Sustentabilidade · Florestas e política
O ano de 2025 entrou para a contabilidade das florestas como o de maior queda do desmatamento global nesta década. A perda de cobertura florestal recuou 15% em relação a 2024, segundo a edição de 2026 da Avaliação da Declaração sobre as Florestas, divulgada nesta quarta-feira, 14 de outubro[1]. Cerca de 7 milhões de hectares foram destruídos de forma permanente, área comparável à da Irlanda, de acordo com o resumo da agência AFP reproduzido pelo Phys.org[2]. O dado positivo, porém, chega acompanhado de uma ressalva que interessa diretamente ao Brasil: o motor dessa melhora está na América Latina, e a América Latina atravessa um ciclo eleitoral capaz de desfazê-lo.
A leitura central do relatório, conforme reportagem de Ana Puentes no El País, é que os avanços em conservação dependem da disposição política de um grupo pequeno de países[1]. Brasil e Colômbia são citados nominalmente. No primeiro, o segundo turno presidencial de 25 de outubro opõe Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL). No segundo, Abelardo de La Espriella assumiu a Presidência com uma agenda que prioriza petróleo, gás e expansão agrícola.
O que diz a Avaliação da Declaração sobre as Florestas
A Avaliação é produzida anualmente por uma coalizão de organizações da sociedade civil e de pesquisa e mede a evolução da perda florestal em relação ao período de referência de 2018 a 2020. O documento acompanha o cumprimento de compromissos como a Declaração de Líderes de Glasgow, assinada na COP26, em 2021, em que mais de 140 países se comprometeram a deter e reverter a perda de florestas até 2030.
Segundo o relatório, a América Latina reduziu sua perda florestal em 33% em 2025, e foi essa queda que puxou o resultado global[1][2]. A autora principal do estudo, Erin Matson, consultora da Climate Focus, descreveu os vetores desse progresso como "frágeis e passíveis de reversão", em entrevista coletiva citada pelo El País[1]. Ela relacionou os grandes vaivéns observados em alguns países à chegada de governos que abandonam políticas florestais, cortam verbas de fiscalização ou desautorizam publicamente a aplicação da lei.
O retrato completo continua distante da meta. Pelas contas do relatório, o mundo permanece cerca de 70% fora da trajetória necessária para zerar o desmatamento até 2030. Se o ritmo estivesse adequado desde o início da década, 10,7 milhões de hectares que vieram abaixo ainda estariam de pé, uma área equivalente à de Cuba[1]. A edição anterior da Avaliação já havia apontado a agricultura permanente como responsável por 86% da perda florestal global na última década, segundo levantamento divulgado pela agência IPS[3].
O peso do Brasil: o que mostram os dados do Inpe
O Brasil concentra cerca de 60% da Amazônia, e os números domésticos ajudam a entender por que o relatório olha para cá com atenção. Entre agosto de 2025 e julho de 2026, a área sob alerta de desmatamento na Amazônia somou 2.874,38 km², queda de 36,87% em relação ao ciclo anterior, segundo dados do sistema Deter apresentados pelo Inpe em agosto e noticiados pela Agência Brasil[4]. O volume ficou 55,6% abaixo da média dos dez ciclos anteriores. A taxa oficial do período, calculada pelo Prodes, ainda depende de consolidação.
O dado do Deter se soma à série do Prodes, que registrou em 2025 o quarto ano consecutivo de queda na Amazônia, com recuo de cerca de 11% em relação a 2024, segundo números divulgados pelo governo e reportados pelo Viva/Estadão[5]. Para efeito de referência, o menor patamar da série histórica do Prodes foi alcançado em 2012, com 4.571 km², como lembrou a Agência Pública[6]. Se a tendência do Deter se confirmar, 2026 pode superar essa marca.
A história recente também mostra a velocidade com que esse quadro se inverte. O Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), criado em 2004, ajudou a reduzir o desmatamento em 83% até 2012, segundo o Dialogue Earth[7]. A partir de 2019, cortes orçamentários, falta de pessoal nos órgãos ambientais e o desmonte das estruturas de governança levaram à interrupção do plano, o que contribuiu para o aumento da perda florestal entre 2019 e 2021, conforme análise de Ana Flávia Corleto, do Climate Policy Initiative, citada pelo El País[1].
Há ainda um dado que ajuda a localizar onde a disputa institucional se dá. Entre os alertas do Deter na Amazônia até maio de 2026, 37,1% ocorreram em áreas regularizadas, 21,3% em florestas públicas não destinadas e 17,4% em áreas sem registro fundiário, de acordo com o jornal A Crítica[8]. Ou seja, uma parcela relevante da pressão incide sobre terras cuja destinação depende de decisões do governo federal.
25 de outubro: o que dizem os programas de governo
O Observatório do Clima, rede que reúne organizações socioambientais e institutos de pesquisa, analisou os planos dos candidatos à Presidência. Segundo o levantamento citado pelo El País, o programa de Lula contempla 16 dos 28 compromissos ambientais que a rede considera necessários. O de Flávio Bolsonaro contempla um[1].
De acordo com artigo publicado no Poder360 sobre o mesmo relatório, o plano de Lula estabelece como meta zerar o desmatamento líquido até 2030, com reforço do Código Florestal, manejo integrado do fogo, destinação de terras públicas e regularização fundiária. O plano de Flávio Bolsonaro não menciona a crise climática nem apresenta metas de redução de emissões[9]. Uma das propostas que mais chamou a atenção de analistas, descrita em coluna do O Povo, prevê a concessão automática de licenças ambientais quando o órgão responsável não decidir dentro do prazo[10].
A coalizão responsável pela Avaliação afirmou, em nota citada pelo El País, que o resultado do segundo turno pode ter implicações graves para o futuro da Amazônia, sobretudo diante das ameaças climáticas previstas[1]. O relatório projeta que um El Niño historicamente forte em 2026 e 2027 tende a intensificar secas e incêndios nas regiões de floresta tropical[2].
A queda do desmatamento na América Latina foi construída com fiscalização, satélite e orçamento. Tudo isso cabe numa canetada, e é exatamente por isso que o relatório olha para as urnas. O Tecido · Análise editorial
Colômbia: petróleo, fronteira agrícola e o plano ABC
A Colômbia chegou a mínimas históricas de desmatamento em 2023, com repique em 2024, e o relatório reconhece o papel das políticas de contenção da expansão pecuária na proteção da Amazônia colombiana[1]. A mudança de governo, porém, altera as prioridades. Abelardo de La Espriella venceu o segundo turno de junho e, durante a campanha, defendeu elevar a produção de petróleo de pouco mais de 700 mil para até 1,3 milhão de barris por dia, segundo a Bloomberg Línea[11]. Seu programa também propõe ampliar a fronteira agrícola em 1,5 milhão de hectares, conforme compilação da Noticias RCN[12].
Ao mesmo tempo, o novo presidente apresentou o plano ABC (Água, Biodiversidade e Comunidades), que prevê persecução penal de financiadores do desmatamento, um sistema de alertas por monitoramento via satélite e a contenção da fronteira agrícola em ecossistemas estratégicos, segundo o Mongabay[13]. Especialistas ouvidos pelo veículo enxergam semelhanças com a estratégia do ex-presidente Iván Duque, que tratava o desmatamento sobretudo como problema de economias criminosas. Como observa o El País, resta saber como esses compromissos vão conviver com a expansão energética e agropecuária anunciada[1]. Vale notar que, na Amazônia colombiana, De La Espriella perdeu em cinco dos seis departamentos da região, segundo o El Oriente[14].
A frente que se abre na África Central
Enquanto a América Latina melhora, outra floresta tropical piora. Pela primeira vez, o desmatamento na Bacia do Congo, segunda maior floresta tropical do planeta, chegou a 2,4 milhões de hectares, muito perto dos 2,5 milhões registrados na Amazônia, segundo o relatório citado pelo El País[1]. A degradação florestal, isto é, o desgaste progressivo causado por corte seletivo, extração de recursos e fogo sem a remoção completa da cobertura, cresceu 25% na África tropical, enquanto caiu 34% no agregado global.
O advogado camaronês Samuel Nguiffo, fundador do Center for Environment and Development, atribuiu o quadro à falta de capacidade governamental e de vontade política, além de legislações frágeis sobre exploração madeireira[1]. O contraste reforça o argumento central do relatório: a variável que separa uma região da outra não é a geografia, e sim a governança.
Como tornar a política ambiental menos dependente de eleições
Nenhum desenho institucional isola completamente a política ambiental das trocas de governo, mas é possível tornar os retrocessos mais custosos. Essa é a avaliação de Corleto, que defende, segundo o El País, inscrever as principais proteções em marcos jurídicos mais difíceis de alterar, dotar as instituições de pessoal e capacidade operacional, distribuir a execução entre níveis de governo e garantir mecanismos de prestação de contas[1].
O caso brasileiro oferece alguma margem nesse sentido, já que parte da execução ambiental cabe a estados e municípios. No Pará, a área sob alertas caiu cerca de 26% no ano Prodes 2026, chegando a 987 km², o menor índice desde 2018, segundo O Liberal[15]. Ainda assim, orçamento federal, Ibama, ICMBio e a destinação das florestas públicas seguem como peças que só Brasília movimenta. Para Matson, o objetivo é que as estratégias que funcionam se tornem estruturais a ponto de não poderem ser revertidas por inteiro[1].
O que está em jogo
O relatório chega às vésperas da COP17 da biodiversidade, na Armênia, e da COP31 do clima, na Turquia, em novembro[1]. Para o Brasil, que sediou a COP30 em Belém há menos de um ano, o recado é direto: os números que sustentam a credibilidade climática do país foram produzidos por instrumentos administrativos, e instrumentos administrativos podem ser desligados. A diferença entre um ciclo e outro de desmatamento, como mostra a própria série do Inpe, costuma ser decidida menos no campo e mais no Diário Oficial.
Perguntas frequentes
Quanto caiu o desmatamento no mundo em 2025?
A perda florestal global caiu 15% em 2025 na comparação com 2024, para cerca de 7 milhões de hectares, segundo a Avaliação da Declaração sobre as Florestas de 2026. Foi a maior queda da década.
Por que a América Latina foi decisiva para a queda global?
A região reduziu sua perda florestal em 33% em 2025, com destaque para Brasil e Colômbia, onde fiscalização, monitoramento por satélite e contenção da expansão agropecuária ganharam força.
Por que as eleições ameaçam esse avanço?
Porque os ganhos dependem de poucos governos. Trocas de gestão podem cortar orçamento de fiscalização e desmontar planos de controle, como ocorreu no Brasil entre 2019 e 2021.
Qual a diferença entre Deter e Prodes?
O Deter emite alertas quase em tempo real para orientar a fiscalização. O Prodes calcula a taxa anual oficial da Amazônia Legal, de agosto a julho, com imagens mais precisas.
O mundo está no caminho do desmatamento zero até 2030?
Não. O relatório estima que o mundo segue cerca de 70% fora da trajetória necessária para cumprir a meta assumida na COP26.
Referências
- PUENTES, Ana. La ultraderecha en América Latina amenaza el avance contra la deforestación, según un informe. El País, 14 out. 2026. elpais.com
- AFP. Global deforestation slowed in 2025 but surged in Congo basin: study. Phys.org, 14 out. 2026.
- IPS. Global Forest Loss Far Off Track From Global Commitments. AllAfrica, 21 out. 2025.
- Agência Brasil. Desmatamento na Amazônia cai 36,87% no último ano. 7 ago. 2026.
- Viva/Estadão. Desmatamento na Amazônia em 2025 caiu 11,08%, segundo Inpe. 12 fev. 2026.
- Agência Pública. O sonho de Marina: alcançar em 2026 a menor taxa de desmatamento da história. 12 fev. 2026.
- Dialogue Earth. Lula e a nova agenda ambiental.
- A Crítica. Desmatamento na Amazônia tem queda em maio de 2026. Jun. 2026.
- Poder360. Emergência climática tem de estar nos planos dos candidatos. Set. 2026.
- ANGEOLETTO, Fabio. Meio ambiente: o candidato menos pior. O Povo, 23 set. 2026.
- Bloomberg Línea. La victoria de De la Espriella amenaza el liderazgo climático de Colombia. Jun. 2026.
- Noticias RCN. Información del candidato Abelardo de la Espriella. 2026.
- Mongabay Latam. Elecciones en Colombia: propuestas ambientales de Cepeda y De la Espriella. Jun. 2026.
- El Oriente. ¿Cuál será el enfoque de Abelardo de La Espriella con la Amazonía? Jul. 2026.
- O Liberal. Pará registra queda de 26% na área sob alertas de desmatamento. 2026.
- Observatório do Clima. Plano do governo Lula para BR-319 não resolve risco imediato. Maio 2026.