Nota de atribuição
Este artigo foi inspirado pelo ensaio "Elon Musk, Sam Altman, and the Misreading of Science Fiction", publicado pela revista Wired como trecho adaptado do livro The Rise and Fall of the Artificial State, de Jill Lepore. Leia o original em: wired.com/story/book-excerpt-rise-and-fall-of-the-artificial-state. O texto abaixo é reportagem original de O Tecido, com apuração e fontes próprias.

Quando criança, na África do Sul do fim dos anos 1970, Elon Musk leu "O Guia do Mochileiro das Galáxias" e concluiu que o livro ensinava, sobretudo, a importância de formular a pergunta certa antes de buscar respostas. É uma leitura possível. Também é, segundo a historiadora Jill Lepore, uma leitura que ignora quase por completo o alvo da sátira de Douglas Adams: o colonialismo, a plutocracia e o capitalismo desregulado, escritos por um autor que colava no case de sua máquina de datilografar um adesivo contra o apartheid¹.

A observação está no centro de um debate literário que ganhou força em 2026 com o lançamento de "The Rise and Fall of the Artificial State", novo livro de Lepore, historiadora de Harvard e colunista da The New Yorker. Um trecho adaptado da obra, publicado pela Wired, argumenta que boa parte da elite tecnológica do Vale do Silício, incluindo Musk, o CEO da OpenAI Sam Altman e o fundador da Amazon Jeff Bezos, tomou emprestadas as tramas de livros de infância para justificar projetos bilionários de colonização espacial e upload de consciência, interpretando-os, segundo a autora, de forma literal e descontextualizada¹.

A Fundação levada ao espaço sem terminar de entender

O caso mais citado é o de Isaac Asimov. Musk afirmou publicamente ter lido a "Trilogia da Fundação" aos dez anos e ter aprendido com ela a valorizar ações capazes de prolongar a civilização e reduzir o risco de uma nova idade das trevas¹. É uma leitura seletiva de um ciclo de romances cujo argumento central, segundo boa parte da crítica literária, é o oposto disso: o futuro não é moldado por grandes homens isolados, mas por processos coletivos, e o poder concentrado tende a corromper mesmo os planejamentos mais sofisticados, inclusive os das próprias previsões matemáticas do enredo.

O gesto simbólico ficou registrado no espaço: em 2018, Musk enviou ao espaço, a bordo de um foguete da SpaceX, uma cópia digital de "Fundação" dentro de um Tesla Roadster, com um aviso "não entre em pânico" pintado no painel, homenagem direta a outro livro que ele também leria a seu próprio modo¹.

O Guia do Mochileiro: sátira que virou lição motivacional

Com "O Guia do Mochileiro das Galáxias", a distância entre leitura e intenção do autor é ainda mais evidente. Douglas Adams, ex-roteirista do grupo de comédia Monty Python que dizia desprezar a ficção científica convencional, escreveu a série original para rádio na BBC em pleno auge da repressão do regime do apartheid, com a Assembleia Geral da ONU condenando publicamente a segregação sul-africana e menos de dois anos depois do massacre de estudantes em Soweto, em 1976¹.

O personagem Zaphod Beeblebrox, presidente galáctico de duas cabeças escolhido não por eleição, mas justamente para servir de distração da corrupção real de um governo controlado por corporações, é lido por parte da crítica como caricatura de líderes carismáticos movidos por vaidade, indiferentes a qualquer estrutura de governança. Décadas depois de ler o livro na adolescência, Musk batizaria de "Heart of Gold" (nome da nave roubada por Beeblebrox na trama) a primeira espaçonave da SpaceX destinada a Marte, numa homenagem que, segundo Lepore, ilustra bem o quanto ele se identificou com um personagem concebido como piada¹.

"Ele era uma criança quando leu assim. O estranho é ter mantido essa interpretação até a meia-idade, sobretudo porque boa parte do livro hoje soa como paródia do próprio leitor." Sobre a leitura de Elon Musk aos 12 ou 13 anos, segundo Jill Lepore

O "Estado Artificial" de Jill Lepore

É a partir dessas leituras, argumenta Lepore, que se ergue o que ela batiza de "Estado Artificial": não propriamente um governo, mas a fantasia de viver sem nenhum, rompendo os vínculos entre seres humanos e entre humanos e o planeta em favor de corporações livres de qualquer controle democrático¹ ². A autora situa o livro como continuação direta de "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt, publicado em 1951, atualizando para o século XXI a preocupação da filósofa alemã com uma maquinaria capaz de tornar os seres humanos supérfluos³.

No relato de Lepore, promessas recorrentes de estruturas de governança para a inteligência artificial, votos populares, convenções constitucionais sobre o tema, nunca se concretizaram. Em seu lugar, executivos como Altman passaram a divulgar narrativas de risco existencial que, segundo a autora, funcionam sobretudo como estímulo a mais investimento nas próprias empresas¹. Altman, por sua vez, cita como inspiração declarada o romance canadense "We Are Legion (We Are Bob)", de Dennis E. Taylor, em que a consciência de um programador morto é carregada em um sistema de inteligência artificial para servir a um novo governo autoritário, uma trama que o próprio autor descreve como aventura espacial de tom leve e humor pop, não como plano de vida¹ ⁴.

⚖ Contraponto: nem todo crítico concorda

A tese de Lepore, embora elogiada por nomes como a jornalista científica Elizabeth Kolbert e o cientista da computação Jaron Lanier⁵, dialoga com um debate literário mais antigo. Em 2017, o próprio escritor de ficção científica Ted Chiang publicou um ensaio influente argumentando que o verdadeiro risco não está numa inteligência artificial superinteligente, mas na cultura corporativa que já opera hoje sob a lógica de crescimento a qualquer custo⁶. A crítica gerou réplica: o site especializado em tecnologia TechCrunch publicou uma contraposição argumentando que Chiang generalizou o Vale do Silício a partir de casos extremos como Peter Thiel, ignorando a diversidade real de posições dentro da própria indústria de tecnologia⁷. O debate sobre até que ponto os líderes de tecnologia realmente leem mal seus livros de cabeceira, ou simplesmente os leem de um jeito diferente do que a crítica literária gostaria, segue em aberto.

De Marte a Bob: os outros livros do plano de fuga

A ambição de colonizar Marte, hoje associada a Musk e a Bezos, também tem raiz literária relativamente recente. Foi nos anos 1990, justamente quando os dois começavam a acumular fortuna, que a "Trilogia Marte", de Kim Stanley Robinson, popularizou a ideia de terraformar o planeta vermelho para receber colonos humanos, junto ao livro técnico "The Case for Mars", do engenheiro aeroespacial Robert Zubrin, publicado em 1996¹.

Já a fantasia de transferir a mente humana para uma máquina remonta a um conceito ainda mais antigo dentro da própria cultura tecnológica: o de "singularidade", termo cunhado em 1993 pelo matemático e escritor de ficção científica Vernor Vinge num ensaio apresentado num simpósio da Nasa, no qual ele previa que a inteligência artificial superaria a humana entre 2005 e 2030⁸. O ensaio, mais do que qualquer romance de Vinge, influenciou diretamente a comunidade "extropiana" dos anos 1990, que por sua vez ajudou a moldar boa parte da pesquisa em IA que viria a seguir⁹.

Os livros por trás do debate

Para quem quer formar opinião própria, o caminho mais direto é voltar às fontes originais e ler com mais atenção do que, segundo Lepore, os próprios bilionários leram.

Odisseia, de Homero. A epopeia grega que Musk pretende recriar com IA "historicamente precisa", ponto de partida do ensaio de Lepore sobre a releitura tecnológica de clássicos.

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Trilogia da Fundação, de Isaac Asimov. A obra que Musk levou, em cópia digital, a bordo do foguete da SpaceX, e cuja mensagem sobre ação coletiva ele parece ter reinterpretado como elogio ao planejamento individual.

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O Guia do Mochileiro das Galáxias, de Douglas Adams. A sátira ao colonialismo e à plutocracia que Musk cita como sua maior influência de juventude, e que deu nome a uma de suas naves.

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Trilogia Marte, de Kim Stanley Robinson. Ficção dos anos 1990 sobre a terraformação do planeta vermelho que ajudou a popularizar a colonização marciana entre Musk e Bezos.

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We Are Legion (We Are Bob), de Dennis E. Taylor. O romance canadense sobre consciências humanas carregadas em sistemas de IA que Sam Altman cita como leitura favorita.

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The Rise and Fall of the Artificial State, de Jill Lepore. O livro que originou este debate, com análise histórica completa sobre a relação entre o Vale do Silício e a ficção científica.

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Perguntas frequentes

O que é o "Estado Artificial" descrito por Jill Lepore?

É o termo usado pela historiadora para descrever a fantasia de um mundo governado por corporações de tecnologia livres de controle democrático, sustentada por infraestrutura de inteligência artificial e inspirada, segundo ela, em leituras equivocadas de ficção científica feitas por líderes como Elon Musk, Sam Altman e Jeff Bezos.

Por que a leitura de Musk sobre "O Guia do Mochileiro das Galáxias" é considerada equivocada?

Porque o livro foi escrito por Douglas Adams como sátira ao colonialismo, à plutocracia e ao capitalismo desregulado, em pleno contexto de repressão ao apartheid na África do Sul, enquanto Musk extraiu da obra apenas uma lição motivacional sobre a importância de formular boas perguntas.

Qual livro inspirou Sam Altman a considerar o congelamento do próprio cérebro?

Altman cita como influência o romance canadense "We Are Legion (We Are Bob)", de Dennis E. Taylor, em que a consciência de um programador morto é carregada em um sistema de inteligência artificial a serviço de um novo governo.

Todos os críticos concordam com a tese de Jill Lepore?

Não. Embora elogiada por nomes como Jaron Lanier e Elizabeth Kolbert, a leitura de Lepore dialoga com um debate mais antigo, incluindo a réplica que o ensaio de Ted Chiang sobre o Vale do Silício recebeu do site TechCrunch, que o acusou de generalizar toda a indústria de tecnologia a partir de casos extremos.

Em números

1993Ano do ensaio de Vernor Vinge sobre a "singularidade"
1951Ano de "As Origens do Totalitarismo", de Hannah Arendt
10 anosIdade de Musk ao ler a Trilogia da Fundação
4xPrêmios Hugo vencidos por Ted Chiang, crítico do Vale do Silício

Linha do tempo literária

  • 1951Hannah Arendt publica "As Origens do Totalitarismo", referência direta de Lepore.
  • 1976-1978Douglas Adams escreve "O Guia do Mochileiro das Galáxias" para a BBC, em meio à repressão do apartheid.
  • 1993Vernor Vinge apresenta seu ensaio sobre a "singularidade" tecnológica num simpósio da Nasa.
  • 1996Robert Zubrin publica "The Case for Mars", texto técnico que populariza a colonização marciana.
  • 2016Dennis E. Taylor lança "We Are Legion (We Are Bob)", citado por Sam Altman.
  • 2018Musk envia cópia digital da Trilogia da Fundação ao espaço a bordo de um Tesla Roadster.
  • 2026Jill Lepore lança "The Rise and Fall of the Artificial State".

Glossário

Estado Artificial
Termo cunhado por Jill Lepore para descrever a fantasia de um governo corporativo sem controle democrático, sustentado por infraestrutura de dados e inteligência artificial.
Singularidade tecnológica
Conceito popularizado por Vernor Vinge em 1993, que descreve o momento hipotético em que a inteligência das máquinas superaria a humana.
Upload de consciência
Ideia de ficção científica que propõe transferir a mente humana para um sistema computacional, citada por Sam Altman como inspiração declarada.
Extropianismo
Movimento cultural dos anos 1990 que defendia o uso da tecnologia para transcender limites biológicos humanos, influenciado pelo ensaio de Vinge.

Referências

  • 1. Wired. "Elon Musk, Sam Altman, and the Misreading of Science Fiction" (excerto do livro de Jill Lepore). wired.com
  • 2. W. W. Norton & Company. Página oficial de "The Rise and Fall of the Artificial State". wwnorton.com
  • 3. Publishers Weekly. Resenha de "The Rise and Fall of the Artificial State". publishersweekly.com
  • 4. Goodreads. Resenhas de leitores sobre "We Are Legion (We Are Bob)", de Dennis E. Taylor. goodreads.com
  • 5. Jill Lepore (site oficial). Página do livro com citações de críticos. jilllepore.com
  • 6. Ted Chiang / BuzzFeed News. "Silicon Valley Is Turning Into Its Own Worst Fear". buzzfeednews.com
  • 7. TechCrunch. "Ted Chiang is a genius, but he's wrong about Silicon Valley". techcrunch.com
  • 8. Vernor Vinge. "The Coming Technological Singularity: How to Survive in the Post-Human Era" (1993). mindstalk.net
  • 9. History of Information. "Vernor Vinge Predicts 'The Singularity'". historyofinformation.com