Em 1582, na pequena vila inglesa de St. Osyth, uma parteira chamada Ursula Kemp foi enforcada sob acusação de bruxaria. Ela não fazia nada de extraordinário: tratava doenças que os médicos da época não sabiam curar. Mas quando desgraças inexplicáveis atingiam seus vizinhos, a morte de um bebê, a cegueira súbita de uma inimiga, era mais fácil apontar um bode expiatório do que aceitar o acaso. Naquela década, 13% de todos os crimes julgados na Inglaterra eram relacionados a artes ocultas. Quase quinhentos anos depois, a mecânica mudou de roupagem, mas não de estrutura: hoje ela aparece em quem acredita que a Terra é plana, que vacinas contêm microchips ou que eclipses solares servem para distrair a opinião pública de decisões de governo.
A reportagem que inspira esta análise, publicada pelo jornal espanhol El País, reconstrói essa linhagem entre a caça às bruxas isabelina e o conspiracionismo digital contemporâneo, ancorada na pesquisa do psicólogo social Sander van der Linden, da Universidade de Cambridge. Segundo ele, é possível traçar uma linha reta entre a incerteza econômica e social e o aumento da demanda por explicações simples para fenômenos complexos, um padrão que se repete da Inglaterra elisabetana à era das redes sociais (El País, 2026). O que este texto propõe é ir um passo além da psicologia e perguntar: o que a filosofia tem a dizer sobre por que continuamos escolhendo acreditar no incrível?
O vício epistêmico: quando acreditar mal se torna hábito
Para o filósofo britânico Quassim Cassam, da Universidade de Warwick, teorias da conspiração não nascem apenas de ignorância pontual, mas de vícios epistêmicos, disposições de caráter que atrapalham sistematicamente a busca pela verdade. Credulidade excessiva, desleixo intelectual e fechamento mental são, para Cassam, traços que se cultivam com o tempo, não desvios isolados de raciocínio. Um exemplo recorrente em sua obra é o de alguém que sinceramente deseja conhecer a verdade, mas está tão viciado epistemicamente que acaba sempre desembocando em explicações falsas, por mais evidência em contrário que receba.
Essa moldura ajuda a entender por que argumentos técnicos raramente convencem um conspiracionista convicto. Não adianta apresentar o melhor estudo científico disponível se o interlocutor já parte da premissa de que os próprios cientistas são desonestos ou cúmplices de uma agenda oculta. Cassam também insiste que teorias da conspiração são, antes de tudo, uma forma de propaganda política, estratagemas que promovem uma agenda mesmo quando se apresentam como busca inocente pela verdade, conforme sistematizado por pesquisadores brasileiros que analisam sua obra (Erophilia, PhilArchive).
A solidão das massas: o que Hannah Arendt já via em 1951
Décadas antes de existir internet, Hannah Arendt já descrevia o mecanismo psíquico que sustenta a adesão às narrativas mais fantasiosas. Em Origens do Totalitarismo (1951), a filósofa alemã observou que massas isoladas, sem vínculos sociais sólidos, chegam a um estado em que acreditam em tudo e em nada ao mesmo tempo: acham que tudo é possível e que nada é inteiramente verdadeiro. Nessas condições, líderes que mentem descaradamente não perdem credibilidade quando desmascarados, o público simplesmente se refugia no cinismo, preferindo admirar a esperteza da mentira a admitir que foi enganado (Geledés).
Arendt não estava descrevendo um público estúpido, mas um público desenraizado, atomizado, sem as instituições intermediárias (sindicatos, igrejas, associações de bairro, imprensa confiável) que antes ajudavam a filtrar a realidade coletivamente. É uma leitura que ressoa com o diagnóstico de van der Linden sobre o presente: pandemias, mudanças climáticas e guerras produzem exatamente esse tipo de solo fértil, incerteza generalizada, em que a desinformação encontra tanto oferta quanto demanda.
As três fomes que o conspiracionismo promete saciar
A psicóloga Karen Douglas e seus colegas da Universidade de Kent sistematizaram essa dinâmica em três necessidades humanas legítimas que as teorias da conspiração prometem, mas raramente entregam: a necessidade epistêmica de compreensão e certeza, a necessidade existencial de segurança e controle sobre o próprio ambiente, e a necessidade social de manter uma imagem positiva de si mesmo e do grupo ao qual se pertence (Douglas, Sutton & Cichocka, 2017, PMC/NIH). O problema, segundo a própria pesquisa da autora, é que a adesão a essas crenças tende a frustrar ainda mais essas necessidades em vez de satisfazê-las: quem acredita em conspirações costuma se sentir mais ansioso, mais impotente e mais isolado socialmente, não menos.
O Brasil como laboratório vivo da desinformação
Se a Inglaterra isabelina foi o cenário que Van der Linden usa para ilustrar sua tese, o Brasil contemporâneo oferece um caso igualmente contundente, e mais próximo de casa. Um levantamento do Laboratório de Estudos sobre Desordem Informacional e Políticas Públicas (DesinfoPop), da Fundação Getúlio Vargas, analisou mais de 80 milhões de mensagens publicadas entre 2016 e 2025 em 1.785 comunidades conspiracionistas espalhadas por 18 países. A conclusão: o Brasil responde por 40% de todo o conteúdo antivacina que circula em comunidades de teorias da conspiração na América Latina e no Caribe (Estado de Minas).
Segundo o pesquisador Ergon Cugler, coordenador do estudo, o discurso oficial de autoridades públicas tem papel decisivo nesse fenômeno: quando um presidente ou ministro da Saúde questiona vacinas, isso legitima o discurso conspiratório e alimenta sua propagação (Gizmodo Brasil). Mesmo após a mudança de governo e a retomada das campanhas de vacinação, o volume de mensagens antivacina no Telegram brasileiro em 2025 seguia 122 vezes maior do que era antes da pandemia de covid-19, um número que ilustra bem a observação de Arendt: desmascarar a mentira não basta para dissolvê-la, porque a adesão não era, em primeiro lugar, sobre fatos.
O terraplanismo segue trilha parecida. Uma pesquisa Datafolha de 2019 encontrou que cerca de 7% dos brasileiros acreditavam que a Terra é plana, com maior adesão entre pessoas de menor escolaridade e entre públicos religiosos específicos (IdEA/Unicamp). Pesquisadoras que estudam o fenômeno destacam que a teoria, por mais absurda que pareça, tem coerência interna: propõe um complô global entre a Nasa e a mídia, usa mapas antigos como suposta evidência e constrói uma rede própria de conteúdo que se autoalimenta (Brasil de Fato). É exatamente o tipo de sistema fechado e autorreferente que Cassam identifica como marca registrada do vício epistêmico: toda evidência contrária vira, dentro da própria lógica da teoria, mais uma prova da conspiração.
⚖️ Contraponto
Nem toda desconfiança em relação a instituições é irracional ou patológica. A história registra conspirações reais, o escândalo Watergate, o esquema Ponzi de Madoff, o programa de vigilância em massa revelado por Edward Snowden. Parte da literatura em epistemologia social, incluindo trabalhos que dialogam com Cassam, alerta para o risco de rotular como "conspiracionista" qualquer ceticismo legítimo diante de autoridades, o que pode ser usado para desqualificar jornalismo investigativo genuíno ou crítica institucional fundamentada.
O critério filosófico proposto por parte dessa literatura não é a desconfiança em si, mas o método: teorias da conspiração problemáticas tendem a ser infalsificáveis (qualquer evidência contrária é reinterpretada como parte do encobrimento), enquanto investigações legítimas permanecem abertas à revisão diante de novos fatos.
O que a filosofia sugere fazer com isso
Van der Linden recomenda entender as motivações subjacentes das pessoas em vez de apenas rebater os detalhes de uma teoria específica. Ele compara o fenômeno a uma árvore: é possível passar anos podando os galhos, refutando cada alegação individual, sem nunca tocar na raiz, as necessidades de certeza, segurança e pertencimento que a teoria promete satisfazer. Essa é também a lição que se extrai de Cassam e de Arendt, ainda que por caminhos filosóficos distintos: o combate à desinformação que se limita ao terreno técnico, mais um estudo, mais um dado, tende a falhar quando a adesão original nunca foi puramente racional.
Isso não significa abandonar os fatos, mas reconhecer seus limites. Fortalecer vínculos sociais, instituições intermediárias confiáveis e educação epistêmica (a capacidade de avaliar por que se acredita no que se acredita, não apenas o que se acredita) aparece, nessa leitura combinada, como resposta mais duradoura do que a simples correção pontual de boatos.
Perguntas frequentes
Por que pessoas inteligentes também acreditam em teorias da conspiração?
Porque a adesão normalmente não é uma questão de inteligência, mas de necessidades psicológicas não satisfeitas, como certeza, segurança e pertencimento social, conforme mostra a pesquisa de Karen Douglas na Universidade de Kent. Qualquer pessoa pode se tornar vulnerável quando essas necessidades ficam frustradas por circunstâncias como crises econômicas, perdas pessoais ou instabilidade social.
O que são vícios epistêmicos segundo Quassim Cassam?
São traços de caráter, como credulidade excessiva, desleixo intelectual ou fechamento mental, que atrapalham sistematicamente a capacidade de uma pessoa de formar crenças verdadeiras. Diferente de um erro pontual de raciocínio, um vício epistêmico é um hábito de pensamento que se repete e se reforça ao longo do tempo.
O Brasil é um dos países mais afetados por desinformação conspiracionista?
Sim, segundo estudo do Laboratório DesinfoPop, da FGV, o Brasil responde por 40% de todo o conteúdo antivacina em circulação em comunidades conspiracionistas da América Latina e do Caribe, com o volume de mensagens no Telegram em 2025 permanecendo 122 vezes maior do que era antes da pandemia de covid-19.
Refutar uma teoria da conspiração com fatos costuma funcionar?
Raramente, quando usada isoladamente. Pesquisadores como Sander van der Linden argumentam que é mais eficaz entender as motivações subjacentes de quem acredita do que apenas contestar os detalhes técnicos da teoria, já que a adesão costuma nascer de necessidades emocionais e sociais, não apenas informacionais.
Toda desconfiança em instituições é uma teoria da conspiração?
Não. Há conspirações reais documentadas na história, como o caso Watergate. O critério que distingue ceticismo legítimo de conspiracionismo problemático costuma ser metodológico: teorias infalsificáveis, que reinterpretam qualquer evidência contrária como prova adicional do encobrimento, tendem a ser o sinal de alerta mais confiável.