é o método: diagnóstico compartilhado, regras fiscais que protejam investimentos de longo prazo e redução de dependências tecnológicas críticas.
Ewerton Lopes — Curador Editorial