Ciência

Durante boa parte da última década, Sabrina González-Pasterski evitou o apelido que a imprensa insistia em lhe dar. Aos 33 anos, a física teórica do Perimeter Institute for Theoretical Physics, no Canadá, foi chamada repetidamente de "a nova Einstein" desde que, ainda com 22 anos, publicou um artigo sobre memória gravitacional em buracos negros citado por Stephen Hawking1. Em entrevista recente ao jornal espanhol El País, ela reconheceu que o rótulo a incomodava e disse ter decidido, agora, simplesmente ignorá-lo e seguir em frente1.

A mudança de postura interessa menos como anedota de carreira do que como sintoma de um debate mais amplo na física de fronteira: o papel que a inteligência artificial deve ocupar na produção de conhecimento científico. Pasterski defende que a IA deixe de ser tratada como uma "máquina de respostas" e passe a funcionar como uma estrutura de representação do conhecimento físico, capaz de sugerir conexões entre teorias que um pesquisador humano levaria décadas para perceber1.

Da aviação à física de altas energias

Nascida em Chicago, Pasterski chegou à ciência por um caminho pouco convencional. Ainda adolescente, montou um avião a partir de um kit semi-montado e voou sozinha aos 16 anos, episódio que se tornou parte recorrente de seu perfil público2,4. A experiência a ajudou a entrar no Massachusetts Institute of Technology (MIT), onde se formou em física com a nota máxima possível, uma das primeiras mulheres a conseguir o feito no programa4.

No doutorado em Harvard, sob orientação do físico Andrew Strominger, Pasterski integrou o grupo que descreveu o chamado efeito de memória de spin, uma assinatura observável de simetrias assintóticas em ondas gravitacionais2,3. Depois de um pós-doutorado em Princeton, ingressou no Perimeter Institute em 2021, onde fundou e hoje coordena a Celestial Holography Initiative, um programa de pesquisa sustentado por um aporte de 8 milhões de dólares da Simons Foundation3,7.

O efeito de memória e a busca por uma gravidade quântica

Explicar o que Pasterski estuda exige simplificar sem trair a física. Quando dois buracos negros se fundem, a radiação gravitacional emitida deixa uma marca permanente no espaço-tempo, um deslocamento residual que, em princípio, poderia ser detectado por observatórios distantes. Esse é o efeito de memória gravitacional. Sua variante, o efeito de memória de spin, está associado à perda de momento angular do sistema e permite extrair informação sobre o evento a partir da radiação observada muito depois de ele ocorrer1.

Esses fenômenos são hoje matéria-prima da holografia celeste, campo em que Pasterski se tornou referência. A proposta central é testar se a física de processos gravitacionais em um espaço-tempo plano, aproximação razoável do nosso universo, pode ser codificada por completo em uma teoria bidimensional projetada sobre a chamada esfera celeste, a superfície imaginária que envolve o observador em todas as direções do céu1,8. Não se trata, como ela mesma faz questão de esclarecer, de afirmar que o universo "é" um holograma, mas de encontrar uma descrição matemática equivalente e mais tratável1.

"Antes, o apelido de nova Einstein me incomodava. Hoje prefiro aproveitar a atenção para atrair outros físicos para o desenvolvimento de novas ferramentas de pesquisa." Sabrina González-Pasterski, em paráfrase de entrevista ao El País (18/09/2026)

IA como instrumento de pesquisa, não como substituta do físico

O ponto mais relevante da entrevista talvez não seja biográfico. Pasterski argumenta que a inteligência artificial pode ajudar a construir uma representação estruturada do conhecimento físico acumulado, permitindo identificar conexões entre teorias e formular perguntas em um nível acima das questões científicas tradicionais1. Ao mesmo tempo, ela reconhece um risco real: que a pesquisa acadêmica seja deslocada do processo à medida que sistemas de IA passem a assumir tarefas de cálculo e formulação que hoje são exclusivamente humanas1.

Essa tensão não é exclusiva da física teórica de altas energias. Ela reaparece em áreas mais aplicadas, como cosmologia observacional, onde colaborações internacionais já discutem publicamente como a IA está mudando a forma de validar e produzir conhecimento científico, e não apenas de acelerar cálculos6.

Contraponto

Nem todos os físicos veem com o mesmo entusiasmo a ideia de IA como parceira epistêmica da pesquisa fundamental. Parte da comunidade de física teórica alerta que modelos de linguagem e sistemas de aprendizado de máquina tendem a reproduzir padrões estatísticos de publicações existentes, o que pode reforçar consensos já estabelecidos em vez de gerar as rupturas conceituais que historicamente moveram a física de fronteira. Há também uma crítica recorrente à narrativa do "gênio solitário": Pasterski mesma pondera que nenhuma pessoa isolada resolverá a unificação entre relatividade geral e mecânica quântica, e que o caminho depende de infraestrutura coletiva, não de indivíduos excepcionais1.

O Brasil também aposta na física com IA

Embora a entrevista trate de um laboratório canadense, o movimento que ela descreve tem equivalente direto no Brasil. Em 2025, o Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, inaugurou o Laboratório de Inteligência Artificial para Física (Lab-IA) ao lado de um novo Laboratório de Tecnologias Quânticas, em um investimento conjunto próximo de 65 milhões de reais, financiado majoritariamente pela Finep, com aportes de Petrobras e do Ministério da Defesa5.

O Lab-IA já operava informalmente antes da inauguração formal das novas instalações: em 2020, a equipe do CBPF venceu um desafio internacional de identificação de lentes gravitacionais em imagens simuladas, proposto por um grupo de astrofísica da Universidade de Bolonha6. Hoje, sob coordenação do físico Clécio De Bom, o laboratório desenvolve algoritmos de IA aplicados a astrofísica, cosmologia, geofísica e petrofísica, com colaborações internacionais como o levantamento S-PLUS e o telescópio SOAR6. De Bom foi um dos vencedores do Prêmio Jacob Palis, da Academia Brasileira de Ciências, reconhecimento que reforça o esforço de posicionar o Rio de Janeiro como polo nacional de pesquisa em física computacional6.

O paralelo entre os dois casos é direto: tanto no Perimeter Institute quanto no CBPF, a aposta não é substituir o físico teórico ou observacional, mas equipá-lo com ferramentas capazes de lidar com volumes de dados e de combinações teóricas que ultrapassam a capacidade de análise manual. A diferença está na escala de recursos, o aporte da Simons Foundation à iniciativa de Pasterski é comparável, isoladamente, a uma fração relevante do investimento total nos dois laboratórios brasileiros somados.

Uma lacuna que a física ainda não fechou

A trajetória de Pasterski também expõe, por contraste, um problema estrutural da física como disciplina: a permanência de mulheres em posições de pesquisa de ponta segue baixa em praticamente todo o mundo. Levantamento sobre eventos científicos organizados pela Sociedade Brasileira de Física (SBF) entre 2005 e 2021 mostra que a participação feminina nunca ultrapassou 25% do total de inscritos, com presença ainda menor entre palestrantes convidados e comitês organizadores7. O padrão não é exclusivamente brasileiro, mas reforça por que a atenção midiática recebida por uma pesquisadora como Pasterski tende a carregar um peso simbólico que ultrapassa sua contribuição científica individual.

Reportagem baseada na entrevista original de Juan F. Samaniego com Sabrina González-Pasterski, publicada pelo jornal El País em 18 de setembro de 2026, com apuração e fontes complementares de O Tecido. Leia a entrevista completa em espanhol.

Perguntas frequentes

O que é holografia celeste?

É um programa de pesquisa em física teórica que busca descrever fenômenos gravitacionais em um espaço-tempo plano por meio de uma teoria bidimensional projetada sobre a esfera celeste, a superfície imaginária formada por todas as direções do céu vistas por um observador.

O que é o efeito de memória gravitacional?

É um deslocamento permanente e mensurável no espaço-tempo, causado pela passagem de uma onda gravitacional, como as geradas pela fusão de dois buracos negros. Sua variante ligada ao momento angular é chamada de efeito de memória de spin.

Como a inteligência artificial está sendo usada na física teórica?

Pesquisadores como Sabrina Pasterski defendem o uso de IA para organizar o conhecimento físico acumulado em estruturas que ajudem a identificar conexões entre teorias e formular novas perguntas, e não apenas para automatizar cálculos ou responder questões já formuladas.

O Brasil tem laboratórios equivalentes de IA aplicada à física?

Sim. O Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF), no Rio de Janeiro, mantém o Laboratório de Inteligência Artificial para Física (Lab-IA), que desenvolve algoritmos aplicados a astrofísica, cosmologia, geofísica e petrofísica, com investimento conjunto de cerca de 65 milhões de reais ao lado de um laboratório de tecnologias quânticas.